22/03/2008

Mulheres Que Mudaram Minha Vida

Mulheres que mudaram a minha vida

Capítulo 2: Margo Timmins

Enquanto muita gente descobre a country music através de farofeiros como Garth Brooks, Alan Jackson e Shania Twain (em nada melhores que os nossos sertanejos), meu primeiro contato com o estilo veio através de uma banda canadense que reverenciava o estilo em seus preceitos mais básicos: a solidão da estrada, os tipos medíocres das cidadezinhas e os lados mais e menos nobres do amor, sempre de um ponto de vista bastante adulto e realista.

Não fosse a música do Cowboy Junkies já especial em si, especialmente nos seus dez primeiros anos de carreira, quando lançaram uma seqüência invejável de discos memoráveis, alternando-se entre o country, o folk, o blues e investidas mais pop, sua vocalista é um verdadeiro presente para os ouvidos. Margo Timmins ora canta baixinho, com aquela preguiça manhosa de mulher triste, porém cheia de amor pra dar, ora furiosa feito uma blueseira cheia do "mé".

Discos como The Trinity Session (1989) e The Caution Horses (1990) são de uma tristeza de cortar os pulsos. Além dos clássicos de Neil Young, Lou Reed e Hank Williams criteriosamente escolhidos, existe o repertório próprio da banda, que conta com a poesia do irmão de Margo, Michael, de invejável simplicidade poética e alto impacto emocional. Assim como aqui existe Chico Buarque, Michael certamente é um dos autores que melhor escrevem sob o ponto de vista feminino, o que dá empresta ainda maior veracidade a tudo que sai da boca de sua irmã.

Margo Timmins mudou a minha vida ao emprestar sua seriedade e serenidade como perfeitos contrapontos à porra-louquice de uma Madonna, por exemplo. (Não se engane, Madonna logo será estrela desta série e não havia como ser diferente). É uma outra classe de estrela pop. Há horas em que a gente quer ouvir uma mulher safada falando que gosta de apanhar na bunda. Em outras, nos identificamos mais ouvindo coisas como "estou tão só que poderia chorar". A banda de Margo deixou os recantos mais visíveis do showbiz há algum tempo, mas seu público é fiel e a adoração a Margo e sua voz seguem.


Antes dela, claro, já houve mulheres como Carole King, Joan Baez e Janis Joplin desbravando os ritmos de raiz dos EUA e partindo corações, mas Margo não tem aquela pinta de quem não raspa as axilas. Ela já teve um certo jeito hippie, mas, também, um ar de moça que está indo pra cidade grande e sabe que não pode deixar-se pisar ou enganar pelos crápulas que, inevitavelmente, cruzarão seu caminho. Num país e num meio artístico fértil em mulheres que pensam com a vulva (sim, como aquela cujo nome começa com "B" e termina com "eyoncé"), é confortador.

Para Margo Timmins mudar sua vida, ouça (e leia): "Misguided Angel", "200 More Miles", "To Love Is To Bury", "Sun Comes Up, It's Tuesday Morning", "This Street, That Man, This Life", "A Horse In The Country", "Ring On The Sill", "Come Calling (His Song)", "Lonely Sinking Feeling" e "Musical Key".

18/03/2008

Grandes Astros, Grandes Burradas

Grandes Astros, Grandes Burradas

Se liberdade criativa era o que Frank Miller queria e a linha All-Star da DC Comics oferecia, o combinado foi cumprido à risca. Quer dizer, pelo menos, a parte da liberdade: "criativa" não é bem o caso. Grandes Astros Batman & Robin é um primor de irreverência gratuita e de desrespeito a uma das mais poderosas iconografias das últimas décadas.

Frank Miller talvez estivesse tentando ressuscitar na memória afetiva dos leitores o seu Batman turrão de O Cavaleiro das Trevas (1985). No entanto, aquele era um personagem dos 50 para os 60 anos, cujo caráter endureceu após décadas de infrutífero combate ao crime. Daí a violência e o sarcasmo exacerbados. O problema deste Batman é que ele está em início de carreira e, por mais que possamos atribuir este comportamento a uma empolgação juvenil, até onde se sabe, o treinamento de Bruce incluiu períodos no Tibet e outras paragens new age, onde ele buscava aprimoramento mental e espiritual, tanto quanto físico. O Batman All-Star de Frank Miller é uma montanha de testosterona sem qualquer sutileza.

Existe ainda o problema do tratamento dispensado a Dick Grayson, o futuro Robin: por mais que se queira vê-lo durão, um "soldado", no fundo ele não passa de um menino de 12 anos que teve os pais assassinados na sua frente. Seu "treinamento" é limitado a passar fome e comer ratos. Como bandida-heroína-interesse-amoroso-relutante da vez, temos uma Canário Negro nada-a-ver, não mais do que uma Mulher-Gato que pia, ao invés de miar. Isso sem falar das participações nada especiais de uma deturpadíssima LJA (com o Superman no papel de marionete de uma Diana machona, mais um Hal Jordan banana e um Homem-Elástico sem graça) e de uma Batgirl até legal, mas que apareceu em duas páginas e acabou-se.

Apesar dos desvios de caráter dos personagens, o grande problema de verdade é a falta absoluta de um rumo para a série. Em sete (SETE!) edições, a história quase não avançou e pouca coisa realmente interessante aconteceu. A sorte de Miller é estar contando com um Jim Lee inspirado, que deixou o ego de lado aprendeu que os desenhos devem trabalhar para a história, e não contrário. Ele está particularmente feliz nas seqüências de violência, principalmente as que envolvem o Batman e sua sanha de quebrar dentes e costelas.

Há quem goste (afinal, fãs mais roxos aplaudem até peido), mas, apesar de alguns pontos favoráveis, o desagrado é quase consensual. Eduardo Nasi, do Universo HQ, enxergou que, por baixo da ruindade (proposital?) da história, existe uma crítica contundente à atual indústria de quadrinhos. Eu devo ser mesmo muito míope, burro ou completamente ignorante do que deve ser uma boa história em quadrinhos, porque só consigo enxergar um autor decadente e desorientado em sua busca pelo respeito perdido, deixando de cumprir, de modo negativamente espetacular, as expectativas criadas pela linha All-Star. Com alguma boa vontade, posso imaginar que seja uma crítica (deveras anacrônica) ao período de "glória" da Image Comics - mas, afinal, para que chutar cachorro morto? Podíamos ter passado sem essa, Frank!

12/03/2008

Vai trabalhar, vagabundo!

Vai trabalhar, vagabundo!

Foi algo assim que me gritou o que deve ter sido a minha consciência. Um autêntico chute virtual na bunda e um chega pra lá na auto-piedade, nessa coisa bundona de "nhééé... tô sem inspiração". Não só destilei os dois posts abaixo em tempo relativamente curto, como também dei uma bela adiantada em um trabalho universitário cujo início eu já adiava para perigosamente perto da data-limite.

Enfim, chega de preguiça. O morcego está de volta às atividades mais ou menos normais.

Não, eu não vou prometer que foi a última vez.

Os Maiores Super-Heróis do Mundo

Os Maiores Super-Heróis do Mundo

Você tem bons motivos para não comprar este álbum: ele tem preço elevado (variando entre R$ 100 e R$ 130), não traz histórias inéditas e é uma verdadeira overdose de Alex Ross, um artista virtualmente onipresente nos lançamentos da Panini desde 2002, seja em edições especiais, como alguns dos álbuns que compõem esta coletânea, em relançamentos como Reino do Amanhã, capas da Wizard e de títulos mensais, além de minisséries como Justiça e pôsteres. Longe de ser uma unanimidade, Ross tem fãs e detratores em proporção semelhante.

Por outro lado, também, há bons motivos para você garantir o seu: em várias lojas virtuais, o pagamento pode ser parcelado em até 10 vezes e o frete é grátis. Pode ser ainda a chance de, como no meu caso, completar a coleção de contos escritos por Paul Dini, visto que eu não comprei Superman: Paz Na Terra, quando lançada pela Editora Abril. Isso sem falar que o "formato Panini", aquele ligeiramente maior que o americano tradicional, é bem mais cômodo de carregar e de ler do que o formatão gigantesco anterior. No aspecto meramente físico, a edição vale cada centavo.

Deixando de lado os méritos gráficos de Alex Ross e da Panini, restam as histórias. A bem da verdade, nenhuma delas é supra-sumo de qualquer coisa. São histórias apenas corretas e, pelo menos, uma delas é um caça-níqueis da pior espécie, já que nem uma história é, de fato: LJA - Origens Secretas. Algumas resvalam em dramalhões meticulosamente tramados para arrancar lágrimas dos mais suscetíveis, auxiliados pelo realismo das imagens. Os pontos altos da coleção são Batman: Guerra ao Crime e LJA - Liberdade e Justiça. Os baixos são as histórias da Mulher-Maravilha e, infelizmente, a do Superman, também. A do Capitão Marvel transpira aquela inocência típica do personagem, o que a torna, no mínimo, sincera.

Entre prós e contras, é um lançamento dos mais importantes dos últimos tempos no mercado nacional, uma ousadia impensável em outros tempos. Um produto sedutor até para quem não é fissurado em quadrinhos, mas pode vir a encantar-se com a arte de Alex Ross e com a junção de tantos ícones em um único volume. Completam o álbum sketches sobre o processo de criação visual do artista e um pôster com uma capa tripla e uma quádrupla.

Como dito antes, não é o tipo de produto que mude a vida de um nerd ou de um leigo, mas fica bonito na sua estante e merece todo o destaque. Nota 8,5.

Mais e Melhores Blues

Mais e Melhores Blues

Desde que fiz aquele levantamento sobre meus arquivos musicais, algumas mudanças ocorreram. A mais importante delas é que a conexão da escola onde leciono saltou de 300 K para 1 MB, permitindo que eu baixe cds com maior rapidez e, por conseqüência, em maior quantidade. Enquanto espero alunos ou corrijo tarefas, sempre deixo algo baixando, de modo que quase sempre volto pra casa com 5 a 8 novos cds em meu pen drive.

A verdade é que eu já tenho mais música do que consigo escutar. Não é que eu pense em parar, mas bem que deveria. Afinal, não se escutam 600 cds assim, de uma hora pra outra.

Pois bem, vamos aos dados. O artista mais presente na minha discoteca de mp3 agora é o ultraprolífico Lulu Santos. O mestre do pop brasileiro emplacou nada menos que 20 cds. Em segundo está o U2 (16) e em terceiro estão Queen, R.E.M. e The Cure (14).

Quando a proporção de música estrangeira começou a aproximar-se do triplo de música nacional, acendeu-se a luzinha amarela e nasceu o meu medo das acusações de ser uma mente manobrável e colonizada pelo maligno império que fala inglês. Na verdade, eu não tô nem aí pra isso, mas me deu vontade de buscar mais músicas que dispensassem a tecla SAP. Mesmo assim, hoje ainda são 335 horas de músicas in English e 153 horas em português.

Nessa onda patriótica de que fui acometido, acabei baixando um CD do Marcelo D2, Meu Samba É Assim, que ficou algumas semanas sem que eu o abrisse. Quando, finalmente, resolvi fazê-lo, deixei rolar umas 4 faixas. Aí, foi me me dando aquele bode ouvir um cara falar tanto de si mesmo, querendo deixar bem claro como ele é fodão, não perdoa traíra, tem samba no pé e, ainda por cima, é o cara mais gente fina do planeta. Não é irônico que alguém cometa o pecado da vaidade ao alardear a própria humildade? D2, nunca mais. Shift+Del.

Para compensar, dois medalhões da MPB, Gilberto Gil e Moraes Moreira, contribuíram com dois dos mais bonitos Acústicos MTV já feitos por aqui, respectivamente de 1994 e 1995. Blitz, Cazuza, Barão Vermelho, Engenheiros do Hawaii e até Léo Jaime completaram a onda de saudosismo nacionalista.


Algumas mais gratas surpresas dos últimos tempos foram:

Version, de Mark Ronson (produtor de Back To Black, de Amy Winehouse). Puro soul moderno com cara de antigo, convidados ilustres (Lily Allen, Robbie Williams, a própria Amy) e versões inacreditavalmente sacudidas de "Stop Me..." (Smiths), "Just" (Radiohead) e "God Put A Smile On Your Face" (Coldplay).

Coco, de Colbie Caillat. Voz límpida e suave e repertório altamente assobiável. O mundo precisava de uma cantora assim: nem uma sapatão revoltada contra a opressão do mundo, nem uma cachorra que abana o rabo para bandido.

Supervielle, do Bajofondo Tango Club. Talvez você não saiba, mas está havendo uma renascença do tango, pelas mãos de gente como o Bajofondo e o Gotan Project. Certamente que nessa onda de "eletronizar" um ritmo tradicional há de pintar muita picaretagem, mas, por enquanto, o bailado mantém a classe - e o Bajofondo ganha por um nariz.


Logic Will Break Your Heart, do The Stills. Há algum tempo, "Changes Are No Good" fez parte de nossa seção de mp3. Pode ter certeza que "Love And Death" em breve será a próxima pinçada do disco de estréia da banda canadense The Stills - mas ele é todo tão bom que podia ser qualquer outra.


Grab That Gun, do The Organ. Por indicação do Paranoid Android, fui atrás do único cd dessa já finada banda canadense. É mais ou menos como se Morrissey e Robert Smith (do Cure) se casassem e tivessem cinco meninas. Além de papai e mamãe (?), dá pra reconhecer ecos de Joy Division. Ouça "Brother", "Steven Smith" e "I'm Not Surprised".

2008 já comparece com três lançamentos: Diamond Hoo Ha, do Supergrass; Detours, de Sheryl Crow; e Watershed, de k.d. lang.

Para encerrar, o Top 10 por ano de lançamento ficou assim:

2007
- 36,4 horas
2006 - 34,3 horas
1998 - 26,8 horas
1994 - 25,0 horas
1996 - 23,6 horas
2001 - 22,6 horas
2004 - 22,1 horas
2000 - 20,9 horas
1999 - 20,8 horas
1995 - 20,0 horas

05/03/2008

Tempo de Estio

Tempo de Estio

Amigos, eu não sei bem se o inimigo a combater é a preguiça ou a falta de inspiração, mas o fato é que há dias me pego pensando em algo para escrever neste abençoado espaço. Acontece que a) não me deparo com assuntos que pareçam dignos de uma abordagem decente, ou b) ponho-me a escrever e não fico satisfeito, deletando tudo a seguir.

Macaco velho na arte da blogagem, sei que não vai adiantar espremer as idéias e "forçar a espontaneidade" (sic), entregando artigos sem alma. Vocês merecem mais que isso - e eu posso fazer melhor que isso. Peço, então, que me desculpem pelo sumiço (que talvez se prolongue por mais alguns dias), na esperança de que meu sócio, o honorável Mestre Chang, possa divertí-los enquanto dura meu período sabático.

O Morcego vai, mas volta. Permaneçam fiéis.