09/02/2026

Ego em chamas


Uma crítica do livro
Salvar o Fogo, de Itamar Vieira Jr.

Tendo escrito um dos romances brasileiros mais elogiados, premiados e vendidos deste século (Torto Arado), era natural que a expectativa sobre o livro seguinte do baiano Itamar Vieira Jr. - segunda parte do que ele chamou de "Trilogia da Terra" - estivesse nas alturas, quando, em 2023, Salvar o Fogo foi lançado. O livro se tornou um sucesso rapidamente, mas, quando uma crítica da doutora em literatura Lígia G. Diniz, também docente da UFMG, "ousou" apontar problemas em sua obra (ainda que mantendo elogios sinceros ao livro e ao autor), Itamar reagiu mal, errando feio e errando rude. Leia AQUI sobre o trololó.

Salvar o Fogo é um bom livro, e tudo bem que seja "apenas" bom, mas falta a ele o frescor e o fascínio sentidos ao ler Torto Arado. Na paupérrima comunidade de Tapera do Paraguaçu, no Recôncavo Baiano, Luzia vive numa casa com seu pai e um irmão temporão. Ainda no começo da adolescência, quando sua casa ainda abrigava sua mãe e outros irmãos e irmãs, ela começou a ser chamada de "bruxa" pela fanaticamente católica população da Tapera, que há tempos a humilha e agride. A "marca da maldade" que ostenta é uma corcunda precoce.

A vida de Luzia é abundante em tragédias e segredos, que se descortinam ao leitor pelas páginas. No passado, apostar no amor foi seu maior arrependimento. Dos irmãos que caíram no mundo, pouco sabe, e o pouco que sabe é quase que somente por telefone. Ao irmão menor, "o Menino", ela dedica toda sua severidade e quase nenhum afeto. A falta de perspectivas na pequena vila de marisqueiros e cortadores de cana é agravada pela disputa por terras, mediada com pouca justiça pela igreja que controla todos os destinos.

Há eventos narrados com precisão e lidos com empolgação, ao lado de outros que dão uma sensação forte de déjà-vu, ou de estar advogando bem pouco sutilmente em nome de alguma bandeira - mais notadamente, reforma agrária e reparação racial. Tudo muito nobre e bem-intencionado, mas, em certos momentos, parece que o autor "baixou" em seus personagens, falando não apenas através deles, como também em lugar deles, com raciocínios talvez sofisticados demais para pessoas sem letramento algum.

Em que pesem problemas assim, ainda são muitas as virtudes deste livro. Mesmo assim, acho que vou preferir um pequeno "resguardo" antes de encarar Coração Sem Medo (2025), última parte da "Trilogia da Terra". Com mais tempo para absorvê-lo (e já mais longe no tempo da polêmica egotrip no rastro do seu lançamento), talvez eu venha a pensar com mais carinho em Salvar o Fogo.

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