05/05/2018

Leon Bridges - Good Thing


Talvez a imprensa musical não se ocupe mais de sustentar a existência de uma tal "maldição do segundo disco" - segundo a qual, após uma estreia arrasadora, um bom artista costuma lançar um álbum abaixo das expectativas - mas o fato é que, exista ou não tal agouro, Leon Bridges voltou imune a ele. Good Thing apresenta ao mundo um Leon ligeiramente diferente e sedimenta sua reputação como um dos artistas mais interessantes em atividade.

Três longos anos após sua estreia em Coming Home (em que paga tributo à sua escola de soul e R&B, com sonoridade que remete à música feita na década de 1960), Leon Bridges volta atualizado, "pero no mucho": o álbum soa diferente, até moderno (principalmente quando comparado ao seu antecessor), mas bebe em fontes do pop que já correm há décadas.

Por todo o álbum, o texano de Fort Worth demonstra ampliada versatilidade vocal (com direito a um inédito falsete), e é possível escutar ecos de Raphael Saadiq ("Bet Ain't Worth the Hand"), George Benson ("Bad Bad News"), Lionel Richie ("Forgive You"), Nile Rodgers ("If It Feels Good (Then It Must Be)), Prince ("Mrs.") e outras boas influências, sem que isso implique em falta de personalidade ou unidade.

Como não poderia deixar de ser em um bom disco de R&B, o amor dá a tônica. Os ritmos vão de calmaria semi-acústica ("Beyond") até batidão funk-disco com baixo pulsando em primeiro plano ("You Don't Know"). Um perfeito disco de alcova, bom pra dançar agarrado, separado, e como trilha sonora para rituais de acasalamento. Um triunfo alcançado sem concessão a qualquer tique comercial em voga, visando a "ampliar mercado" pro artista.

Jovem (28), Leon Bridges mostra que ainda tem muito cartucho pra queimar. Pode parecer ligeiramente decepcionante para quem esperava um Coming Home 2, mas eleva as possibilidades artísticas de Leon a um patamar altíssimo. Num ano em que talvez vejamos o retorno do Alabama Shakes (outro nome honesto e inspirado desta década), não é pouca coisa que já se possa cravar Good Thing como um dos melhores álbuns da temporada, um convite irresistível ao romance e à dança.


* * * * *

Leon Bridges
Good Thing (2018)
Produção: Ricky Reed

01 - "Bet Ain't Worth the Hand"
02 - "Bad Bad News"
03 - "Shy"
04 - "Beyond"
05 - "Forgive You"
06 - "Lions"
07 - "If It Feels Good (Then It Must Be)"
08 - "You Don't Know"
09 - "Mrs."
10 - "Georgia to Texas"

01/05/2018

Vingadores: Guerra Infinita


Primeiro episódio de uma história em duas partes, Vingadores: Guerra Infinita é um filme que cumpre e até excede nossas expectativas do que seria o ápice das ambições dos Marvel Studios, no ano em que celebra seus primeiros dez anos. Um vida ainda curta, porém, revolucionária e bilionária.

Parte do que faz desta uma obra sem precedentes é o fato de que os irmãos Anthony Russo e Joe Russo souberam transpor, com espantosa fidelidade, a linguagem dos quadrinhos para as telas. Guerra Infinita assemelha-se aos muitos mega-eventos que temos lido ao longo de décadas, trazendo para o Universo Cinematográfico Marvel uma grandiosidade e um senso de perigo inéditos até aqui.

Já na primeira cena (em que há baixas importantes), temos um gosto do que aguarda os heróis nas duas horas e meia do filme: muito sofrimento na mão de Thanos. Sem muita dificuldade, ele derrota os Vingadores mais casca-grossa, Thor e Hulk. A partir daí, já de posse de duas das seis Joias do Infinito, ele parte em busca das quatro restantes. Em seu caminho, todo o elenco de heróis vistos nos 18 filmes da Marvel, com exceção de Gavião Arqueiro e Homem-Formiga, aparentemente aposentados.

Thanos: motherfucker from hell in the dark

A jornada de Thanos em busca de poder para obliterar metade da vida no universo é construída com cuidado exemplar. "Consertando" alguns dos maiores defeitos da filmografia da Marvel (os roteiros rasos, a constante leveza, a falta de consequências), Guerra Infinta está cheio de ótimos diálogos e situações verdadeiramente dramáticas, e muitos deles são protagonizadas pelo titã louco, um vilão que justifica toda o suspense construído sobre sua chegada, desde o primeiro filme dos Vingadores.

A presença assombrosa, a imensa força física e a vontade inabalável fazem de Thanos o mais formidável vilão dos Marvel Studios - e, com isso, mais um problema é resolvido. Por outro lado, apesar de todo o clima de desespero, existe humor no filme, especialmente (e previsivelmente) nas cenas que envolvem os Guardiões da Galáxia. Estes, aliás, acabam tornando-se peças fundamentais no desenvolvimento da trama da ascensão de Thanos. Outro personagem que sai do filme bastante fortalecido é Thor: o asgardiano protagoniza cenas dignas de um deus!

Com os Vingadores dispersos desde o final de Capitão América: Guerra Civil, os Russo sabiamente dividem a ação em diversas frentes, na Terra e no espaço, com pequenos grupos de heróis. Isso permite um melhor desenvolvimento das subtramas, que convergem para uma espetacular batalha em Wakanda, quando primeiro sua guarda e, depois, o próprio Thanos, enfrentam diversos heróis, levando a um desfecho que nos deixa estupefatos, revoltados e roendo as unhas de ansiedade pelo quarto filme.

Capitão América e Thor: homões da porra

O filme é tamanho triunfo, que os poucos incômodos (como a ainda inexplicada nova relação Banner/Hulk) não chegam a comprometer. Está cheio de surpresas (como a figura que guarda a Joia da Alma e o anão da forja estelar) e de ação tão espetacular, que chega a ser difícil prever o que esperar, depois de os diretores terem decretado que o próximo filme "será ainda maior e melhor". 

Melhor acreditarmos em Anthony e Joe. Não é coincidência que os filmes mais substanciais do estúdio sejam todos deles. Eles sabem muito bem o que estão fazendo e para onde estão indo. Acompanhá-los, ao que parece, será uma experiência transformadora. Quando terminar, provavelmente, 50% dos seres vivos estarão falando da mesma coisa.

31/03/2018

10 Canções Maiores Que a Vida



Listas são injustas. Fato. Pra começar, elas são sempre curtas demais. A gente faz um "best of" de tal artista ou elege as melhores de certo ano ou período, só pra se arrepender de certas presenças ou ausências logo depois. Tenha em mente, portanto, que esta é a lista que me vem à mente hoje. Daqui a um mês, talvez saia outra, mais ou menos diferente.

Ouvindo as músicas abaixo, frequentemente me pego pensando que, "poxa, essa música é maior que a vida", no sentido de que cada uma delas possui atributos que a tornam especialmente agradáveis ou importantes para mim. É difícil explicar certos sentimentos através de palavras, mas eu tentei. Seja uma letra marcante ou música magnificamente elaborada (ou as duas coisas), estas são músicas que resistirão a qualquer teste que o tempo as imponha.

Com vocês, 10 canções maiores que a vida!


MARVIN GAYE
"I Heard It Through the Grapevine"

No meu acervo mental particular, esta música seria a segunda melhor de todos os tempos (perdendo - não tente entender por quê - para "A Whiter Shade of Pale", do Procol Harum). Basicamente, é uma música de corno, coisa que qualquer dupla sertaneja faz, é verdade... Porém, se existe em Marvin Gaye uma coisa que falta à galera das calças embaladas a vácuo, é classe. Não é porque você tomou um chifre que tem que perder a compostura. O canto inigualável de Marvin expressa toda a angústia do homem prestes a perder a mulher que ama para um ex-namorado dela. Cordas, metais, backing vocals... Tudo está no mais alto padrão Motown, compondo uma sinfonia emocional capaz de levar um homem chifrudo ao desespero. Se serve de consolo, você foi objeto da empatia de um dos maiores cantores da história.


THE VERVE
"The Drugs Don't Work"

Enquanto quase todo mundo só queria saber de "Bittersweet Symphony", a verdadeira obra-prima do The Verve em Urban Hymns (1997) era um baladão emotivo e fúnebre, mas de beleza indescritível. A letra de "The Drugs Don't Work" fala de como as drogas não conseguem mais "ajudar" a alguém que sofreu uma perda, apenas piorando o sofrimento. "Todo este papo de ficar velho / Está me deixando mal, meu amor (...) Se você sair de minha vida / É melhor eu estar morto". O clima é de "túnel no fim da luz", mas é tudo tão maravilhosamente tocado (com cordas de partir o coração) e cantado (a performance de Richard Ashcroft fez o produtor Chris Potter declarar que esta era a melhor canção que ele já havia gravado) que é impossível não render-se. Um épico musical.



WILCO
"Sunken Treasure"

Lembro que em 1999, quando comprei minha primeira cópia de Being There (1996), o alt-country do Wilco não caiu bem de primeira. Admito que o comprei não só pela dica da Showbizz, mas porque é impossível não amar esta capa. O disco era longo (CD duplo, 19 faixas) e o som do Wilco não era lá ortodoxo, do tipo que gruda de primeira (a título de comparação no gênero, Ryan Adams é muito mais acessível); a bem da verdade, country nunca foi muito minha praia. Depois de ter "escutado" o primeiro disco pulando após alguns segundos de cada faixa, coloquei o segundo e o primeiro acorde de violão me conquistou. Um fraseado maravilhoso, encorpado por baixo e piano, posteriormente engrossado por uma bateria em primeiro plano. Na letra, Jeff Tweedy canta sobre a falta de sintonia entre as pessoas ("I am so out of tune with you") e agradece por ter descoberto a música como consolo ("A música é minha salvadora / e eu ganhei meu nome do Rock N' Roll"). Os longos trechos de distorção no meio e no final, para mim, antes estragavam a experiência; hoje, apenas a tornam completa.



MASSIVE ATTACK
"Live With Me"

Quanto é possível martirizar-se por desconhecer por tanto tempo uma música tão poderosa? Eu já perdi a conta das vezes em que me deu tristeza ter conhecido "Live With Me" onze anos depois de ela ter saído - e, pior, cinco após ter morrido seu fabuloso vocalista, Terry CallierTrip Hop é um gênero dominado pelas cantoras (sim, apesar de Horace Andy ser o porta-voz de boa parte da obra do Massive Attack), mas os trinados de Terry mostram-se inigualáveis, transmitindo o desespero do cara que está apostando suas últimas fichas pra ter com ele a pessoa que ama: "Nada está bem se você não está aqui / Eu daria tudo que tenho só pra te manter por perto / Eu escrevi uma carta tentando me explicar / Mas você não acredita que sou sincero / Eu ando pensando em você, baby / Quero que você more comigo". Musicalmente, tem uma das batidas mais cativantes que o MA já programou. Um colosso, nada menos.



THE FLAMING LIPS
"Do You Realize?"

Em boa parte do tempo, The Flaming Lips são uma banda experimental, meio esquizofrênica. Em 2002, porém, flertaram brevemente com o pop e lançaram esta música que encanta e, ainda assim, conserva seu caráter indie. "Você já percebeu que todo mundo que você conhece um dia vai morrer?" Não há como ficar indiferente a este e outros versos simples e maravilhosos ("(...) a vida passa rápido / É difícil fazer as coisas boas durarem") que percorrem esta canção. Efeitos eletrônicos e backing vocals em coro ajudam a provocar uma atmosfera onírica, enquanto mil reflexões e lembranças atravessam nossa mente.



DAVID BOWIE
"Space Oddity"

Eis outro caso de artista ignorado tempo demais por mim. Não é que eu não conhecia David Bowie, mas parar para ouvir seus clássicos é uma experiência mais ou menos recente (e ainda em curso). Sei que ele é dono de várias canções maiores que a vida, mas esta tem momentos tão (com o perdão pelo meu francês) fodas em sua letra que é preciso ter um saco de cinzas no lugar do coração pra não se emocionar com ela. Sim, ela já tem uns 50 anos, alguns efeitos já não soam tão bem, mas os vocais de Bowie continuam perfeitamente dramáticos e eficientes (em dois tons!) e é nela que você vai achar o clássico e ambíguo verso "Planet Earth is blue and there's nothing I can do". Major Tom somos todos nós, viajando cegos em direção ao incerto.



MORRISSEY
"Dear God, Please Help Me"

A sexualidade de Morrissey foi alvo de muito debate por muito tempo. Nunca houve muita dúvida sobre o que ele queria, mas sobre se, de fato, permitia-se desfrutar daquilo. Em 2006, quando o assunto já parecia liquidado, ele escreveu esta delicada peça confessional. "Estou andando por Roma, com meu coração por um fio / Querido Deus, por favor, me ajude / Estou tão cansado de fazer a coisa certa". Como que para encerrar o assunto, ele derrama seu drama sobre o majestoso arranjo de Ennio Morricone e declara: "o coração se sente livre" e não há como não sentir-se liberto com ele. São canções pessoais assim que levam o fã a dizer, "hey, esse cara está falando da MINHA VIDA!".



R.E.M.
"Find the River"

Em 1992, deuses estiveram sobre a Terra e deixaram um poderoso testemunho de sua presença: o álbum Automatic for the People, do R.E.M. Não bastava ter subvertido as regras do jogo, lançando um disco totalmente diferente do anterior (Out of Time, com o qual conquistaram o planeta), o R.E.M. cunhou uma série inigualável de canções líricas, auxiliados pelos arranjos de corda de John Paul Jones (ex-Led Zeppelin). Entre elas, sobressaía a masterpiece de encerramento, uma comovente elegia cheia de imagens poderosas, pontuadas por cores e aromas - e olha que a gente já chega nela devastado pela beleza bruta de "Nightswimming", outra que facilmente poderia estar nesta lista.




MANIC STREET PREACHERS
"The Everlasting"

Meu primeiro contato com os MSP foi com este disco, que diziam ser uma exceção na carreira, "bonito demais" para o habitual punch hard rock da banda. Que sorte a minha, então, porque This Is My Truth, Tell Me Yours (1998) está cheio de rockões sólidos e baladas pungentes sobre o vazio da geração em curso. "Atos patéticos por uma causa indigna", declamava James Dean Bradfield, misturando raiva política e filosofia sobre um arranjo cuja riqueza aumenta exponencialmente a cada repetição do refrão desiludido ("Lá no começo, quando estávamos vencendo / Quando nossos sorrisos eram genuínos"). Escute alto, por favor.



STEVIE WONDER
"Never Dreamed You'd Leave in Summer"

Não são poucas as canções de Stevie Wonder que extrapolam nossas noções de musicalidade e beleza. "Lately", "Ribbon in the Sky", "Overjoyed"... É uma lista imensa. Eu escolhi esta justamente porque, nela, Stevie abre mão da sutileza. É tipo "VOCÊ ESTÁ INDO EMBORA E EU ESTOU MORRENDO, NÃO FAZ ISSO!". Não com estas palavras, mas com versos caprichadíssimos, comparando as fases do amor com as estações do ano - e justo no verão, quando tudo parece criar vida, morre o amor. Se você já perdeu um amor de forma inesperada, certamente já quis cantar aquele sofridíssimo "por que você não ficou?" pela garganta de Stevie.



Gostou? Você pode ouvir esta playlist no Spotify:



Se preferir baixar e escutar com seu player, eis o link para DOWNLOAD.

31/12/2017

Melhores de 2017


Opa, último dia de 2017! Antes de sair pra tomar todas e dar PT, confira este pequeno balanço que fiz do ano que termina!

MÚSICA


Ano de retorno de vários medalhões gringos e, olha, eles fizeram bonito! O "estranho no ninho" é Harry Styles, egresso de uma boy band, mas que fez um bonito disco de folk pop. Ainda vamos ouvir falar muito desse moço.

Como este ano foram bem poucos os álbuns novos que escutei inteiros, limito-me a listar as melhores faixas do ano:

"For What It's Worth", Liam Gallagher
"Sign of the Times", Harry Styles
"Telefonía", Jorge Drexler

Na real, escutei bem pouca música brasileira este ano, exceto por velharias que jogava nas playlists. Há poucos dias, baixei uma, do próprio Spotify, que dá uma bela geral da cena indie brasileira. Extraí dela quase toda minha lista.

"E o Meu Peito Mais Aberto Que o Mar da Bahia", Vanguart
"Eletro Ben Dodô", Daniela Mercury
"Jovem", Supercombo + Dinho Ouro Preto
"Wilson", Biltre

Menções honrosas de anos anteriores, que só descobri em 2017:

"Are You Gonna Be My Girl?", Jet (2003)
"Because I'm Me", The Avalanches (2016)
"Live With Me", Massive Attack (2006)
"Campos Magnéticos", Gepe (2013)
"Si el Norte Fuera el Sur", Ricardo Arjona (1996)

Acontecimento do ano: honestamente, a conquista do mundo por Anitta. Chupe essa manga or die!


QUADRINHOS



O grande destaque, sem dúvida, foi a chegada ao Brasil da linha Renascimento, da DC Comics. Nem tanto pelas histórias em si, cuja qualidade oscilou bastante, mas por modificar de vez a forma como lemos quadrinhos. Quando não são títulos-solo exclusivos, os poucos mixes existentes agrupam títulos semelhantes ou diretamente ligados (Lanternas Verdes, por exemplo).

Além disso, viramos o país dos encadernados. Todos os meses, estão à nossa disposição, em bancas e lojas virtuais, muito mais livros do que alguém é capaz de ler. Até quando sustentaremos tamanho inchaço do mercado, só Odin sabe.

Comprei pouquíssimo em 2017 e meus destaques do ano foram:

BATMAN, de Tom King, na revista mensal.
GOTHAM DPGC, concluída em quatro volumes de capa dura.
NOVOS VINGADORES, de Jonathan Hickman, em encadernados.
SUPERMAN: ENTRE A FOICE E O MARTELO, relançamento sonhado há anos.

Acontecimento do ano: a chegada de Brian Michael Bendis à DC Comics.


CINEMA


Um ano de ótimas produções, em que tanto os estúdios tradicionais quanto os criadores de conteúdo para streaming (Netflix, Amazon, Hulu, entre outros) investiram com qualidade e variedade. 

Verdade que só vi este ano Moonlight e outros dos ótimos candidadatos ao último Oscar, mas são produções de 2016 - portanto, fora da lista a seguir.

Os dez melhores filmes que vi em 2017, em ordem alfabética:

Atômica
Baby Driver
Blade Runner 2049
Corra!
Fragmentado
Logan
Mulher-Maravilha
Planeta dos Macacos: A Guerra
Star Wars: Os Últimos Jedi
Terra Selvagem

Menção honrosa: Bingo, o Rei das Manhãs. Cinema nacional vive, pulsa e brilha.

Filmes importantes que eu não vi e poderiam ter mudado a lista: Dunkirk (Christopher Nolan) e Mãe! (Darren Aronofsky).

Acontecimento do ano: as denúncias de assédio sexual e/ou estupro que jogaram na lama os nomes de Harvey Weinstein, Louis CK e Kevin Spacey, entre muitos outros - e que parecem longe de chegar a um fim. Felizmente!

17/12/2017

Star Wars: Os Últimos Jedi


Há dois anos, O Despertar da Força reapresentou Star Wars ao mundo, uma década após o fim da trilogia de prequels (A Ameaça Fantasma, 1999; Ataque dos Clones, 2002; A Vingança dos Sith, 2005). Apesar de dirigido por um notório criador de blockbusters com cérebro (J. J. Abrams) e de ter se tornado a terceira maior bilheteria da história, o filme pouco faz além de requentar a história de Uma Nova Esperança (o primeiro Star Wars, de 1977, que nossos pais ainda chamam de Guerra nas Estrelas) com ajuda de novos personagens: onde antes havia (e, aos poucos, deixa de haver) Luke Skywalker, Leia Organa, Han Solo e Darth Vader, estamos nos acostumando aos nomes e presenças de Rey, Finn, Poe Dameron e Kylo Ren.

Star Wars: Os Últimos Jedi veio à luz cercado de muita expectativa. Afinal, ele traria de volta a figura central da trilogia original, Luke Skywalker (Mark Hammill), visto na última cena de O Despertar da Força. No fim de 2016, um nome muito querido do elenco, Carrie Fisher (a ex-princesa e atual general Leia Organa), veio a falecer (felizmente, após sua participação no filme estar concluída). Havia, ainda, a pressão implícita de ser o episódio "sombrio", aquele em que quase tudo dá errado para os mocinhos - sempre o segundo de cada trilogia, como foram O Império Contra-Ataca (1980) e Ataque dos Clones. Por fim, não dava pra fazer feio diante de Rogue One: Uma História de Star Wars (2016), elogiado primeiro esforço de uma série de filmes dedicados a contar histórias do passado das personagens (o segundo, Han Solo, sai em maio de 2018).

O diretor Rian Johnson tira de letra as missões. Ainda que Os Últimos Jedi não seja imune a críticas, estamos diante de um dos melhores filmes deste ano e desta franquia. 

Na tensa e magnífica cena de abertura, a general Leia comanda um contra-ataque rebelde que dá errado de muitas maneiras. As coisas não andam nada boas para a Resistência. Leia tenta manter acesa uma fagulha de esperança, enquanto Rey (Daisy Ridley) busca ajuda de Luke Skywalker no planeta onde ele foi se isolar. O recluso mestre jedi se nega, preferindo afastar-se da sombra de seu maior fracasso: seu sobrinho Ben Solo, vulgo Kylo Ren (Adam Driver). Por sua vez, Kylo e Rey descobrem uma conexão entre si que pode mudar os rumos da guerra e tudo que se pensava sobre o equilíbrio da Força.

O filme se divide claramente em três blocos de impacto variável. No primeiro terço, temos uma aventura espacial notável, quando a evacuação de uma base rebelde se transforma em um massacre. Uma das melhores cenas do filme, com momentos de tirar o fôlego. Ainda assim, não muito diferente do que se esperaria num filme Star Wars.

O meio do filme resvala perigosamente na mesmice, quando o stormtrooper desertor Finn (John Boyega), a mecânica Rose Tico (Kelly Marie Tran) e BB-8 precisam, pela enésima vez na série, infiltrar-se numa instalação imperial para desativar um dispositivo. Para isso, esperam contar com a ajuda de um "desbloqueador universal". Heróis encurralados, piadinhas, pequenas traições... Sim, você já viu tudo isso antes, e talvez tenha sido melhor das outra vezes.


Finn, Rey e Rose: "eu vou à luta com essa juventude..."

O "treinamento" de Rey com Luke é uma piada (em sua má-vontade, ele mal faz qualquer coisa para ajudá-la) e o momento da verdade entre Rey e Kylo Ren fica sempre um passo aquém da grandiosidade. Tem bons diálogos e reviravoltas, e os atores (especialmente Driver) estão confortáveis, mas a segurança que Rian Johnson demonstra nas cenas espaciais não se repete nos duelos de sabre de luz, sempre meio frustrantes, com uma coreografia estranha. Até a briga entre Finn e a Capitã Phasma (Gwendoline Christie) parece mais empolgante.

Quando chega a hora da retirada final da combalida Resistência (abandonada até por seus aliados), o filme cresce exponencialmente. O terço final do filme, na branca e salgada superfície do planeta Crait, é simplesmente inesquecível, com grandes momentos de heroísmo para guardar no coração, como a decisão final da capitã Holdo (Laura Dern), a investida de Finn contra a frota de walkers imperiais ou a esperada intervenção de Luke Skywalker. 

Sobre este, vale a pena abrir parênteses aqui, para algumas queixas.

Luke Skywalker tinha sido visto pela última vez há três décadas, no final de O Retorno de Jedi (1983), quando finalmente derrota seu pai, Darth Vader, e, supostamente, traria equilíbrio à força. Entretanto, não há um flashback sobre suas glórias ou fracassos como mestre jedi, exceto por Ben Solo. Não é possível que isso tenha sido tudo que ele "realizou". Não temos o menor vislumbre de seu auge como jedi - e deve ter havido um auge, ou ele não seria essa figura lendária. Tampouco é Luke um mestre sereno, como foi Obi-Wan Kenobi, mas um homem idoso ainda lutando com velhas inseguranças.


Luke Skywalker: "Ain, não sei se ajudo a Resistência ou compro uma bicicleta!"

Pode ter sido proposital a opção do roteiro por uma solução não-violenta para o conflito com Kylo Ren, mas isso nos privou de uma demonstração prática de suas habilidades (aliadas à frustração reprimida por décadas), que poderia resultar em cena como a vista entre Yoda e Dooku em Ataque dos Clones. A mensagem de Os Últimos Jedi é poderosa, mas teria sido bem legal ter visto Luke chutar bundas - apesar disso, vale elogiar o filme por toda sua postura antibelicista, quando, por exemplo, denuncia que as pessoas que mais lucram com a guerra não têm pudores de trabalhar com mocinhos e bandidos ao mesmo tempo. 

Precisamos saber, ainda, como foi que a Primeira Ordem surgiu tão poderosa, em tão pouco tempo, dos escombros de um Império esfacelado. Snoke já era tão poderoso assim? Se era, precisávamos ver como ele estendeu sua teia de influência. Cabe mais um elogio aqui: o CGI na fabricação de Snoke, um dos pontos mais frágeis em O Despertar da Força, está impecável aqui, e Andy Serkis entrega mais um trabalho memorável de captura digital de movimentos.

Star Wars: Os Últimos Jedi, enfim, qualifica-se entre os grandes filmes da série. Só não cravo agora mesmo que é o melhor porque teria que rever O Império Contra-Ataca para comparar. No episódio IX, possivelmente o derradeiro da série principal (até quando, veremos), J. J. Abrams volta à direção e isso já me deixa com um pé atrás - e não é que ele não possa ou não queira fazer um filme ousado, o problema é saber se vão deixá-lo. A matéria-prima é de primeira; vejamos se a artesania é capaz de entregar a conclusão que nosso épico espacial favorito merece.

Por fim...


OBRIGADO POR TUDO, PRINCESA! 💗

10/12/2017

U2 - Songs of Experience


Em 2017, completaram-se 30 anos desde que conheci o U2. Não é a um amigo ou programa de clipes dos anos 80 que devo gratidão pelo fato, mas à Som Livre, que incluiu "With or Without You" na trilha internacional da novela Mandala e mudou minha vida.

Só que minha vida já mudou tantas vezes e o U2 já mudou tantas vezes que, ultimamente, parece que a gente não se reconhece mais. Há três anos, por exemplo, eu malhei Songs of Innocence impiedosamente, apenas para, semanas depois, escrever novo review, reconhecendo as qualidades de um disco que carregava generosa porção da dignidade que pontua toda a carreira da banda, embora não soasse especial para mim sob qualquer aspecto.

Talvez seja isso que, para mim, vem faltando ao U2 há algum tempo: um disco capaz de mudar minha vida novamente. Eu sei que posso estar esperando à toa. Essas coisas costumam acontecer quando a gente é adolescente ou jovem adulto. Depois, vai ficando cada vez mais raro, porque a idade deixa a gente menos suscetível e mais impaciente.

Pois bem, o U2 voltou. Anunciado como um "disco-irmão" que sairia menos de um ano após o anterior, Songs of Experience levou três anos pra finalmente ver a luz do dia. Eu já deveria ter aprendido a não acreditar nessa ladainha de disco do U2 que "sai logo mais". Quando se trata deles, tudo é gigantesco e state-of-the-art demais pra não demorar.

A espera envolveu a reescrita e regravação de faixas já prontas. Segundo a banda, o mundo estava mudando rápido demais, e a eleição de Donald Trump foi a gota d'água (e ainda é preciso lembrar do grave acidente de bicicleta sofrido por Bono, no fim de 2014). A mim, interessa o que me entra pelos ouvidos: um disco melhor que seu predecessor - com defeitos aparentes, mas com qualidades inegáveis em maior número.



Em meio ao autotune da plácida faixa de abertura, "Love Is All We Have Left", Bono declara: esta não é uma época para não estar vivo. Como de hábito, o grupo presta atenção ao tempo em que vive e tenta radiografá-lo. 

"Lights of Home", a segunda, vai direto pras cabeças, entre as melhores criações do U2 nesta década. Foi composta, em inusitada parceria, com as três irmãs do trio pop Haim. O primeiro verso ("eu não deveria estar aqui, pois deveria estar morto") me leva a pensar no quanto a gente é poupado (ou privado) dos bastidores da banda. Pelo jeito, a barra pesa muito mais do que nos é permitido saber.

"You're the Best Thing About Me" talvez seja a coisa mais automaticamente reconhecível como "som do U2", uma bonita e apaixonada canção pop que se soma a outras da mesma estirpe, seja para falar de amor ("The Little Things That Give You Away", "Landlady") ou de guerra ("American Soul", "Red Flag Day"), com um Bono afiado nas letras e cantando muito bem, sem cansaço. 

Apesar da eficiência melódica geral, o disco carece de um fraseado de guitarra capaz de fazer a gente se derreter de amor por The Edge. Por outro lado, o baixo de Adam Clayton pulsa forte, tomando o primeiro plano diversas vezes (mais notadamente, em "The Blackout", uma grande canção quase estragada pelo refrão medíocre e anticlimático).

Como já virou uma espécie de tradição, o disco fecha com uma faixa suave e emocional, "13 (There Is a Light)", em que Bono dialoga com a mãe falecida, força-motriz de várias de suas criações, compartilhando inclusive do mesmo refrão de outra ("Song for Someone"), do disco anterior.

Na versão Deluxe, quatro faixas compõem o disco extra, sendo duas delas remixes ("You're the Best..." - do DJ Kygo - e "Lights of Home", em arrepiante arranjo de cordas). As outras duas são uma esquecível ("Book of Your Heart") e uma excelente ("Ordinary Love", indicada ao Oscar e ganhadora do Globo de Ouro, presente na trilha do filme Mandela: O Caminho Para a Liberdade, de 2013).

Ainda não consigo dizer que o U2 voltou (ou se um dia voltará) ao trono que um dia ocupou em meu coração, mas, acredite, eles não estão morando mal por lá. Sempre existe interesse de minha parte em tudo que a banda faz, e sua música jamais deixou de ser cativante. Por agora, me basta o fato de que Songs of Experience provoca mais sorrisos em meu rosto do que desfaz.


* * * * *

U2
Songs of Experience (2017)
Produção: Jacknife Lee, Steve Lillywhite e outros

01 - "Love Is All We Have Left"
02 - "Lights of Home"
03 - "You're the Best Thing About Me"
04 - "Get Out of Your Own Way"
05 - "American Soul"
06 - "Summer of Love"
07 - "Red Flag Day"
08 - "The Showman (Little More Better)"
09 - "The Little Things That Give You Away"
10 - "Landlady"
11 - "The Blackout"
12 - "Love Is Bigger Than Anything in Its Way"
13 - "13 (There Is a Light)"

09/12/2017

It's alive!!!


Sem mais delongas e sem chorumelas: o Catapop vive e respira.

A nova temporada começa com novo arquivamento em massa das postagens anteriores - apenas porque sim; relaxe e aproveite as novas. 

O Catapop volta porque, por mais feliz que eu esteja com o trabalho desenvolvido junto com os demais 7 Jagunços no Arte-Final HQ, andei sentindo muita falta de escrever sobre cinema e, principalmente, sobre música. Por lá, esses assuntos até podem rolar, desde que atrelados à nobre arte de fazer gibizinhos, o que limitaria minhas possibilidades.

Pra quem gostava do que havia aqui antes, um alento: de vez em quando, as postagens mais legais podem voltar, numa espécie de "The Best of" (ou pra tapar buraco, quando a falta de inspiração se prolongar demais).

Enfim, é isso. Seja bem-vindo (de novo) ao Catapop.

17/05/2017

Olhos coloridos


Meu melhor amigo é negro. Eu não me lembro de um momento na vida em que a gente não se conhecia. A gente era vizinho de porta, e não é exagero dizer que nossa amizade começou no berço. Em um mundo ideal, isto bastaria para afirmar que eu não sou racista, mas a verdade é que eu sou racista, sim, e é incômodo admitir.

Em nível consciente, estou sempre conversando, estudando, mudando atitudes. Sob minha casca de civilidade, porém, ainda luto contra pensamentos de "preto isso" e "preto aquilo", que surgem sem dar aviso. É uma programação mental secular. Não sei se conseguirei apagá-la totalmente antes de morrer, mas eu tento.

Eu e Hermes continuamos melhores amigos, basicamente, porque ele é uma pessoa melhor do que eu, que perdoou meu racismo por mais vezes do que consigo me lembrar. Obrigado, Herminho. Entre outras, te devo essa.

Se você é branco e acredita em mimimi, vitimismo e racismo reverso, sinto muito, mas Cara Gente Branca (Dear White People), produção da Netflix, vai lhe ofender muito. Sem um mea culpa, um mínimo de autocrítica que o faça entender que certas "brincadeiras" ou "verdades culturais" são, sim, expressões de racismo, você deve procurar outra coisa pra assistir.

Samantha White, a protagonista.

Na série, Samantha White é uma estudante da universidade Winchester que comanda um programa de rádio, no qual denuncia os episódios de racismo na instituição. Sentindo-se injustamente acuados, alguns estudantes brancos promovem uma festa blackface, em que brancos pintam o rosto de preto e usam perucas afro. A furiosa entrada na festa dos estudantes negros mais engajados é o estopim das tensões que pontuam os 10 episódios da série.

Embora pareça uma série que simplesmente destrata quem não é negro, Cara Gente Branca apenas esfrega na nossa cara as pequenas e grandes injustiças a que os negros são submetidos diariamente (e eu gostaria de concluir esta frase dizendo "nos Estados Unidos", mas não é segredo pra ninguém que o bicho pega ainda mais por aqui, na terra da "democracia racial").

E lá, como aqui, a admissão e o enfrentamento do problema não são unanimidades. Entre os personagens negros da série, existem aqueles que "não enxergam" o racismo ou preferem que Sam fique na sua, em prol de uma convivência aparentemente pacífica com os brancos donos do pedaço; existem os exaltados, que querem que Winchester acorde à força; e existe a própria Sam, com um pé nos dois mundos: negra de pele e olhos claros e namorado branco; nada branca para muitos, pouco negra para outros (para entender o que isso traz de vantagem e de perrengue, leia sobre colorismo aqui e onde mais puder).

Como parece que não pode deixar de ser quando o ambiente é uma universidade americana, existe o desfile de estereótipos: o nerd pequeno e fracote, o atleta bonitão, o menos bonitão e mais gente fina, a bonitona popular e inimiga da protagonista, a alienada engraçadinha... A comicidade dos tipos e de algumas situações, porém, está a serviço de discussões sérias e relevantes - e prepare-se para ficar bastante revoltado com um punhado de momentos difíceis de assistir.

Estranhamente, embora trate de um tema espinhoso com muito mais leveza e, ainda assim, mais responsabilidade do que uma 13 Reasons Why, por exemplo, parece que a ordem do dia é calar a repercussão de Cara Gente Branca e, mais ainda, evitar o desagradável exercício de encarar o dedo apontado para nossa cara e enfiado em nossas feridas mais feias.

21/03/2017

Jukebox Encantada #6


TITÃS
JESUS NÃO TEM DENTES NO PAÍS DOS BANGUELAS
(1987)

A infelicidade de Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas é estar espremido entre duas obras-primas incontestáveis: Cabeça Dinossauro (1986) e Õ Blésq Blom (1989), referências que pulam facilmente, quase como reflexo, da boca de quem fala de grandes álbuns do rock brasileiro. Ainda assim, penso nele como sendo um amadurecimento da fúria punk do álbum anterior e um "estágio" fundamental (mais feliz, até) para o neotropicalista disco que o sucederia.

Em 1987, o Brasil convulsionava sob a pressão por eleições diretas (que viriam dois anos depois) e uma inflação galopante, mascarada por sucessivos planos "milagrosos". Existe uma regra não-escrita, segundo a qual, quando tudo vai mal é que a Arte vai bem. Nada mais natural, então, que o redivivo rock brasileiro estivesse inspiradíssimo, com as bandas parindo belos trabalhos (são de 1987, por exemplo, Que País É Este, da Legião Urbana, e A Revolta dos Dândis, dos Engenheiros do Hawaii).

Enquanto quase todo artista da época tinha uma balada pra chamar de sua, os Titãs - uma enorme e feliz "nação" de oito pessoas - tinham hinos rápidos e furiosos, para serem berrados a plenos pulmões. O amor estava no cardápio, mas não de forma a provocar isqueiros acesos nas plateias dos ginásios. Logo na abertura, Arnaldo Antunes, sobre apenas bateria e efeitos eletrônicos, literalmente, berrava:

Quem tem medo quer amor
Quem tem fome quer amor
Quem tem frio quer amor
Quem tem pinto, saco, boca, bunda, cu, buceta, quer amor
Ele quer, ela quer
Todo mundo quer amor de verdade

Por trás da aparente disposição de chocar (da qual os Titãs não se esquivavam), havia discurso afiado e fina ironia. O maior exemplo vinha a seguir: "Comida", a faixa cuja letra jogou os Titãs em praticamente todos os vestibulares dos anos seguintes. Provocativa ("você tem fome de quê?"), questionava o vazio da existência dedicada apenas ao trabalho. Arnaldo Antunes tornou-se a régua por qual todo poeta concretista metido a músico passou a ser medido. 

Refinamento poético, porém, era uma exceção. De modo geral, Jesus é bastante desiludido e direto, um autêntico álbum de protesto. Quanto ao som, as brincadeiras eletrônicas iniciadas em "O Quê?" (do Cabeça Dinossauro) foram expandidas, com resultados bastante felizes, especialmente em "Comida" e "Diversão" - a primeira, um funk pensante e contagiante; a segunda, um monumento do nosso rock, com programação rítmica exemplar, letra angustiada sublime e performance vocal espetacular de Paulo Miklos.

Em minhas audições, só sinto a temperatura baixar um pouco em "O Inimigo" e na fúnebre "Infelizmente". Embora pueris, "Mentiras" e "Armas pra Lutar" transbordam de energia punk. "Desordem" é um rockão sólido que pinta um retrato caótico do país naquele ano, mas que não soaria tão anacrônico, hoje em dia. Da mesma forma, "Nome Aos Bois" poderia ganhar novos nomes em sua lista de monstros e escroques, a cada ano.

TITÃS: Charles Gavin, Marcelo Fromer, Tony Bellotto, Sergio Britto, 
Nando Reis, Branco Mello, Arnaldo Antunes e Paulo Miklos.

Embora fossem, essencialmente, uma banda pop, os Titãs tocavam e portavam-se como um dínamo de rock 'n' roll, com peso, discurso e atitude correspondentes. Tony Bellotto e Marcelo Fromer (morto em 2001) - respectivamente, solo e base - eram uma dupla formidável de guitarristas; Nando Reis estalava o baixo com peso funk e impunha dramaticidade à voz pequena; Charles Gavin descia a mão na bateria com precisão cirúrgica. Os demais vocalistas (Arnaldo, Paulo, Branco Mello e Sergio Britto, também tecladista), demonstravam versatilidade individual e conjunta. O crescendo criativo da banda só podia desaguar em uma obra-prima do calibre de Õ Blésq Blom, um disco que reflete grandes talentos, ambições e mentes abertas, mas, de modo geral, ainda percebo mais tesão de tocar rock 'n' roll neste disco aqui.

Enquanto escrevo, me vem a lembrança de que foi este meu primeiro disco da banda. A produção cristalina do onipresente Liminha (que também toca em algumas faixas) não o impediu de ser um cartão de visitas barulhento e contundente, uma porrada nos ouvidos e neurônios. Se fosse cantado em inglês, teria sido uma pequena revolução neopunk. Para mim, o ápice da energia dos Titãs como banda; o exato momento em que fincam pé no Olimpo e chutam as bundas de acomodados deuses.

Titãs - Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas
Lançamento: 23 de Novembro de 1987.
Produção: Liminha.

01 - "Todo Mundo Quer Amor"
02 - "Comida"
03 - "O Inimigo"
04 - "Corações e Mentes"
05 - "Diversão"
06 - "Infelizmente"
07 - "Jesus Não Tem Dentes no País dos Banguelas"
08 - "Mentiras"
09 - "Desordem"
10 - "Lugar Nenhum"
11 - "Armas pra Lutar"
12 - "Nome aos Bois"
13 - "Violência" (faixa bônus da edição em CD)

17/03/2017

Animal ferido


Já faz quase 20 anos que X-Men (Bryan Singer, 2000) fez os estúdios acordarem, mais uma vez, para o potencial lucrativo das adaptações de HQs - e Hugh Jackman já estava lá, a única unanimidade naquele e nos filmes que vieram em seguida. O ator certo, no papel certo, na hora certa.

A gente se acostumou a ver Hugh Jackman como Wolverine. Não importa que, entre os intervalos da franquia mutante, ele tenha feito diversos filmes de diversos estilos - ora, diabos, não importa nem mesmo que ele tenha sido indicado ao Oscar! Bom mesmo era quando ele ejetava as garras e fatiava um sujeito (ou vários!).

Acontece que Jackman, previsivelmente, se cansou de ser o carcaju. Desde o início da produção, Logan foi anunciado como sua despedida do personagem - e, felizmente, é uma saída de cena bastante honrosa: simples assim, Logan rivaliza com os melhores momentos das aventuras mutantes (em minha opinião, X-Men 2 e X-Men: Primeira Classe), se é que não os supera.

A evidente inspiração em O Velho Logan, minissérie de Mark Millar e Steve McNiven, que apresentou ao mundo um Wolverine idoso, está limitada à aparência do personagem e à ambientação num futuro em que uma grande tragédia forçou Logan a guardar as garras. Envelhecido e visivelmente doente, ele opta por "sumir" e evitar problemas.

No filme, Logan trabalha como motorista de limousine de aluguel. Ao fim de cada dia, retorna para uma fazenda abandonada, onde vive recluso, contando apenas com a companhia do mutante rastreador Caliban (Stephen Merchant) e de um combalido Charles Xavier (Patrick Stewart), delirante e sob medicações que ajudam a manter seu poder sob controle.



Quando recebe uma proposta para levar uma garota até Dakota do Norte, perto da fronteira com o Canadá, Logan inicialmente reluta, mas o envolvimento do ciborgue Donald Pierce e seus Carniceiros - mais o fato de que a garota, Laura (Dafne Keen), guarda espantosas semelhanças com o próprio Logan - o faz embarcar numa jornada de perigo e morte - mas, também, de emoção e descobertas.

O que faz de Logan um filme tão bom é o óbvio ululante: existe uma boa história sendo bem contada. Não é um amontoado de cenas "massavéio" pra impressionar adolescentes (e que se diga, como em Deadpool, a opção pela censura R fez toda a diferença), nem existe obrigação de interromper os dramas em curso pra inserir piadas (o humor existe, mas é espontâneo e discreto). 

Logan serve ainda para Patrick Stewart justificar seu título de Sir. Ator shakespeareano, ele deixa para trás a pose impassível de "velho sábio e sereno" e, sob a batuta de um diretor de atores bem melhor do que Bryan Singer, entrega uma performance emotiva e rica em nuances. James Mangold extrai de Hugh Jackman, também, seu melhor trabalho na série (e isso tem a ver com qualidade, não quantidade - quem já viu, entendeu). Coroando o afiado trio de protagonistas, a menina Dafne Keen é um verdadeiro achado, alternando selvageria e doçura igualmente generosas.


Para não dizer que tudo dá tão certo assim, o calcanhar-de-Aquiles dos filmes da Marvel é exposto mais uma vez: os vilões de Logan, embora não comprometam, não chegam a fazer a gente temer ou espumar de ódio deles. Boyd Holbrook como Donald Pierce é pouco mais que um leão-de-chácara com braço mecânico, e Richard E. Grant não causa grande impacto como Zander Rice. O caráter não-espetacular dos caras maus pode ter sido uma opção consciente, visto que o filme tem todo um jeitão pé-no-chão, mas, mesmo assim, vai pro caderninho de vilões meia-boca que comprometem os filmes da Marvel, de vez em sempre.

O mesmo trunfo que, quase duas décadas atrás, colocava X-Men acima de tudo que havíamos visto até então, é o que, hoje, consagra Logan como um filme redentor: é preciso haver dramas com os quais o espectador se importe, e é preciso que os personagens sejam transformados pela dor que enfrentam. Logan tem como protagonista um homem doente, atravessando o país com um sequelado que já foi a mente mais poderosa do planeta e seu pai de consideração, pra levar uma garota pouco sociável e que não teve infância a um encontro com supostos amigos, num lugar que talvez nem exista. Redenção, abnegação, utopia. Estas coisas tocam as pessoas nos músculos certos do coração.

Transformada em evento, a despedida de Hugh Jackman do papel de Wolverine merece o status. Logan é o canto-de-cisne mais bonito no subgênero de super-heróis. Ele soprou vida real em um personagem que só existia em papel. É o tipo de proeza que a gente costuma atribuir a seres de outra grandeza.

03/03/2017

Teste dos 20 Anos - 1997


Em 1997, a música vivia tempos estranhos.

Quem mandava lá fora era o techno (de sonoridade mais suja e pesada que o technopop do começo dos anos 80, favor não confundir), a ponto de a maior banda do planeta, o U2, fazer um disco com alto grau de influência da tal coisa. Outra moda clubber, o drum 'n' bass, nascia para o grande mercado (morrendo já no ano seguinte, sem deixar saudade). O Metallica lançou mais um disco odiado (ReLoad) e o Oasis chegava ao megaestrelato com um disco chato, pontuado por bons singles (Be Here Now). Na black music, foi ano em que o mundo conheceu Beyoncé, via Destiny's Child.

No Brasil, Chico Science morreu, forçando a Nação Zumbi a achar um caminho sem ele - e acharam! Os últimos registros de estúdio da Legião Urbana chegavam ao público, um ano após a morte de Renato Russo. Nas rádios, reinavam o axé e o pagode romântico, mas o rock achava espaço, com a  alta popularidade do primeiro disco do Charlie Brown Jr.

Só esclarecendo, mais uma vez: tinha discos mais importantes pra comentar, tipo o Urban Hymns, do The Verve? Tinha, mas eu escolhi discos que eu ouvi por inteiro, no momento certo (ou seja, no lançamento, ou pouco depois disso). Conheço os discos acima, mas não escutei alguns deles por inteiro - até hoje! - ou só os ouvi muito tempo depois. Se seu disco favorito não está na lista, você pode deixar sua opinião (antiga e atual) sobre ele nos comentários.



THE BRAND NEW HEAVIES
SHELTER


Foi amor à primeira vista?
Eu já lia sobre The Brand New Heavies havia uns quatro anos, sem nunca ter chance de ouvi-los. Um elogio da Showbizz e uma promoção do saudoso Musiclub (lembra?) me levaram a comprar este disco. Logo tornou-se um dos meus discos favoritos, com sua mistura precisa e elegante de funk e soul, um oceano de melodia, num ano em que a estranheza dos anos 90 atingia uma espécie de ápice. Pop e chique até dizer chega!

Ainda rola gostoso?
Sim, sim! É o unico álbum da banda com vocais de Siedah Garrett e ela vai bem tanto em baladas açucaradas ("Feels Like Right") e magoadas ("Stay Gone", um passa-fora daqueles!), quanto em momentos funky ("I Like It", "You Are the Universe"). A banda tem outro vocalista fabuloso, o baterista Jan Kincaid, que canta a minha favorita, "After Forever". Tudo é de tão alto nível que a boa cover de "You've Got a Friend" (Carole King) acaba soando dispensável.


FLEETWOOD MAC
THE DANCE


Foi amor à primeira vista?
Eu só conheci este álbum em 1999, quando um amigo em Itumbiara (GO) o apresentou. Tratava-se do MTV Unplugged do Fleetwood Mac - o que era bastante estranho, sendo o disco tão elétrico. Rock folk setentista dos bons, com Lindsey Buckingham debulhando na guitarra e Stevie Nicks carregando lindamente no drama de "Rhiannon" e "Landslide". O grupo esteve oficialmente desfeito por 10 anos, mas os membros seguiam colaborando entre si, o que explica a sintonia ouvida aqui.

Ainda rola gostoso?
A versão de "The Chain" (a música dos trailers de Guardiões da Galáxia Vol. 2) contida neste álbum é minha favorita. Ainda é muito agradável escutá-lo, porque ele é cheio de músicas pop de primeira, como "Dreams" e "Say You Love Me" e as então inéditas "My Little Demon" e "Bleed to Love Her". Com o Fleetwood Mac saindo em turnê mundial este ano, não custa sonhar com uma passagem pelo Brasil.


GABRIEL O PENSADOR
QUEBRA-CABEÇA


Foi amor à primeira vista?
Ah, foi, sim! Dois anos antes, Gabriel tinha cometido um disco fraco (Ainda É Só o Começo), autorreferente e mal-humorado em demasia. Voltando sob a produção do DJ Memê (um mestre dos remixes e samples), Gabriel mostrou que dava pra fazer música alegre falando de coisa séria ("Dança do Desempregado", "Pátria que Me Pariu", "Cachimbo da Paz") ou nem tão séria assim ("2345meia78", "Eu e a Tábua", "Festa da Música"). Tocou e vendeu pra caramba, dando moral pra Gabriel abrir um show do U2 em BH, no ano seguinte.

Ainda rola gostoso?
Encarado como música pop, sim. Memê sampleou Chic, The Floaters, Hall & Oates e Jocelyn Brown (entre outros), criando bases matadoras pra Gabriel deitar seu rap, cujos temas sociais permanecem relevantes (violência, legalização da maconha, desemprego, abandono infantil), mas cujo compasso ficou datado e, agora, me provoca certa impaciência pelo uso exagerado de vozes coadjuvantes "engraçadinhas".


MORRISSEY
MALADJUSTED


Foi amor à primeira vista?
Depois do estranho Southpaw Grammar (1995), com algumas faixas quilométricas onde pouco se ouvia a voz de Morrissey, foi bom tê-lo de volta a um formato mais ortodoxo, mas este foi um disco que custou a me ganhar. Exceto por "Wide to Receive" (emocionante desde a primeira audição do primeiro acorde), tudo veio se acomodando aos poucos em meus ouvidos.

Ainda rola gostoso?
Não sei bem. Este é um disco que ouço pouco, embora goste muito de músicas como "Alma Matters", "Satan Rejected My Soul", "Roy's Keen" e "Papa Jack". Confesso que ando meio cansado de Morrissey, ultimamente, como já me cansaram antes outros artistas que amo. É só uma fase, eu sei, mas é este o momento em que escrevo. Como vários outros de Moz, este disco tem uma versão remasterizada, com faixas extras e com capa diferente.


RADIOHEAD
OK COMPUTER


Foi amor à primeira vista?
The Bends (1995), o anterior, tinha sido um discaço. Natural esperar coisa boa do Radiohead, mas a crítica exagerou tanto no endeusamento a este disco, que eu peguei um bode do cão (sic) antes de ouvir qualquer faixa. O Radiohead tinha ficado esquisito, mas de um jeito que ainda era bom. Minhas favoritas eram as mesmas de hoje: "Exit Music (For a Film)", "Let Down" e "No Surprises".

Ainda rola gostoso?
Hoje, para mim, Radiohead virou sinônimo de chatice. Claro, tem músicas formidáveis aqui e ali, mas tem muita, muita, muita esquisitice pela esquisitice. OK Computer, porém, segue sendo um grande disco, retrato preciso de um momento da humanidade, e minhas três favoritas são, afinal, atemporais.


SOUL II SOUL
TIME FOR CHANGE


Foi amor à primeira vista?
Corroborando o título ("tempo de mudança"), este foi um disco bastante diferente do Soul II Soul. Em lugar de house music, o disco tinha funk e pequenas concessões à chatice do drum 'n' bass (quase obrigatório entre 1997 e 1998). Em lugar de Caron Wheeler e outras divas, vocalistas masculinos em quase todas as faixas, exceto pela linda "Thank You". Desde a primeira audição, "Pleasure Dome", "Get Away" e "I Feel Love" grudaram bonito.

Ainda rola gostoso?
Engraçado como eu nunca considerei o positivismo de Jazzie B como sendo autoajuda - e é. Ele tem um modo de dizer as coisas que me agrada desde o primeiro álbum. Este aqui até que envelheceu bem e creio que deveria ter feito mais sucesso. "I Feel Love" (com vocais masculino e feminino) é mortífera numa pista de dança e as baladas continuam muito agradáveis. Infelizmente, Time for Change foi o canto-de-cisne do Soul II Soul.


TIMBALADA
MÃE DE SAMBA


Foi amor à primeira vista?
A Timbalada, naqueles históricos cinco primeiros anos de atividade, era a maior beneficiária da criatividade e talento de Carlinhos Brown. Mesmo sendo um disco mais "difícil" do que Mineral (1996), Mãe de Samba emplacou alguns hits, apesar da pegada mais roots, com mais peso percussivo e metais cristalinos de tão límpidos.

Ainda rola gostoso?
Não todo de uma vez, mas dá pra programar as faixas em duas metades, pra ouvir em momentos distintos. Ainda é arrepiante a participação de Alcione em "O Erro e o Concerto", e o pula-pula desenfreado de faixas como "Ai", "Bum" e "A Latinha" é um desafio pra minha energia de quarentão. Para irritar vizinhos intolerantes, nada melhor que a primeira ("Na Beira do Mar") e a última ("Mãe Oyá"), faixas que ainda ouriçam o que quer que seja africano dentro de mim.


TITÃS
ACÚSTICO MTV


Foi amor à primeira vista?
Depois do peso de Titanomaquia (1993), os Titãs haviam voltado ao pop em Domingo (1995) e parecia justo querer coroar isso com um disco acústico, um dos quatro cavaleiros do apocalipse (sendo os outros três: discos ao vivo, coletâneas vagabundas e techno). Era preciso muita má-vontade pra não se derreter com os arranjos modificados de músicas como "Flores", "Pra Dizer Adeus" e "Comida". Vendeu e tocou um absurdo!

Ainda rola gostoso?
Sim, pois estamos falando de clássicos perenes do rock nacional e de convidados sensacionais (Jimmy Cliff, Marisa Monte, Fito Paez), ora essa. As então inéditas ("Os Cegos do Castelo", "A Melhor Forma" e "Nem 5 Minutos Guardados") já davam mostra de que os Titãs seriam suavizados - naturalmente, devido à idade que chegava; e mercadologicamente, tornando-se irritantes ícones românticos e de autoajuda.


U2
POP


Foi amor à primeira vista?
Ora, na década de 90, após os irretocáveis Achtung Baby (1991) e Zooropa (1993), o U2 podia qualquer coisa e eu aplaudiria até peidos! Mas, em Pop, a mão techno pesou. Barulhinhos e deboche demais, em canções não tão inspiradas assim, ainda que dignas, em sua maioria. Apesar disso, foi muito ouvido e repetido, principalmente em seus momentos mais "padrão U2", como "Staring at the Sun", "If God Will Send His Angels" e o monumento western "Wake Up Dead Man".

Ainda rola gostoso?
"MoFo" era puro techno, e techno é uma coisa morta e nada saudosa. Passo por cima dela e de "Miami" sem dor na consciência.  Por outro lado, a cada ano que passa, gosto mais do riff de "Discothèque", a carta de intenções da época. Enquanto escrevo, me pego pensando em como seria se Johnny Cash tivesse encerrado este disco, também, cantando "Wake Up Dead Man". Que mundo lindo teríamos!


WYCLEF JEAN
THE CARNIVAL


Foi amor à primeira vista?
O estrelato conjunto dos Fugees durou pouco - dois discos. Em carreira solo, Wyclef Jean largou na frente de Lauryn Hill e Pras, poucos meses após o fim do grupo. Longo (24 faixas, entre canções e vinhetas) e cheio de participações memoráveis (Celia Cruz, The Neville Brothers, Rita Marley), o álbum mostrava uma diversidade musical e bom humor contagiantes, com pausas para momentos românticos e reflexivos. Caiu em meu gosto como poucos do gênero.

Ainda rola gostoso?
Sim, embora seja inegável (e até inevitável) que a maioria das batidas estejam datadas. Ainda dá pra rir com o "julgamento" de Wyclef entre as faixas. Os samples e convidados ainda agradam bastante, especialmente The Neville Brothers, em "Mona Lisa" (que vocais, amigos!), e Lauryn Hill, que brilha e emociona em "Sang Fézi", flutuando graciosamente sobre a melodia de "House of the Rising Sun" e roubando o show do colega por breves e lindos segundos.