Deu tristeza saber do melancólico fim da Editora Mino. Por cerca de cinco anos, ela foi responsável pelo lançamento da obra autoral de Ed Brubaker por aqui. Foi graças a ela que os leitores brasileiros puderam saber como Criminal prosseguia após Lawless (segundo volume da série e último publicado pela Panini, há 15 anos), além de ter acesso a grande parte do impecável catálogo da dupla, em ótimo padrão gráfico. Porém, embora quadrinhos sejam uma paixão, eles também são um negócio e precisam gerar dinheiro. A conta não fechava mais, e a Mino liquidou seu estoque em janeiro, anunciando a suspensão total de suas atividades. Reckless ficou incompleta, faltando o quinto volume. Embora a Panini tenha publicado Sleeper (2002) e a QS Comics tenha publicado Friday (2020), até o momento, nenhuma editora foi confirmada como a nova casa oficial de Brubaker no Brasil.
Incógnito: Edição Confidencial foi o último Brubaker da Mino que comprei e, por alguma razão, ele furou a fila de leitura (que inclui Fade Out, Reckless #3 e o Sleeper da Panini). Foi degustado com avidez, ao longo de duas sentadas (mmm), uma para cada minissérie do encadernado: sábado foi dia da Incógnito original, domingo foi dia de Incógnito: Más Influências. As 368 páginas deste bonito encadernado incluem as capas duplas originais e alguns sketches de Sean Phillips (o parceiro mais constante de Brubaker) e um posfácio do escritor Jess Nevins, com a qualidade gráfica irrepreensível que foi uma marca da Mino.
Todo esse luxo em celulose seria inútil se a história fosse um lixo. Felizmente, um quadrinho de segunda de Ed Brubaker ainda consegue ser melhor do que os melhores esforços de muito escritor chamado de "gênio" a esmo por aí - e nem é o caso: Incógnito é um senhor quadrinho. Se há algo de que reclamar, é que ambas têm final em suspenso; a diferença é que a minissérie original termina deixando o futuro a cargo da imaginação do leitor, enquanto a segunda tem cara de ideia abandonada no meio, mesmo.
Inclusive, no prefácio do autor, a gente descobre que Incógnito nasceu de um impulso de voltar ao universo dos super-humanos, do qual ele se distanciou para escrever sobre gente comum. Após deixar sua marca em heróis da Marvel e DC (entre outros, Demolidor e Batman), ele sentiu o comichão de uma ideia sobre um supervilão aposentado e inserido em um programa de proteção a testemunhas. A Incógnito original foi publicada dentro do selo autoral Icon, da Marvel, a partir de dezembro de 2008.
Por anos, Zack Chacina e seu irmão Xander aterrorizaram o país em nome do Morte Negra, um supervilão bicentenário. Com força e resistência sobre-humanas, os irmãos Chacina matavam muito e alegremente. Após a morte de Xander, Zack foi colocado sob proteção do governo numa nova identidade civil, como arquivista, usando um soro inibidor de poderes. Ser um cidadão comum o está matando aos poucos - de tédio. Para extravasar, certa noite, ele fica chapado com um amigo, que o oferece um líquido para apagar o rastro das drogas no sangue, mas que acaba tendo um efeito adverso bastante interessante: ele anula o efeito do soro inibidor.
Para testar os poderes reconquistados, Zack quebra a cara (e o resto da cabeça) de bandidinhos que iam atacar uma mulher. Não é a única surpresa do dia: ele adora matar, mas acaba descobrindo que também gosta de salvar pessoas. Suas saidinhas noturnas logo deixam de ser secretas e chamam atenção do governo e de seus antigos aliados no crime - e ninguém parece muito satisfeito com a volta de Zack Chacina à atividade. Seu novo mergulho no submundo vai colocá-lo diante de verdades sobre seu passado e dúvidas sobre seu futuro.
Como dito antes, a conclusão da minissérie original é daquelas que deixam a imaginação do leitor trabalhar, mas, de fato, é uma conclusão - ainda que atípica, abrupta e em aberto, como é de praxe nos trabalhos de Brubaker. A impressão é diferente ao fim de Incógnito: Más Influências (2010). Nas cinco edições da série, Zack Chacina está integrado ao programa de espionagem do governo e recebe a missão de se infiltrar na Level 9 para resgatar um agente duplo. Uma figura ligada ao passado de Zack reaparece, mas Brubaker não amarra as pontas soltas deixadas com Más Influências - e lá se vão 15 anos, então, é pouca a chance de que ele volte a este universo para uma conclusão, o que é uma pena.
Confesso que comprei Incógnito: Edição Confidencial às cegas e que este porém da falta de conclusão me desanimaria, mas este encadernado é, como tudo feito pela dupla Brubaker/Phillips, uma ótima leitura. Resta torcer para, um belo dia, acordar com a notícia de que Incógnito voltará para mais uma temporada - agora, com a esperança extra de que a dupla já tenha um novo (e bom) lar por aqui. A Mino nos deixou mal acostumados.


Um comentário:
Rapaz, se depois deste review a pessoa não se sentir motivada a conhecer a história, não sei o que seria necessário para isso. Só é triste que vai ter que recorrer outros meios para ver o fim
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