30/01/2026

Pensando pequeno


Uma crítica da série
Magnum, do Disney+

Há uma dura verdade no ar: ninguém mais liga tanto assim para a Marvel. Ainda que levemos em conta acertos eventuais, os erros em série minaram a paciência do espectador médio, que perdoava basicamente tudo porque, afinal, mesmo as tranqueiras colocavam uma peça nova pro apogeu da Saga da ocasião. Hoje em dia, as pessoas pensam muito antes de deixar seus suados caraminguás na bilheteria: Capitão América: Admirável Mundo Novo, Thunderbolts e Quarteto Fantástico: Primeiros Passos, ainda que divertidos, estavam longe de ser capazes de devolver a Marvel aos seus dias de glória, e o público não se iludiu por pouco.

É bom que lembremos: estamos todos 18 anos mais velhos desde o primeiro Homem de Ferro. A cara de novidade que os filmes da Marvel tinham perdeu o colágeno faz um bom tempo. Alguns testes definitivos para sua atualmente questionável capacidade de se recuperar acontecerão este ano: se o público torcer o nariz para Homem-Aranha: Um Novo Dia e para Vingadores: Doutor Destino, acho que já se pode mandar fechar o caixão e tocar o enterro. Espero estar errado, porém (e digo isso embora seja um decenauta de carteirinha).

Talvez por entender que a audiência já não reage da mesma forma à simples menção do nome Marvel foi que o estúdio preferiu discrição e cautela ao lançar a série Magnum: quase engavetada, a série veio pro Disney+ inteira, de uma só tacada - ou seja, não houve confiança de que ela geraria o zum-zum-zum de outrora, do tipo que duraria semanas. É uma bem-vinda prova de humildade, claro, mas, desta vez, a Marvel podia ter se gabado um pouquinho, porque Magnum é uma delícia de assistir.

Nos quadrinhos, o personagem é um Vingador "série B", um ator profissional que acumula e manipula energia iônica. Tudo que sei dele, além disso, é que ele namorou a Capitã Marvel. Me falta leitura das fases com Magnum na equipe. Ele é originalmente branco, mas, na série, ganhou a cara de Yahya Abdul-Mateen II.

Simon e Trevor: mais que amigos, friends.

Simon Williams (nome civil do herói) está prestes a conseguir uma grande chance de "acontecer" em Hollywood, ao ser chamado para um papel na série American Horror Story. Porém, Simon não consegue dominar suas inseguranças e, com suas intermináveis sugestões para "melhorar" o roteiro, irritando a todos ao seu redor e atrasando os trabalhos, acaba demitido. Para esquecer do dia ruim, ele vai a um cinema que exibe filmes clássicos e conhece Trevor Slattery (Ben Kingsley), ator que deu vida ao falso Mandarim em Homem de Ferro 3, que goza do status de subcelebridade. Os dois se tornam improváveis amigos e, juntos, decidem fazer testes para o remake de Magnum (Wonder-Man, no inglês original), clássico herói de ficção científica dos anos 80 (no MCU, claro).

Como dois amantes da atuação em busca de oportunidades, Simon e Trevor têm diálogos muito bacanas sobre sua arte (e já falei que adoro metalinguagem), e tudo que eles vivem em sua jornada - não pela fama ou dinheiro, que são ótimos efeitos colaterais, mas pela realização de seu potencial - é parte fundamental do que torna Magnum uma série muito interessante e diferente dentro do MCU. Simon ganha desenvolvimento, coisa rara, o que é "super" nele é o que menos importa e pouco é visto: no MCU, os supers são proibidos de estar em produções de cinema ou TV, desde um acidente em estúdio com um ator meta-humano (flashback que rende um episódio maluco e maravilhoso). Em nome da segurança própria e alheia, Simon oculta seus poderes.

Só que esconder sua verdadeira natureza está fazendo mal a Simon (e, aqui, você aplica a interpretação que desejar). Ele não consegue acessar as próprias emoções e sempre põe tudo a perder. O apoio e a sabedoria de Trevor ajudam, mas meio que viram muletas para Simon. Como em toda história de bromance, algumas revelações e decepções estão no caminho dos amigos, mas a esperta e emotiva sequência final (em que Simon faz pesquisa para um personagem) aproxima Magnum um pouco mais do universo do qual mal parecia fazer parte.

Não há como não elogiar as atuações de Mateen II e Ben Kingsley. Enquanto um é pura tensão e autocontrole, o outro é a experiência e a esperteza encarnadas, quase um guru involuntário, embora seja basicamente um pilantra. Nas audições definitivas para o filme do Magnum, algumas escolhas narrativas tiram o peso do que poderia ser um momento transcendental na série, mas há um surto gore no meio de tudo que até compensa. Não podia ter havido um resgate melhor de Trevor Slattery, redimindo Ben Kingsley completamente da participação constrangedora em Shang-Chi - inclusive, os primeiros episódios são dirigidos pelo mesmo Destin Daniel Cretton, e o cara é bom de ação com humor e ternura; deve render bem no Homem-Aranha: Um Novo Dia.

Como isso vai reverberar nos filmes, ficamos por ver. Por enquanto, se acabasse de vez no fim de seu oitavo episódio, a série estaria perfeitamente fechada. O nome de Mateen II não consta do elenco de Vingadores: Doutor Destino, então, talvez a inevitável entrada de Magnum na equipe fique para Vingadores: Guerra Secretas, no fim do ano que vem - mas, surpresas não estão descartadas. Magnum, a série, veio provar que pensar pequeno pode compensar pra Marvel, e que boas histórias importam mais do que hype vazio. Que a lição não seja esquecida tão cedo.

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