Uma crítica do álbum
Days of Ash, do U2
Nos quase dez anos desde que lançou Songs of Experience (2017), o U2 tentou manter-se em evidência com manobras de efeito variado: houve a autobiografia do Bono (Surrender), um bom livro; o documentário A Sort of Homecoming e o disco Songs of Surrender (2023), com diversas músicas em versões delicadas e com letras alteradas; a longa residência inaugurando a Sphere, em Las Vegas, com U2:UV: Achtung Baby Live; por fim, houve o curta-metragem Stories of Surrender (2025), leitura dramática e musicada de Bono para histórias extraídas de seu livro.
Goste-se ou não desses produtos, o resumo é: o U2 ficou voejando em cima de seu próprio legado - o que é coerente para uma banda beirando os 50 anos de carreira. A esta altura do campeonato, é pouca, quase nenhuma, a chance de que o U2 possa produzir um disco que eletrize sua base de fãs, àquele ponto em que a gente vai comprar o ingresso do show, secos de vontade de ouvir aquelas canções ao vivo. Pessoalmente, o repertório do U2 já deixou de importar para mim desde Songs of Innocence (2014). Imagina para quem aprendeu a gostar de música com a impessoalidade do streaming...
Pois bem, Bono, Adam, Larry e The Edge acharam que valia a pena lançar um EP (longo o suficiente para aplacar a sede do fã por novidades, curto o bastante para dar uma ideia de que vem mais por aí - se vem, pra valer, é outra história), tecendo comentários sobre as questões geopolíticas mais prementes da atualidade: a truculência do ICE, a guerra na Ucrânia e a situação na Palestina.
O primeiro problema é que, apesar de um lançamento do U2 ainda ser capaz de chamar atenção, eles dificilmente serão protagonistas de um "chamado às armas" - porque, entre outras razões, Bono e seus colegas têm rabo preso com políticos e corporações. A mensagem de que "eu te amo mais do que o ódio ama a guerra" (verso do refrão de "American Obituary"), além de genérica, não esconde o óbvio: o U2 morde e assopra. Para piorar, é uma revolta difusa, sem foco, do tipo "contra tudo isso que aí está".
Para ficar em apenas um exemplo recente, Bad Bunny foi bem mais político e contundente, negando-se a fazer shows nos EUA durante todo o ano passado (mesmo tendo o disco mais ouvido do mundo) e fazendo o Halftime Show do SuperBowl 2026 dizendo apenas três palavras em inglês. Vê se Donald Trump tuitou nervosinho sobre as músicas do U2?
O segundo problema é a música, que, se não é ruim, tampouco empolga. As seis faixas parecem sobras do Songs of Experience, com a produção impecável coroando o esforço notável de Edge, Larry e Adam: o trio de escudeiros faz o que pode, injetando peso e melodia, mas falta aos temas, para usar um termo corrente, "o molho". Edge parece particularmente inspirado, algumas faixas têm ótimas guitarras, mas falta um gancho, uma letra de Bono que seja não apenas um amontoado de versos (ainda que bem bonitos, alguns), mas, também, gostosa de cantar junto. Há esta ausência notável aqui: a habilidade que o U2 já teve de combinar substância temática com música empolgante e sotaque pop.
Se o U2 vai lançar um álbum inteiro em breve, pode ser que este pequeno deslize chamado Days of Ash seja esquecido em breve - até porque, com seus temas pontuais, inevitavelmente será. A idade chega para todos, eles não têm mais nada a provar, mas este é o perigo de passar tanto tempo longe: você vai caminhar pelas ruas que já chamou de suas e não vai reconhecer nenhuma casa ou pessoa, e os novos moradores vão te olhar e pensar "quem é esse aí?" e voltar pra dentro de casa, pois a vida aprendeu a seguir sem você.
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U2
Days of Ash
Produzido por Jacknife Lee
Lançado em 18 de fevereiro de 2026
1. American Obituary
2. The Tears of Things
3. Song of the Future
4. Wildpeace
5. One Life at a Time
6. Yours Eternally


Um comentário:
Belo texto!
U2 já queimou quase toda a lenha que tem.
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