14/04/2026

O luto como arte


Uma crítica do filme
Hamnet

Há cinco anos, em meio a diversos competidores mais arrojados, a diretora Chloé Zhao ganhou o Oscar de Melhor Filme com o chatíssimo Nomadland, uma vitória altamente discutível. Este ano, ela não venceu, mas, pelo menos, pode orgulhar-se de ter competido com esta bela peça de cinema que é Hamnet.

"Não é Hamlet?", perguntarão os distraídos mais atentos (ha!), e a confusão tem razão de ser, se mesmo a atormentada Agnes Hathaway (Jessie Buckley), esposa de William Shakespeare (Paul Mescal) e mãe do Hamnet em questão, ouve um e entende outro. Não se trata de mais uma adaptação de livro do dramaturgo mais famoso do mundo, mas de um recorte de sua vida, que teria dado origem a uma de suas obras mais ilustres.

Agnes domina medicina natural que, naquele século XVI, a qualificava como "bruxa"; William é filho de um coureiro e trabalha como tutor escolar para filhos de um credor do seu pai. Os dois se apaixonam, Agnes engravida e eles se casam, com a bebê Susanna chegando em seguida. Anos depois que Will deixa Stratford para desenvolver sua escrita em Londres, Agnes se ressente de sua ausência, ainda mais por deixá-la sozinha para ter o casal de gêmeos Judith e Hamnet. Quando a peste negra alcança a zona rural de Stratford, a tragédia bate à porta da família Shakespeare.

A fotografia do polonês Łukasz Żal tira máximo proveito da beleza da zona rural inglesa e de planos que parecem pinturas, com planos cheios de rimas cromáticas e geométricas, principalmente dentro da casa de Will e Agnes, onde a solidão e a perda são expressas nos cômodos gradualmente esvaziados. O roteiro adapta o livro homônimo de Maggie O'Farrell e foi co-escrito pela autora e pela diretora Zhao. Sua direção contida transforma o que seriam explosões em implosões emocionais, jamais cedendo ao exagero melodramático.

Buckley: trazendo o Oscar amado em três dias.

Apesar disso, é impossível questionar o Oscar de Jessie Buckley como Melhor Atriz. Transmitindo de forma natural a graça, angústia e luto profundo de Agnes, Buckley alcança o estrelato num papel exigente, escudada por um Paul Mescal acostumado a tipos complexos e reservados, como este Shakespeare, um homem que transformou sua dor em motor de sua arte, como quase sempre o fazem os grandes artistas.

Há quem defenda a ideia de que, na educação, provas só medem a capacidade do aluno de fazer provas. O solitário Oscar de Buckley (única vitória em oito indicações) pode estar parecendo uma prova com nota baixa e dar a entender que o filme não possua tantas qualidades, mas o Oscar só mede a capacidade de um filme de receber Oscars. O valor de Hamnet para o espectador - como o de alunos esmagados por sistemas arcaicos de avaliação - reside em coisas que nem sempre podem ser medidas em estatuetas douradas.

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