Uma crítica do filme
Devoradores de Estrelas
Porque frequentemente lida com o futuro da humanidade e as consequências do que fazemos no presente, a ficção científica mostra-se um gênero reflexivo por excelência. Quando confrontados com os frutos de sua falta de ética existencial (destruindo o ambiente, eliminando espécies), o homem do cinema costuma olhar para as estrelas em busca de uma esperança de sobrevivência que nem seria necessária se aprendêssemos a viver com o planeta, não contra ele. Este é o mote de filmes como Interestelar (2014), o filme de maior alcance do gênero nas duas últimas décadas.
Onde o filme de Christopher Nolan era puro rigor científico e lágrimas em profusão, Devoradores de Estrelas recorre ao humor, sem furtar-se de um pouco de piração (matéria sem a qual a ficção científica sequer existiria). Com a descoberta de que uma substância (organismo?) está esfriando o sol e estrelas vizinhas aos poucos, o medo de não sobreviver a uma nova Era Glacial faz a humanidade se unir num projeto quase delirante, de enviar uma pequena equipe à distante estrela Tau Ceti, numa viagem de quase 12 anos só de ida, para tentar descobrir por que ela é a única não afetada por aquele tipo de praga cósmica.
A missão deixa a Terra com três tripulantes, mas o professor e biólogo molecular Ryland Grace (Ryan Gosling) acorda de um coma induzido sozinho na nave, sem lembrar sequer de haver embarcado. Nomes e fatos parecem nebulosos, mas, conforme sua memória retorna, vamos tomando ciência de como Ryland chegou até ali. Enquanto isso, a nave é abordada por outra, muito maior, no que é o primeiro contato alienígena da história. Ryland conhece um ser inteligente feito de rocha que, por coincidência, também o único sobrevivente de uma missão semelhante à sua. Decifrando aos poucos sua linguagem de murmúrios e sibilos, Ryland o batiza, muito obviamente, de Rocky.
Apesar de longo (2h 36m), o filme de Phil Lord e Chris Miller (dupla que dirigiu a animação Tá Chovendo Hambúrguer em 2009 e o remake de Anjos da Lei em 2012) tem a sorte de contar com um protagonista em plena forma. Gosling é muito bom de comédia física (se ainda não ficar convencido, veja Dois Caras Legais, de 2016) e o roteiro o coloca em situações extremas, reagindo a elas de maneiras bastante críveis - ou seja, se pelando de medo de morrer, mas parando para respirar e colocar as ideias no lugar.
Rocky e Ryland: a pior parte de esperar é esperar.
Nos flashes que recuperam sua memória fragmentada, vemos como Ryland passou de mero consultor a tripulante da missão, deixando para trás seu emprego de professor e uma fama de pária literário, por defender com paixão teses pouco populares. Nesses momentos na Terra, somos agraciados com as presenças de Lionel Boyce (o Marcus de The Bear) e Sandra Hüller (de Anatomia de uma Queda) - ele, um "leão de chácara" quase amigável, o oficial Carl; ela, a cientista chefe do Projeto Ave Maria do título original, Eva Stratt. Num momento sublime, durante a última festa da equipe antes da partida da nave, Eva canta "Sign of the Times", de Harry Styles, e tom de "agora é tudo ou nada" em sua voz muda totalmente nossa percepção sobre a letra.
Cabe aqui um aparte sobre o título original do filme: sim, "Hail Mary" pode ser traduzido como "Ave Maria", mas é, também, uma expressão idiomática usada para descrever a tentativa final e mais desesperada de alcançar um intento. Diante da dificuldade de encontrar uma correspondente em português que transmitisse a mesma urgência (além de alegórico e vendável), optou-se pelo foco no nome dos "inimigos".
Visualmente, o filme é uma delícia de assistir e enche nosso olhos, ainda que a vastidão do espaço tenha uma aparência menos "polida" do que em Interestelar. Há momentos quase oníricos, de imenso perigo e de muita emoção, porque a gente sabe, desde o início, que a amizade entre Ryland e Rocky é o que vai garantir que haja um final feliz, mas não sem antes passar por provações que deixam o espectador aflito - e quem diria que uma "aranha de pedra" daria um bicho tão interessante e carismático?
Fazer previsões é um exercício com grandes chances de fazer a gente passar ridículo, mas gosto de pensar que Devoradores de Estrelas será para os anos 2020 o que Interestelar (perdão pela insistência na comparação, mas ela é meio que inevitável) foi para os anos 2010: o filme pelo qual toda a produção do gênero teria que se medir no período. Como espetáculo de cinema ou como metáfora de nosso medo da morte em escala cósmica, este é um filme que aposta alto no que a humanidade tem de melhor. Não é pouco.


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