27/02/2026

Música & Mágica #11


OS PARALAMAS DO SUCESSO
Hey Na Na
1998

No final dos anos 90, houve um primeiro revival dos anos 80 no pop brasileiro. Depois da natural tentativa de negação por parte da geração que a sucedeu (afinal, eles precisavam romper com o passado e criar sua própria identidade), os artistas e jovens ouvintes estavam reencontrando valor na produção musical dos 80, que vinha sendo tratada a chutes. Entende-se: como bem dizem, nada é mais antigo do que o passado recente e, naquele fim de década (e de século), tudo que dizia respeito aos anos 80 (em moda, estética ou valores) era exatamente tudo que a geração 90 parecia querer evitar - mas, de repente, passou-se a olhar com mais carinho para o período.

Não que Os Paralamas do Sucesso tenham precisado de uma onda nostálgica: eles estavam muito vivos e produtivos. Nos anos 90, lançaram os discos mais experimentais e menos populares de sua carreira - Os Grãos (1991) e Severino (1994) - que, mesmo sem a adoração de massa de que a banda gozava na década anterior, tiveram seus hits, como "Tendo a Lua" e "Trac Trac". Depois, voltaram ao pop e ao gosto popular, com o meio inédito e meio ao vivo Vamo Batê Lata (1995), que continha a onipresente "Uma Brasileira", e o curtíssimo e gostosíssimo 9 Luas (1996), de onde vieram sucessos como "Loirinha Bombril" e a cover de "Capitão de Indústria", de Marcos Valle.

Para seu último disco de estúdio no século XX, Herbert Vianna, Bi Ribeiro e João Barone chamaram Chico Neves, produtor que já havia trabalhado com artistas como Lenine e Fernanda Abreu. Equilibrado entre o popular e o experimental, entre a serenidade e a agonia, Hey Na Na resultou em um dos trabalhos mais maduros e bem-resolvidos dos Paralamas. Beirando os 40, longe das angústias juvenis de outrora, Herbert cantava sobre as pressões da vida na estrada e em hotéis, conflitos do coração e da alma, com aquela sabedoria que só a idade costuma trazer.

Barone, Herbert e Bi: quarentando e andando

A exaustão e o arrependimento de quem dedica a vida ao trabalho e levanta com o pé esquerdo todo dia está nas linhas de "Por Sempre Andar", com um fraseado de guitarra tão bom que quase funciona como um segundo refrão. Aliás, que se diga, logo de saída: Herbert Vianna é um dos melhores guitarristas que este país já ouviu tocar, passando de finos dedilhados acústicos a solos faiscantes com igual desenvoltura. Quando podia ter dito apenas "eu tô só a capa da gaita", ele fez diagnósticos elegantes, que deixam a gente cansado só de ler.

O curioso nome do disco vem do refrão de "Depois da Queda, o Coice", na qual Barone desce as baquetas com força e os metais que costumam ornar as canções do trio brilham muito. Herbert parece estar versando sobre o efeito dos dias ruins e dos trabalhos criticados, que podem fazer muita gente boa desistir da música: "pra uns, só traz a foice; pra outros, traz alívio". Ou seja, fazer um trabalho que nem todo entende pode render críticas, mas também tira todas as pressões que o sucesso de massa costuma impor.

O alter ego feminino em "O Trem da Juventude" parece descrever o próprio Herbert e as escolhas que fez desde que entrou para a vida pública. À genial percussão, juntam-se efeitos eletrônicos pertinentes. Em seguida, "Brasília, 5:31" é mais uma a tratar das pressões de viver viajando pelo país: "um estranho no espelho / eu quase nem me conhecia / e uma voz estranha diz 'bom dia'". A citação a "Here Comes the Sun", dos Beatles, é o que traz algum alento.

O bloco central é composto pelas românticas "O Amor Não Sabe Esperar" e "Ela Disse Adeus" - não por acaso, as mais radiofônicas do disco. Na primeira, um lovers rock com vocais preciosos de Marisa Monte, um recado que vivenciei em primeira mão, em 2022, tendo acabado de arruinar, sem querer, algo que prometia ser legal: "ficar só é a própria escravidão". Levaria meio ano até eu conseguir consertar as coisas e encerrar minha escravidão pessoal. A segunda tem belas harmonias vocais de Herbert em inglês, e uma letra falando de juntar os cacos depois do fim de um relacionamento.

"Scream Poetry" era uma letra inédita de Chico Science, falecido no ano anterior. Os vocais foram entregues ao ídolo Jorge Mautner e sua rabeca, e a levada de maracatu não deixa dúvida de que a Nação Zumbi e os Paralamas não são parentes tão distantes, enfim - apesar da falta que faz o peso das alfaias. A poderosa versão da deprimida "Viernes 3 AM", de Charly García, comprova a afinidade da banda com os argentinos (que os amam), com guitarras incríveis, além de vocalizações soul arrepiantes a cargo de Cecília Spyer.

O final leva as coisas para a costa mediterrânea: "Um Dia em Provença" é a faixa menos interessante, com sua letra good vibes, na linha "deixa disso, vai ficar tudo bem" - mas mesmo ela tem seus encantos, como a flauta que surge depois do primeiro refrão. A bucólica "Santorini Blues" faz referência a momentos felizes, vividos por Herbert e a esposa Lucy com a filha Hope Izabel, na famosa ilha grega, em meio a bonitos violões de fado.

Hey Na Na foi, ainda, o último disco dos Paralamas antes do fatídico acidente de ultraleve, em 2001, que vitimou sua esposa e o deixou paraplégico e, por algum tempo, desmemoriado. Felizmente, ele se recuperou e seguiu com a banda, embora o intervalo entre os discos inéditos tenha crescido a cada lançamento (2002, 2005, 2009 e 2017), e já chegue a nove anos desde Sinais do Sim. Entre eles, discos ao vivo e coletâneas (e apresentações lotadas) mantêm viva a chama do power trio que começou como um "Police brasileiro" e se metamorfoseou em uma máquina de brasilidade, sem que isso comprometesse sua pegada rock. Os Paralamas do Sucesso são um grande patrimônio deste país.

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Os Paralamas do Sucesso
Hey Na Na
Produzido por Chico Neves
Lançado em 16 de junho de 1998

1. Por Sempre Andar
2. Depois da Queda, o Coice
3. O Trem da Juventude
4. Brasília 5:31
5. O Amor Não Sabe Esperar
6. Ela Disse Adeus
7. Scream Poetry
8. Viernes 3 AM
9. Um Dia em Provença
10. Santorini Blues

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