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14/07/2026

De tudo, ao meu amor serei atento


Uma crítica do filme
Obsessão

Ao ser perguntado qual é meu gênero favorito de filme, eu raramente tenho uma resposta definitiva a dar. Normalmente, digo que meu favorito é o drama (por ser um gênero menos sujeito a "modinhas") e aquele de que menos gosto costuma ser o terror (por conta de recursos manjados e por vezes desonestos, como o jump scare e o gore gratuito). Do início da década pra cá, porém, me vejo assistindo filmes de terror aos montes, porque o gênero se tornou um campo fértil de boas ideias.

Seja pela criatividade das tramas e reviravoltas, pelas grandes atuações ou pela beleza de sua fotografia (um valor que eu não costumava associar ao terror), filmes como Pearl, Noites Brutais, A Substância e Faça Ela Voltar estão entre as obras mais sólidas dos últimos anos, capazes de causar medo, repulsa e, o mais legal de tudo, refletir a sociedade e provocar discussão. Mesmo filmes de franquias que já chafurdaram em mediocridade, como Premonição, deram sinais de vitalidade recentemente.

A atual "febre" do terror é um filme que custou menos de US$ 1 milhão, mas já faturou mais de US$ 400 milhões, marca ainda mais impressionante quando vemos que ele não tem qualquer grande celebridade em seu elenco. Por trás do teor sobrenatural da história de um jovem que, por meio de um desejo mágico, "obriga" uma moça a se apaixonar por ele, Obsessão trata de relacionamentos tóxicos, sentimentos de posse e da crescente dificuldade do homem em aceitar a independência feminina e em lidar com seus próprios sentimentos.

Bear (Michael Johnston) é apaixonado pela colega de trabalho Nikki (Inde Navarrette), mas não consegue criar coragem de tentar qualquer coisa. Em uma loja onde entrou para comprar um presente, Bear encontra um item chamado "salgueiro de um desejo", um artefato que deve ser quebrado ao meio para atender a um único desejo. Durante uma noite com Nikki e os amigos Ian (Cooper Thomlinson) e Sarah (Megan Lawless), em que pretendia declara seu amor, Bear fica nervoso e, constrangido, nega seus sentimentos. Frustrado e arrependido, ele quebra o "salgueiro de um desejo", pedindo que Nikki o ame mais do que qualquer coisa. Dá certo - e dá muito errado, também.

Nikki: "Já tirou a foto?"

O jovem diretor Curry Barker, de meros 26 anos, mostra-se atento ao adoecimento psicológico dos homens de sua geração, incapazes de entender o que sentem e de dar à mulher autonomia sobre seu desejo. Ainda que possa não ser um homem exatamente ruim, Bear é um covarde sem qualquer fibra, que vive entupido de oxicodona pra suportar a própria mediocridade. Ao comportar-se como "louca", Nikki diz muito mais sobre o que lhe foi feito, quando se negou a dar (ou ser) o que aquele homem queria dela. Fosse um namoro espontâneo, talvez fosse Bear a trancafiar e ameaçar Nikki.

Metáforas à parte, Obsessão funciona muito bem como espetáculo de horror. Apesar do orçamento modestíssimo, tem ótimos sustos e soluções visuais inventivas e eficientes, com zero uso de CGI ou IA. Para a construção da sua Nikki, Inde Navarrette estudou trabalhos como os de Toni Colette em Hereditário (2018) e de Mia Goth em Pearl (2023). Mesmo não alcançando o brilhantismo dessas, sua atuação é um dos pontos altos do filme. Outro aspecto positivo é o humor, seja pelo constrangimento ou pela patetice pura (especialmente quando, lá pelo terço final, Ian "ajuda" o desesperado Bear).

Um desses felizes casos em que o produto justifica o hype, Obsessão adentra com méritos ao catálogo de grandes momentos do terror nesta década. Sou desde já contra uma sequência, pelo forte risco de estragar o legado deste primeiro e, pelo amor de Deus, porque o público e os estúdios precisam reaprender a conformar-se com histórias que acabam e dão lugar às próximas. Tanto quanto o "não" de uma mulher não significa "talvez", a palavra "fim" não significa "a gente se vê".

04/06/2025

Pecadores

O diretor estadunidense Ryan Coogler possui uma filmografia ainda pequena, mas que demonstra invejável solidez. Do modesto Fruitvale Station (2013) ao multimilionário Pantera Negra: Wakanda Para Sempre (2022), Coogler usa seus filmes (que também roteiriza) como vitrine de suas fortes convicções, brandindo o dedo acusador na cara dos racistas. O fato de que conseguiu imprimir personalidade a dois filmes de um estúdio (Disney) notório por inibir visões artísticas muito particulares, em favor de uma mesmice homogeneizada, dá noção do cacife (ou da lábia) do homem – e, por mais divisivo que o segundo Pantera Negra tenha sido, a verdade é que ele fez uma montanha de dinheiro (cerca de 850 milhões de dólares) que deixou o estúdio bastante satisfeito.

À parte este tropeço (se é que dá para chamar assim um filme que ganhou o Oscar de design de figurino e rendeu a Angela Bassett sua segunda indicação), o cinema de Coogler é constante e vigoroso, expondo a injustiça da brutalidade policial americana (Fruitvale Station), dando ao espectador a sensação de estar no ringue durante lutas de boxe (Creed), celebrando uma África que não se curva diante das potências ocidentais (Pantera Negra) e, agora, com o novo Pecadores, atribuindo à música poderes sobrenaturais e retratando o racismo como um pacto de sangue para sugar tudo que se puder dos negros, figurativa e literalmente.

Após sete anos longe de Clarksdale, Mississipi, os gêmeos Elias e Elijah Moore (duplo papel de Michael B. Jordan) - ou Fumaça e Fuligem – estão de volta. Com o dinheiro que ganharam trabalhando com a Máfia italiana em Chicago (e com as bebidas que roubaram dela e da rival irlandesa), querem abrir um clube de blues em menos de 24 horas, numa velha serraria que compram de um velho membro da Ku Klux Klan, supondo (torcendo?) que ele entenda que dinheiro é dinheiro, não importando que venha de mãos brancas ou pretas.

Para abrir naquela mesma noite, os gêmeos contam com a ajuda de diversos amigos e parentes, entre os quais está o absurdamente talentoso primo Samuel Moore (Miles Caton), ou “Preacher Boy” Sammie, filho do pastor local, com um dedilhar tão preciso nas cordas de aço e uma voz tão calorosa que, segundo uma lenda, narrada nos primeiros segundos do filme, seria capaz de romper o véu do tempo e da realidade. O velho e pinguço pianista Delta Slim (Delroy Lindo) pode ter décadas a mais de experiência, mas Sammie nasceu com um dom para o blues que só pode mesmo ser descrito como sobrenatural.

O baile inaugural acontece e é um sucesso (embaçado apenas pelo baixo poder de compra da freguesia), mas acaba atraindo o vampiro Remmick (Jack O'Connell) e outros dois “convertidos”, que desejam entrar, em troca de gastar muito e tocar música de graça, mas são mantidos de fora pelo desconfiado Elijah – que ainda não sabe que eles são vampiros, mas aprendeu a desconfiar de todo e qualquer branco que chega com muita conversa mole – e vampiros, como se sabe, só entram no espaço alheio quando convidados. É claro que esta breve resistência será vencida, o baile virará um banho de sangue e a sobrevivência será privilégio de uns poucos.

Coogler mistura elementos de filmes de gângster, blaxploitation (gênero de filmes policiais dos anos 70 que agregava discussão de direitos civis e elementos da cultura negra) e terror, embalados em uma atmosfera carregada de tensão, misticismo e sensualidade. É o seu filme mais pessoal, sua primeira história 100% original – e como é bom a gente ver o sucesso de um filme que não é um remake ou continuação! É ainda melhor que este sucesso seja fruto de seus indiscutíveis méritos.

O elenco tem Delroy Lindo arrasando, pra variar. Hailee Steinfeld diverte como uma mestiça que passa por branca, desbocada ex-namorada de Fuligem. Jack O’Connell, como Remmick, é um vampiro irlandês caipira assustador – menos pelos dentes ou sede de sangue, e mais por seus modos suaves e por representar a rapinagem branca sobre a cultura negra: “nós queremos sua música, suas histórias”, diz ele, a certa altura. Todo o elenco é bastante competente e, em papel duplo, o astro Michael B. Jordan exala em dobro o habitual carisma.

Além de Jordan, outro parceiro recorrente de Coogler é o compositor sueco Ludwig Göransson, que se supera na trilha de um filme em que a música está no centro nervoso dos acontecimentos, especialmente quando está em cena o estreante Miles Caton, jovem músico que, ao contrário do que o filme sugere, teve apenas dois meses para se familiarizar com a guitarra do blues, revelação muito promissora. É arrepiante, quase paralisante, a espetacular cena em que Sammie se entrega à literal magia do blues durante o baile e, se é que consigo evitar spoilers, acontece a coisa mais legal vista no cinema em muito tempo. Um momento brilhante, que fãs e estudiosos da arte vão comentar para sempre.

Como parece que tudo tem que virar “franquia”, “universo” e outras bobagens, já houve quem perguntasse a Coogler se ele já pensa em uma continuação, ao que ele respondeu com uma sonora negativa: “eu nunca sequer penso nisso”, disse, em entrevista. Tomara que ele mantenha sua palavra, já que Pecadores tem um fim meio “devedor”, mas retorna, logo após os primeiros créditos, para dar conta do destino de certos personagens, em cena arrebatadora e saudosa, colocando um indiscutível ponto final. É claro que, aplicando-se a pre$$ão correta, Coogler pode mudar de ideia – ele é apenas humano, enfim – mas, torçamos que seja esperto e desapegado o bastante para não macular o próprio legado.

04/11/2024

A Substância

 

A crítica à obsessão por beleza e juventude na sociedade em geral e na indústria de entretenimento em particular já não é novidade. O próprio cinema, onde essa obsessão ainda vigora, já fez sua cota de autocrítica. A Substância é seu mais recente esforço, que se destaca por contar com uma protagonista (Demi Moore) que viveu a pressão para manter-se com o rosto e o corpo jovens que o público supostamente queria ver – normalmente, uma opinião de homens que não viam qualquer problema neles próprios envelhecendo ou embarangando.

A carreira de Elisabeth Sparkle (belo nome para uma drag queen) da fama mundial ao semi-ostracismo é resumida, de forma bastante sucinta e esperta, na sequência de abertura, quando ganha sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood – em meio a comentários elogiosos sobre sua beleza e talento – e, conforme avançam os anos passam de maneira acelerada, o tom dos comentários ao redor da placa muda para coisas como “lembra dela?”. De desejado ponto de visitação, vira um lugar por onde as pessoas passam sem qualquer atenção ou cuidado.

Ao completar 50 anos, Elisabeth é “convidada a sair” da emissora onde comanda um programa de fitness da chamada “melhor idade”, em favor do que a direção de seu canal (na pessoa do asqueroso personagem de Dennis Quaid) deseja em seu lugar: alguém mais jovem, mais bonita e capaz de renovar a audiência em baixa. Aos 50, Elisabeth está linda, lúcida e produtiva, mas percebe que se tornou um estorvo, num meio onde a velhice é um pecado imperdoável.

Enquanto lamenta sua nova condição de “idosa” desempregada, ela vê um anúncio de algo chamado simplesmente de A Substância, que promete (mediante instruções de uso bastante específicas) entregar uma nova versão do usuário: mais jovem, mais bonita – melhor, enfim. Levada a um endereço tenebroso, Elisabeth pega seu kit, vai pra casa e, claro submete-se ao misterioso tratamento.

Paramos por aqui, porque dar qualquer detalhe a partir deste ponto estragaria muitas surpresas do filme da diretora francesa Coralie Fargeat (que, antes, havia dirigido apenas um outro filme, o thriller Vingança, de 2017). No Festival de Cannes deste ano, A Substância estava indicado à Palma de Ouro, e saiu com o prêmio de Melhor Roteiro. Se sentir que já viu algum filme com trama bem parecida, você deve estar certo. Mesmo sem ideias tão novas assim, porém, A Substância desvia de soluções óbvias e sua principal virtude é não pisar no freio: quando você achar que já chegou ao limite da maluquice e da nojeira, ele vai lá e empurra o limite um pouco pra mais longe. De certa forma, testa nosso voyeurismo sádico, ao sugerir que chega ao fim algumas vezes – e aí, pof!, tome mais uma sequência ultrajante na cara!

Apesar do gore deslavado, a maravilhosa cinematografia, com seus cenários e planos de câmera, rende homenagem a clássicos do terror. É impossível, por exemplo, ver as cenas nos corredores da emissora e não pensar no hotel de O Iluminado (1980). Como Pearl (2023), outro filme de terror recente carregado de esmero visual, A Substância é bem bonito de assistir – isto é, até que comecem os previsíveis problemas de Elisabeth, que já qualificam o filme como um neoclássico do horror corporal como veículo de crítica social, à moda David Cronenberg.

É gratificante ver Demi Moore, uma atriz que já experimentou todo tipo de altos e baixos na profissão, retornar à relevância com tal categoria, a serviço de uma personagem com a qual certamente se identifica (tendo ela mesma se submetido a transformações artificiais que nem sempre deram certo). Além disso, com o que muita gente já chama de melhor atuação de sua carreira, Demi prova o argumento central do filme, o de que é apenas natural que a juventude se acabe, sem que isso implique em juízo do seu valor ou talento. Rejeitar a passagem do tempo, em nome da vaidade ou de uma utopia de juventude eterna, é terreno fértil para o ridículo e o grotesco. Com A Substância, Demi e Coralie deixaram pouca margem para mal-entendidos. É um filme que não faz prisioneiros, exige coragem pra ser feito e visto. Arme-se de muita!