04/08/2026
Retorno do Detetive
21/06/2026
Do cóccix até o pescoço
01/05/2026
A cura pela dor
11/03/2026
História revista e ampliada
17/02/2026
Espiões ao relento
Deu tristeza saber do melancólico fim da Editora Mino. Por cerca de cinco anos, ela foi responsável pelo lançamento da obra autoral de Ed Brubaker por aqui. Foi graças a ela que os leitores brasileiros puderam saber como Criminal prosseguia após Lawless (segundo volume da série e último publicado pela Panini, há 15 anos), além de ter acesso a grande parte do impecável catálogo da dupla, em ótimo padrão gráfico. Porém, embora quadrinhos sejam uma paixão, eles também são um negócio e precisam gerar dinheiro. A conta não fechava mais, e a Mino liquidou seu estoque em janeiro, anunciando a suspensão total de suas atividades. Reckless ficou incompleta, faltando o quinto volume. Embora a Panini tenha publicado Sleeper (2002) e a QS Comics tenha publicado Friday (2020), até o momento, nenhuma editora foi confirmada como a nova casa oficial de Brubaker no Brasil.
Incógnito: Edição Confidencial foi o último Brubaker da Mino que comprei e, por alguma razão, ele furou a fila de leitura (que inclui Fade Out, Reckless #3 e o Sleeper da Panini). Foi degustado com avidez, ao longo de duas sentadas (mmm), uma para cada minissérie do encadernado: sábado foi dia da Incógnito original, domingo foi dia de Incógnito: Más Influências. As 368 páginas deste bonito encadernado incluem as capas duplas originais e alguns sketches de Sean Phillips (o parceiro mais constante de Brubaker) e um posfácio do escritor Jess Nevins, com a qualidade gráfica irrepreensível que foi uma marca da Mino.
Todo esse luxo em celulose seria inútil se a história fosse um lixo. Felizmente, um quadrinho de segunda de Ed Brubaker ainda consegue ser melhor do que os melhores esforços de muito escritor chamado de "gênio" a esmo por aí - e nem é o caso: Incógnito é um senhor quadrinho. Se há algo de que reclamar, é que ambas têm final em suspenso; a diferença é que a minissérie original termina deixando o futuro a cargo da imaginação do leitor, enquanto a segunda tem cara de ideia abandonada no meio, mesmo.
Inclusive, no prefácio do autor, a gente descobre que Incógnito nasceu de um impulso de voltar ao universo dos super-humanos, do qual ele se distanciou para escrever sobre gente comum. Após deixar sua marca em heróis da Marvel e DC (entre outros, Demolidor e Batman), ele sentiu o comichão de uma ideia sobre um supervilão aposentado e inserido em um programa de proteção a testemunhas. A Incógnito original foi publicada dentro do selo autoral Icon, da Marvel, a partir de dezembro de 2008.
Por anos, Zack Chacina e seu irmão Xander aterrorizaram o país em nome do Morte Negra, um supervilão bicentenário. Com força e resistência sobre-humanas, os irmãos Chacina matavam muito e alegremente. Após a morte de Xander, Zack foi colocado sob proteção do governo numa nova identidade civil, como arquivista, usando um soro inibidor de poderes. Ser um cidadão comum o está matando aos poucos - de tédio. Para extravasar, certa noite, ele fica chapado com um amigo, que o oferece um líquido para apagar o rastro das drogas no sangue, mas que acaba tendo um efeito adverso bastante interessante: ele anula o efeito do soro inibidor.
Para testar os poderes reconquistados, Zack quebra a cara (e o resto da cabeça) de bandidinhos que iam atacar uma mulher. Não é a única surpresa do dia: ele adora matar, mas acaba descobrindo que também gosta de salvar pessoas. Suas saidinhas noturnas logo deixam de ser secretas e chamam atenção do governo e de seus antigos aliados no crime - e ninguém parece muito satisfeito com a volta de Zack Chacina à atividade. Seu novo mergulho no submundo vai colocá-lo diante de verdades sobre seu passado e dúvidas sobre seu futuro.
Como dito antes, a conclusão da minissérie original é daquelas que deixam a imaginação do leitor trabalhar, mas, de fato, é uma conclusão - ainda que atípica, abrupta e em aberto, como é de praxe nos trabalhos de Brubaker. A impressão é diferente ao fim de Incógnito: Más Influências (2010). Nas cinco edições da série, Zack Chacina está integrado ao programa de espionagem do governo e recebe a missão de se infiltrar na Level 9 para resgatar um agente duplo. Uma figura ligada ao passado de Zack reaparece, mas Brubaker não amarra as pontas soltas deixadas com Más Influências - e lá se vão 15 anos, então, é pouca a chance de que ele volte a este universo para uma conclusão, o que é uma pena.
Confesso que comprei Incógnito: Edição Confidencial às cegas e que este porém da falta de conclusão me desanimaria, mas este encadernado é, como tudo feito pela dupla Brubaker/Phillips, uma ótima leitura. Resta torcer para, um belo dia, acordar com a notícia de que Incógnito voltará para mais uma temporada - agora, com a esperança extra de que a dupla já tenha um novo (e bom) lar por aqui. A Mino nos deixou mal acostumados.
22/01/2026
Forjada em fogo e fúria
01/01/2026
A Flecha do Caçador
Este foi o primeiro omnibus que eu li. É verdade que eu já li Sandman Edição Definitiva, com mais de 600 páginas por volume, o que é mais do que alguns "busões" que a gente vê por aí, mas foi o primeiro oficialmente batizado como tal. Tendo estreado no formato, posso afirmar: eu não gosto dele.
Veja bem, este aqui, com suas 768 páginas, nem é dos mais volumosos. Fico imaginando o pesadelo que deve ser manusear as quase 1.300 páginas do primeiro volume com a Sociedade da Justiça por Geoff Johns. Um omnibus te obriga a ler sentado à mesa, como se estivesse debruçado sobre um Vade Mecum pra estudar Direito. Nada mais avesso à ideia geral do que é ler um gibi.
Antes que algum defensor de editora se apresse me desqualificar, deixo claro que não culpo a Panini Comics por nada disso. Ela não inventou o formato, cuja única vantagem consiste na semelhança com o hábito de maratonar uma série: você vai lendo os capítulos sem parar (se puder) e, de repente, dá conta de uma fase inteira. Porém, posso perfeitamente culpá-la por não apostar (ou não apostar também) em formatos menos "tijolescos": por exemplo, imagina essa fase do Johns saindo em uma A Saga da Sociedade da Justiça? Bem mais legal.
Disclaimer feito, vamos ao material em si.
O Arqueiro Verde já tinha uma tradição de tramas mais próximas da vida real, desde a famosa fase da road trip com o Lanterna Verde, escrita por Denny O'Neill e desenhada por Neal Adams, nos anos 70. Para esta versão, de 1987, o editor Mike Gold (que escreve um divertido posfácio) convenceu Mike Grell a voltar para DC Comics, sob pretexto de reinventar o Arqueiro Verde como um caçador urbano.
O primeiro fruto desse trabalho foi a graphic novel em três partes The Longbow Hunters, publicada no Brasil como Os Caçadores, a partir de janeiro de 1989, pela Editora Abril. Naquele fim de década, gibi de luxo ainda era um formato que dava seus primeiros passos por aqui, muita coisa chegando por conta do aniversário de 50 anos do Batman. A série, escrita e desenhada por Grell, colocava Oliver Queen contra traficantes de drogas, serial killers e a máfia japonesa Yakuza, na figura de uma ninja fatal chamada Shado, ela própria uma exímia arqueira. Além de um realismo que ainda era quase novidade, Os Caçadores tinha arte e acabamento gráfico de alto padrão, na época. Era um troço de encher os olhos do adolescente de 15 anos que eu era então.
A graphic novel abre este primeiro volume do omnibus de Arqueiro Verde por Mike Grell. Completam o livro as 20 primeiras edições da então nova revista do Arqueiro Verde, em que Grell dá continuidade à sua abordagem realista do herói. Pra começo de conversa, nada de Star City ou qualquer outro lugar que só existe no gibi: Oliver Queen e Dinah Lance (a Canário Negro) passam a viver em Seattle, metrópole real, chuvosa e cinzenta. As ameaças no caminho de Ollie são traficantes de drogas e de gente, ladrões, políticos e parte da polícia local que não aceita vigilantismo, por mais bem-intencionado. O compromisso com a verossimilhança é tanto, que nem se fala no grito sônico da Canário.
Na maioria das edições de Green Arrow, a arte ficou por conta de Ed Hannigan (em estilo bem próximo ao do próprio Grell), mas também é possível conferir o talento de Eduardo Barreto, Dan Jurgens (já com traços reconhecíveis do estilo que o consagrou na revista do Superman), e mais alguns outros. As tramas são rápidas, resolvendo-se em duas ou três edições, e os finais parecem, hoje em dia, até meio abruptos - mas era um tempo em que ninguém fazia vídeo explicando final de gibi ou de filme: o que não estava explícito era completado na imaginação do leitor, e ninguém morria por usá-la. Era uma abordagem digna da Vertigo dentro do universo regular da DC, explicitada pela recomendação a leitores adultos na capa.
As tramas são todas minimamente interessantes, e não há uma edição que se possa chamar de ruim. Entre os extras, existem fichas e estudos de personagens, capas de edições encadernadas e, para minha surpresa e confusão, diversas capas do título do Arqueiro Verde de 2012, dentro dos famigerados Novos 52. Meio aleatório, mas nada de que valha a pena reclamar, diante da alta qualidade geral do material reunido aqui. Volto a frisar, não gosto de omnibus, mas não vejo certas coisas ganhando novas chances por aqui em outro formato - então, tratei de garantir este primeiro volume, e mal vejo a hora de achar o segundo por um preço que não seja uma dolorosa flechada na minha carteira.
15/12/2025
Resumão 2025 (Melhores do Ano)
30/09/2025
A Saga da Mulher-Maravilha #1 (Segunda Temporada)
Enquanto A Saga do Batman e A Saga dos X-Men já ultrapassaram todas as expectativas de sucesso (com algumas edições simplesmente sumindo do mercado ou sendo vendidas a peso de ouro), com a primeira confirmada para relançamento de sua primeira temporada (em sistema de assinatura e box de coleção), as Sagas de heróis menos populares prosperam mais devagar, com suas edições bimestrais. É o caso da Mulher-Maravilha, cuja primeira temporada trouxe, em sete edições, a fase de John Byrne - de que já não gostei em seu lançamento original, pela Editora Abril, e, portanto, evitei.
Na oitava edição, começa a segunda temporada de A Saga da Mulher-Maravilha, com a primeira fase escrita por Greg Rucka - o que significa que a Panini saltou, sem qualquer cerimônia, a fase com Phil Jimenez na escrita e na arte (na qual ele colaborou brevemente com sua principal influência, o saudoso mestre George Pérez). É mais uma decisão questionável da editora, embora não tão grave quanto foi, para mim, o hediondo duplo twist carpado que deram sobre a extensa e gostosa fase de Joe Kelly, quando esta seria a coisa mais lógica para inaugurar a segunda temporada d'A Saga da Liga da Justiça; ou a amada fase de Tom Grummett, na agora finada A Saga dos Novos Titãs, ignorada em favor da fase de Geoff Johns, medíocre e já publicada dentro da própria Panini.
Nas mãos de Greg Rucka, Diana atua como embaixadora de Themiscyra nos Estados Unidos (com direito a escritório, assessores e toda a burocracia que vem junto). Ao mesmo tempo, Diana publica um livro com uma versão resumida de sua visão de mundo, gerando muita controvérsia. Era 2003, quando a internet ainda era "mato", as redes sociais ainda eram relativamente "inocentes", mas já se discutiam o ódio gratuito e a defesa apaixonada de opiniões preconceituosas e sem embasamento. Se os americanos tivessem a mínima ideia de como as coisas degringolariam em 20 anos...
Bom, talvez eles tivessem, e o plano fosse esse, mesmo.
Enfim, Diana está ocupada como jamais pensou que estaria, equilibrando-se entre os papéis de heroína, diplomata, celebridade literária e mulher com vontades bem humanas, como comer doce e ter um boy pra chamar de seu. Mais ou menos alheias ao seu controle, pequenas e grandes conspirações se revelam, vindas de muito longe (com as dinâmicas de poder entre um Zeus cada vez menos influente e uma Hera cada vez mais ciumenta representando perigo para todas as amazonas) e de muito perto (com a cientista e empresária Veronica Cale desvirtuando as palavras e ações de Diana, provocando reações cada vez mais negativas da população).
Não é uma unanimidade, mas me agrada a caracterização de Diana como uma pessoa extremamente paciente diante da raiva e da burrice de seus detratores, ao mesmo tempo em que precisa ser implacável com antigos e novos inimigos (entre estes, a versão deturpada e letal de uma amiga querida). O grande diferencial da escrita de Greg Rucka está nas interações sociais de Diana com as pessoas em seu entorno, sejam os funcionários da embaixada, os colegas da Liga, repórteres ou cientistas. É um gibi no qual não falta ação (este não é, afinal, um conceito limitado a tiro, porrada e bomba), mas Rucka não tem pressa em posicionar as peças no tabuleiro. Mistério e intriga são especialidades suas desde sempre.
Chama atenção, também, a reestilização dos deuses olimpianos: exceto por Zeus e Hera (mais velhos e apegados aos costumes do passado), todo o panteão se veste e se comporta como humanos modernos, ostentando cabelos estilosos, óculos escuros e roupas da moda. Atena é vista com um iPad. Hermes fuma maconha o dia todo. Pouco lembrados pela atual sociedade ocidental, o que resta a fazer para deuses sem seguidores? O mais antigo dos bons conselhos: aproveitar a vida - o que fica ainda melhor quando dinheiro e tempo não são problemas.
A arte de Drew Johnson também traz novidades para o visual de Diana: com uma pele mais morena, cabelos muito lisos e nariz alongado, a heroína agora lembra menos uma caucasiana e mais uma persa (exceto, talvez, pelos olhos muito azuis). Tal mudança, porém, não é refletida nas ótimas capas da fase, com belas ilustrações de Adam Hughes e J. G. Jones (há duas de Phil Noto neste volume, mas parecem estranhas e indignas junto às demais), em que Diana é a mesma top model entalhada em mármore que conhecemos desde sempre.
Foram 30 edições escritas por Rucka, então, talvez esta segunda temporada seja ainda mais curta que a primeira. Caso prossiga, trará a fase de Allen Heinberg, que foi comprometida por atrasos e enxertada com uma série catastrófica, "O Ataque das Amazonas". Outro salto deixaria tudo muito perto da cronologia atual (outro erro cometido com a A Saga da Liga da Justiça), então, talvez seja o momento de a) mandar a cronologia às cucuias e publicar as 25 edições de Phil Jimenez, ou b) sacrificar mais uma Saga mal-planejada, em nome de uma "segurança" editorial discutível.
10/04/2025
A Bela Casa do Lago
James Tynion IV ganhou moral dentro da DC Comics ao co-escrever a maxissérie Batman Eterno (2014) com Scott Snyder e outros. Em seguida, assumiu a Detective Comics, casa original do personagem, no começo da fase Renascimento, em 2016. Começou bem, mas não demorou a degringolar para a mesmice apelativa de destruir Gotham e/ou tirar a fortuna de Bruce Wayne e/ou desentocar segredos sujos dos seus pais e/ou fazer de um vilão mequetrefe qualquer um inimigo subitamente capaz de colocar o Batman e seus aliados de joelhos. Em suma, ficou um porre e me afastou do personagem.
Em seu favor, só mesmo o fato de que muitos outros depois dele, também, cometeram a mesmíssima besteira – de modo que, diante de seu nome numa capa de gibi, meu pulso não via motivos para acelerar. Como não li Something is Killing the Children, elogiado gibi autoral que Tynion lançou pela Boom! Studios (com o qual ganhou alguns Harvey e Eisner), não tinha qualquer base pra opinar sobre sua escrita fora do universo super-heroico.
Eis que A Bela Casa do Lago é lançada lá fora, pela DC Black Label – ou seja, a DC viu nela algo que 1) lembrava a produção da saudosa Vertigo, e 2) eles preferiam lançar a deixar que outra editora lançasse. Havia o título atraente, as capas bonitas e misteriosas e, por fim, o entusiasmo de um amigo (obrigado, Luwig!) que leu antes de mim e atestou a qualidade da coisa – e isso, antes de eu sequer notar aquele selo de “indicada ao Prêmio Eisner” na capa do segundo volume da edição nacional. Em suas doze partes, esta série chegou para surpreender aos descrentes no talento de James Tynion IV como escritor – eu entre eles.
Dez amigos são convidados para passar uma semana numa luxuosa e enorme mansão à beira de um lago, em Wisconsin. Quase todos eles já se conhecem há muitos anos. Funcionando como um fio costurando as relações entre o grupo, a devota amizade de Walter, autor do convite, um sujeito que todo mundo parece conhecer tão bem e tão pouco. Ao longo dos anos, Walter fez de tudo para que a amizade entre eles não se perdesse e, agora, parece haver um forte propósito nesta reunião – na qual todos têm um talento, pelo qual são identificados nos convites e nas instruções deixadas na casa: um músico, uma médica, uma escritora, e outros mais.
Nas primeiras horas do reencontro, aquela esperada alegria de rever amigos de longa data só é estremecida pela presença de Ryan, uma artista visual que é a amizade mais recente e inesperada pelo grupo, que apostava em outro amigo da mesma área. Apesar da promessa de que teriam internet de qualidade para trabalhar durante o período, o sinal é escasso e, quando finalmente permite alguma atualização, os amigos ficam sabendo que algo horrível aconteceu ao mundo fora dali. Quando finalmente surge na casa, Walter garante aos amigos que eles estão totalmente a salvo de qualquer perigo – isto é, desde que não deixem a bela casa do lago. A partir daí (e de algumas descobertas em suas explorações do terreno), os amigos começam a questionar tudo que sabem sobre Walter e a influência dele em suas vidas.
A arte do espanhol Álvaro Martinez Bueno (que lembra bastante a de Mitch Gerads, por exemplo) acompanha o tom sombrio da história, entregando certa escuridão que acompanha os habitantes da casa, mesmo durante o dia. Se a casa é descrita como bela e opulenta e o cenário em volta parece muito convidativo do alto, dos interiores e do chão da floresta tudo parece meio desgastado e perigoso (seguindo a percepção dos envolvidos, talvez).
O sucesso de crítica e pública garantiu uma sequência, The Nice House by the Sea (em tradução livre, A Bela Casa da Praia), que esperamos chegar em breve pela Panini. Lá fora, foi a série que reabriu as portas da Vertigo, aquecendo o coração do leitor saudoso e insatisfeito com o Black Label, que, apesar do sucesso de vendas, era um forte desvio do conceito original. O que queremos são mais originais autorais e menos versões alternativas do Batman e correlatos. Se A Bela Casa do Lago servir de indício, podemos dizer que Tynion reabriu os trabalhos da nova velha Vertigo de maneira espetacular.
24/03/2025
Inesquecíveis
O prolífico autor de quadrinhos francês Fabien Toulmé tem um caso de amor antigo com o Brasil: foi aqui, durante um intercâmbio na Paraíba, que ele conheceu sua esposa. Também viveu e trabalhou em Fortaleza. Seu tempo em nosso país ocupa muitas páginas de sua HQ de estreia, a muito sensível Não Era Você Que Eu Esperava, onde corajosamente expôs os sentimentos conflitantes que experimentou quando sua primeira filha nasceu com Síndrome de Down.
Em Inesquecíveis, Toulmé não está falando de si nem criando histórias delicadas e emocionantes: apenas faz curadoria e roteiriza histórias reais que coletou em entrevistas. São episódios que marcaram a vida das pessoas que as contaram – mesmo que não tenham sido elas a vivê-las, a exemplo da história sobre um casal de brasileiros, narrada por uma amiga.
Há o caso de uma moça estuprada pelo próprio namorado; uma menina cuja identidade foi apagada pela religião; um garoto francês que vivia em Ruanda quando estourou a sanguinária guerra civil de 1994; um casal que perde o trem do amor durante décadas, mas nunca deixa de se amar; e um garoto que parece perdido para o crime, até que um voto de confiança muda sua vida e dá início a mudanças no sistema penal francês.
Com pouco mais de 120 páginas, Inesquecíveis é uma leitura rápida, talvez até demais, pro leitor acostumado a outros trabalhos do autor. Um segundo volume já existe e deve ganhar versão brasileira em breve. Mesmo que toque o coração do leitor de diversas maneiras – certas histórias reais têm o encanto de rivalizar com a ficção em suas reviravoltas – parece fazer falta ao livro o toque da imaginação de Toulmé, seu humor autocrítico, suas observações muito pessoais sobre as pessoas e sobre a vida.
É um livro que pode deixar a gente mais feliz
numa tarde de leitura e pode funcionar como porta de entrada à sua obra, mas
está longe do brilhantismo de um Duas Vidas (até aqui, para mim, seu auge).
Organizar esta coletânea pode ter sido o jeito que ele encontrou de manter-se
próximo ao leitor, enquanto trabalha em seu próximo épico de lirismo
cartunesco. É válido, mas a gratificação é pouca.





































