Uma crítica do quadrinho
Do Inferno
Entre 1888 e 1891, na Londres da era vitoriana, 11 mulheres foram assassinadas com requintes de crueldade. Várias delas eram prostitutas. Os crimes nunca foram esclarecidos e a identidade do assassino nunca foi confirmada, embora suspeitos tenham sido cogitados. Restou apenas um pseudônimo (e uma lenda) que já dura mais de dois séculos: Jack, o Estripador. A partir de teorias do jornalista e escritor inglês Stephen Knight, o autor inglês Alan Moore deu sua versão em quadrinhos para os crimes de Whitechapel, com arte do conterrâneo Eddie Campbell.
Do Inferno investe alto na ideia de que a onda de crimes de Jack, o Estripador foi um conluio entre a realeza e a maçonaria, duas instituições que, de modo ostensivo (a realeza) ou secreto (a maçonaria), controlavam os rumos da nação. Para encobrir uma besteira cometida pelo então príncipe Albert Victor, a rainha Vitória teria encomendado ao cirurgião William Withey Gull a discreta eliminação da jovem balconista de confeitaria Annie Crook (engravidada e secretamente desposada pelo príncipe) e de um grupo de prostitutas que esperavam lucrar com a transgressão real.
A obra autoral de Alan Moore costuma ser leitura desafiadora: mesmo quando desenvolve histórias cativantes (caso de V de Vingança e do primeiro arco da Liga Extraordinária), Moore costuma valorizar - ou superestimar - o interesse do leitor: é surreal o teor de pesquisa e elaboração que Moore agrega, quando a trama em si provavelmente já bastaria. Um perfeito exemplo da sua obsessão investigativa é o capítulo em que William Gull conduz o cocheiro John Netley por um passeio por Londres, enumerando as influências religiosas, místicas e maçônicas na arquitetura da cidade, com alguns prédios - principalmente igrejas - construídos com o deliberado intuito de fazer o homem sentir-se pequeno e mantê-lo obediente.
Por vezes, o detalhismo de Moore pode tornar a leitura pesada. Certos diálogos abusam do prosaico ou perdem foco, talvez porque é assim que conversas reais aconteçam. Há também muita vulgaridade sexual, o que é até esperado, numa trama que se passa numa zona de prostituição. Para mim, incomodou também o excesso de personagens, que acabavam por tornar-se meio indistintos no traço de Campbell, impressão reforçada pela arte em preto e branco. A fonte usada nos diálogos, pequena e tortuosa, é outro obstáculo para a paciência e a visão do leitor 50+, como é meu caso.
Uma história sobre serial killer também precisa ser violenta, e nem Moore nem Campbell desapontam: a falta de cor nas páginas não impedem o choque ou o ultraje de cada crime, especialmente no capítulo dedicado ao assassinato de Marie Kelly, em que Gull se alonga e se deleita, sem poupar o leitor do horror da mutilação. A crueldade extrapola a mera violência física, revelando o suposto assassino como alguém que desprezava as mulheres e acreditava cumprir algum tipo de desígnio divino com seus crimes. Não espere sucumbir a um ímpeto de "maratonar" Do Inferno, porque é uma leitura incômoda. É mais fácil que você queira descansar um dia ou dois entre cada capítulo. Difícil aguentar tanto mundo-cão.
A bonita edição da Veneta tem formato grande, uma bela capa e papel de ótima gramatura. Lançada em 2014, custava R$ 94,90 e hoje tem preço cheio de R$ 229,90 - portanto, agarre-se a cupom, cashback ou qualquer manobra que te garanta o desconto mais generoso possível (imagina o que o próprio Alan Moore diria sobre isso, ele que andou falando que os quadrinhos se tornaram inviáveis para o trabalhador médio). Esta foi a primeira (e provavelmente única) leitura que fiz de Do Inferno. Recomendo porque Moore sempre vale a pena, mas não é uma obra que habite meu Top 5 particular do barbudo. Felizmente, uma possível decepção é um risco bem menor que um passeio noturno no Whitechapel do século XIX.
