09/05/2012

Os Novos 52 chegaram!


Não é mais segredo: a nova DC Comics aporta nas bancas brasileiras em junho.

A Panini Comics revelou ontem que, para nossa surpresa, vai publicar todos os 52 títulos do famoso reboot de setembro de 2011. Confirmando meu palpite, a espera entre a publicação americana e a brasileira cai de 12 para 9 meses. Ainda é muito, nesses tempos de internet, mas é o que tem pra hoje.

A principal novidade está na forma como vários desses títulos chegarão aos leitores.

Como lá fora, todos as revistas começam do número 1. Enquanto os títulos atuais (Superman, Batman, Liga da Justiça, Lanterna Verde, Universo DC e A Sombra do Batman) continuam sendo publicados (sendo que Liga da Justiça volta a ser uma revista "magrinha", com 3 histórias), já em junho, o Flash também ganha uma revista própria.



Os mixes iniciais estão distribuídos assim:

BATMAN 
68 páginas (Batman, Batman - The Dark Knight e Detective Comics)

SUPERMAN 
68 páginas (Action Comics, Superman e Supergirl)

LANTERNA VERDE 
68 páginas (Green Lantern, Green Lantern Corps e New Guardians)

LIGA DA JUSTIÇA
68 páginas (Justice League, Justice League International e Captain Atom)

FLASH
68 páginas (Flash, Green Arrow e Deathstroke)

UNIVERSO DC
148 páginas (Aquaman, Wonder Woman, The Savage Hawkman, Fury of the Firestorm, Mister Terrific, OMAC e Blackhawks)

A SOMBRA DO BATMAN
148 páginas (Batman & Robin, Batwoman, Batgirl, Catwoman, Nightwing, Red Hood and the Outlaws e Batwing)

Boa parte dos títulos, publicados em parceria com a Devir e a Comix, terão distribuição exclusiva em comic shops físicas e virtuais, sem passar pelas bancas comuns. Inicialmente, serão os seguintes:

NOVOS TITÃS & SUPERBOY
52 páginas (Teen Titans e Superboy)

ESQUADRÃO SUICIDA & AVES DE RAPINA
52 páginas (Suicide Squad e Birds of Prey)

UNIVERSO DC APRESENTA: DESAFIADOR
52 páginas (DCU Presents: Deadman) 

FRANKENSTEIN, AGENTE DA S.O.M.B.R.A
52 páginas (Frankenstein: Agent of SHADE)



Um novo título será anunciado para breve e publicado em julho. O fato de certas revistas possuírem apenas um personagem com duas histórias me faz crer que algumas delas serão bimestrais, para efeito de sincronia com as demais.

Todas as capas das edições 1 da Nova DC virarão cards colecionáveis, espalhados pelas novas revistas. Alguns deles fazem menção a títulos sobre o qual ainda não se conhece detalhe algum, como Tropa dos Lanterna Verdes e Grandes Astros do Faroeste.

Algumas séries importantes do reboot, como Justice League Dark, Swamp Thing, Animal Man e Stormwatch, entre outras, ainda não têm sua situação definida. Torço para que algumas delas sejam publicadas em arcos completos, nos moldes da antiga DC Especial.

Algumas pequenas considerações:

Primeiro, seja por legítima fé no desempenho do reboot no Brasil ou por pressão da DC Comics para que todo o seu material visse a luz do dia por aqui, a Panini está de parabéns por fazê-lo. Logicamente, poucos serão os leitores dispostos ou abastados o suficiente para comprar todas as revistas, mas assumo que estou animado a adquirir algumas entre as principais.

As informações de pré-venda de algumas lojas virtuais fazem crer que as revistas, mesmo tendo estruturas semelhantes, poderão ter preços diferentes. Por exemplo: enquanto Liga da Justiça 1 está anunciada por R$ 5,90, Superman 1 deve ser vendida por R$ 6,60. A Sombra do Batman 1, com suas sete histórias em 148 páginas, custará R$ 14,90, enquanto Universo DC 1, com estrutura igual, sairá por R$ 16,90. Aparentemente, a política de preços da Panini agora se baseia na tiragem, privilegiando as que vendem melhor com um preço mais convidativo.



Entretanto, apesar das boas novidades, um velho problema persiste: as revistas mix obrigam o leitor a levar pra casa certas tranqueiras que normalmente dispensaria - e a Panini, matreira que só ela, deu um jeito de espalhar as melhores séries em vários títulos.

Por exemplo, o sonho de qualquer batmaníaco seria ver a sensacional Batman (de Scott Snyder) publicada junto com a divertida Batman & Robin (de Peter Tomasi), mas esta última foi jogada em A Sombra, enquanto o título principal ganhou a questionável companhia da Detective Comics (de Tony Daniel) e The Dark Knight (de David Finch).

Eu quero muito ler Aquaman e Mulher-Maravilha, mas, pra isso, vou precisar levar a reboque as já extintas Sr. Incrível, OMAC, Falcões Negros e a criticada A Fúria de Nuclear. Outra coisa: como é que Novos Titãs, uma equipe que sempre foi popular por aqui, é jogada nas comic shops, enquanto que um zero à esquerda feito o Capitão Átomo pega carona no praticamente certo sucesso da Liga da Justiça? Tudo bem, tudo bem. Publicar revistas é, afinal, um negócio. Qual seria a perspectiva de venda para uma revista só de restolhos, né?

Vamos torcer, então, para que a Panini possa cumprir prazos e esquivar-se de percalços, como problemas de revisão. Como podemos imaginar, não devem existir garantias de que as 52 revistas continuem sendo publicadas aqui indefinidamente, mas, pelo menos, por enquanto, acho que dá pra os leitores aposentarem seu já gasto bordão "Chega de descaso com a DC!". Difícil, agora, será acompanhar tudo. Seja como for, é a reprise local de um momento histórico e, como fãs desses personagens, creio que podemos comemorar.


28/04/2012

Resultado da Promoção "Daytripper na sua estante"!


Quando eu faço uma promoção aqui no blog e decido presentear um leitor (até aqui, com itens bastante desejados pelos fãs da Nona Arte, os quadrinhos), imagino que muita gente fica se perguntando se eu rasgo dinheiro, se estou ganhando algo em troca ou se estou, simplesmente, sendo "bonzinho".

A primeira hipótese está completamente descartada, já que não sou louco nem rico. Quer dizer, ainda não sou rico, mas garanto a vocês que meu gesto não contribuiria em nada para meu enriquecimento, o que já afasta a segunda possibilidade. Sobra, então, a terceira hipótese, mas eu entendo "bonzinho" como um dos piores insultos que uma pessoa pode proferir à outra. "Bonzinho" é aquele cara que se anula, que some na paisagem, em benefício do outro que mal o percebe.

Nada mais longe da verdade. Eu quero ser importante pra você e meu presente é a garantia de que você não há de me esquecer tão cedo. Só que eu não o faço na intenção de cobrar amizade, coisa que, em si, já é uma contradição. Muito menos desejo manter você refém de qualquer senso de dever para comigo. O presente é seu, simples assim. Goste do meu blog ou não, goste de mim ou não. Seu. (mas é claro que vai ser mais legal se você continuar lendo meu blog, né?)

Minha recompensa é saber que posso ter formado um novo leitor dessa arte ainda incompreendida e vista como coisa de criança para boa parte da população. Sim, quadrinhos são coisa de criança, mas não só delas. Adolescentes podem curti-los. Jovens adultos, também. Coroas estão liberados para curtir quadrinhos, numa boa. É uma arte incrivelmente democrática e, de forma semelhante ao que acontece com a música, pode trazer alívio para momentos difíceis.

Sendo assim, é com muito gosto que anuncio o nome do feliz ganhador de uma edição cartonada de Daytripper. Melhor dizendo, da ganhadora: concorrendo com quatro chances, Maria Gabi, uma ex-aluna minha que adora desenhar e ouvir rock (logo, só podia ser gente fina) terá na obra de Fábio Moon e Gabriel Bá um excelente referencial de texto e arte. Uma senhora porta de entrada no reino das HQs.

Parabéns, então, à ganhadora! Meus sinceros agradecimentos a todos que contribuíram com seus comentários durante o período da promoção. Sigam comigo. Nem sempre rola presente, mas a amizade é garantida e sincera. Até a próxima!

Concorreram: Alexandre Melo (6 chances), Do Vale (5 chances), Maria Gabi (4 chances), Sol numa Caixa (1 chance), João Maurício (1 chance), Dulcelino Neto (5 chances), @felipebaraujo (7 chances), Vinicius Marinho (1 chance), Caesius Maximus (1 chance), Gerlande Diogo (7 chances), Eduardo (1 chance), Lucas Andrade (2 chances), André B. (1 chance), Paranoid Android (1 chance), Gustavo (1 chance), Emanuela Cardoso (1 chance), Alex (1 chance), Carol Seixas (1 chance), Rousy Carla (2 chances), Lucas Lobo (1 chance), The Messiah (1 chance), Jorge (1 chance), Mel (1 chance), Elias (1 chance) e Rafael Alvarenga (1 chance).


27/04/2012

Os Vingadores


A essa altura, deve haver pouco que eu possa dizer sobre Os Vingadores que você ainda não tenha lido ou ouvido. Acredite, porém, que ele é uma legítima comprovação da máxima "uma imagem vale por mil palavras". Você TEM que ver este filme - e, como um favor a si mesmo, desista da ideia de ajudar àquele seu chapa que vende DVD pirata, tire o escorpião do bolso e vá vê-lo no cinema.

Os Vingadores é o ápice do ambicioso e paciente projeto dos Marvel Studios que teve início em 2008, com Homem de Ferro. A aparição de Nick Fury na cena pós-créditos deu a primeira pista da intenção de reunir Os Heróis Mais Poderosos da Terra em um único filme. De lá para cá, além de um segundo filme do Homem de Ferro (apresentando a Viúva Negra), tivemos, ainda, um novo Hulk (com Edward Norton no lugar de Eric Bana), Thor (trazendo o Gavião Arqueiro) e Capitão América - O Primeiro Vingador.

Com a formação pretendida devidamente apresentada, a Marvel teve um insight de mestre ao entregar a direção do filme a Joss Whedon. Antes mais conhecido como o criador de "Buffy, a Caça-Vampiros" e com experiência cinematográfica mínima (seu único longa foi Serenity, de 2005, um fiasco de bilheteria), Whedon ganhou uma moral imensa na Marvel ao escrever a série Astonishing X-Men, entre 2004 e 2005. Foram dois anos de diálogos primorosos, desafios grandiosos e momentos emocionantes que entraram, sem escalas, para o panteão das melhores fases dos mutantes nas HQs.

Quem leu, sabe: Joss Whedon sabe como poucos dar a cada personagem uma função na história e uma chance de brilhar. Não há personagem ou diálogo supérfluos - todos têm sua importância nos eventos (e saber disso serviu para tranquilizar os fãs temerosos de que a Viúva e o Gavião fossem "sumir" no meio da pancadaria dos grandões).

Para nossa delícia, tudo que foi prometido ao longo de quatro anos é gloriosamente cumprido. Os heróis estão reconhecíveis para qualquer um que saiba o mínimo sobre eles: o Capitão América é o líder natural, a Viúva Negra é linda e letal e o Hulk... o Hulk esmaga! Os atores estão completamente à vontade em seus papéis, com previsível destaque para Robert Downey Jr. como Tony Stark, mas, não se engane: você nem vai lembrar de Edward Norton depois de ver Mark Ruffalo como Banner/Hulk. 

Os efeitos especiais são competentes e as cenas de batalha crescem em grandiosidade, com a seguinte sempre deixando a anterior no chinelo. Apesar disso, as "pausas dramáticas" que faz jamais resvalam em tédio, servindo para o público tomar fôlego e melhor sorver as sutilezas da história.

Ignorando os clamores de uma parcela do público por "realismo", com heróis mais sombrios e impiedosos, em Os Vingadores mal se vê sangue, embora muita gente morra, inclusive um personagem bastante querido. O vilão é odioso e Tom Hiddleston é um Loki absolutamente convincente, oscilando entre a pretensão e a covardia peculiares ao personagem. A invasão dos chitauri (aliens surgidos na série dos Supremos, uma espécie de "Vingadores Alternativos") leva o caos a Nova York e nela temos momentos de tirar o fôlego (sugiro especial atenção ao confronto entre Hulk e Loki).

No meio de tudo isso, há muito humor. Sim, Joss Whedon é tão hábil no que faz que consegue a proeza de provocar gargalhadas em meio à ação estonteante (e isso não tem nada a ver, por exemplo, com o que se vê nos filmes de Michael Bay, coalhados de personagens cuja única função é fazer graça advinda da estupidez).

Os Vingadores divide com Homem de Ferro e X-Men: Primeira Classe o primeiro lugar entre os melhores filmes já feitos com personagens da Marvel. São os três que melhor equilibram os aspectos drama, ação e humor e saciam tanto ao fã de longa data que faz questão de coerência mínima com o que leu nos quadrinhos, quanto ao neófito interessado apenas em excelente cinema. Um novo e merecidíssimo triunfo dos Marvel Studios e um desafio enorme para a DC/Warner: provar que consegue fazer o mesmo com a Liga da Justiça. É preciso começar tudo do zero (já que o Batman de Christopher Nolan não se encaixa e o Lanterna Verde de Martin Campbell é melhor que se esqueça), mas a Marvel mostrou que dá. A sorte está lançada.

PS: a semente de uma continuação é plantada na já tradicional cena pós-créditos e vai deixar velhos leitores babando de ansiedade!

02/04/2012

Madonna - MDNA

Todo novo lançamento de Madonna é um acontecimento. Com MDNA, não foi diferente: o novo álbum foi precedido por um elogiado e grandioso espetáculo no intervalo da final do SuperBowl, que provou, mais uma vez, o que todo mundo já sabe desde sempre: novas divas vão e vêm o tempo inteiro, mas, trinta anos depois, ainda é Madonna quem dá as cartas. Quanto mais pensam que ela ficou irrelevante, mais ela prova que ainda tem muito gás pra queimar. Conforme-se: ela só descerá morta do topo do Olimpo Pop.

Mesmo vinda de um disco relativamente desastrado, o ultraproduzido (e ultrafake) Hard Candy (2008), Madonna diz a que veio no novo trabalho. Primeira boa providência: livrar-se dos excessos do R&B de gente como Timbaland e Pharrell, seus produtores no álbum anterior. Nada contra os dois, já que produzem sucessos a rodo, mas Madonna não é "mana". Sua praia é outra. Ela é um tipo diferente de biatch. Assim, com William Orbit (do clássico Ray of Light) de volta à produção (junto com Benny Benassi e outros nomes de ponta na música eletrônica), em lugar de beats quebrados e percussivos, a opção geral foi pelo bate-estaca que há de fazer de MDNA uma febre nos nightclubs mundo afora.

O disco abre com "Girl Gone Wild", cujo vídeo mira no sempre fiel público gay. Muita gente há de enxergar pequenas semelhanças com o clipe de "Lay It On Me", de Kelly Rowland, exceto pelo abismo entre a macheza (será?) dos dançarinos nos dois vídeos. Musicalmente, a faixa não faz muito pela carreira de Madonna. É divertida, mas absolutamente ordinária.

A segunda faixa, a monocórdica "Gang Bang", é mais interessante. "Vagaba maluca, morcego do inferno, peixe fora d'água" são algumas das definições que ela faz de si. "Turn Up the Radio" é um hino festeiro na tradição de "Holiday" e mostra que Madonna funciona muito melhor na escola clássica de pop melódico na linha 80's. "Give Me All Your Luvin'", o primeiro single, traz as desbocadas Nicki Minaj e M.I.A. como convidadas. É bacana, mas seu coro de cheerleaders enche o saco um pouco.

Em "Some Girls", ela volta a desancar rivais: "Algumas garotas não são como eu / Nunca quero ser como certas garotas". No outro dueto com Nicki Minaj, "I Don't Give A", minha impressão se confirmou: Madonna, você não é negona. Desista disso. A tradicional cota de faixas meia-boca é cumprida com coisas esquecíveis como "I'm Addicted" e "Love Spent".

"Masterpiece", da trilha do seu filme W.E., só deve ter entrado no disco pela ótima receptividade que obteve, já que destoa completamente das faixas restantes - e isso é um elogio. Deve ser uma das melhores faixas que Madonna escreveu nos últimos 15 anos. Outra faixa atípica, "Falling Free", encerra de modo inesperado (sem batidas, apenas cordas e sintetizadores suaves) a edição simples do CD.

A opção pela edição dupla é plenamente justificada por, pelo menos, duas das cinco faixas do segundo disco. "Beautiful Killer" e "I Fucked Up" são um par de joias pop que enriquecem a já opulenta coleção de Madonna. A primeira é dançante e sensual. A segunda é um pedido de desculpas ao namorado esculachado, cheio de frases como "eu estraguei tudo / cometi um erro / ninguém faz isso melhor que eu". Completam o disquinho a simplória "B-Day Song", com M.I.A., a chatinha "Best Friend" e um remix de LMFAO para "Give Me All Your Luvin'".

Candidatas a "nova Madonna" surgem todo ano e algumas já estão aí há tempo mais do que suficiente para mostrar a que vieram, mas o fato é que, mesmo não estando entre seus melhores discos, MDNA ajuda a manter Madonna no trono de onde dificilmente será removida. Você pode achá-la velha, estar de saco cheio de seus namoros e casamentos breves como relâmpagos, odiá-la porque ela aplica toneladas de Photoshop pra esconder rugas e veias nas fotos ou porque não deixa sua nova princesinha-do-pop-sem-graça-da-semana virar rainha, mas não pode negar que existe uma boa razão para ela estar aí há décadas: ela entende do seu ofício. Às outras, resta sentar-se nos degraus abaixo e aprender.

Tá na hora da minha novela!


Sou noveleiro assumido e desavergonhado. Só não assisto mais porque meu trabalho é, em grande parte, noturno. Há tempos não sei o que é acompanhar uma novela das seis ou das sete. A única que me resta é a novela das nove (nova denominação oficial da clássica "novela das oito" da Globo, o chamado horário nobre dos folhetins, onde se concentram as obras mais marcantes).

Juro que não entendo a perseguição de certas pessoas à novela brasileira. Na minha opinião, ninguém faz novelas melhor do que nós. Muitas dessas pessoas se dedicam a acompanhar séries americanas enfadonhas e enroladas, ou sitcoms sem qualquer graça, achando isso o máximo. "Como é que você perde tempo com isso? Vai ler um livro!", há quem diga. Ora, do mesmo jeito que existe livro bom e livro chato, existe novela boa e novela chata. Quando é chata, a gente larga mão e vai fazer outra coisa. Essa patrulha do lazer alheio é uma coisa muito antiquada e muito besta, viu? Hum!!!

Obviamente, eu sei que existem produções da TV americana muito superiores às novelas brasileiras, coisas tão aparentadas do cinema (como Roma, The Walking Dead ou Mad Men) que fica difícil distinguí-las, tamanho o esmero da produção e da pesquisa de época. Aqui, apesar do orçamento infinitamente mais modesto e de eventuais lambanças históricas e dramáticas, consegue-se um saldo bastante positivo. E que se diga: temos atores e atrizes muito bons e vê-los atuar é sempre um prazer.

Tome como exemplo a novela das nove, Avenida Brasil.



Vários erros de pesquisa foram apontados nos primeiros capítulos, como a presença de automóveis e eletrônicos incompatíveis com o 1989 em que se passa a primeira fase da trama de João Emanuel Carneiro (autor de A Favorita). É legítimo cobrar da Rede Globo mais capricho com certos detalhes, mas o quanto isso é realmente importante, diante dos fatos que pesam em favor da novela?

Primeiro, a boa expectativa por um novo trabalho de João Emanuel Carneiro. Com A Favorita, ele mostrou que dá pra fazer uma boa novela com elenco enxuto. Loucos como Manoel Carlos creem que precisam inventar mais de 100 personagens para contar uma história que se resolveria com menos de 50. Além disso, depois de confundir o espectador (alguns diriam que ele se atrapalhou todo, mesmo) com a dualidade de caráter de Donatela (Cláudia Raia) e Flora (Patrícia Pillar), a segunda acabou tornando-se uma das vilãs mais formidáveis que já vimos numa novela.

Segundo, temos uma mudança de foco radical: saem os personagens caricatos e esquemáticos da Fina Estampa de Aguinaldo Silva (além de sua irritante obsessão pelo auto-elogio) e entra um tom mais realista e sombrio, enriquecido pela fotografia em película de cinema. Saem as perseguições e armadilhas dignas de desenho do Scooby-Doo, entram golpes verossímeis com consequências desastrosas (sim, novela é entretenimento e já existe muita maldade no mundo real, mas Fina Estampa, em certos momentos, era um insulto à inteligência). 

Avenida Brasil deve investir pesado no suspense e dar a Adriana Esteves uma chance de brilhar que ela dificilmente perderá. Pelo que se viu nos primeiros capítulos, e se controlar os tiques dos muitos personagens cômicos que já interpretou, vai ser daquelas vilãs cínicas e espumantes que o povo ama odiar e comentar. Sua falsidade ao consolar o marido (Tony Ramos, em participação breve, mas de tirar o chapéu) contra o qual havia armado um golpe, sem saber que ele estava a par de tudo, foi de revirar o estômago. Ao fim da primeira semana, ela já conseguiu acabar, também, com o noivado do homem que atropelou seu marido sem querer. Essa vai ser das boas! (boas?)

Outras boas surpresas: Heloísa Perissé livre dos exageros e da irritante voz fanha de seus habituais personagens cômicos (ela é ótima, mas insiste demais em certos tiques); a sempre simpática presença de Fabíula Nascimento, muito mais afeita ao cinema que à TV; a menina Mel Maia, como Rita (a mocinha da história, papel que será de Débora Falabella na fase adulta), tão pequena em tamanho e já tão grande em talento. A cena em que ela é abandonada no impressionante lixão cenográfico, seja pelo aspecto dramático ou pela crítica social, mereceria ser tratada em um artigo à parte, mas, por enquanto, me atenho ao que senti: foi de partir o coração.

Certo, a novela tem Alexandre Borges repetindo o eterno papel de mulherengo incorrigível, mas quem vai dizer que ele não faz isso muito bem? Tem Carolina Ferraz fazendo mais um papel de ricaça, mas quem mandou ela nascer com cara de ricaça? Tem o desempenho oscilante de Murilo Benício, mas vai que a gente se surpreende, né?

Boas razões para assistir Avenida Brasil não faltam, como se vê. O texto de João Emanuel Carneiro, a menos que sofra interferências ou pedidos da alta cúpula global para encher linguiça, dá o devido peso e importância a tudo que dizem e fazem os personagens - o que deve tornar a perda de um capítulo um pesadelo - e a emissora parece determinada a reduzir a duração de suas novelas, dos habituais 8 a 9 meses de exibição, para cerca de 6 meses (já é assim, por exemplo, com o horário das seis da tarde, em que o sucesso de crítica e público A Vida da Gente teve cerca de 120 capítulos). 

Ou estou muito enganado, ou grandes emoções me aguardam de segunda a sábado, ao final do expediente.

01/04/2012

Maria Bethânia - Oásis de Bethânia


Um novo trabalho de Maria Bethânia é sempre aguardado com muita ansiedade. O público de "Dona Maria" é fidelíssimo e contribui para isso o fato de ela ser absurdamente criteriosa em seu trabalho, especialmente de 2001 em diante, quando foi "convidada a sair" do universo das gravadoras multinacionais e obteve liberdade artística praticamente incondicional na então modesta Biscoito Fino. De lá pra cá, os anos se alternam entre um lançamento de estúdio (às vezes, dois, como Mar de Sophia e Pirata em 2006, e Encanteria e Tua, em 2009) e outro ao vivo, logo em seguida.

Ao contrário de Gal e Caetano, que sempre gostaram de mostrar-se antenados ao que rola no mundo em termos musicais, sociais e políticos, Maria Bethânia empenhou-se na construção de uma discografia de formato atemporal, justamente por não prender-se a modismos da produção ou temas passageiros. Bethânia trata, basicamente, de dois temas em suas canções: o amor (em suas variantes mais extremas de doçura e amargor) e a fé (no candomblé e no catolicismo, ou num modelo que abarca ambos). A obra de Bethânia não acompanha movimentos, nem os provoca.

O ano passado não foi fácil para a cantora. Primeiro, ela se viu envolvida numa polêmica relacionada ao uso de R$ 1,3 milhões, que seriam captados pela Lei Rouanet de Incentivo à Cultura, para a criação de um blog de vídeos em que declamaria poesias. Sempre tão avessa ao aspecto mais circense da fama, ao ter as contas de seus produtores contestadas, se viu agredida e debochada na imprensa e nas redes sociais (sobre o episódio, vale a pena ler uma recente entrevista em que ela dá sua versão). Em setembro, ela desistiu oficialmente do projeto. No fim de outubro, Bethânia perdeu a irmã mais velha, Nicinha, que era sua assistente particular durante as turnês.

Como bem observado por um amigo meu, pode vir daí, da aridez de alma que restou com a partida da irmã amada (e não apenas de um trecho de sua autoria em "Carta de Amor"), que venha o título do novo disco, Oásis de Bethânia. É um trabalho econômico, de apenas 10 faixas, mas que sintetiza a senhora riqueza da nossa música nas canções cuidadosamente escolhidas por Bethânia, entre as quais consta uma belíssima inédita de Djavan, "Vive" e um tema de Chico Buarque de 1987, "O Velho Francisco". A produção foi dividida em um diferente colaborador por faixa: tem o próprio Djavan, Jorge Helder, Lenine e Jaime Alem, entre outros.

Mais conhecido por seus sambas de roda na tradição do Recôncavo, Roque Ferreira contribui com três canções de amor: "Casablanca", faixa jazzy e elegante, levada somente em piano e sax; a linda "Fado", em que brilha o violão de Jaime Alem; e a intensa "Barulho" ("eu só sei amar direito, nasci com esse defeito no coração"). "Calmaria", de Jota Velloso, mistura-se ao poema "Não Sei Quantas Almas Tenho", de Bernardo Soares, vulgo Fernando Pessoa. 



Compartilhando com o irmão Caetano da opinião de que Orlando Silva foi o maior cantor que o Brasil já teve, ela escolheu gravar "Lágrima" como homenagem. Do repertório de Dalva de Oliveira, contrapartida feminina do mesmo status, veio "Calúnia", em que a diva dava um chega-pra-lá, sucinto e cheio de classe, em Herivelto Martins.

Nada se compara, porém, à força de "Carta de Amor", mescla de composição de Paulo César Pinheiro com texto da própria cantora. Em uma arrepiante epopéia com sete minutos de fortíssimas imagens sonoras, Bethânia, voz em primeiro plano, faz um compêndio de suas crenças e manda recados aos seus detratores: "Não mexe comigo, que eu não ando só / (...) eu não provo do teu fel / eu não piso no teu chão / (...) você está tão mirrado, que nem o Diabo te ambiciona / (...) chorando, eu refaço as fontes que você secou". Promessa de grande momento na turnê vindoura, a faixa é daquelas que não se ouve e sai "impune". É impossível ficar indiferente a ela. 

Outra criação de Pinheiro, em parceria com Rafael Rabelo, "Salmo", encerra o disco. Bonitas firulas de André Mehmari ao piano realçam a beleza de versos como "Diante da vida delirante / ai de quem, vacilante / repousa e não ousa viver". 

É bom perceber que cheguei a um momento da vida em que escuto Maria Bethânia com o coração pronto e os ouvidos certos: sem a pressão de "dar valor ao que é nosso" independente da qualidade e sem medo de ser visto como "traidor do movimento" por quem divide comigo o gosto pelo rock/pop gringo. Na vida, é preciso deixar-se encantar pelo que é belo - e o belo é abundante na obra de Dona Maria. É disso que fala o verso de "Salmo", logo acima. Ele diz muito sobre Maria Bethânia, uma mulher que, para nossa sorte, só sabe amar direito e viver por inteiro. Bendita a água deste oásis.

10/03/2012

Gal Costa - Recanto

Comente e concorra a um exemplar de Daytripper! Sorteio em 28/04/12.



Preciso ser honesto: estou longe de ser um fã ardoroso de Gal Costa e hesitei bastante em escrever sobre este disco. Tenho ternas memórias de canções suas embalando momentos bonitos de minha infância, sei que ela esteve à frente de movimentos importantes da nossa música e que seu registro vocal extremamente límpido a qualificou como a única brasileira frequentemente citada entre as grandes damas da canção mundial. Como se vê, nada que vá me qualificar como especialista.

Para azar de Gal (ou meu), eu adolesci enxergando reflexos muito mais nítidos daquilo que eu sentia e pensava no pop/rock inglês do que na MPB, gênero que, naquele tempo (meados da década de 80), havia se tornado sinônimo de coisa muito chata e muito brega (Sullivan & Massadas, alguém?). E olha que Gal não teve medo algum de meter em sua obra os sintetizadores que eram sinônimo de modernidade - só que, como quase tudo feito no Brasil daquele tempo de ainda enorme defasagem tecnológica, seu som acabava me soando ou chocho, ou over e desinteressante.

Mas, vá lá, ela começou os anos 90 com Plural e ganhou meu respeito por levar o Olodum ao centro do palco, principalmente com aquela que sempre foi, para mim, uma das canções mais fortes já feitas na Bahia e sobre ela, "Salvador Não Inerte". Volta e meia, ela também emplacava uma ou outra música simpática numa trilha de novela. Depois de um tempo, acabei até comprando um disco de Gal, veja só! Era Mina d'Água do Meu Canto (1994), com clássicos de Chico e Caetano (em versões ultracaretas, é verdade, mas isso não é coisa de que se reclame sobre músicas praticamente impossíveis de estragar, como "Milagres do Povo" e "A Rita"). Repeti a dose com o burocrático Acústico MTV, de 1998, só para ouvi-la cantar as mesmas cartas marcadas de sempre e confirmar uma impressão que me era cada vez mais forte: Gal estava acomodada - e eu, incomodado.

E tome mais discos previsíveis, homenageando os mesmos velhos mestres, já cansados de tanta homenagem: Tom Jobim, Dorival Caymmi, João Gilberto, mais Chico e mais Caetano. Não por acaso, com a chegada do século 21, enquanto seus amigos Caetano e Bethânia viviam ciclos de inquietação, renovação e alta produtividade, Gal caía no ostracismo.

Mas eis que uma improvável ideia de Caetano Veloso, confirmando o que eu disse acima, resultou em um tremendo acerto: colocar Gal Costa num disco eletrônico radical, quase minimalista, com canções inéditas escritas por ele e completamente diferente de tudo que que ela tinha feito até então. Lançado em novembro do ano passado, Recanto salvou a virtualmente finada carreira de Gal. Simples assim.



É um disco que merece a sua atenção. Não vá escutá-lo, porém, com ouvidos sedentos de ternura acústica e do timbre cristalino que sempre foi marca registrada da cantora. Como dito antes, é um disco radical, com as melodias procurando seu caminho entre batidas quebradas e timbres esquisitos. Além disso, como já se percebe desde a capa em close do rosto minimamente maquiado, a idade chegou para Gal e sua voz, embora ainda inconfundível, perdeu aquela extensão que, em tempos áureos, lhe permitia agudos inacreditavelmente precisos.

A maturidade e o desencanto realista também são claramente perceptíveis nas letras de Caetano Veloso, algumas das quais bem melhores do que muitas das que se ouvem em seus próprios discos recentes. A economia e a precisão poéticas casam perfeitamente com um dos temas mais recorrentes do disco: a inevitabilidade do envelhecimento. As referências se espalham em canções como "Recanto Escuro" ("o álcool só me faz chorar") e "Tudo Doi" ("viver é um desastre que sucede a alguns (...) os vocábulos iridescem, os hipotálamos minguam"). Até mesmo a hesitação em soar "jovem" apelando à tecnologia está lá: "não, Autotune não basta para fazer o canto andar / pelos caminhos que levam à grande beleza" (em "Autotune Auterótico").

A primeira música de trabalho, a coloquial "Neguinho", tem elementos que a candidatam a hit, mas quem vai querer vestir a carapuça de versos como "neguinho compra três TVs de plasma, um carro, um GPS e acha que é feliz"? Espertamente, a letra foge do discurso hipócrita ao revelar-se autocrítica ("neguinho que eu falo é nóis"). Perto do fim, um funk carioca torto, "Miami Maculelê", convidando justiceiros à dança ("São Dimas, Robin Hood e o Anjo 45") e atestando uma disposição de ousar que parecia extinta em Gal. O disco termina com "Segunda", a faixa mais ortodoxa, quase épica, como que para lembrar que, sim, é a mesma Gal de sempre - só que não.

Um disco lindo de tão troncho. Em tempos de lançamentos independentes pipocando diariamente na internet, não dá pra dizer que inaugura uma tendência, mas certamente recoloca Gal no mapa. Meus ouvidos, deliciados com a novidade, agradecem.

04/03/2012

Billi Pig

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Billi Pig é uma comédia nacional lotada de boas intenções (entre elas, continuar dando fôlego ao surgimento de um "cinema de gênero" nacional mais cosmopolita, que se afaste da já cansada estética favela/caatinga), mas, infelizmente, estragada pelo ritmo irregular, pelo excesso de coadjuvantes inúteis e pelas soluções capengas e absurdas aplicadas a problemas interessantes.

O filme de José Eduardo Belmonte (de Se Nada Mais Der Certo) mostra o inferno astral de Wanderley (Selton Mello): ele é um vendedor de seguros falido e está tendo problemas em manter satisfeita a esposa aspirante a atriz, Marivalda (Grazielli Massafera). Perto de sua casa, mora o falso padre Roberval (Milton Gonçalves), que vive dando pequenos golpes e tem um romance perigoso com uma jovem vizinha. Paralelamente, a filha do traficante Seu Boca (Otávio Müller) leva um tiro durante um baile funk e fica entre a vida e a morte.

A tragédia de Seu Boca é o catalisador da união entre Wanderley e Roberval. Com a filha desenganada pelos médicos, ele apela para o pretensamente milagreiro padre e seus "assistentes" Wanderley e Marivalda. Por uma indecente quantia e diversos outros privilégios, espera nada menos que um milagre que traga sua filha de volta do coma. 

A operação do tal milagre é o principal fio condutor de Billi Pig, rendendo algumas boas piadas, mas é constantemente interrompido para dar atenção a um grupo de coadjuvantes absolutamente dispensáveis, com especial destaque negativo para os personagens de Preta Gil e Milhem Cortaz. Durante um teste de atuação de Marivalda, a bancada formada por Cassia Kiss, Sandra Pera e Monique Lafond solta uma piada desagradável e desnecessária com baianos. A única coadjuvante digna de nota é Andrea Neves, a abusada secretária Beijoca.

Por outro lado, o trio central está muito bem. Não é que Grazielli seja uma superatriz, mas ela sempre defende seus personagens com muita graça e Marivalda não é exceção. O Wanderley de Selton Mello parece cansado demais da vida para ter o tutano de arquitetar um grande golpe, mas, ainda assim, funciona. A grande virtude do filme, porém, se chama Milton Gonçalves. Sua interpretação sobressai e seu Padre Roberval é o único personagem que tem um passado. Isto o torna mais crível que os demais, apesar das lambanças que o roteiro apronta com ele.

Sim, porque embora tenha uma trama que, por si só, poderia dar margem a situações interessantes e divertidas, Billi Pig apela ao sobrenatural (na subitamente real mediunidade de Padre Roberval) ou ao trash puro e simples (no porco de brinquedo que passa a falar com Marivalda, com uma voz irritante, conselhos de comadre fofoqueira e influência zero nos resultados do filme). Pior: se antes só Marivalda via o porco falar (sacada legal sobre a insanidade de sua obsessão pelo sucesso), logo Wanderley também o descobre "vivo" e, ao final do filme, lá está o porco, todo à vontade, conversando entre os personagens. Entrei num filme da Xuxa e não percebi?

Louvado o esforço em ser diferente e em não parecer um mero episódio estendido de algum seriado da Globo, é preciso dar a Billi Pig o valor que lhe cabe e que, infelizmente, é muito pouco. Num momento em que uma lei pretende obrigar os canais por assinatura a incluir cada vez mais produção artística brasileira em sua programação, é de pensar se alguém vai querer pagar tanto dinheiro por tão pouca diversão. Minha sorte foi pagar meia.

28/02/2012

A Mulher de Preto


Este review não foi escrito por mim, o dono dessa bagaça. Abri espaço para a opinião de um aluno, amigo e grande curtidor de minhas sugestões musicais. Seu nome é José Gomes Neto, mas você pode chamá-lo de Joseph Grandson, que ele gosta. Eis o que ele tem a dizer:

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"A saga Harry Potter acabou e os protagonistas do filme agora irão representar outros personagens na telona. E pelo que vi em A Mulher de Preto, com Daniel Radcliffe, serão performances das boas! 

O filme é a adaptação de uma série de TV, baseada no livro homônimo de Susan Hill - curiosamente, protagonizada pelo ator Adrian Rawlins, que faz o papel de James Potter (o pai de Harry). Se você gosta de muito suspense e uma história inteligente, A Mulher de Preto tende a ser o filme do seu verão.

O filme se passa no século XIX e conta a história de Arthur Kipps (Daniel Radcliffe), um jovem advogado viúvo em Londres, que viaja, a mando de sua empresa, para cumprir a missão de reunir documentos da recém-falecida Alice Drablow. Porém, ao chegar à cidade onde Alice morava, percebe uma movimentação estranha entre os cidadãos, que parecem proteger-se de algo. 

Os documentos da falecida estão na sua mansão, separada por um pântano da vila principal. Ao chegar lá, Arthur decide passar a tarde trabalhando. Logo começam os calafrios, barulhos estranhos e aparições literalmente assustadoras da Mulher de Preto do título, por dentro e por fora da mansão. Arthur sente medo; porém, o mistério o instiga e ele decide tentar decifrá-lo. Cartas, uma sala de brinquedos (que faz parte das cenas mais arrepiantes), fotos e até mesmo terços são alguns dos improváveis elementos que deixam o filme bem apavorante.

Além de um roteiro legal e de uma dinâmica atraente, Daniel Radcliffe está sensacional. O filme possui poucos diálogos, então, depende muito do seu desempenho físico. Olhares, respiração ofegante, tensão corporal... uma verdadeira imersão de Radcliffe na situação em que o personagem se encontra, crucial entre os pontos positivos do filme. Arrisco dizer que é uma das principais características que o tornam bastante satisfatório. 

Nosso pequeno Harry cresceu e tornou-se um grande ator, cujo merecido reconhecimento não deve tardar. Daniel mostra não depender de mágica. Além do mais, não é sempre que se tem uma varinha à mão, não é?"

A Mulher de Preto 
Com Daniel Radcliffe e Ciarán Hinds.
Dirigido por James Watkins

25/02/2012

Que galera é essa, meu irmão?

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Há poucos dias, Bell Marques, o vocalista do Chiclete com Banana, quando questionado sobre o atual modelo de carnaval de Salvador, que privilegia uma minoria que pode pagar os caríssimos abadás e camarotes e espreme, no pequeno espaço que lhes sobra fora das cordas, o povo que trabalha para tirar um trocado, ou os foliões "pipoca" que simplesmente desejam aproveitar uma festa supostamente popular, saiu-se com essa:

"A corda dos blocos é necessária para que ricos e pobres possam usufruir do Carnaval. Corda sempre existiu e, na minha opinião, ao invés de separar, acaba unindo o povão, que acaba vendo de graça algo que é pago por uma parcela”.

Bell Marques: cara lisa é com ele mesmo...

O comentário, feito em entrevista ao jornal A Tarde, no último dia 10, tentava justificar um visível e contínuo estado de apartheid de classes e pegou supermal nas redes sociais. Não é para menos: é sintomático de um esquema que se alastrou feito praga no carnaval baiano, que a cada ano se elitiza um pouco mais. Aos donos de blocos (como Bell) e aos privilegiados (ou mesmo coitados) dispostos a pagar pequenas fortunas por abadás ou camarotes, tudo. Ao folião comum, que deseja apenas ver seus artistas do chão e dançar atrás de um trio, sem ter que pagar por isso, poucos e exíguos espaços, onde o esfrega-esfrega indistinto frequentemente termina em situações embaraçosas ou perigosas.

Como se fosse pouco, agora chega outro cacique-mor do carnaval, Durval Lélis, vocalista do Asa de Águia, propondo a privatização do circuito da Barra. Em poucas palavras: ele quer transformar (ainda que temporariamente) a orla de Salvador num clubinho privé, onde só entra quem paga e pronto. Caso ainda não tenha assistido a este vídeo, preste atenção aos comentários nas legendas (as interrupções no stream são propositais, para que você possa lê-los).



Eu proponho a gente fazer o que Durval pede.

Que não o façamos, porém, nas ruas de um bairro emblemático da cidade, cujo cenário natural ou urbano não pode ser loteado entre meia dúzia de ex-artistas acomodados e metidos a "magnatas do axé" e seu séquito de puxa-sacos. A Barra, como a Praça Castro Alves, é do povo. Talvez alguns dos moradores de lá até se sintam menos povo que o povão, mas, vamos falar sério: se ter transformado uma manifestação cultural genuinamente popular num evento já exclusivista em seu modelo atual não basta, depois dessa nova declaração, alguém precisa levantar a mão e dizer "calma lá, Durvalino, meu rei!".

Minha ideia é a seguinte:

Deixe o carnaval de rua na rua, que é o lugar dele. Sem corda, sem bloco milionário, sem camarote. Deixe que se abra espaço para novos artistas que ralam por um lugar ao sol, mas que, quase sempre, acabam escondidos pela sombra dos grandões do axé. Deixe que trabalhem aqueles artistas já estabelecidos que, ao contrário de vocês, acham que animar a pipoca é obrigação, não favor. Deixe que voltem aqueles senhores que faziam uma música muito mais rica e interessante para os carnavais de décadas atrás, pois vários deles ainda estão vivos, cheios de tesão pela arte, e existe uma multidão ávida de reencontro e de novidade.

Aproveito para fazer uma defesa pública de Daniela Mercury: a "insuportável", a "metida" Daniela desfila sem cordas todos os anos e faz um já tradicional show gratuito no Farol da Barra, ao fim da tarde de todo 1º de janeiro, enquanto seus amigos Bell e Durval não costumam dar sequer um arroto que se possa ouvir de graça. Pode ser que tenha razão quem diz que ela se apropria de uma cultura (a de origens africanas) que, em tese, não é a sua, mas ela o faz com beleza e reverência evidentes. Pode ser que ninguém queira ouvir canto lírico no carnaval, mas ninguém poderá acusá-la de não tentar olhar por cima da mesmice. Pode ser que hoje muitos "artistas" medíocres ou mera e flagrantemente ruins façam mais sucesso do que ela e sejam bajulados pelo mesmo povo que extorquem com um sorriso, mas o tempo, senhor de tudo, há de fazer justiça à "metida".

Quanto ao seu carnaval VIP, com portaria e catraca, abadá mais caro que um salário mínimo, seguranças de terno e gravata, convidados globais e "gente bonita" (subjetividade que geralmente implica certas preferências étnicas), leve-o para um espaço fechado, mesmo. Um estádio. Um latifúndio qualquer, seu ou de um amigo (Bell, por exemplo). Eu sugeriria uma ilha. Não a de Itaparica, que é praticamente uma extensão de Salvador. Faça assim, ó: compre logo uma ilha, se é que você ainda não tem uma! Compre uma bem, mas beeeem afastada da costa, que é para não atrapalhar o carnaval dos plebeus aqui na cidade e não encher o saco de quem não está nem aí pra folia. Da mesma forma, visto que lá só se chegará de iate ou helicóptero, você estará livre de ambulantes e de outros tipos de "gente feia" que é sempre mantida, a empurrões, do lado de fora das cordas que Bell tanto preza.

Devolver o carnaval baiano ao seu povo não é utopia.  O carnaval do Rio tem o luxo da Sapucaí e seus camarotes, mas as ruas do centro são tomadas por pessoas comuns, seguindo charangas em pequenos blocos ou totalmente avulsas. Este não é o carnaval que vai pra televisão, mas é o verdadeiro evento que reúne milhões (ao menos de pessoas, se não de reais). Mesma coisa no Recife, onde a multidão divide as ruas sem cordas ou cordeiros (e se eu estiver equivocado, que algum pernambucano se manifeste). Não dá pra entender como é que um modelo tão perverso se enraizou tão firmemente aqui na Bahia.

"Melhor carnaval do mundo"? Aham, Cláudia, senta lá.

Reboota, que eu gosto!

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Contrariando as previsões dos leitores mais conservadores e esperneantes, o reboot da DC Comics tem se provado um estrondoso sucesso. Em janeiro, quinto mês da iniciativa, a casa de Batman e Superman varreu o chão com a concorrência, dominando totalmente o Top 10 da distribuidora Diamond. A primeira edição da nova revista da Liga da Justiça já está na sua sétima tiragem! É um tempo de vacas gordas, como a DC há muito não vivia. Enquanto isso, na Marvel, chovem cancelamentos e há quem espalhe rumores de que ela também prepara seu próprio reboot. ("Casa das Ideias", né? Sei...)

Apesar de ainda não ter iniciado a leitura (digital) de alguns títulos bastante elogiados (como Homem-Animal e Monstro do Pântano), outros bastante malhados (Arqueiro Verde, Rapina & Columba) e uns bem alternativos (I, Vampire e Voodoo), já li as cinco ou seis primeiras edições de algumas das principais revistas novas. Apesar da insistência da DC em algumas figuras nefastas (Gail Simone, Rob Liefeld, Tony Daniel como escritor) e de o primeiro e mais bem-sucedido título do reboot (Liga da Justiça, com os superstars Geoff Johns e Jim Lee) ser apenas um blockbuster fast-food, o saldo geral é positivo.

A seguir, você tem minha opinião sobre cinco dos melhores títulos da nova DC Comics que tive a oportunidade de ler. Espero que sirva como um guia (embora modestíssimo) para suas escolhas, quando essas revistas começarem a sair por aqui - em junho ou julho, a julgar pela publicação de Ponto de Ignição (no original, Flashpoint, o evento que levou ao reboot), o que vai diminuir a "janela" entre a publicação americana e a brasileira, que hoje é de um ano, para cerca de 9 meses.

ACTION COMICS
de Grant Morrison e Rags Morales

Em início de carreira, Kal-El é muito mais temido que amado em Metrópolis e sequer pensou em um uniforme decente, usando jeans, uma camiseta com o brasão de sua família (o famoso S) e uma capa curta. Os inimigos são novas versões de Metallo e Brainiac e, mesmo não sendo o melhor trabalho de Grant Morrison com o personagem, a história que reintroduz o mito do Superman está bem divertida. A quinta edição traz um interlúdio simplesmente emocionante.


BATMAN
de Scott Snyder e Greg Capullo

O melhor título do Batman em muito, muito tempo. O Morcego de Snyder é moderno em seus recursos, mas à moda antiga em seus métodos: há muito tempo não víamos o lado detetivesco do Batman tão bem trabalhado! O primeiro arco se aproxima do fim lá fora, com o surgimento de um grupo de novos inimigos convincentes e com raízes profundas na história dos Wayne. O ex-recluso Greg Capullo continua mandando muito bem no lápis. Absolutamente viciante!


BATMAN & ROBIN
de Peter Tomasi e Patrick Gleason

Apenas um pouco inferior ao título-solo do Morcego, a revista que reedita a vitoriosa parceria autoral da Tropa dos Lanternas Verdes é divertida e explora muito bem a dinâmica pai/filho entre Bruce e Damian, um personagem que parecia destinado a  apenas esquentar lugar para a volta de Tim Drake, mas vai ganhando personalidade e importância, graças à boa mão de gente como Tomasi e Grant Morrison.

WONDER WOMAN
de Brian Azzarello e Cliff Chiang

Se, ao pensar em Azzarello escrevendo super-heróis, seus cabelos se arrepiam e você ouve "Superman - Pelo Amanhã" ecoar em sua mente, pode respirar aliviado: o escritor acertou em cheio no clima aterrorizante e nas novas personificações dos deuses gregos, fazendo importantes e bem-vindas modificações no passado da Mulher-Maravilha. O traço limpo, mas altamente cinético, de Cliff Chiang (que em breve será co-escritor) é uma atração à parte. Uma das melhores surpresas do reboot.

AQUAMAN
de Geoff Johns e Ivan Reis

Ninguém, em seu juízo perfeito, apostaria um centavo que o Aquaman fosse frequentar o Top 10, mas é o que vem acontecendo. A dupla que fez do Lanterna Verde um sucesso faz troça com toda troça de que o Aquaman é vítima desde sempre e transforma este num gibi bem agradável. A trama com canibais submarinos não é nenhuma obra-prima, mas duvido que Johns tenha tais ambições. Opção de leitura descompromissada, com ótima arte de Reis.

Menções Honrosas:

Batwoman - J. H. Williams revela-se tão eficiente como roteirista quanto como artista. Arte espetacular, diagramação surpreendente e toneladas de carisma em cada personagem.

Justice League Dark - Vários místicos da DC (incluindo Zatanna e o bam-bam-bam da Vertigo, John Constantine) são reunidos para combater a sempre reincidente loucura da bruxa Magia.

Green Lantern - Sinestro, Lanterna Verde do setor 2814? Assim começa a "nova" revista do gladiador esmeralda (como o Batman, imune aos efeitos do reboot). Não é a melhor das fases, mas Geoff Johns mantém a velha chama verde acesa.

14/02/2012

O Artista

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Atribui-se a O Artista, em críticas que pipocam pela internet, o "crime" de ser saudosista. Dizem que a Academia o laureou com 10 indicações ao Oscar 2012 (apenas uma a menos que A Invenção de Hugo Cabret) porque muitos dos seus membros estão "com saudade do que não viveram". Bobagem. Pode ser que toda a badalação com o filme esteja te deixando desconfiado, mas O Artista merece todos os prêmios que ganhou e que ainda venha a ganhar.

(E que se diga: quando é Quentin Tarantino que faz filmes com cara de produção de quinta categoria dos anos 70, com seus diálogos fervilhantes de cultura pop e personagens inverossímeis, ele é chamado de cool e de gênio, não de saudosista. Adoro Tarantino e adoro seus filmes, mas, por favor, não é a falta da violência e do aspecto trash que justifica o uso de dois pesos e duas medidas)

Na Hollywood do final dos anos 1920, George Valentin (Jean Dujardin, excelente) reina como astro do cinema mudo. Ele é talentoso e carismático, mas, também, dono de um ego gigantesco. Durante as filmagens de uma de suas produções, ele reencontra Peppy Miller (Bérénice Bejo, encantadora), uma fã que pretende ser atriz, e a ajuda a dar-se bem no estúdio onde trabalha. O interesse amoroso é instantâneo, mas o fato de Valentin ser (mal) casado é um obstáculo entre os dois. Após desdenhar da nascente tecnologia dos filmes falados, ele é posto de lado pelos chefões do seu estúdio e cai no ostracismo, enquanto Peppy rapidamente torna-se o principal rosto dos talkies.

Eu sei, a história não é nenhum primor de complexidade e, sendo o filme mudo, são poucos os diálogos importantes o suficiente para aparecer em quadros inteiros, exatamente como nas produções da época. Também é verdade que o ritmo cai bastante durante o tempo de "vacas magras" de Valentin. Mesmo assim, o filme do francês Michel Hazanavicius é uma realização tão bonita (com fotografia perfeita de Guillaume Schiffman) e de tamanha entrega (não dá para não se derreter pelas performances apaixonadas e pelos sorrisos de Bejo e Dujardin), que só mesmo uma lamentável recusa das plateias mais jovens em experimentar um tipo de cinema sem efeitos especiais ou piadas de mau gosto pode explicar o fracasso nas bilheterias: O Artista custou US$ 15 milhões, tendo arrecadado apenas US$ 20 milhões, até 5 de fevereiro (segundo o IMDB). O jeito é torcer, então, para que tenha melhor sorte em outros países e seja reconhecido pelos prêmios que vem colecionando (o último deles, melhor filme no Bafta, espécie de Oscar britânico).

Ainda prefiro Os Descendentes para Melhor Filme e George Clooney para Melhor Ator no próximo dia 26, mas se os prêmios foram dados a O Artista e a Jean Dujardin, acredito que a Academia terá sido, ao menos, parcialmente feliz. O filme de Clooney tem história, personagens e atuações mais interessantes, mas este aqui exala uma alegria de fazer arte que parece esquecida nesses tempos de maravilhas tecnológicas que enchem os olhos e as bilheterias, mas desviam o cinema do coração, caminho obrigatório das obras que ficam para a posteridade.