TIMBALADA
Cada Cabeça É um Mundo
1994
Eu passei a adolescência dentro de um personagem de alma "londrina", com pouca vida social e muita pose de intelectual. Odiava a pequena cidade para onde minha família se mudara de repente e não me preocupei em fazer amigos da minha idade (os colegas na escola noturna já eram todos adultos ou quase). Recluso em casa, o som que eu gostava de escutar eram as bandas inglesas que chafurdavam em inquietação existencial. Eu me achava (e havia quem me achasse) um cara "cabeça", como se dizia na época.
A chegada à idade adulta me deu as ferramentas e me encarregou de cumprir uma demanda pessoal gigantesca: fazer as pazes com minha identidade como um todo. Quando meu irmão mais velho faleceu, em 1990, eu tinha 17 anos. Naquele momento, vi que a vida poderia acabar sem aviso, a qualquer instante. Percebi que estava perdendo tempo, fui tomado por uma fome de viver e me abri para tudo que antes evitava: amigos, festas, bebida (sei que beber não é algo de que deva me orgulhar, mas o álcool é um lubrificante social eficaz como poucos).
A primeira metade dos anos 90 foi um tempo muito feliz e, com a guarda baixa, passei a perceber o óbvio ululante: eu tinha sorte de ser baiano e de estar na Bahia. Quando alguém diz que a Bahia é um estado de espírito, é 100% verdade. Passei a ouvir e atribuir à música feita aqui o valor imenso que ela carrega, como arte e como expressão de identidade de um povo. A música baiana (chame de Axé Music, se lhe convém) deve ter sido o fator mais importante no resgate e lapidação de minha identidade, antes soterrada em pretensão e solenidade.
Daí que, em 1993, algo muito diferente de tudo que se havia escutado até ali chegou aos nossos ouvidos: rápidas saraivadas de timbaus e bacurinhas, emoldurando uma letra meio tatibitate: "eu canto pra lua / porque amo a lua / ai que lua, ai que lua...". Em meio a metais, corais e scats, "Canto pro Mar" virou um imenso e improvável sucesso. Era como heavy metal percussivo: o que o Olodum tinha de virtuoso e controlado, a Timbalada tinha de explosivo e caótico - e, passado o choque, soava genial e divertidíssimo.
Depois, viriam "Toque de Timbaleiro", a cover de "Emilio" (Jorge Benjor), "Mulatê do Bundê" e, principalmente, "Beija-Flor", fazendo do grupo do Candeal Pequeno de Brotas, em Salvador, a descoberta musical brasileira mais excitante do ano. Além do som, havia o atrativo da pintura corporal, vocalistas carismáticos, e a bênção do criador e maestro Carlinhos Brown.
Se a Timbalada acabasse após o primeiro álbum, já teria feito o suficiente para gravar seu nome no inexistente (ainda!) Hall of Fame do Axé, mas, em 1994, lá estavam eles de volta: Cada Cabeça é um Mundo representou um salto enorme para a banda, que encontrou um delicado e incomum equilíbrio entre o pula-pula do axé e uma classe pop que o gênero costumava atropelar com excessos, num padrão de produção muito acima do que se fazia na época.
O disco é cheio de canções que jamais deixariam o repertório dos shows, em mais de três décadas de carreira. A abertura, com "Toneladas de Desejo", já deixa clara a ambição de Brown em formatar uma espécie de pop baiano global. É uma canção de amor nada óbvia, com a letra evocando imagens incomuns ("cada noite é um vestido que o dia tem / quando o dia tira o vestido, o sono vem") e versos completados de certa maneira apenas porque sim ("pro caminho dessa Timbalada, puxa tetê" / ... / "vem me dizer que amar é hum, hum, hum").
"Se Você Se For" oferece o primeiro "pancadão" percussivo do álbum. Com citação a "Máscara Negra", marchinha de Zé Kéti, a letra é outra boa representante da "escola Brown de composição", em que palavras são escolhidas mais por como soam do que pelo que dizem, e a gramática pode ser ignorada ("meu brinquedo é com ti bailar"), sem vergonha alguma, se isso ajudar na melodia e na "cantabilidade". Tem riff de piano assombrado e breques precisos.
A elegância pop atinge o ápice em "Namoro a Dois". Uma introdução com sons de pássaros ganha a companhia de violão, teclados e assobios, para depois explodir com metais e percussão trovejante. Quando Xexéu canta por cima da levada malemolente, a gente imagina tudo: "o som da maré, o vento, a rede, o luar". Costurando e comentando tudo, um pianinho classudo que simplesmente não se ouvia em axé. Um primor, prova cabal da versatilidade da Timbalada e do domínio pop de Brown.
Com sua bela voz a serviço desta trinca introdutória matadora, Xexéu é apenas um dos enormes talentos vocais revelados pela Timbalada. Neste disco, ainda brilha muito Ninha, o "gogó de ouro", com autoridade de rua e potência perfeita pros hits mais explosivos, como "Camisinha" e "Sambaê" (volto a ela em instantes). A subestimada Patrícia Gomes é pouco ouvida: "Camafeu" tem guitarra e percussão fortes, listando diversos blocos afro de Salvador, enquanto a gostosa "Giro o Mundo" faz uso bem melhor de seu talento.
A propósito: Patrícia é a dona dos seios pintados na capa do disco de estreia.
Aqui temos, ainda, a primeira participação de Denny Denan, que se tornaria a voz e a cara oficiais da Timbalada, permanecendo fiel ao grupo, enquanto diversos outros chegavam e partiam (apesar disso, ele próprio esteve longe por quatro anos, entre 2017 e 2021, tentando uma carreira solo que não deu em nada). Quando gravou "Pracumcum Babá", Denny tinha meros 14 anos, mas já exibia muita afinação e adequação.
O disco ainda conta com Augusto Conceição (falecido em 2025) em "Vida Rudimentar"; o ator Jackson Costa dá voz à chata e pretensiosa "Prosoema pra Ocê Ará", ponto baixo do disco; em "Camisinha", as falas de Caetano Veloso fazem a faixa parecer propaganda do Ministério da Saúde; por fim, o repente de Mestre Bule-Bule "Convênio com Cristo" mescla o canto do sertanejo com o berimbau.
A faixa que, para mim, resume a força do disco é "Sambaê", cantada por Ninha. Quando escutada nos bons fones do meu hoje pitoresco Discman de então, a faixa crescia aos poucos - com timbaus, violão de aço, sopros - e provocava arrepios incontroláveis, revolvendo qualquer coisa ancestral dentro de mim, que eu não sei até hoje se consigo identificar. Lá pelos 30 segundos iniciais, quando a percussão desabava pesada sobre meus ouvidos, eu era transportado a um lugar que não era neste mundo.
Ainda que não seja um disco perfeito, Cada Cabeça É um Mundo sintetiza a força da obra da Timbalada e mora no coração dos fãs, quase sempre como o "filho" favorito. A banda seguiria em uma curva ascendente de qualidade e popularidade - Mineral (1996) e Mãe de Samba (1997) podem muito bem virar objetos desta seção no futuro - até sua primeira crise criativa e identitária, em 1999, com o fraco Pense Minha Cor e seus vocalistas, digamos, controversos - quem é que vai pra show da Timbalada pra ouvir música sertaneja e ver asiático cantando, pelamordedeus?
Hoje, embora siga firme como uma instituição do axé, a Timbalada não consegue produzir novos hits que mobilizem as plateias. Ainda assim, seu cancioneiro clássico mais do que basta para encher as noites no Candyall Ghetto Square e os carnavais país afora. Em tempos em que tanto se vende "experiências" a peso de ouro com coisas absolutamente triviais por aí, um show da Timbalada já oferecia tanto desde seu surgimento. Não foi "um rio que passou em minha vida": foi um tsunami!
* * * * *
Timbalada
Cada Cabeça É um Mundo
Produzido por Carlinhos Brown e Wesley Rangel
Lançado em 1994
1. Toneladas de Desejo
2. Se Você Se For
3. Namoro a Dois
4. Papa Papet
5. Camafeu
6. Camisinha
7. Prosoema pra Ocê Ará
8. Choveu Sorvete
9. Pracumcum Babá
10. Giro o Mundo
11. Sambaê
12. Vida Rudimentar
13. Cadê o Timbau?
14. Convênio com Cristo


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