Uma crítica do filme
Valor Sentimental
Em 1995, meus pais se separaram. Nós, os filhos, tomamos partido por nossa mãe e com ela ficamos (com exceção da mais velha, então já casada). Houve muito julgamento e pouca conversa com ele. A gente meio que só conhecia o lado de nossa mãe e, tendo ele assumido os deslizes que levaram ao divórcio, negamos a ele o direito de dar sua versão. Apesar disso, pouco tempo depois, durante a maior pindaíba que já enfrentamos na vida, ele me acolheu em sua casa e me deu trabalho e algum dinheiro.
Durante um ano e meio, aprendi a conhecer meu pai melhor do que conheci nos 25 anos anteriores. Ouvi dele suas histórias, esperanças e arrependimentos. Não compensava os anos em que ele foi pouco mais do que um provedor, mas era bom. Falávamos com muita sintonia sobre música, por exemplo, e eu adorava mostrar sons novos a ele. Com minha intercessão, meus irmãos se abriram a recebê-lo de volta em suas vidas.
No começo de 1999, eu deixei sua casa para trabalhar em meu primeiro emprego como professor de inglês. Passei a visitá-lo esporadicamente, uma vez ao ano, pelo menos. Houve um acidente com fogo, uma condição cardíaca e, por fim, o Alzheimer que o levou em 2019. Felizmente, algum tempo antes, eu consegui dizer que o amava e era grato por tudo que ele havia feito por mim. Foi observando meu pai que eu percebi que não deve haver sofrimento maior do que se ver apartado de sua família, sendo esta uma que você ainda ama.
Gustav Borg (Stellan Skarsgård) encontra-se apartado de sua família e, apesar de todo o respeito conquistado como diretor de cinema (e da máscara de bon vivant que ostenta), sofre. Anos atrás, o fim do seu casamento foi a desculpa para que ele deixasse a Noruega em direção à Suécia para focar em sua carreira, enquanto a mãe criou as filhas Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas) e Nora (Renate Reinsve), que se tornaram historiadora e atriz, respectivamente. A esta altura, Sissel, a mãe, já havia falecido.
Nora vive um momento de muito sucesso nos palcos, o que não a impede de ter ataques de pânico e de fazer besteiras, como se envolver com um colega casado. A volta de Gustav reacende velhos rancores, mais em Nora que em Agnes, que tem espírito mais conciliador. Gustav não deseja apenas reconectar-se com suas filhas: ele escreveu o roteiro de um filme para Nora e espera que ela aceite ser a protagonista. Diante de sua recusa agressiva, resta a Gustav contar com a atriz do momento, Rachel Kemp (Elle Fanning), para tocar adiante o seu filme mais pessoal.
Filmes sobre fazer filmes têm o charme da metalinguagem, mas está longe de ser este o único encanto de Valor Sentimental, dirigido por Joachim Trier, e forte candidato ao Oscar deste ano, com nove indicações. Conta com um tema de apelo praticamente universal e um roteiro primoroso, co-escrito por Trier e Eskil Vogt. Sua maior força, porém, está nas atuações estelares de Skarsgård e Reinsve. Gustav e Nora têm muito a dizer um ao outro, mas não conseguem se comunicar - não sem a filha despejar um caminhão de ressentimento sobre o pai, ou sem que este não pareça fazer pouco caso dos efeitos de sua ausência.
São dois turrões: ela, uma atriz que emociona plateias, mas parece incapaz de sentir ou demonstrar afeto profundo; ele, um homem em busca de um perdão que, de preferência, não desenterre suas vergonhas. Enquanto Gustav tenta provar seu amor por Nora dando a ela trabalho que valorize seu talento, ela rejeita as investidas daquele homem que se comporta mais como diretor que como pai. Entre os dois, Rachel e Agnes, ambas tentando apagar esse incêndio sem sair chamuscadas.
Como Rachel Kemp, Elle Fanning é pura beleza e delicadeza. Ela quer apenas fazer o melhor que pode pelo diretor que é um ídolo para ela, mesmo ao dar-se conta de que está pisando em um campo minado emocional. Rachel e Agnes ajudam a dar forma ao que parece uma solução para o embate entre Nora e Gustav, mas, ao chegarmos na cena final, a vida parece imitar a arte que imitou a vida, quando uma porta se fecha. A verdade está do outro lado e, de coração em frangalhos, a gente a vê.
Valor Sentimental é um dos grandes filmes de 2025, um drama igualmente fácil (pois é impecavelmente narrado) e difícil (pois remexe em feridas que quase todos temos) de assistir. No fim das contas, grudou em minha memória a imagem do Gustav sentado no jardim, dando o dedo médio pra casa e pros fantasmas que nela habitavam. O passado não pode ser desfeito ou refeito, mas somente perdoando (aos outros e a si mesmo) é que a vida encontra um caminho rumo ao futuro. Amar nem sempre é somente instinto ou convenção: às vezes, é preciso decidir fazê-lo.


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