03/05/2026

Música & Mágica #12


METALLICA
Metallica
1991

O começo dos anos 90 foram de confusão e mudança - e não somente porque eu estava fazendo a transição da adolescência para a idade adulta: a década trouxe uma profusão de estilos e misturas e, embora eu não fosse o mais flexível dos ouvintes, estava acompanhando o que conseguia. Curiosamente, um dos estilos que passou a frequentar meus ouvidos era um já bem antigo: o metal. O ano de 1991 foi a explosão definitiva do Guns N' Roses, o Living Colour havia feito o Time's Up menos de um ano antes, e o Faith No More havia explodido mentes com seu show indefectível no Rock in Rio 2.

Não me entenda mal, metal e hard rock não eram estranhos totais para mim: só quem estava vivendo em Marte nos anos 80 talvez não tenha ouvido coisas como "Don't Stop Believing", do Journey; "Eye of the Tiger", do Survivor; "The Final Countdown", do Europe; ou "Rock You Like a Hurricane", dos Scorpions. Era legal, e o fato de que o "metal farofa" era amplamente usado em comerciais ajudava a dar popularidade ao estilo. Porém, eu ainda não havia cruzado a linha do thrash metal, uma variante mais pesada e mais rápida, de onde vinham o Slayer, o Anthrax e o Metallica.

Quando chegamos em agosto de 1991, porém, ficou difícil ignorar o Metallica, porque o quarteto decidiu que era hora de ocupar o topo - não apenas em seu nicho, mas no mainstream. Em seu quinto ábum de estúdio, que levava apenas o nome da banda, com uma capa preta minimalista, James Hetfield, Kirk Hammet, Lars Ulrich e Jason Newsted apostaram em peso multiplicado e produção de primeira, ajustando o ataque sonoro do thrash apenas o suficiente para não assustar os ouvintes comuns. 30 milhões de cópias vendidas depois (e o topo ocupado, como a banda queria), resta pouca dúvida sobre o sucesso da manobra.

Metallica, o álbum, foi um dos primeiros que adquiri em formato CD - e havia um excelente motivo para a opção pelo som digital: a produção primorosa de Bob Rock. Cada baquetada e acorde soava cristalino e retumbante. Era um novo nível de peso, justamente quando o Metallica estava, segundo alguns fãs antigos menos satisfeitos, amaciando seu som para fazer mais sucesso. Era verdade, mas também era uma intransigência boba: todo mundo está nessa pela fama e pela grana. O Metallica apenas percebeu que o momento era aquele.

A faixa de abertura, "Enter Sandman", tem um daqueles dedilhados que se tornam introduções clássicas, reconhecíveis no primeiro segundo. Bumbo, caixas e pratos da bateria trovejam. O riff principal dá ímpetos imediatos de air guitar. Os versos de Hetfield capturam com maestria os terrores noturnos de uma criança que tem medo de dormir. Sem falar do refrão icônico, desses que fazem a plateia se esgoelar: "exit: light / enter: night".

A pedrada seguinte é ainda mais forte: "Sad but True", uma viagem pelas regiões mais sombrias da alma humana. É a maior evidência do equilíbrio alcançado pelo Metallica entre peso distorcido e habilidade pop. A velocidade do hardcore dá o tom em faixas como "Holier than Thou", "Through the Never" e "The Struggle Within", que fecha o disco. Apesar disso, a maestria técnica e complexidade melódica do Metallica os distancia da bagaceira punk. Tudo neste álbum é nada menos que épico.

Se foi capaz de furar a bolha do mainstream com petardos pra bater cabeça, imagine se o público não seria ainda mais generoso com as baladas: "The Unforgiven" e "Nothing Else Matters" entraram para o cancioneiro definitivo daquela década, uma com peso e superação contra inimigos, a outra com delicadeza e sinceridade no amor. A segunda acabou por tornar-se a canção mais popular do Metallica. Entre uma e outra, um leviatã de mitologia estradeira, "Wherever I May Roam". Em todas elas, os solos de Hammett esbanjam emoção e criatividade.

Metallica: feios, sujos, malvados e donos do mundo.

O terço final do disco traz algumas canções que poderiam ter feito mais bonito nas paradas, mas talvez o público precisasse recuperar o fôlego, já que, até ali, os hits do Metallica não fizeram prisioneiros. 

"Of Wolf and Man" acena à natureza animal do homem, pregando uma volta "ao sentido da vida". Em uma de minhas favoritas, "The God that Failed", Hetfield se lamenta com toda a fúria pela mãe que perdeu a luta contra o câncer, ao confiar que um poder superior à salvaria, recusando a ajuda da ciência. A dor do vocalista vem embalada em rock and roll de primeira. Já "My Friend of Misery", a mais sonoramente progressiva do disco, fala de autopiedade e de viver imerso em pensamentos negativos. A já citada "The Struggle Within" fecha o disco à toda, com sua letra sobre autossabotagem.

O Metallica merece aplausos por ter recusado cobranças medíocres por suposta "autenticidade" e ignorar quem os acusou de "vendidos". Eles souberam fazer seu momento acontecer, após dez anos de muita luta. Depois de Metallica (que entrou para a História com o apelido de The Black Album), eles seguiram acertando e errando, mas podendo orgulhar-se de fazerem exatamente o que queriam. O alinhamento de sucesso comercial e prestígio crítico do disco de 1991 nunca mais se repetiu, mas isso não impediu o Metallica de seguir marchando como um gigante: sempre em frente, nunca sem ser notado.

* * * * *

Metallica
Metallica
Produzido por Bob Rock, James Hetfield e Lars Ulrich
Lançado em 12 de agosto de 1991

1. Enter Sandman
2. Sad but True
3. Holier than Thou
4. The Unforgiven
5. Wherever I May Roam
6. Don't Tread on Me
7. Throught the Never
8. Nothing Else Matters
9. Of Wolf and Man
10. The God that Failed
11. My Friend of Misery
12. The Struggle Within

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