19/05/2013

Corporação Batman Vol. 3


A passagem de sete anos do Grant Morrison pelo universo do Batman não foi uma unanimidade. Nem tudo que o escocês propôs foi bem aceito (ou entendido) por todos os leitores, mas uma coisa não se pode negar: ele sabe chacoalhar as coisas.

Morrison chegou ao bat-título principal em 2006, trazendo consigo algo que foi, durante anos, considerado parte de uma realidade alternativa (Elseworlds - Túnel do Tempo, no Brasil - era o nome dado às histórias em que os autores subvertiam os conceitos originais dos personagens): o filho de Bruce Wayne e Tália Al Ghul, gerado na história O Filho do Demônio (1987), de Mike W. Barr e Jerry Bingham. O garoto, chamado Damian, inteligentíssimo e de pavio curto, foi criado entre a Liga de Assassinos e demorou até que Batman infundisse em sua mente algum código moral (e, mesmo depois de sua "reeducação", Damian já matou, como Robin, pelo menos três vilões).

Também acabou, na "Era Morrison", o eterno papel de codjuvante de Tália perante o pai, Ra's Al Ghul. Durante décadas, ela era pouco mais que uma figura decorativa, sempre dividida entre a lealdade ao pai e o amor pelo herói. Desde que ressurgiu, Tália se vê desiludida de qualquer pretensão amorosa com relação a Bruce Wayne. Isto a levou a abraçar a causa do pai com fervor, até então, inédito (a ponto de, na busca pela derrocada da civilização, Tália e Ra's se tornarem inimigos).



Quanto ao Batman em si, Morrison o "matou" durante o evento Crise Final, em um confronto com Darkseid. Na verdade, ele foi lançado de volta no tempo. Em sua ausência, Dick Grayson foi o Batman, com Damian ao seu lado como Robin. Ao retornar, Bruce Wayne "saiu do armário" parcialmente, assumindo publicamente não que era o Batman, mas que era o responsável financeiro por suas operações. Com isso, foi anunciada a criação da Corporação Batman, uma rede de agentes inspirados pelo Morcego, escolhidos a dedo pelo próprio. Em sua maioria, personagens muito antigos, resgatados de uma edição de 1955 da Detective Comics e conhecidos como "Os Batmen de Todas as Nações".

Todos os inimigos que o Batman (Wayne ou Grayson) enfrentou durante estes anos pareciam ter por trás de si uma figura ou organização enigmática, chamada Leviatã. Inicialmente, o herói foi levado a crer que Leviatã era Jezebel Jet, uma socialite africana por quem se apaixonou durante os eventos da saga Descanse em Paz (uma trama para matar o Batman que corria paralelamente e acabou interligada à Crise Final). No final de Corporação Batman Vol. 2, porém, ficamos sabendo que Leviatã é, na verdade, Tália Al Ghul.

Neste terceiro encadernado (compilando as edições 1 a 6, já dentro dos Novos 52 da DC Comics, mais a edição de origens número 0), Tália coloca a cabeça de Damian a prêmio, por recusar-se a estar junto a ela e por ser o caminho mais fácil para atingir em cheio o coração do Batman. Ao mesmo tempo, a organização Leviatã cresce em tamanho e influência, impondo a Batman e seus aliados desafios mortíferos e deixando Tália mais próxima da realização de seus planos do que seu pai jamais esteve.



Como se passava praticamente desligada das demais bat-revistas, em suas primeiras edições Corporação Batman era quase farsesca, repleta de exageros e exotismos. Aos poucos, o tom foi mudando para uma sensação autêntica de urgência e suspense, que só se sente quando há um perigo realmente muito grande no ar. Leviatã é, com justiça, a vilã máxima da Era Morrison, uma vez que alguns outros nêmeses criados pelo autor, como o Dr. Porco e o Flamingo, eram pouco mais que esdrúxulos.

Ouso dizer que Corporação Batman é melhor do que a própria Batman, seja quando esta última ainda era escrita por Morrison, ou agora, pelo também ótimo Scott Snyder. Morrison foi extremamente hábil na caracterização da parceria de Damian com alguém que já esteve em seu lugar (Dick Grayson) e tem excelentes insights na complicada relação pai-filho que ele e Bruce tentam arduamente manter, apesar de suas histórias e suas divergências filosóficas frequentemente os colocarem em rota de colisão. Os diálogos perspicazes sempre foram uma marca de Grant Morrison e ele está especialmente afiado nestas páginas.

Na impossibilidade de contar que seu habitual parceiro Frank Quitely vá cumprir prazos sequer para um título, quanto mais para dois, Morrison está escudado por um "genérico" bastante eficiente. O traço de Chris Burnham é assemelhado ao de Quitely, apenas um pouco mais "sujo", mas é extremamente dinâmico e a segunda cena da primeira história é uma splash-page simplesmente matadora. Na última história, a edição 0 traz detalhes da origem da Corporação, com a bonita arte de Frazer Irving (Sete Soldados da Vitória).

Com a original Batman Incorporated prestes a ser cancelada na edição 13, teremos que aguardar alguns meses até o último encadernado, para que os eventos da Batman mensal da Panini alcancem o momento cronológico que culminará com o fim da passagem de Grant Morrison pelo bat-universo... e o fim de uma era para o Batman, em diversos sentidos. Aguarde e acompanhe, pois valerá muito a pena.

Corporação Batman Vol. 3 - Panini - 172 páginas - R$ 19,90.

16/05/2013

Daft Punk - Random Access Memories

 

Longe de mim querer bancar, nesta resenha, o especialista (ou o "grande fã") de Daft Punk. Isso provavelmente foi um erro, mas eu jamais dei tanta atenção assim aos "robôs" Thomas Bangalter e Guy de Homem-Christo, apesar de curtir muito pérolas pop do quilate de "Harder, Better, Faster, Stronger" e "One More Time". Os discos do duo francês estão no meu HD, mas eu jamais me dediquei à sua audição integral. Como disse há pouco, isso deve ter sido uma lamentável injustiça de minha parte.

Entretanto, minhas orelhas se levantaram em alerta desde que começaram a surgir as primeiras notícias sobre o novo disco do Daft Punk (então ainda sem nome) trazer participação de eternos gênios pop da estatura de Nile Rodgers e Giorgio Moroder.

Explico: Nile Rodgers foi a mente e a guitarra por trás de delícias dançantes da era disco (Chic, Sister Sledge), além de produzir e tocar em grandes momentos das carreiras de outros grandes artistas (Madonna, David Bowie e Duran Duran, entre outros). O produtor italo-germânico Giorgio Moroder tornou-se conhecido por suas colaborações com Donna Summer ("Love to Love You, Baby", "I Feel Love") e por trilhas sonoras tão ou mais famosas que os próprios filmes ("Flashdance... What a Feeling", de Flashdance; "Take My Breath Away", de Top Gun).

Tudo levava a crer que vinha coisa fina por aí. A boa impressão foi alimentada pelos interessantes vídeos de bastidores, em que os convidados (além de Rodgers e Moroder, o cantor e produtor Pharrell Williams; o vocalista dos Strokes, Julian Casablancas; os DJs Falcon, Chilly Gonzales e Todd Edwards; e o hitmaker dos anos 70 Paul Williams) falavam de como era estar trabalhando com os robôs e de suas ideias para o disco, sem jamais entregar muito. Por fim, a expectativa subiu à estratosfera com o breve vídeo-teaser de "Get Lucky" exibido durante o festival Coachella, entre aplausos entusiasmados da plateia, que aprovou o sotaque funk-disco da canção e a transformou em hino imediato da temporada primavera-verão do hemisfério norte.

O disco só chega oficialmente às lojas no dia 21 de maio, mas, seguindo uma estratégia amplamente utilizada hoje em dia, "vazou" na internet uma semana antes, fazendo a alegria dos fãs de carteirinha e de neófitos curiosos, como eu. Baixei o disco hoje e passei a tarde inteira ouvindo-o.

Veredito: Random Access Memories é MUITO BOM!



O primeiro single não mentia: o disco é todo uma grande homenagem à música de festa dos anos 70 e 80, na qual o Daft Punk priorizou a utilização de instrumentos de verdade - por isso as canções soam tão vivas, tão orgânicas, tão mais humanas que antes, mesmo com a (adequada) opção por vocoders em voga no período mencionado. Que não se pense, porém, que o DP fez um disco saudosista: tudo é polido com tecnologia de produção state-of-the-art e o que a dupla e seus convidados fazem é resgatar e atualizar um som que jamais sairá totalmente de moda, simplesmente porque precisamos de groove em nossas vidas.

Desde a abertura épica (com a carta-de-intenções "Get Life Back to Music") já temos noção do que nos espera: grooves musculosos conduzindo grandes melodias pop, em que sobressai a guitarra assombrosa e infalivelmente dançante de Nile Rodgers. O gênio da disco music participa em três faixas e sua assinatura (riffs faiscantes que parecem ligar qualquer canção em 220V) é prontamente reconhecível. Os vocais ficam por conta do carismático Pharrell Williams em duas delas: o monumento funk "Lose Yourself to Dance" e a impoluta "Get Lucky".

Giorgio Moroder comanda um épico de quase 10 minutos em que narra, com seu sotaque peculiar, seu método de trabalho e sua própria história, dos tempos de dureza em Berlin à glória nos clubes nova-iorquinos. Julian Casablancas tem seu vocal distorcido com autotune na suave joia pop "Instant Crush" e não é difícil imaginar como esta canção soaria com um arranjo dos Strokes. Espero que seja uma possibilidade aberta para Julian. "Touch", longa e climática, quase progressiva, tem vocais de Paul Williams. "Beyond", com opulenta introdução de cordas, é outra que leva sua assinatura. Perto do fim, "Fragments of Time" é mais um momento de perfeição pop, a cargo de Todd Edwards, que não ficaria esquisito num disco de Hall & Oates.

Canções e arranjos mais "anos 10" preenchem os espaços entre os momentos de rendição ao pop de décadas passadas, sem que, com isso, a unidade do álbum seja comprometida. Em poucas palavras, é um disco para se ouvir de ponta a ponta, com um sorriso de orelha a orelha, mãos para o alto e pernas nervosas. Um dos grandes lançamentos desta segunda década do século 21 e uma prova de que por baixo das máscaras robóticas batem corações festeiros, românticos e melodicamente refinados.

28/04/2013

Teste dos 20 Anos

GABRIEL O PENSADOR


Foi amor à primeira vista?
Enquanto os artistas da década anterior entravam em entressafra criativa ou franca decadência, uma leva enorme de novos artistas invadiu as rádios e TVs em meados dos anos 90. Gabriel chegou como um furacão: um cara jovem, muito articulado, com uma prosa afiada e indignada, num gênero (o rap) pouco difundido por aqui, na época. Não adiantou acusá-lo de "poser" (branco e abastado, ele não teria, segundo alguns, "credibilidade de rua"): "LôraBurra", "175 Nada Especial", "Lavagem Cerebral" e outras, com suas rimas precisas e samples matadores, conquistaram muita gente, inclusive a mim.

Ainda rola gostoso?
O tempo se encarregou de fazer expirar a validade dos temas de algumas canções, as batidas estão ultrapassadas e a empostação da voz de Gabriel incomoda um pouco. Mesmo que hoje pareçam mais ingênuas do que geniais (afinal, éramos todos 20 anos jovens), muitas letras de Gabriel continuam soando contundentes, principalmente em comparação ao vácuo intelectual que é a maior parte da atual produção musical jovem em evidência no país. Digamos que dá pra curtir metade do disco sem fazer cara feia.


LEGIÃO URBANA - O DESCOBRIMENTO DO BRASIL


Foi amor à primeira vista?
Os fãs já estavam até preocupados: quatro anos de espera entre As Quatro Estações e O Descobrimento do Brasil, já que Música p/ Acampamentos (1992) era pouco mais que uma coletânea, com pouquíssimo material inédito. Mas ali estava uma Legião diferente: bateria eletrônica e discurso agridoce na estranha faixa de trabalho ("Perfeição", que não me impressionou) e uma variedade instrumental até então inédita. Como não se derreter pela cítara da pungente "Love in the Afternoon"? O nada glorioso fim do amor que viveu, aliás, era o mote do disco, uma espécie de "volta por baixo" de Renato Russo, que demonstrava perceptível amadurecimento como letrista. Analisando bem, um disco capaz de integrar, com méritos, um Top 3 da Legião.

Ainda rola gostoso?
Difícil dizer. Ultimamente, ouvir Legião Urbana me dá um "bode" terrível. Não tenho mais tanta paciência com certos tiques de Renato e me pego indagando se ele era mesmo aquilo tudo que me parecia na época. Tudo isso, obviamente, também tem a ver com a megaexposição que a Legião viveu e o culto radical (e sacal) que muitos fãs prestam à obra da banda, desde antes da morte do vocalista, em 1996. Calado o ruído dos legionários xiitas, porém, a verdade é que, sim, o cara era muito bom cantando e compondo e este disco ainda é muito agradável de se ouvir. Pronto, falei. Eternos pontos altos: "Os Barcos", "Giz" e "Só Por Hoje".


MORRISSEY - BEETHOVEN WAS DEAF


Foi amor à primeira vista?
Depois de um disco que não cheirava nem fedia (Kill Uncle, 1991), Morrisey voltou à habitualmente gloriosa forma em Your Arsenal, no ano seguinte. Era preciso sacramentar a "ressurreição" com um registro ao vivo: Beethoven Was Deaf foi gravado no Le Zenith, em Paris, diante de uma multidão apaixonada, barulhenta e extasiada com a vigorosa performance praticamente rockabilly da excelente banda de Morrissey, em que se destacavam as duelantes guitarras de Alain Whyte e Boz Boorer. Ouvir este disco com fones de ouvido, uma guitarra apitando em cada orelha, era algo muito próximo da felicidade plena.

Ainda rola gostoso?
Ora, amigo(a), se há algo que se pode dizer sobre o bom rock & roll é que ele não envelhece, vira clássico. Não há quem diga que, após o fim dos Smiths, Morrissey não estava em boa companhia naqueles tempos: esta banda (completada pelo baixista Gary Day e o baterista Spencer Cobrin) é simplesmente SENSACIONAL e este disco ainda é uma das gravações ao vivo mais empolgantes e faiscantes que já tive o prazer de ouvir. Até os dois minutos de microfonia ao final da épica "The National Front Disco" continuam fazendo sentido. Era o meu Elvis particular em grande momento - e ainda é.


TITÃS - TITANOMAQUIA


Foi amor à primeira vista?
Não. Acostumados a ter a crítica a seus pés desde Cabeça Dinossauro (1986), os Titãs vinham do fracasso de Tudo ao Mesmo Tempo Agora (1991) e tentavam pegar uma tardia carona na onda grunge de Seattle. Para tal, contrataram o mesmo Jack Endino que produziu a estreia do Nirvana (Bleach, 1989). O resultado foi um disco com bem mais peso que o anterior e sem tanta escatologia, mas, estranhamente, aquilo me empolgou muito pouco, exceção feita à energética "Será que é Isso que Eu Necessito" e à impoluta "Disneylândia".

Ainda rola gostoso?
Um pouco melhor que antes. Continuo achando que alguns trabalhos vocais carregam uma agressividade artificial, pouco condizente com a história da banda até ali (e, falta grave, não tinha mais Arnaldo Antunes). Pelo menos, pode-se dizer que os Titãs haviam voltado a ser o dínamo de rock que a produção chocha do disco de 1991 meio que ocultou. A competência técnica da banda é inquestionável: os caras estavam mandando muito bem... Pena que num repertório tão pouco marcante. Depois vieram o pop de Domingo, os acústicos e as decadentes baladinhas românticas e de auto-ajuda.


U2 - ZOOROPA


Foi amor à primeira vista?
O lançamento de Zooropa foi discreto e, para mim, uma agradável surpresa, visto que a primeira cópia dele que tive foi presente de aniversário, dado pela minha irmã. E lá fui eu, todo contente, esperando encontrar algo minimamente parecido com o impecável Achtung Baby (1991). Mas os segundos passavam e aquela longa introdução de ruídos de "Zooropa", a canção, parecia não acabar nunca. Quando entra a guitarra de The Edge, alívio e arrebatamento. "What do you want?", perguntava uma voz aleatória. Ora, eu queria ouvir aquele disco lindo e estranho, sempre com mais atenção aos detalhes que não paravam de surgir, e sempre mais, e sempre de novo.

Ainda rola gostoso?
Estamos falando do disco menos comercial da história do U2, considerado uma "traição" pelo fãs mais intolerantes (e intoleráveis). Quem dera toda traição gerasse pérolas de beleza do quilate de "Lemon", "Stay (Faraway, So Close!)" e "The Wanderer". A única faixa que me parece não ter envelhecido muito bem é "Daddy's Gonna Pay for Your Crashed Car" (ficar datada parece o inevitável destino de toda canção muito eletrônica). Corrija-me se eu estiver enganado, mas 90% de eficiência, após 20 anos de bons serviços, me parece uma excelente média.

31/03/2013

Música Para Seus Ouvidos, Vol. 6


"Foram tantos os pedidos / Tão sinceros, tão sentidos..." Os versos da clássica "Zepelim" de Chico Buarque  expressam com perfeição a angústia dos ainda poucos, porém fiéis leitores do Catapop. A galera andava indócil não apenas por novas postagens, mas, também, por uma nova mixtape. É muito bacana perceber que tanta gente curte essas coletâneas!

Neste sexto volume da série Música Para Seus Ouvidos, busquei não separar tanto as coisas, como feito em alguns volumes anteriores. Rock, eletrônica e soul pop convivem em harmonia, com veteranos dividindo as luzes com expressivos novatos. Nem tudo é tão novinho e quem acompanha minhas postagens no Facebook certamente irá reconhecer algumas destas canções. Desta vez, não há brasileiros, mas eles voltarão no próximo volume.

Conheça as 15 faixas:




01 - Bryan Ferry, "You Can Dance"
O delicioso Olympia (2010) é um luxo só, com suas guitarras faiscantes, produção luxuosa e participações ilustres. Esta faixa já diz bem qual é a de Bryan Ferry: os melhores lugares, as melhores companhias e as melhores intenções (seeei...).

02 - David Bowie, "The Stars (Are Out Tonight)"
O camaleão não lançava um disco há 10 anos e pegou todo mundo de surpresa em janeiro (um feito e tanto, nesta era de spoilers e privacidade zero) com seu vigoroso The Next Day. Segundo single do álbum, ganhou clipe com a "gêmea" de Bowie, a atriz Tilda Swinton.

03 - The Magic Numbers, "You Don't Know Me"
Um dos destaques de A Tribute to Caetano Veloso (2012), esta cover dos Magic Numbers para uma das faixas mais populares do clássico Transa (1972) chama atenção pelo esforço do vocalista Romeo Stodart de cantar em (cof, cof) português e pelo belo apoio vocal de sua irmã, Michele.

04 - JC Brooks & The Uptown Sound, "Want More"
Faixa-título do CD de 2011 do grupo de soul/funk oriundo de Chicago. É música dançante old school e de alta combustão, a cargo de uma banda eficiente e de um vocalista energético e carismático. O novo disco, Howl, sai em meados de maio.

05 - Allen Stone, "Celebrate Tonight"
Um soulman branquelo, cabeludo e desajeitado que se define como "um hippie com soul". O disco de estreia de Allen Stone (2012) foi aclamado pela crítica americana e amparado por performances incendiárias em festivais e na TV. Ecos de Marvin Gaye e Stevie Wonder em toda parte.

06 - Tété, "Ritournelle"
Tété é um cantor nascido no Senegal e radicado na França, na ativa desde 2000, com uma agradável mistura de folk, pop e blues. Alguns o chamam de "o Jeff Buckley francês". Exagero ou não, o fato é que tudo que ouvi sempre desceu muito bem. Faixa do novo Nu Là-Bas (2013).

07 - Band of Horses, "No One's Gonna Love You"
O grupo americano de rock/folk fez uma canção de amor sublime em seu disco de 2007, Cease to Begin. Curiosamente, conheci-a primeiro na voz de Cee-Lo Green, que a gravou em seu The Lady Killer (2010). O ímpeto de cantar junto, de peito aberto, é sintoma recorrente.

08 - God Help the Girl, "Perfection as a Hipster"
A esta altura, você já deve saber que o GHTG nada mais é que o "Belle & Sebastian com mais meninas". Nesta faixa divertida, nostálgica e irônica, os vocais ficam a cargo de Catherine Ireton e do frontman do The Divine Comedy, Neil Hannon. Pop para o chá das 5:00.

09 - Iyeoka, "Simply Falling"
A multitalentosa nigeriana-americana Iyeoka escreve poemas, educa, canta e milita em causas diversas. Uma letra de suave desespero diante da inevitabilidade da paixão, guiada por uma linha de baixo hipnótica e um vocal competente e comedido. Do disco Say Yes (2010).

10 - Depeche Mode, "Heaven"
O DM lançou seu Delta Machine e já se vê garantido nas listas de melhores de 2013. Um obra-prima de melancolia, nota-se neste primeiro single que a voz de Dave Gahan já não é a mesma, mas, depois de tudo por que já passou, é um milagre e um alívio que ele esteja vivo.

11 - Revolver, "Do You Have a Gun?"
O êxito do Phoenix anda animando muitos grupos franceses a tentar o sucesso na língua dos seus históricos rivais. O Revolver é um deles. Enquanto eles fizerem isso com canções pop redondinhas e gostosas de ouvir como esta, do seu disco de estreia (2009), têm todo o meu apoio.

12 - Johnny Marr, "Upstarts"
The Smiths acabaram há 25 anos, mas Marr não ficou à toa neste tempo. Depois de anos tocando com gente como Pretenders, The The e Modest Mouse, ele decidiu que era hora de ter um disco com seu nome na capa. The Messenger (2013) mostra que ele ainda tem as manhas.

13 - Suede, "It Starts and Ends with You"
Longos 11 anos separam o novo Bloodsports do disco anterior do Suede, A New Morning (2002). A hibernação não tirou a classe ou o poder de fogo de Brett Anderson, Bernard Butler e cia. Um hino instantâneo, que justifica a hesitação da banda em voltar e a longa espera dos fãs.

14 - Rebecca Ferguson, "Nothing's Real but Love"
Confimando uma regra não-escrita, segundo a qual os perdedores dos reality shows musicais são os que realmente se dão bem no mercado, Rebecca saiu do 2º lugar no The X-Factor para as glórias do sucesso de massa, com um mais que digno disco de estreia.

15 - Soulsavers, "Take Me Back Home"
O projeto de produção e remix que une rock, eletrônica e gospel e já teve as ilustres gargantas de Mark Lanegan e Mike Patton a seu serviço, desta vez, chamou Dave Gahan (do Depeche Mode) para compor e dar voz a um punhado de canções belas e tristes, em The Light the Dead See (2012).

07/02/2013

Sem Rodeios




O direito à liberdade de expressão é garantido pela Constituição Federal. Quando alguém diz que não gosta de gosta de gays e que prefere manter distância deles, isso é uma opinião. Tudo bem, ninguém deve ser obrigado a nada. Entretanto, quando alguém prega que gays devem ser varridos da face da Terra (não importa se a tiros ou a "golpes de Bíblia") e, não satisfeito, passa a lutar sistematicamente contra a conquista de seus direitos civis, isto é discurso de ódio e não pode ser aceito, em hipótese alguma.

Não dá para engolir essa conveniente seleção do que pode ou não pode ser desconsiderado, por exemplo, no Levítico, o livro bíblico mais frequentemente citado pelos que combatem os homossexuais. Se temos que seguir o Levítico à risca, que o sigamos... mas isso nos levará a todos para a cadeia. Se formos ignorar os inúmeros estudos científicos que comprovam que ser homossexual é uma condição, inclusive genética, não uma "opção", de parte da espécie humana e, mais importante ainda, que não é uma doença ou falha de caráter, então, vamos logo assumir a barbárie e correr às armas.

Sobre discriminar e tentar "consertar" gays, com a desculpa de estar "apenas tentando preservar a palavra e a criação do Senhor" e que isso não equivale a tentativa de extermínio, aqui vão algumas palavras que devem ajudar a refrescar a memória de quem ainda acha isso válido: Cruzadas; Inquisição Espanhola; Conquista da América; Holocausto. Os "inimigos" nem sempre eram os mesmos, mas a perseguição, sempre de cruz em punho, sim. O resultado, também: o chão lavado de sangue.

A formação de famílias nunca esteve ameaçada pelos gays, justamente porque homossexuais sempre foram e sempre serão uma parcela minoritária da população. Se hoje parece que há mais gays do que nunca, isso não é uma "moda" inventada pela mídia, como puerilmente argumentam alguns críticos. É que hoje eles têm uma atitude mais positiva em relação a si e não sentem necessidade de esconder-se ou envergonhar-se do que são. 

Quem ataca aos gays como sendo uma ameaça à família se esquece de um fato muito simples de entender: gays não nascem de árvores. Não eclodem de vagens. Não se materializam a partir de nuvens de purpurina. Gays vêm de famílias! Têm pai, mãe, irmãos - e, pasme, gostam disso e querem ser felizes em suas famílias!

Outra coisa: ter pai e mãe nunca foi garantia de felicidade ou boa formação para ninguém. Existem pais e mães bons e maus, famílias felizes e infelizes, mas isso pouco tem a ver com a mera presença de papai e mamãe, mas, sim, com sua capacidade de dar amor e ensinar valores e limites. Os que temem que gays que adotam crianças criem filhos gays, se esquecem de que estes pais e mães gays certamente foram criados para serem héteros - mas, não o são. Paciência. Acontece nas melhores famílias e não precisa gerar sentimento de fracasso ou vergonha nos pais.

As nações socialmente mais desenvolvidas do mundo são justamente algumas das mais progressistas. Nelas, os direitos civis dos gays são assegurados e isso não está sequer em discussão. Isso acontece porque eles entenderam, bem antes de nós, que a fé e a intimidade alheias não são da nossa conta e que existem problemas de verdade esperando soluções. Em contrapartida, boa parte das nações teocráticas, aquelas em que se usa a palavra de Deus para tolher liberdades individuais e amedrontar a população, são modelos de atraso, desrespeito aos direitos humanos e fontes de êxodo para nações mais liberais.

O Brasil precisa escolher bem o modelo que pretende seguir.

22/01/2013

Astronauta: Magnetar


O que vou dizer agora pode parecer meio deslocado, mas é pertinente: estradas vicinais me encantam. Em termos de aventura e de descoberta, considero mil vezes mais interessante embrenhar-me por uma estrada rústica, sem a menor noção de onde ela possa terminar (porque, para mim, a graça está em percorrê-la), do que acelerar no tapete de asfalto de um caminho já percorrido. Ao viajar por uma rodovia, meus olhos são sempre atraídos por estradinhas de terra que somem num curva, algumas dezenas de metros adiante, por trás de algum morro ou matagal.

Este fascínio por trilhar caminhos desconhecidos e ir cada vez mais longe é partilhado com o Astronauta, criação de Maurício de Sousa que completa 50 anos em 2013. No universo tradicional da Turma da Mônica, o Astronauta vive aventuras cômicas e reflexivas, a um só tempo. Singrando o espaço sideral em uma nave redonda como seu uniforme, ele vai fazendo contato com seres estranhos e vendo coisas que ninguém mais vê, sem deixar de sentir aquela pontadinha de saudade da Terra, onde ficou Ritinha, seu grande (e perdido) amor.



A linha Graphic MSP é fruto direto das edições comemorativas MSP 50, MSP +50 e MSP Novos 50, em que diversos artistas nacionais, entre os internacionalmente consagrados e alguns desconhecidos do grande público, deram sua visão particular da obra de Maurício de Sousa. Um grande sucesso de crítica e de vendas. Depois de dominar o mercado de quadrinhos para crianças e adolescentes (A Turma da Mônica Jovem é hoje o gibi mais vendido do país), esta nova linha inaugura a ambição dos Estúdios MSP de aproximar-se do púbico adulto.

Em Magnetar, o Astronauta se vê diante do fenômeno cósmico que dá nome à revista. Em resumo grosseiro, é um dos estágios finais da "vida" de estrelas superdensas (a história traz uma explicação detalhada de como tudo acontece). Enquanto coleta dados, porém, ele enfrenta os perigos da proximidade com o magnetar e tem sérios problemas com sua nave, ficando aprisionado no pequeno asteroide em que havia pousado. Em total solidão e enfrentando as privações do mais hostil dos ambientes, o Astronauta tenta encontrar um jeito de sair dali e preservar a própria sanidade.



A abordagem do roteirista e artista Danilo Beyruth funciona muito bem, seja em termos narrativos ou visuais. O roteiro de Magnetar fala de Astrofísica sem ser maçante e de contato humano sem ser piegas, uma vez que as lembranças que o Astronauta tem da Terra são, simultaneamente, sua força e seu calcanhar-de-Aquiles. Os temas do naufrágio (ainda que espacial) e da superação de limites são bem tratados e, se há alguma queixa a fazer, é que a história se encerra justamente no ápice da vontade de ler mais.

Demorou até que eu resolvesse apostar meus suados reais na HQ, mas valeu a pena. Por um preço camarada (R$ 19,90), a edição de bancas tem 80 páginas em luxuoso papel couché. Há uma edição para livrarias, em capa dura, por R$ 29,90. Astronauta: Magnetar não é um evento transformador de vidas, mas é uma HQ digna do investimento. Um belo pontapé inicial numa coleção que prestigia talentos nacionais e promete empolgantes surpresas, como se vê na lista de próximas edições: Turma da Mônica (de Vitor e Luciana Cafaggi), Chico Bento (de Gustavo Duarte) e Piteco (de Shiko). Aguardo ansioso!

22/12/2012

Por Onde Andei, parte 3


Itumbiara


Meus pais se separaram em 1995. No começo de 1996, impelida pelo desejo de uma vida nova longe de meu pai e atraída pelas animadoras notícias de uma amiga que lá tinha ido viver, minha mãe decidiu tentar a sorte em Itumbiara, no sul de Goiás. Logo em seguida, foi a vez de meus irmãos. Em agosto daquele ano, tendo perdido meu emprego em Salvador, foi a minha vez.

Embora o sul goiano seja um eldorado para muita gente, nossa adaptação não foi nada fácil. Primeiro, os negócios em que minha mãe investia simplesmente naufragavam, após um tempo. Com Marcel ainda em idade estudantil, Marcone ainda verde no mercado de trabalho e eu desempregado, as coisas começaram a ficar sinistras. Para não aborrecer ao leitor com detalhes, basta dizer que nunca antes tínhamos passado e nem voltamos a passar uma pindaíba tão grande, a ponto de dormirmos os quatro (e mais um amigo nosso, Pedro Henrique) no único quarto da casa que alugávamos. Privacidade era um sonho.

Mais eis que, em meados de 1997, surgiu uma oportunidade na linha de produção de óleo de soja da Caramuru Alimentos. Pra alguém acostumado a escritórios, talvez "não pegasse bem" trabalhar de uniforme cinza e botinas em um serviço tido como "braçal", mas te digo que foram três meses excelentes, nos quais eu aprendi a jogar o barulhento truco e conquistei bons amigos. Um deles, Rone, me convidaria, alguns anos depois, a ser seu padrinho de casamento.

Com a promessa de um emprego mais vistoso no escritório de webdesign onde Marcone trabalhava, eu acabei pedindo delisgamento da Caramuru, mas a coisa não foi bem e eu me vi desempregado novamente. Foi quando meu pai me chamou para viver com ele por um tempo em Igarité, um vilarejo a meio caminho entre Ibotirama e Barra. Um pedaço esquecido de mundo que ele adotou como lar e onde fiquei até o final de 1998.

No começo de 1999, meu já mais que razoável domínio de inglês me levaria a ingressar na profissão que me sustenta desde então. Paulo Germano, professor egresso do CNA onde Marcone estudava, iria abrir uma franquia da então pequena Wizard em Itumbiara e me contratou com base apenas no que meu irmão falava de mim e numa conversa que tivemos por telefone. Naquele janeiro, eu conheci algumas das pessoas que mais me ajudaram e me valorizaram nesta vida. Espero ter feito por Paulo, Neuza e seus filhos, Matheus e Paula, ao menos metade do que lhes seria justo receber, em retribuição por toda a amizade que me dedicaram.

Acho que é de bom tom agradecer aos meus primeiros alunos pela paciência que tiveram com este professor bastante estressadinho, naquele tempo. Sabe como é, quem nunca comeu mel, quando come se lambuza. É assim quando a gente ganha certo poder, de repente. Comparada à postura cool que adoto hoje, meu rigor para com os alunos (verdade seja dita, temperado com uma doçura e sociabilidade que eu, ex-adolescente recluso, não sei de onde tirei) me conquistou tantos fãs quanto detratores. Havia quem me amasse e quem não quisesse passar nem perto de uma turma minha. Obviamente, muitos destes alunos eram, também, verdadeiros testes à paciência de qualquer Jó, então, acho que ficou tudo elas por elas. Ossos do ofício, seja de professor ou de aluno.

Logo nos primeiros meses como professor, fiz duas das amizades mais interessantes e prazerosas que já tive. Nenhum deles era professor ou aluno da Wizard, e sim do CNA, mas, devido à amizade com Paulo e ao seu amor pela língua britânica, Alexandre e Marcelo estavam sempre por lá. Uma vez que partilhávamos de vários gostos musicais em comum, nossas conversas fluíam noite adentro com uma facilidade tremenda. Éramos presenças constantes, um na casa do outro. Da mesma forma que concordávamos efusivamente, discutíamos acaloradamente quando nossos credos divergiam, principalmente com Alexandre, criatura de opiniões polêmicas. Marcelo era incapaz de levantar a voz, mas sabia encerrar discussões com alguma tirada genial que nos desarmava em risos. Aprendi muito com esses dois e gosto de saber que eles continuam, em essência, as mesmas pessoas.


Em 2001, eu despiroquei e decidi ir pro Rio de Janeiro. Voltei poucos meses depois. Falo mais disso daqui a pouco.

Ao voltar pra Itumbiara, as coisas estavam diferentes. O casal que me havia contratado agora estava separado, Paulo havia deixado a cidade e a administração da escola estava nas mãos de Neuza. Ela era esforçada, mas as coisas não foram muito bem, infelizmente. A franquia trocou de mãos mais uma vez e Izabel Tonetto me manteve em sua equipe até o final de 2004, quando anunciei que desejava voltar para a Bahia.

Itumbiara é uma cidade com cerca de 100 mil habitantes, bastante agradável em sua tranquilidade. Naquele tempo, tinha bem menos opções de lazer do que provavelmente tem hoje. Como toda cidade cheia de agroboys, muito do que chamavam de "diversão" era reunir-se na bonita Avenida Beira Rio e disputar quem tinha o carro com som mais alto tocando a pior música. Para meus ouvidos, esses seis anos em Itumbiara foram um tormento: eu jamais consegui gostar de música sertaneja, um mínimo que fosse. Pra piorar, eles curtiam o axé genérico horroroso made in Santos (Axé Blonde, Tchakabum e por aí vai). Ser baiano me comprava certa simpatia imediata dos locais (ainda mais porque, acredite, naqueles tempos de É O Tchan, eu tinha samba no pé), a exemplo de Mateus, gente boníssima, um cara que praticamente nos adotou como irmãos. Quando você xinga a mãe do seu amigo e ele adora isso, você só pode supor que tem amor demais rolando aí. =)

Um saudade GRANDE: a culinária mezzo goiana, mezzo mineira. Não foi à toa que todo mundo lá em casa engordou feito porcos na ceva. Foi em Itumbiara que comi as pamonhas mais gostosas que existem, a delícia chamada galinhada e minha primeira carne de fumeiro, além de abobrinha e milho verde refogados no alho. Duas particularidades: goianos amam arroz mais do que a própria vida; e também parecem gostar de pimenta mais do que baianos. TUDO leva pimenta naquela terra!

Em 2005, tendo enviado currículos para as unidades da Wizard em Salvador e Alagoinhas, esta última me fez uma proposta interessante e saiu vitoriosa na "disputa" (haha!). Malas prontas, eu estava voltando às minhas origens... ou, pelo menos, a meros 75 km de distância delas.


São Gonçalo


Todo mundo faz (ou deveria fazer) suas loucuras na vida e mudar para São Gonçalo (RJ), em 2001, foi uma das minhas. O que talvez pouca gente saiba é que ela foi motivada por amor. Não entro em detalhes, porque isso envolve pedir autorização a alguém que pode não querer seu nome exposto - e, sinceramente, tanto tempo depois, não faz sentido ficar revirando demais um simbólico baú de recordações. Se você faz muita questão de saber, foi muito bom e valeu muito a pena. Durou pouco, porém.

Não tenho muito a falar sobre São Gonçalo em si. Ou, pelo menos, não há muito em São Gonçalo que me estimule a falar dela. Eu a achava feia, sem graça e mal-cheirosa (principalmente quando o ônibus que me levava à vizinha Niterói passava próximo a uma fábrica de sardinha em lata, quando o fedor de peixe nocauteava os mais sensíveis). A casa que eu dividia ficava numa rua com boa frequência de ônibus, o que já era um alívio. Tinha supermercado, farmácia, locadora, bar (hooray!) e a quadra da escola de samba Porto da Pedra, tudo bem perto. Estruturalmente, já vi piores.

Meus vizinhos mais próximos eram pitorescos. Uma delas era uma senhora bastante pacata que tinha uma filha adolescente no esplendor da piriguetagem funkeira. Não era raro vê-la na esquina, em poses características, mandando ver coreografias "sensuais" ao som de Tati Quebra-Barraco e outras "damas" e "lordes" desse assim chamado genêro "musical" (todas as aspas muito necessárias). Dividindo uma parede conosco, um casal chamado Maurício e Michele. Ele, um banana apaixonado e ela, uma onça estressada. As brigas (sempre apenas verbais e nunca realmente agressivas) pareciam acontecer dentro da minha sala.

- Por que você não gosta mais de mim, Michele?
- Não é iiiiisso, Maurííííício, não tem nada a ver com gostar ou não gostar, eu só não quero mais ficar aqui contiiiiigo! (Michele tinha um jeito bem particular de prolongar o som do "i").
- Eu não vou aceitar isso, não, Michele!
- POBREMA TEU!

Era assim, e daí pra baixo. Chegava a ser divertido, confesso!

Eu trabalhava na Wizard do bairro Fonseca, em Niterói, esta sim, uma cidade bem agradável - ainda que perigosíssima, pelo que contavam. Tive excelentes chefes e colegas de trabalho, mantenho contato com alguns deles via Facebook e lamento por não encontrar outros ali, bem como certos alunos que foram bastante legais comigo. Tendo sido uma experiência tão breve, acredito ter deixado poucas impressões, fossem boas ou más, nos alunos que tive, exceto por uns gatos pingados que ainda estão por aí, ao meu alcance, e que falam com certa saudade daquele tempo.

Niterói era uma alternativa praieira à capital, embora esta ficasse apenas a uma breve viagem de barca pela Baía de Guanabara. As praias urbanas eram impróprias ao banho, mas as oceânicas, embora distantes, compensavam a longa viagem com seu mar gloriosamente esverdeado.

O Rio também foi destino relativamente frequente. Mesmo gozando, desde aquela época, da fama de cidade violenta, a verdade é que, em cerca de sete meses circulando por ali, jamais vi qualquer incidente violento acontecendo perto ou longe de mim - e olha que, por vezes, eu ficava na noite até bem tarde. Era tudo tão bonito e tranquilo que só me restava concordar com Gilberto Gil: "o Rio de Janeiro continua lindo". O problema do Rio era que muita gente não era digna do pedaço de chão onde pisava. De forma semelhante a Salvador, o melhor e o pior do Rio podem ser o mesmo povo.

Nesse curto período, também pude conhecer um pouco da Região dos Lagos e da Baixada Fluminense. Tomei cervejadas homéricas e me diverti à beça com pessoas excelentes, fosse onde fosse. Quando eu deixei o Rio em direção a Goiás, em janeiro de 2002, estava resoluto... mas isso não me impediu de derramar algumas lágrimas pelo que tive, pelo que perdi e pelas grandes coisas que aprendi nesta minha breve, mas radical experiência de mudança.


Alagoinhas


Quando o ônibus da extinta Catuense me trouxe de Feira de Santana para Alagoinhas, entrou por um pedaço bastante mal-cuidado da cidade. Lá dentro, mal impressionado, eu pensava: "que diabo eu vim fazer aqui?"

Alagoinhas fica a cerca de 110 km de Salvador e a 75 km de Feira de Santana. Embora tenha fama de "capital da laranja", a cultura de citros já perdeu há tempos a relevância econômica. A cidade hoje vive muito mais da cultura de eucalipto para produção de celulose e de diversas indústrias de bebidas, devida à alta qualidade da água em seus lençóis freáticos. O comércio também cresceu a olhos vistos, desde que cheguei aqui.

Era o dia 8 de fevereiro de 2005 quando desci de um táxi na frente da Wizard Alagoinhas. Calhou de ser aniversário de Dona Helena, a zeladora que me chama de "meu filho" e faz o café mais gostoso que há, responsável por viciar gerações inteiras de alunos no seu "pretinho". O café de Dona Helena é bom até quando não é bom.

Depois de passar cerca de três meses em um pensionato (uma experiência que prefiro esquecer, com toques de comédia e suspense ruins, com direito a velhinha fofinha que vira velhinha sinistra, comida estragada servida de propósito e coisas do tipo), me mudei para um apartamento com vista para o bar, que em noites de quinta-feira tinha música ao vivo e ficava animadaço. Não dava pra dormir antes de meia-noite, mas quem é que queria dormir, mesmo?

Uma coisa une Alagoinhas e Itumbiara, mesmo tão distantes: o péssimo gosto musical médio dos seus habitantes. Se lá em Itumbiara eu sofria com sertanejo, axé classe Z e funk carioca, aqui na Bahia a coisa me atacou em três outras frentes: forró eletrônico, pagodão pornô e arrocha. É um suplício, aliviado apenas pela surpreendente quantidade de pessoas que, como eu, se recusam a abrir as simbólicas pernas dos seus ouvidos para toda esta m*rda.


Meu trabalho na Wizard começou meio tenso. Herdando turmas de outros professores cedidas a mim, não me preparei com o devido cuidado para lidar com as tensões naturais que surgem da preferência de seus alunos por seus antigos "ídolos" (os professores originais). Meus critérios avaliativos não foram bem aceitos por alguns alunos e acabei passando por situações bastante desagradáveis com eles e com seus pais. Com o tempo, os conflitos foram diminuindo, mas houve casos em que a muralha de resistência só foi amaciada após o fim da relação professor-aluno. De novo: ossos do ofício. Paciência.

Pelo menos, havia o consolo de que meu entrosamento com os colegas foi rápido e tranquilo (embora não livre de percalços), especialmente com Fabiano, um irmão-de-armas no gosto pelo rock & roll e pela cerveja em quantidades generosas; Girlande, ou apenas Gil, com seu espírito cosmopolita e empreendedor e sua tremenda facilidade para rir de minhas besteiras; e Cristiane, uma rocha em sua aparente fragilidade, alguém cuja força de princípios eu tenho como inspiração.

Natural e felizmente, as coisas foram mudando para melhor. De novidade temida, passei a "ídolo" com "fã-clube", também. Alguns dos meus alunos acabaram virando colegas de profissão e muitos outros são hoje amigos bastante queridos. De certa forma, pode-se dizer que "enterrei meu umbigo" em Alagoinhas. Afinal, já estou aqui há oito anos, mais tempo do que passei em qualquer outro lugar, nos últimos vinte anos. Estou comprando residência aqui. Isso deve querer dizer algo sobre meus sentimentos em relação à cidade, mesmo que não seja algo no nível "morrer de amores".

Fica fácil gostar de Alagoinhas quando se chega amparado por tanta gente boa que me cerca desde que aqui cheguei: Eva, Gomes, Neto, Marília, Beth, Carmen, André, Alex... Gente demais pra todos terem seus nomes citados, sem que eu corra o risco de ser injusto esquecendo alguém. Tive meus desencantos, senti e provoquei raiva em alguns, mas, passada a régua, tenho um grande apreço por todas estas pessoas, que ajudaram e ainda ajudam a escrever um capítulo muito bonito e importante na minha história.


"Puxadinho": Muritiba


Não, eu nunca morei em Muritiba. A primeira vez que fui lá tem menos de dois anos e a última, se não me falha a memória, foi apenas a quinta. Por que, então, Muritiba mereceria ganhar um "puxadinho" neste texto?

Era uma vez Duda, um psiquiatra de Salvador que me seguia no Twitter (culpa de um retweet de William Bonner). Calhou de ele clinicar aqui em Alagoinhas, nos conhecemos pessoalmente e ficamos amigos. Através dele, conheci seus sobrinhos Rodrigo e Rafael, residentes em Muritiba. Certa vez, fomos passar um fim de semana com eles, circulando ainda por Cachoeira e Maragojipe. 

A empatia e a simpatia entre nós foram imediatas, porque eles são uns lindos e eu sou um lindo, e os lindos se reconhecem. Eu os adotei como "sobrinhos emprestados", eles me adotaram também e, através deles, tenho conhecido uma enorme quantidade de pessoas gentis, inteligentes, divertidas e interessantes (sem mencionar que são, também, pessoas lindas, eróticas e tesudas). Gente como Thiago, Heros, Ghabi, Cissa, Léo, Fábio e muitos outros. 

Não sei o que tem na água do Rio Paraguaçú pra esse povo ser assim, mas sei que gosto cada vez mais de ir a Muritiba e das pessoas que ali conheço. Vixe, será que Muri, um dia, vai abrir o quarto capítulo desta série? =)

19/12/2012

Diário de um Imbecil Digital



Querido Diário,

Hoje eu acordei me sentindo muito bem. Logo depois do café da manhã que eu fotografei para o Instagram (era o mesmo café de sempre, mas eu adicionei uns efeitos diferentes à foto e ficou joinha), fui dar um afago no meu dog. Isso me fez lembrar de postar no Facebook, logo após meu "bom dia", que "quanto mais eu conheço as pessoas, mais gosto do meu cachorro" (acho que foi Caio Fernando Abreu que disse isso, se não me engano). Alguns amigos me chamaram de mané logo em seguida. Como as pessoas podem ser tão insensíveis? Pra acalmá-los, eu posto um monte de mensagens positivas sobre amor e amizade verdadeira, porque eu sou bom filho, bom amigo, bom namorado e sou muito humilde, também. Aí começam a me chamar de contraditório. Não entendo isso, por que as pessoas nunca estão satisfeitas? Pra encerrar a discussão, coloco uma foto de Jesus dizendo: "quem ama a Jesus, compartilha; quem odeia a Jesus, só olha". A foto ganha 259 curtidas e 798 compartilhamentos em cinco minutos. Ainda bem que pelo menos a Deus esse povo ainda respeita.

Durante o trabalho, depois de saudar a meu gerente com meu sorriso mais sincero, eu aproveito para entrar no Face mais uma vez. É apenas segunda-feira, mas acho que a galera vai gostar de saber que eu já tô contando as horas para a sexta-feira. Escolho a foto com o bebê mais fofo que encontro e ponho a legenda "chega logo, sexta, chega logo!".

Logo em seguida, no intervalo do almoço, a galera vem discutir o futebol de domingo. A conversa me anima a postar umas montagens mega-esclarecidas que encontrei, falando sobre como o time campeão (que não era o meu) só chegou ao título através de manobras escusas com a CBF, a Globo e outros patrocinadores. E daí que eles jogaram bem e fizeram gols legítimos? Isso, qualquer um faz. Tava na cara que foi tudo armação! Ainda bem que tenho amigos tão antenados quanto eu pra me alertar pra esperteza maldosa que existe no mundo!

Aproveitando que, esclarecido que sou, falei que Galvão era um saco, decidi postar uma série de cartazes legais sobre como a Rede Globo manipula as mentes das pessoas. Tem que ser muito ingênuo pra achar que novela é mero entretenimento, fala sério! Olha essa "Salve Jorge", velho: os caras estão ensinando todo o esquema pra traficar mulheres, a Globo só dá mau exemplo! Além do mais, essa saudação do título é coisa de macumbeiro, Deus me livre e guarde! Eu assisto a essa e às outras novelas sempre que posso, mas que fique claro: é só pra saber o que está acontecendo pra poder dar um toque à galera que não é tão ligada. Nem todo mundo tem o meu nível de discernimento, saca?

A tarde de segunda vai se arrastando e o Face vai meio chato. Aproveito pra entrar no site do pastor Silas Malafaia e dar meu apoio à proposta que permitirá a cura gay pelos psicólogos. Eu não odeio os gays, cara, fui criado no amor de Cristo, mas não sei como eu reagiria se levasse uma cantada de outro homem. Talvez ficasse violento, mas, nesse caso, o cara que provocou, né? Aí, pro cara não tentar de novo, eu teria que dar uma lição que ele não fosse esquecer. Lógico que logo ia aparecer uma cambada de bichonas me xingando de homofóbico, mas o que eles precisam entender é que este é o preço do estilo de vida que escolheram. A sociedade não pode admitir uma ditadura gay, cara. Tem gay em todo lugar agora! Se permitirmos que gays se casem e sejam felizes, o que será da sociedade? Tá, tá, tá... Eu sei que gays existem desde sempre e contribuem para a sociedade trabalhando e pagando impostos, igualzinho aos héteros, mas não mude de assunto, senão eu perco minha linha de raciocínio.

Por fim, chega a noite e, de volta em casa, eu descubro um vídeo genial pra divulgar pra galera! Vejo que vários de meus amigos já divulgaram ele antes, mas acho que posso dar uma forcinha, a galera sempre curte muito essas coisas cômicas! Sabe, tipo "Para Nossa Alegria"? Tomara que apareçam muitas versões bem maneiras da mesma coisa, quero ser o primeiro a postar cada uma delas! Só que agora é a hora em que a academia tá mais cheia de gatinha, então, eu vou pra lá. Por isso, meu último recado é o já tradicional "#partiu academia". O celular vai comigo, dá pra tirar umas fotos maneiríssimas na frente do espelho, tensionando o tríceps.

Quando chego da academia, vejo uma coisa horrorosa, cara: algum filho da puta espancou um cachorro até a morte, as vísceras do bicho ficaram à mostra, uma coisa terrível! Como tem gente cruel nesse mundo! Compartilho imediatamente, claro. Eu sei que tem gente que está jantando a essa hora e a foto pode incomodar um pouco, mas isso não me segura. Se a gente não faz alguma coisa concreta por um mundo melhor, quem é que vai fazer? Como meu coração tá muito mole depois disso, eu acabo encaminhando dezenas de fotos de bebês sofrendo com deformidades, os pobrezinhos. Que bom que, a cada compartilhamento, o Facebook doará R$ 0,05 a cada um deles. Aparecem uns idiotas, nos comentários, dizendo que várias daquelas crianças já estão mortas e que muitas dessas fotos são farsas que já circulam pela internet há uns 15 anos, mas o que importa é o gesto, cara. É assim que eu consigo dormir tranquilo.

Por falar nisso, tá na minha hora, Diário. Amanhã é terça, faltam só mais três dias pra sexta. Boa noite! #partiu!

10/12/2012

Baby Consuelo: Tinindo, Trincando


Ao ver sua mãe protagonizar um espetáculo deprimente no Carnaval de Salvador deste ano, quando ela botou na rua um deslocado trio elétrico gospel que não arrastou ninguém atrás de si, devem ter rolado algumas lágrimas dos olhos de Pedro Baby. Em outros tempos, Baby cantava para uma Praça Castro Alves abarrotada de gente. Ultimamente, era mais conhecida como uma ex-roqueira doidona que virou uma evangélica doidona. E só. "Minha mãe merece mais que isso", deve ter pensado Pedro, guitarrista exímio, acostumado a acompanhar figuras da MPB contemporâneas da sua mãe e que não padecem no ostracismo.

Foi por um pedido de Pedro que Baby Consuelo (recuso-me a chamá-la pela apática e genérica alcunha "do Brasil") decidiu voltar aos palcos e a história de como isso aconteceu rende uma das conversas mais divertidas do show Baby Sucessos. Neste diálogo com o público, fica claro que Baby não abriu mão de suas convicções cristãs, mas soube harmonizá-las com seu passado e temperá-las com algo que falta a 9 entre 10 cristãos radicais: bom humor.

Porque, como bem diz ela nessa hora, Deus sempre esteve ali, em suas músicas, de diversas maneiras. Na menina que dança. No pensamento das flores. No dia do índio. Foi preciso que seu filho lhe mostrasse que ela não precisava ter vergonha da própria carreira, nem tentar converter o mundo inteiro à sua religião e, muito menos, amargar solidão e esquecimento no meio musical.


O principal trunfo da turnê de retorno de Baby, portanto, é o fato de que ela está se divertindo imensamente com tudo isso, talvez até mais do que nós, na plateia - e, olha, você precisa saber que eu me diverti muitíssimo na noite do dia 9 de dezembro, na Concha Acústica do Teatro do Castro Alves, em Salvador. Quem não foi, perdeu a oportunidade de ver a História musical deste país em andamento, recuperando, para um público misto de velhos fãs das décadas de 70 e 80 e jovens adultos curiosos com seu ressurgimento, a importância de uma figura ímpar.

Se houve algo para não gostar, me antecipo logo em dizer que foi a ausência de "Brasileirinho", na qual eu esperava vê-la cantando em ritmo aceleradíssimo, enquanto Pedro Baby debulhava sua guitarra, ao estilo do pai, Pepeu Gomes. Aliás, que se diga que tudo em Pedro Baby vale por um teste de DNA: a cara é a da mãe, mas a voz, a postura de palco e o talento para esmerilhar a guitarra são do pai. Não se surpreenda se ele virar um guitarrista ainda mais notável que Pepeu.

A banda que a acompanha inclui prole de gente como João Donato e Paulinho Boca e até um remanescente da Banda Black Rio no trombone. A amizade e o clima "família" da turnê foram essenciais para Baby aceitar o convite de Pedro. O que não quer dizer que eles estejam ali por outra razão que não seja o talento: afiadíssima, a banda deu a Baby um suporte muito seguro para ela construir suas melodias, algumas das quais soando ainda bastante modernas.

O repertório contemplou os grandes sucessos da sua carreira "mais ou menos solo" (já que ela e Pepeu faziam quase tudo juntos) e não faltavam hits para levantar o povo que quase lotou a Concha: a abertura com "Planeta Vênus" (do ex-marido), "Telúrica", "Cósmica", "Sem Pecado e Sem Juízo", "Um Auê com Você"... Durante "Menino do Rio", Caetano Veloso subiu ao palco para uma participação, mas sua voz, talvez devido a alguma dificuldade técnica, soava muito baixa. Juntos, eles ainda emendaram "Acabou Chorare".


O tempo que a carioca Baby passou entre os Novos Baianos foi lembrado com especial carinho e reverência, até pela presença de muitos deles ali. Bem próximo ao palco, estava Galvão, autor de diversos dos maiores clássicos da banda, assistindo ao show como um mero mortal. No palco, Baby se superava, a voz praticamente intacta, em versões caprichadíssimas de "Lá Vem o Brasil Descendo a Ladeira", "A Menina Dança" e, em especial, "Tinindo Trincando", um momento absolutamente arrepiante, em que ela mandou um impecável scat de "no duro, no duro, no duro, no duro..." por cerca de um minuto, enquanto Pedro e sua guitarra eriçavam os pelos do meu braço.

No bis, mais emoção: sobem ao palco o baixista Dadi Carvalho e Paulinho Boca para uma vigorosa versão de "Mistério do Planeta" que não deixa dúvidas: essas pessoas estão vivas, ativas, cheias de energia e fazendo muita falta nesse cenário musical ultra-careta que vivemos no Brasil. A liberdade para se dizer as coisas é bem maior do que já foi décadas atrás, mas as pessoas, simplesmente, não têm formação e não buscam informação suficiente para tirar proveito dela. Ser "muito louco", na cabeça de muita gente, é falar de baladas e carros amarelos - e não há nada mais reacionário e maligno do que pregar o desapego às pessoas e celebrar o apego às coisas. Enquanto isso, com um discurso totalmente oposto, a História Musical do Brasil acontecia bem na minha frente.

No finzinho, justamente quando eu pensava, "Ah, será que seria legal ela tocar 'Barrados na Disneylândia'?", Baby anunciou a música, como homenagem a Pepeu Gomes, ausência menos gritante apenas pela presença de um "clone" mais jovem no palco. A música tem uma história curiosa, mas, ouvida ontem, revelou-se não tão boa assim. Foi uma concessão interessante à minha infância, mas certas coisas devem mesmo ficar no passado.

Seja como for, diante da importância deste resgate, só posso dizer: bem-vinda de volta, Baby! Como bem disse seu filho, improvisando durante "Planeta Vênus", estávamos com saudade.