16/04/2026

Milagres do povo


Uma crítica do EP
Easter Lily, do U2

O U2 é uma banda que adora simbolismos. Cristãos praticantes desde sempre, não foi à toa que escolheram a Quarta-Feira de Cinzas (primeiro dia da Quaresma) para lançar Days of Ash, um EP de protesto sobre questões que afligem o mundo atual. O problema é que eles não se lembraram de embalar as mensagens em música memorável. Nenhuma das seis canções tem aquele gancho que faz a gente querer se esgoelar num estádio lotado.

Tampouco foi acidental a escolha da Sexta-Feira da Paixão para a chegada ao mundo do novo EP Easter Lily. No fim de semana que simboliza a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, quando as pessoas estão (ou deveriam estar) mais reflexivas, o U2 chega com seis novas canções, menos furiosas e mais pessoais. Desta vez, contudo, a banda caprichou bem mais, e pelo menos metade deste EP está entre as melhores coisas que eles entregaram nos últimos 15 anos.

O fraseado inicial de guitarra em "Song for Hal" joga nossa memória de volta a "Bad" e reacende nossa fé na habilidade do U2 de compor música cativante. Esta, sozinha, já é melhor que Days of Ash inteiro, e eu mal me lembro que desci o pau na banda há apenas um mês.

"In a Life" tem um quê de "City of Blinding Lights", uma das minhas canções favoritas de toda a sua carreira. Ao contrário das letras do EP anterior, em que davam pitacos pretensiosos e meio desesperados para parecer ainda relevantes, Bono, Edge, Larry e Adam reencontraram aqui sua conexão com o coração dos fãs, ao optar por falar de temas como amizade, solidão e dúvida.

"Foi mal pelo Days of Ash, a gente tava doidão!"

"São suas cicatrizes que te dão beleza / Não cubra suas cicatrizes", versos de "Scars", talvez sejam os mais verdadeiramente afetuosos que Bono escreveu em muito tempo - e só com estas três primeiras músicas, um belo bloco da próxima turnê (que há de passar pelo Brasil) já estará garantido. Em todas elas, a banda está dando o máximo, e o máximo do U2 é uma força nada desprezível.

A segunda metade do EP deixa a temperatura baixar um pouco, mas mantém a boa perspectiva pelo disco integral que o U2 diz que vai lançar nos próximos meses. "Resurrection Song" e "Easter Parade" são baladas dignas, e "COEXIST (I Will Bless the Lord at All Times?)", em que Bono sussurra uma letra sobre as marcas da guerra, marca a reunião da banda com Brian Eno, produtor com quem a banda fez seus álbuns mais famosos. 

Retorno às origens parece ser o caminho escolhido pelo U2 para celebrar seus 50 anos. A ótima impressão deixada por Easter Lily pode não se confirmar no vindouro novo álbum, mas é impossível não enxergar simbolismos nos últimos movimentos: o lançamento da Quarta de Cinzas mostrava uma banda que parecia moribunda, mas a Páscoa trouxe um U2 ressuscitado e ainda capaz de emocionar. Caetano Veloso já sabia o que dizer em horas assim: "Quem é ateu e viu milagres, como eu..."

* * * * *

U2
Easter Lily
Produzido por Jacknife Lee
Lançado em 3 de abril de 2026

1. Song for Hal
2. In a Life
3. Scars
4. Resurrection song
5. Easter Parade
6. COEXIST (I Will Bless the Lord at All Times?)

14/04/2026

O luto como arte


Uma crítica do filme
Hamnet

Há cinco anos, em meio a diversos competidores mais arrojados, a diretora Chloé Zhao ganhou o Oscar de Melhor Filme com o chatíssimo Nomadland, uma vitória altamente discutível. Este ano, ela não venceu, mas, pelo menos, pode orgulhar-se de ter competido com esta bela peça de cinema que é Hamnet.

"Não é Hamlet?", perguntarão os distraídos mais atentos (ha!), e a confusão tem razão de ser, se mesmo a atormentada Agnes Hathaway (Jessie Buckley), esposa de William Shakespeare (Paul Mescal) e mãe do Hamnet em questão, ouve um e entende outro. Não se trata de mais uma adaptação de livro do dramaturgo mais famoso do mundo, mas de um recorte de sua vida, que teria dado origem a uma de suas obras mais ilustres.

Agnes domina medicina natural que, naquele século XVI, a qualificava como "bruxa"; William é filho de um coureiro e trabalha como tutor escolar para filhos de um credor do seu pai. Os dois se apaixonam, Agnes engravida e eles se casam, com a bebê Susanna chegando em seguida. Anos depois que Will deixa Stratford para desenvolver sua escrita em Londres, Agnes se ressente de sua ausência, ainda mais por deixá-la sozinha para ter o casal de gêmeos Judith e Hamnet. Quando a peste negra alcança a zona rural de Stratford, a tragédia bate à porta da família Shakespeare.

A fotografia do polonês Łukasz Żal tira máximo proveito da beleza da zona rural inglesa e de planos que parecem pinturas, com planos cheios de rimas cromáticas e geométricas, principalmente dentro da casa de Will e Agnes, onde a solidão e a perda são expressas nos cômodos gradualmente esvaziados. O roteiro adapta o livro homônimo de Maggie O'Farrell e foi co-escrito pela autora e pela diretora Zhao. Sua direção contida transforma o que seriam explosões em implosões emocionais, jamais cedendo ao exagero melodramático.

Buckley: trazendo o Oscar amado em três dias.

Apesar disso, é impossível questionar o Oscar de Jessie Buckley como Melhor Atriz. Transmitindo de forma natural a graça, angústia e luto profundo de Agnes, Buckley alcança o estrelato num papel exigente, escudada por um Paul Mescal acostumado a tipos complexos e reservados, como este Shakespeare, um homem que transformou sua dor em motor de sua arte, como quase sempre o fazem os grandes artistas.

Há quem defenda a ideia de que, na educação, provas só medem a capacidade do aluno de fazer provas. O solitário Oscar de Buckley (única vitória em oito indicações) pode estar parecendo uma prova com nota baixa e dar a entender que o filme não possua tantas qualidades, mas o Oscar só mede a capacidade de um filme de receber Oscars. O valor de Hamnet para o espectador - como o de alunos esmagados por sistemas arcaicos de avaliação - reside em coisas que nem sempre podem ser medidas em estatuetas douradas.