Uma crítica do filme
Obsessão
Ao ser perguntado qual é meu gênero favorito de filme, eu raramente tenho uma resposta definitiva a dar. Normalmente, digo que meu favorito é o drama (por ser um gênero menos sujeito a "modinhas") e aquele de que menos gosto costuma ser o terror (por conta de recursos manjados e por vezes desonestos, como o jump scare e o gore gratuito). Do início da década pra cá, porém, me vejo assistindo filmes de terror aos montes, porque o gênero se tornou um campo fértil de boas ideias.
Seja pela criatividade das tramas e reviravoltas, pelas grandes atuações ou pela beleza de sua fotografia (um valor que eu não costumava associar ao terror), filmes como Pearl, Noites Brutais, A Substância e Faça Ela Voltar estão entre as obras mais sólidas dos últimos anos, capazes de causar medo, repulsa e, o mais legal de tudo, refletir a sociedade e provocar discussão. Mesmo filmes de franquias que já chafurdaram em mediocridade, como Premonição, deram sinais de vitalidade recentemente.
A atual "febre" do terror é um filme que custou menos de US$ 1 milhão, mas já faturou mais de US$ 400 milhões, marca ainda mais impressionante quando vemos que ele não tem qualquer grande celebridade em seu elenco. Por trás do teor sobrenatural da história de um jovem que, por meio de um desejo mágico, "obriga" uma moça a se apaixonar por ele, Obsessão trata de relacionamentos tóxicos, sentimentos de posse e da crescente dificuldade do homem em aceitar a independência feminina e em lidar com seus próprios sentimentos.
Bear (Michael Johnston) é apaixonado pela colega de trabalho Nikki (Inde Navarrette), mas não consegue criar coragem de tentar qualquer coisa. Em uma loja onde entrou para comprar um presente, Bear encontra um item chamado "salgueiro de um desejo", um artefato que deve ser quebrado ao meio para atender a um único desejo. Durante uma noite com Nikki e os amigos Ian (Cooper Thomlinson) e Sarah (Megan Lawless), em que pretendia declara seu amor, Bear fica nervoso e, constrangido, nega seus sentimentos. Frustrado e arrependido, ele quebra o "salgueiro de um desejo", pedindo que Nikki o ame mais do que qualquer coisa. Dá certo - e dá muito errado, também.
O jovem diretor Curry Barker, de meros 26 anos, mostra-se atento ao adoecimento psicológico dos homens de sua geração, incapazes de entender o que sentem e de dar à mulher autonomia sobre seu desejo. Ainda que possa não ser um homem exatamente ruim, Bear é um covarde sem qualquer fibra, que vive entupido de oxicodona pra suportar a própria mediocridade. Ao comportar-se como "louca", Nikki diz muito mais sobre o que lhe foi feito, quando se negou a dar (ou ser) o que aquele homem queria dela. Fosse um namoro espontâneo, talvez fosse Bear a trancafiar e ameaçar Nikki.
Metáforas à parte, Obsessão funciona muito bem como espetáculo de horror. Apesar do orçamento modestíssimo, tem ótimos sustos e soluções visuais inventivas e eficientes, com zero uso de CGI ou IA. Para a construção da sua Nikki, Inde Navarrette estudou trabalhos como os de Toni Colette em Hereditário (2018) e de Mia Goth em Pearl (2023). Mesmo não alcançando o brilhantismo dessas, sua atuação é um dos pontos altos do filme. Outro aspecto positivo é o humor, seja pelo constrangimento ou pela patetice pura (especialmente quando, lá pelo terço final, Ian "ajuda" o desesperado Bear).
Um desses felizes casos em que o produto justifica o hype, Obsessão adentra com méritos ao catálogo de grandes momentos do terror nesta década. Sou desde já contra uma sequência, pelo forte risco de estragar o legado deste primeiro e, pelo amor de Deus, porque o público e os estúdios precisam reaprender a conformar-se com histórias que acabam e dão lugar às próximas. Tanto quanto o "não" de uma mulher não significa "talvez", a palavra "fim" não significa "a gente se vê".


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