Pular para o conteúdo
Mostrando postagens com marcador Tom King. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tom King. Mostrar todas as postagens

11/10/2026

Um anel para a todos enrolar

 

Uma crítica da série
Lanternas, da HBO Max

Lanternas foi uma série de excelente nível em cenografia, diálogos e interpretações, dentro do que se entende como sendo um "padrão HBO" de qualidade. Enquanto assistia, me empolgava e ficava ansioso pelo próximo episódio. Com o encerramento da primeira temporada, porém, a série parece estar envelhecendo mal em minha memória. Eu leio Lanterna Verde há décadas e, finda a experiência, enxergo pouco dos quadrinhos nela. Houve "roteirismos" de baciada, e muita coisa ficou confusa ou inexplicada, sem pudor algum. Na ânsia de fugir do óbvio e oferecer uma "True Detective com Lanternas Verdes", os muitos talentos envolvidos (Damon Lindelof, Tom King, James Gunn) entregaram um mash-up bastante desequilibrado.

Este texto contém SPOILERS. A partir daqui, leia por sua conta e risco.

Um inegável acerto de Lanternas é a dupla de protagonistas: Kyle Chandler e Aaron Pierre encarnam seus papéis de Hal Jordan e John Stewart com total propriedade. Colocado numa versão mais velha do primeiro Lanterna humano, Chandler incorpora à perfeição o jeitão arrogante e irreverente de Jordan, que teima em querer parecer relevante e confiante, enquanto treina seu provável substituto. Como John Stewart, Aaron Pierre tem o físico certo e o jeitão ultradisciplinado que o personagem pede.

Muito do "ouro" encontrado em Lanternas vem das interações entre Jordan e Stewart. Ao longo dos oito episódios, eles divergem sobre basicamente tudo e, desses embates, nascem alguns ótimos diálogos sobre heroísmo, dever, mérito, culpa, vida e morte. O mesmo pode ser dito sobre os flashbacks da infância de Stewart, em que os métodos pouco ortodoxos (pra dizer o mínimo) de seus pais para criar um filho sem medo são entremeados com conversas incomumente profundas para uma série do gênero.

Igual esmero, porém, não é notado em questões como o uso do anel: não são raros os momentos em que Hal, sendo tão experiente, parece perdido e hesitante em usar o imenso poder à sua disposição. A destruição de Rushville parece plenamente evitável e, ainda assim, acontece. Mesmo com uma bateria ao seu alcance, Jordan usa seu anel como se ele fosse uma cópia barata comprada na Shopee, eternamente com carga entre 2% e 5% - e a gente ainda tem que engolir que a assim chamada "arma mais poderosa do universo" precisa de uma pancada pra pegar no tranco.

"Poxa, esqueci o cabo C em casa..."

Não bastasse estar na fila de emprego mais longa que já existiu, a gente só vê o coitado do John assumir o anel e voar nos últimos minutos do último episódio. Lanternas padece de uma imensa vergonha de seu material fonte, com uso pouco imaginativo do anel por parte dos dois heróis, exceção feita à escavadeira criada por John para adentrar o covil do Caçador Cósmico infiltrado na população. Fora isso, é um festival de campos de força arredondados e genéricos. 

As caracterizações dos protagonistas também têm seus percalços: Hal Jordan sofre de um inexplicável fetiche de se jogar de carros em movimento, artifício "engraçado" que atinge saturação, tamanha a recorrência. Ele é visto visitando Oa, mas entra e sai do planeta sem que vejamos qualquer outro Lanterna Verde ou Guardião. Seu holograma backup de "segurança", por algum motivo, passa dez longos anos sem atualizações. Sinestro (Ulrich Thomsen) está preso 99% do tempo e oferece zero perigo no 1% em que aparece solto. No último episódio, John faz exatamente aquilo que passou sete outros resistindo a fazer, mas de maneira bem menos digna.

Acho até interessante, porém, a ideia de que o anel de Jordan é meio como o Um Anel de Sauron, de O Senhor dos Anéis: uma força que vicia e compromete seu usuário. O problema desta e de outras ousadias (Jordan sendo herói antes do Superman, seu pai sendo um aviador suicida, John conhecendo "biblicamente" um Caçador Cósmico) é que elas quase sempre desagradam a quem já conhece o Lanterna minimamente e confundem a quem está chegando agora. É por causa de coisas assim que, até hoje, há quem acredite que a DC é "realista e sombria" (argh).

Embora cativante ao ponto de tornar-se a terceira maior série da HBO em audiência, Lanternas ficou devendo respeito ao cânone e mostrou-se uma complicada porta de entrada para o novo UDC: embora John Stewart esteja confirmado no próximo filme do Superman, James Gunn já se apressou em dizer que Lanternas é uma história Elseworlds (ou seja, de universo alternativo), em vez de apenas admitir, "erramos, vamos fazer melhor na próxima temporada" - ou seja, o que era para ter sido apenas uma minissérie ganhou uma sobrevida que, torçamos, talvez traga algumas correções de rumo. Do jeito que está, o brilho verde que ela emana mais ofusca do que orienta.

01/05/2026

A cura pela dor


Uma crítica do quadrinho
Senhor Milagre - Edição de Luxo

Existe um ponto comum entre artistas tão diferentes como Amy Winehouse e Jeff Buckley, ou entre Morrissey e Joni Mitchell, e não é apenas que todos possuam vozes inconfundíveis: eles cantam de recônditos profundos de sua alma. O sofrimento que carregam é traduzido em versos que podem - às vezes, até simultaneamente - emocionar e incomodar (principalmente quando geram identificação no ouvinte). Na música ou em outras artes, poucos são os artistas capazes de desnudar-se em frente ao seu público, exposição que cumpre papel de terapia, ainda que sob pretexto de entretenimento. A dor é um motor muito potente da criatividade.

Nos quadrinhos DC ou Marvel, poucos são os autores que se abrem tanto quanto Tom King. Ex-agente de antiterrorismo da CIA, sua obra ficcional trata, quase sempre, de questões de saúde mental, como depressão e ansiedade, que King conhece em primeira mão: a ideia para Senhor Milagre nasceu após um ataque de ansiedade tão forte que o levou a pensar que estava morrendo (episódio contado no prefácio). Nas doze edições - reunidas em uma bonita Edição de Luxo com sobrecapa, que resolve alguns problemas gráficos da publicação original, em dois volumes de capa cartão - o herói escapista e Novo Deus encarna as vivências e impressões de King sobre trauma e outras síndromes.

Após um prólogo biográfico (ausente da publicação original), a primeira página é um close do rosto de Scott Free (nome civil do herói, sobre o qual há um expressivo diálogo algumas edições depois), em expressão compungida; na página dupla a seguir, ele está no chão ensanguentado do banheiro, as veias do pulso abertas, em tentativa de suicídio. A partir daí, o leitor se vê em permanente dúvida: Scott Free está morto ou não? O que vemos acontecer é a realidade ou um delírio post-mortem? Teria o Senhor Milagre escapado daquilo de que ninguém escapa?

Seja como for, Scott se vê fisicamente recuperado e acaba convocado a liderar os exércitos de Nova Gênese, quando eclode a guerra definitiva contra Apokolips. É uma batalha muito longa e inglória, na qual Nova Gênese tem pouca chance de vencer, pois Darkseid está de posse da Equação Antivida, um mantra que mina a sanidade e a vontade de viver daqueles que contamina. Quando criança, Scott (filho do Pai Celestial) foi trocado com Orion (filho de Darkseid) como prova de boa vontade, numa trégua da guerra entre os dois mundos. Criado desde muito pequeno em meio à violência, humilhação e abandono, como ele não seria uma vítima em potencial da Equação?

Scott Free: "Sei lá, acordei meio coisado hoje..."

Como veículos para suas ruminações, nem sempre os quadrinhos de Tom King resultam em boa leitura. Seu Batman me fez desistir do personagem por anos, e O Xerife da Babilônia é um dos quadrinhos mais superestimados de que se tem notícia. Heróis em Crise é um desserviço, tamanha a descaracterização de seus protagonistas. Amigos que leram Alvo Humano e Rua Perigo dizem que são gibis "sobre nada", o que me faz trocar de hipotética calçada para evitá-los. Por outro lado, seu único trabalho para a Marvel, a minissérie Visão, é das melhores coisas da editora nos anos 2010. Pessoalmente, acho esta Senhor Milagre sua obra definitiva até aqui (embora já se diga por aí que a autoral Helen de Wyndhorn é coisa muito fina).

King tem sorte e mérito em trabalhar com artistas fantásticos. Para Senhor Milagre, ele reprisa a parceria de O Xerife da Babilônia com Mitch Gerads, que opera milagres (ha!) dentro da rígida estrutura de nove quadros por página, com passagens geniais. Os desfoques e interferências ajudam na sensação constante de que algo não está certo e nem tudo é o que parece. Na ternura das conversas com Grande Barda, no humor involuntário das caras de Darkseid comendo petisco de cenoura e das histórias malucas de Funky Flashman, ou no terror dos momentos de violência, texto e arte estão alinhados de forma preciosa.

Passagens como o julgamento de Scott por traição e o desabafo de Barda sobre suas próprias frustrações fazem a gente sentir como se estivesse no mesmo ambiente que os personagens e sendo afetados por tudo que dizem. Quem dera todo quadrinho que se diz "adulto" tivesse metade desse estofo sentimental e psicológico. Não é tudo que funciona tão bem: Scott e Barda discutindo reforma do apartamento enquanto invadem Apokolips foi uma tentativa de ser cool demais que acabou sendo só isso: uma tentativa.

Como dito antes, esta Edição de Luxo corrige problemas gráficos da edição em capa cartão, como uma imensa mancha de tinta em uma das páginas e a diferente gramatura de papel, o que resultou em um segundo volume muito mais fino. Sem falar que esta bela sobrecapa é um primor. Os extras incluem o roteiro da primeira edição, além de rascunhos de Nick Derington para as capas originais e de Mitch Gerads para as alternativas. É um livro que fica muito bonito na estante, mas que só cumpre seu propósito quando lido com atenção e empatia. Sem isso, tudo mais é a Antivida.

Escolha o seu tema favorito

Mais lidos