Uma crítica do álbum
Make-Up Is a Lie, de Morrissey
Este ano começou cheio de surpresas: apenas entre janeiro e fevereiro, eu publiquei 16 vezes, metade de tudo que saiu por aqui em 2025. Desovei posts obsessivamente e me sentia inspirado. Para melhorar, dois de meus ídolos na música deram as caras: dia 18 de fevereiro, o U2 lançou o EP Days of Ash de supetão; três semanas depois, em 06 de março, foi a vez de Morrissey retornar com disco novo, seis anos após I'm Not a Dog on a Chain.
Daí que, passada a empolgação inicial, nada sobreviveu muito bem no decorrer dos dias: o disquinho do U2 não bateu tão bem e minha produtividade minguou em março - este é apenas o segundo post do mês, já quase em sua metade. O pior de tudo, porém, ficou por conta de Morrissey: os singles fracos já davam ideia de que Make-Up Is a Lie nem de longe seria memorável, mas ninguém esperava um álbum tão insípido, incolor e inodoro.
Não é de agora que tem sido difícil aturar a pessoa pública que Morrissey se tornou, mas, sendo ele o artista mais influente em minha vida, eu sempre lhe dava o relutante benefício da separação entre o artista e sua arte. De uns tempos pra cá, porém, ele parece estar chafurdando na senilidade - e, agora, com este novo álbum, flertando perigosamente com a irrelevância.
A pior coisa que um artista pode fazer contra mim é lançar um disco inofensivo, e Make-Up Is a Lie salva-se por pouco. É tudo muito bem gravado e produzido, e a voz do homem está melhor a cada dia, mas é lamentável que o luxo dos recursos técnicos esteja a serviço de letras débeis e refrões pobres, alguns dos piores que Morrissey já gravou - vários deles, limitados à repetição de uma palavra ou frase, em flagrante contradição com seu status (e sua pose) de intelectual.
Não pode ser isto aqui o que sobrou de Bonfire of Teenagers, o famoso álbum nunca lançado que Morrissey chamava de sua obra-prima e que, segundo ele, nenhuma gravadora era corajosa o bastante para lançar (dificuldade que teria prolongado o hiato desde o último disco). Passando os olhos pelos créditos das músicas, surge uma possível razão para todo esse "bege": Boz Boorer, o genial guitarrista e compositor que o acompanhou por três décadas, não está mais entre os colaboradores. Por outro lado, Alain Whyte, outro que escreveu ótimas melodias para o homem no passado, está - mas, poxa, essas músicas não fazem justiça à parceria deles nos anos 90 e 00.
Pode ser que este disco acabe crescendo em meu conceito, porque, como já dito, é um triunfo técnico, parece um discão luxuoso dos anos 80. Nem de longe ele é RUIM: é só "MEH", um mal que já afligia o disco de 2020 (e este novo é melhor, pasme). As últimas músicas de Morrissey que me fizeram salivar foram algumas de Low in High School, de 2017. Faltam a Make-Up Is a Lie letras e refrões melhores, um punch de rock and roll. Além de tudo, essa capa é como uma mão cheia de lama jogada em nossas caras, a pior imagem do ano.
Morrissey: testando limites (no caso, os meus)
Nestas primeiras audições, as que desceram mais redondo foram duas: a faixa de abertura, "You're Right, It's Time" (co-escrita pela tecladista Camila Grey Gutierrez), e a de encerramento, "The Monsters of Pig Alley" (parceria com Whyte). São as que mais se aproximam da qualidade de outrora, embora a primeira seja uma dessas que têm refrão "flat" - mas, pelo menos, as guitarras têm personalidade e a bateria é muito boa. A última do disco é uma delícia pop que poderia, tranquilamente, estar em um disco bem melhor que este.
Quando passar a vergonha alheia pelas últimas patacoadas lidas na internet (uma insistência maluca em falar de censura e reclamar de cancelamento, mas um conveniente silêncio sobre os constantes cancelamentos de shows e outros problemas de verdade com suas declarações), quem sabe eu volte a escutar este disco com mais carinho. Por enquanto, minha audição está contaminada por um ranço que eu segurei por muito tempo, mas não consigo mais fingir que não existe.
* * * * *
Morrissey
Make-Up Is a Lie
Produzido por Joe Chiccarelli
Lançado em 6 de março de 2026
1. Yoy're Right, It's Time
2. Make-Up Is a Lie
3. Notre-Dame
4. Amazona
5. Headache
6. Boulevard
7. Zoom Zoom Little Boy
8. The Night Pop Dropped
9. Kerching Kerching
10. Lester Bangs
11. Many Icebergs Ago
12. The Monsters of Pig Alley


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