Uma crítica do EP
Easter Lily, do U2
O U2 é uma banda que adora simbolismos. Cristãos praticantes desde sempre, não foi à toa que escolheram a Quarta-Feira de Cinzas (primeiro dia da Quaresma) para lançar Days of Ash, um EP de protesto sobre questões que afligem o mundo atual. O problema é que eles não se lembraram de embalar as mensagens em música memorável. Nenhuma das seis canções tem aquele gancho que faz a gente querer se esgoelar num estádio lotado.
Tampouco foi acidental a escolha da Sexta-Feira da Paixão para a chegada ao mundo do novo EP Easter Lily. No fim de semana que simboliza a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, quando as pessoas estão (ou deveriam estar) mais reflexivas, o U2 chega com seis novas canções, menos furiosas e mais pessoais. Desta vez, contudo, a banda caprichou bem mais, e pelo menos metade deste EP está entre as melhores coisas que eles entregaram nos últimos 15 anos.
O fraseado inicial de guitarra em "Song for Hal" joga nossa memória de volta a "Bad" e reacende nossa fé na habilidade do U2 de compor música cativante. Esta, sozinha, já é melhor que Days of Ash inteiro, e eu mal me lembro que desci o pau na banda há apenas um mês.
"In a Life" tem um quê de "City of Blinding Lights", uma das minhas canções favoritas de toda a sua carreira. Ao contrário das letras do EP anterior, em que davam pitacos pretensiosos e meio desesperados para parecer ainda relevantes, Bono, Edge, Larry e Adam reencontraram aqui sua conexão com o coração dos fãs, ao optar por falar de temas como amizade, solidão e dúvida.
"Foi mal pelo Days of Ash, a gente tava doidão!"
"São suas cicatrizes que te dão beleza / Não cubra suas cicatrizes", versos de "Scars", talvez sejam os mais verdadeiramente afetuosos que Bono escreveu em muito tempo - e só com estas três primeiras músicas, um belo bloco da próxima turnê (que há de passar pelo Brasil) já estará garantido. Em todas elas, a banda está dando o máximo, e o máximo do U2 é uma força nada desprezível.
A segunda metade do EP deixa a temperatura baixar um pouco, mas mantém a boa perspectiva pelo disco integral que o U2 diz que vai lançar nos próximos meses. "Resurrection Song" e "Easter Parade" são baladas dignas, e "COEXIST (I Will Bless the Lord at All Times?)", em que Bono sussurra uma letra sobre as marcas da guerra, marca a reunião da banda com Brian Eno, produtor com quem a banda fez seus álbuns mais famosos.
Retorno às origens parece ser o caminho escolhido pelo U2 para celebrar seus 50 anos. A ótima impressão deixada por Easter Lily pode não se confirmar no vindouro novo álbum, mas é impossível não enxergar simbolismos nos últimos movimentos: o lançamento da Quarta de Cinzas mostrava uma banda que parecia moribunda, mas a Páscoa trouxe um U2 ressuscitado e ainda capaz de emocionar. Caetano Veloso já sabia o que dizer em horas assim: "Quem é ateu e viu milagres, como eu..."
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U2
Easter Lily
Produzido por Jacknife Lee
Produzido por Jacknife Lee
Lançado em 3 de abril de 2026
1. Song for Hal
2. In a Life
3. Scars
4. Resurrection song
5. Easter Parade
6. COEXIST (I Will Bless the Lord at All Times?)


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