Uma crítica da HQ
Absolute Mulher-Maravilha #1
Este é, sem meias palavras, o gibi do momento, a melhor coisa super-heroica sendo publicada pela Panini Comics. Já se pode comprar sua segunda edição, mas ainda vale a pena falar da estreia (reunindo as duas primeiras edições originais), e eu, como bom amigo, desejo que você ainda consiga achá-la por aí, nas bancas ou nos sites da sua preferência.
O Universo Absolute surgiu como uma espécie de "alternativo oficial" à linha regular da DC. No especial DC Sem Limites (nome de toda a fase atualmente em publicação), a aparente morte de Darkseid faz nascer todo um universo com base na sua essência dissipada. Neste novo universo, repleto de adversidades, Bruce Wayne não é um playboy bilionário; Kal-El não é um alien com pais adotivos amorosos; e Diana não foi criada como princesa de Themiscyra, como sempre os conhecemos. Neste mundo, super-heróis são vistos como párias.
A linha Absolute já tem suas versões de diversos heróis, mas, em minha opinião, nenhum deles rivaliza em qualidade com a Absolute Mulher-Maravilha, escrita por Kelly Thompson e desenhada por Hayden Sherman (ainda que seja o Absolute Batman, de Scott Synder e Nick Dragotta, o campeão de vendas e de hype).
Como punição de Zeus às amazonas, Diana é retirada de Themiscyra ainda bebê e entregue por Apolo aos cuidados da feiticeira Circe, que vive exilada na chamada Ilha Selvagem, no Inferno. Relutante e proibida (por meio de mágica) de dizer a palavra "amazona", Circe acaba por afeiçoar-se à menina, a quem ensina suas artes arcanas. Conforme passa o tempo, cresce a curiosidade de Diana sobre sua origem e o "pecado" que levou ao castigo das amazonas. Armada de magia, sabedoria e coragem, ela parte rumo ao mundo terreno.
Durante metade de sua octogenária existência, a Mulher-Maravilha foi tratada como heroína de segundo escalão, mera coadjuvante de colegas mais populares como Superman e Batman. Nesse passado sombrio, chegaram ao cúmulo de reduzi-la a secretária da Sociedade da Justiça, ou transformá-la numa espiã que confiava mais em artes marciais do que em seus poderes divinos (um conceito que, pensando bem, poderia render um bom gibi, mas que não parece ter sido o caso). Tudo mudou após a Crise nas Infinitas Terras (1985), megaevento que realinhou a continuidade da DC Comics. Uma das principais reinvenções do período foi a hoje clássica Mulher-Maravilha por George Pérez, que estabeleceu conceitos que valem até os dias atuais, após tantas outras décadas de retcons e reboots.
Com variado grau de êxito por parte de seus autores, Diana passou a ser melhor tratada dentro da sua própria casa, que a estabeleceu como uma das forças centrais do seu panteão, formando a famosa Trindade ao lado de Superman e Batman. Sua origem já foi contada e recontada mais vezes do que consigo lembrar, mas Kelly Thompson nos presenteou com uma versão muito diversa e intrigante, mantendo aspectos fundamentais da personagem: a bravura, a sabedoria e a compaixão por quem a merece; aos indignos, sobram a força de seus punhos e o fio da sua enorme espada.
Vai por mim: esta revista só melhora. Até este momento, foram publicadas 15 edições nos EUA e Kelly Thompson jamais deixou a peteca cair. Não houve edição ruim, ainda que nem todas fossem igualmente interessantes. Tudo bem, tudo normal. Só por trazer um frescor inédito a uma personagem com mais de 80 anos de idade, Thompson já mereceria reconhecimento (que veio em forma do Eisner Awards de Melhor Série Nova). Ajuda contar com a arte precisa e cheia de personalidade de Hayden Sherman (guarde este nome!), que dá às ameaças a escala e o temor que elas inspiram. O trabalho de Jordie Bellaire nas cores também foi agraciado com um Eisner. Acredite quando digo que este gibi é coisa muito fina.
Quando começou, o Universo Absolute tinha toda a cara de evento feito para durar somente até o fim da primeira supersaga que chegasse, a ser desfeito numa típica manobra mágica ou científica qualquer. Porém, DC KO (a saga da vez) já se aproxima do fim, mas, dado o sucesso da iniciativa, parece que os gibis Absolute serão vistos por um bom tempo ainda, e mais títulos vão surgindo. Espero que Thompson (ou um eventual substituto) mantenha a régua alta que foi demonstrada nesse primeiro ano da série, com a graça de Hécate.


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