14/07/2026
De tudo, ao meu amor serei atento
04/06/2025
Pecadores
O diretor estadunidense Ryan Coogler possui uma filmografia ainda pequena, mas que demonstra invejável solidez. Do modesto Fruitvale Station (2013) ao multimilionário Pantera Negra: Wakanda Para Sempre (2022), Coogler usa seus filmes (que também roteiriza) como vitrine de suas fortes convicções, brandindo o dedo acusador na cara dos racistas. O fato de que conseguiu imprimir personalidade a dois filmes de um estúdio (Disney) notório por inibir visões artísticas muito particulares, em favor de uma mesmice homogeneizada, dá noção do cacife (ou da lábia) do homem – e, por mais divisivo que o segundo Pantera Negra tenha sido, a verdade é que ele fez uma montanha de dinheiro (cerca de 850 milhões de dólares) que deixou o estúdio bastante satisfeito.
À parte este tropeço (se é que dá para chamar assim um filme que ganhou o Oscar de design de figurino e rendeu a Angela Bassett sua segunda indicação), o cinema de Coogler é constante e vigoroso, expondo a injustiça da brutalidade policial americana (Fruitvale Station), dando ao espectador a sensação de estar no ringue durante lutas de boxe (Creed), celebrando uma África que não se curva diante das potências ocidentais (Pantera Negra) e, agora, com o novo Pecadores, atribuindo à música poderes sobrenaturais e retratando o racismo como um pacto de sangue para sugar tudo que se puder dos negros, figurativa e literalmente.
Após sete anos longe de Clarksdale,
Mississipi, os gêmeos Elias e Elijah Moore (duplo papel de Michael B. Jordan) -
ou Fumaça e Fuligem – estão de volta. Com o dinheiro que ganharam trabalhando
com a Máfia italiana em Chicago (e com as bebidas que roubaram dela e da rival
irlandesa), querem abrir um clube de blues em menos de 24 horas, numa velha
serraria que compram de um velho membro da Ku Klux Klan, supondo (torcendo?)
que ele entenda que dinheiro é dinheiro, não importando que venha de mãos
brancas ou pretas.
Para abrir naquela mesma noite, os gêmeos contam com a ajuda de diversos amigos e parentes, entre os quais está o absurdamente talentoso primo Samuel Moore (Miles Caton), ou “Preacher Boy” Sammie, filho do pastor local, com um dedilhar tão preciso nas cordas de aço e uma voz tão calorosa que, segundo uma lenda, narrada nos primeiros segundos do filme, seria capaz de romper o véu do tempo e da realidade. O velho e pinguço pianista Delta Slim (Delroy Lindo) pode ter décadas a mais de experiência, mas Sammie nasceu com um dom para o blues que só pode mesmo ser descrito como sobrenatural.
O baile inaugural acontece e é um sucesso (embaçado apenas pelo baixo poder de compra da freguesia), mas acaba atraindo o vampiro Remmick (Jack O'Connell) e outros dois “convertidos”, que desejam entrar, em troca de gastar muito e tocar música de graça, mas são mantidos de fora pelo desconfiado Elijah – que ainda não sabe que eles são vampiros, mas aprendeu a desconfiar de todo e qualquer branco que chega com muita conversa mole – e vampiros, como se sabe, só entram no espaço alheio quando convidados. É claro que esta breve resistência será vencida, o baile virará um banho de sangue e a sobrevivência será privilégio de uns poucos.
Coogler mistura elementos de filmes de
gângster, blaxploitation (gênero de filmes policiais dos anos 70 que agregava
discussão de direitos civis e elementos da cultura negra) e terror, embalados
em uma atmosfera carregada de tensão, misticismo e sensualidade. É o seu filme
mais pessoal, sua primeira história 100% original – e como é bom a gente ver o
sucesso de um filme que não é um remake ou continuação! É ainda melhor que este
sucesso seja fruto de seus indiscutíveis méritos.
O elenco tem Delroy Lindo arrasando, pra variar. Hailee Steinfeld diverte como uma mestiça que passa por branca, desbocada ex-namorada de Fuligem. Jack O’Connell, como Remmick, é um vampiro irlandês caipira assustador – menos pelos dentes ou sede de sangue, e mais por seus modos suaves e por representar a rapinagem branca sobre a cultura negra: “nós queremos sua música, suas histórias”, diz ele, a certa altura. Todo o elenco é bastante competente e, em papel duplo, o astro Michael B. Jordan exala em dobro o habitual carisma.
Além de Jordan, outro parceiro recorrente de Coogler é o compositor sueco Ludwig Göransson, que se supera na trilha de um filme em que a música está no centro nervoso dos acontecimentos, especialmente quando está em cena o estreante Miles Caton, jovem músico que, ao contrário do que o filme sugere, teve apenas dois meses para se familiarizar com a guitarra do blues, revelação muito promissora. É arrepiante, quase paralisante, a espetacular cena em que Sammie se entrega à literal magia do blues durante o baile e, se é que consigo evitar spoilers, acontece a coisa mais legal vista no cinema em muito tempo. Um momento brilhante, que fãs e estudiosos da arte vão comentar para sempre.
Como parece que tudo tem que virar “franquia”, “universo” e outras bobagens, já houve quem perguntasse a Coogler se ele já pensa em uma continuação, ao que ele respondeu com uma sonora negativa: “eu nunca sequer penso nisso”, disse, em entrevista. Tomara que ele mantenha sua palavra, já que Pecadores tem um fim meio “devedor”, mas retorna, logo após os primeiros créditos, para dar conta do destino de certos personagens, em cena arrebatadora e saudosa, colocando um indiscutível ponto final. É claro que, aplicando-se a pre$$ão correta, Coogler pode mudar de ideia – ele é apenas humano, enfim – mas, torçamos que seja esperto e desapegado o bastante para não macular o próprio legado.
04/11/2024
A Substância
A crítica à obsessão por beleza e juventude na sociedade em geral e na indústria de entretenimento em particular já não é novidade. O próprio cinema, onde essa obsessão ainda vigora, já fez sua cota de autocrítica. A Substância é seu mais recente esforço, que se destaca por contar com uma protagonista (Demi Moore) que viveu a pressão para manter-se com o rosto e o corpo jovens que o público supostamente queria ver – normalmente, uma opinião de homens que não viam qualquer problema neles próprios envelhecendo ou embarangando.
A carreira de Elisabeth Sparkle (belo nome para uma drag queen) da fama mundial ao semi-ostracismo é resumida, de forma bastante sucinta e esperta, na sequência de abertura, quando ganha sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood – em meio a comentários elogiosos sobre sua beleza e talento – e, conforme avançam os anos passam de maneira acelerada, o tom dos comentários ao redor da placa muda para coisas como “lembra dela?”. De desejado ponto de visitação, vira um lugar por onde as pessoas passam sem qualquer atenção ou cuidado.
Ao completar 50 anos, Elisabeth é “convidada a sair” da emissora onde comanda um programa de fitness da chamada “melhor idade”, em favor do que a direção de seu canal (na pessoa do asqueroso personagem de Dennis Quaid) deseja em seu lugar: alguém mais jovem, mais bonita e capaz de renovar a audiência em baixa. Aos 50, Elisabeth está linda, lúcida e produtiva, mas percebe que se tornou um estorvo, num meio onde a velhice é um pecado imperdoável.
Enquanto lamenta sua
nova condição de “idosa” desempregada, ela vê um anúncio de algo chamado
simplesmente de A Substância, que promete (mediante instruções de uso bastante
específicas) entregar uma nova versão do usuário: mais jovem, mais bonita –
melhor, enfim. Levada a um endereço tenebroso, Elisabeth pega seu kit, vai pra
casa e, claro submete-se ao misterioso tratamento.
Paramos por aqui,
porque dar qualquer detalhe a partir deste ponto estragaria muitas surpresas do
filme da diretora francesa Coralie Fargeat (que, antes, havia dirigido apenas
um outro filme, o thriller Vingança, de 2017). No Festival de Cannes deste ano,
A Substância estava indicado à Palma de Ouro, e saiu com o prêmio de Melhor
Roteiro. Se sentir que já viu algum filme com trama bem parecida, você deve
estar certo. Mesmo sem ideias tão novas assim, porém, A Substância desvia de
soluções óbvias e sua principal virtude é não pisar no freio: quando você achar
que já chegou ao limite da maluquice e da nojeira, ele vai lá e empurra o
limite um pouco pra mais longe. De certa forma, testa nosso voyeurismo sádico,
ao sugerir que chega ao fim algumas vezes – e aí, pof!, tome mais uma sequência
ultrajante na cara!
Apesar do gore deslavado, a maravilhosa cinematografia, com seus cenários e planos de câmera, rende homenagem a clássicos do terror. É impossível, por exemplo, ver as cenas nos corredores da emissora e não pensar no hotel de O Iluminado (1980). Como Pearl (2023), outro filme de terror recente carregado de esmero visual, A Substância é bem bonito de assistir – isto é, até que comecem os previsíveis problemas de Elisabeth, que já qualificam o filme como um neoclássico do horror corporal como veículo de crítica social, à moda David Cronenberg.
É gratificante ver Demi Moore, uma atriz que já experimentou todo tipo de altos e baixos na profissão, retornar à relevância com tal categoria, a serviço de uma personagem com a qual certamente se identifica (tendo ela mesma se submetido a transformações artificiais que nem sempre deram certo). Além disso, com o que muita gente já chama de melhor atuação de sua carreira, Demi prova o argumento central do filme, o de que é apenas natural que a juventude se acabe, sem que isso implique em juízo do seu valor ou talento. Rejeitar a passagem do tempo, em nome da vaidade ou de uma utopia de juventude eterna, é terreno fértil para o ridículo e o grotesco. Com A Substância, Demi e Coralie deixaram pouca margem para mal-entendidos. É um filme que não faz prisioneiros, exige coragem pra ser feito e visto. Arme-se de muita!






