Voltando ao Recife de 1977, o professor Armando (Wagner Moura) tenta escapar à perseguição dos militares em seu encalço. Aproveitando a distração do violento carnaval daquele ano, ele se instala em um lar de refugiados, adota o pseudônimo de Marcelo e passa a trabalhar num instituto de identificação, na esperança de voltar a viver com seu filho, criado pelos avós após a morte de sua esposa. Em paralelo, uma perna humana é encontrada dentro de um tubarão, dando origem a teorias e uma lenda urbana.
O Agente Secreto é a esperança brasileira de um bicampeonato no Oscar, um ano após a consagração de Ainda Estou Aqui. Divide com o filme de Walter Salles o tema dos dias sombrios da ditadura militar, mas é só: o que aquele tem de lírico, este tem de caótico. Como em Bacurau (2019), seu filme anterior, o diretor Kleber Mendonça Filho adota uma estética popular e bagaceira, coloca trocentos personagens em cena e explode nossas mentes com lisergia, violência, absurdos e ocasional vulgaridade.
Não apenas porque se passa 50 anos no passado, o filme versa muito sobre a memória: para além de focar sobre os desmandos dos militares, a busca de Armando por informações sobre a mãe que mal conheceu (cujo nome muito comum, Maria Aparecida dos Santos, dificulta sua identificação) é, também, a busca dos familiares dos sumidos e provavelmente mortos pelo regime. Gente que passou (passa?) a vida sem saber do destino de entes queridos. A cuidadosa reconstituição de época (que deu à Recife retoques de beleza e feiúra bastante autênticos) é uma homenagem do diretor à cidade onde nasceu.
Muitas obras já revisitaram nossos famosos "anos de chumbo" em cenários como Rio e São Paulo. Ao escolher Recife como cenário, o diretor mostra que os tentáculos da ditadura se estendiam por todo o país, sem distinção, além de reforçar uma identidade cultural orgulhosa, quase sempre menosprezada por tipos como o executivo paulista da Eletrobrás com quem Armando compra uma briga política e pessoal, ao ver-se desrespeitado junto com a esposa, Fátima (Alice Carvalho). A cena com o guardanapo e a "carteirada racial" trazem à memória a cena do jantar em Bacurau. Como naquele, quem diz o que quer, acaba ouvindo o que não quer.
Para quem cresceu ouvindo Chico Science & Nação Zumbi, os ataques e invasões atribuídos à tal "Perna Cabeluda" já não eram novidade. No filme, a Perna ganha vida e ataca um grupo de homossexuais (em cena feita para arrepiar moralistas). É tosco e parece despropositado, mas, longe disso: na vida real, a violência oficial sempre foi encoberta com metáforas, atribuída a forças misteriosas, ou, pior ainda, "ninguém sabe, ninguém viu". Pouca gente teria aquela coragem dos amigos do Scooby-Doo de "puxar a máscara" da Perna. O medo é uma ferramenta poderosa de controle.


4 comentários:
Assino embaixo de olhos fechados e deixo digital do dedão! Tu foi preciso!
Obrigado, seja quem for! Da próxima, deixa teu nome aí, pô! =)
Resenhaça! Esse é um filme que cresceu em mim (opa!) de forma absurda. É um espetáculo multicamadas de brasilidade em estado bruto. Até o inusitado cameo do Udo Kier tem sua função lá; é parte inerente do nosso lindo caos social.
É um filme que demanda uma degustação lenta e atenta aos detalhes. A evolução do terceiro ato é uma obra-prima, sem brincadeira. Pena que muitos estão sedados demais por fast-food hollywoodiano para assimilar essa trip riquíssima.
Abraço!
Ps: Vilmar, o personagem do talentoso Kaiony Venâncio, merece um spin-off pra chamar de seu.
Envelhece muito bem na minha cabeça a cada dia, e certamente vou querer revê-lo sem muita demora (se tudo der certo, com carimbo de oscarizado).
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