Mostrando postagens com marcador Quadrinhos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Quadrinhos. Mostrar todas as postagens

04/08/2026

Retorno do Detetive


Uma crítica do quadrinho
Batman: Padrões Sombrios

Recentemente, tomei uma decisão radical: resolvi que vou quase zerar minha compra de quadrinhos. Exceto por algumas séries e fases que ainda desejo concluir, o plano é ficar apenas com A Saga do Batman e talvez, TALVEZ, a revista mensal de linha do personagem, que vem em boa fase. Dediquei 40 de meus 53 anos ao colecionismo de HQs, mas, agora, geralmente me falta tempo para ler tudo que compro - e, honestamente, às vezes me falta vontade. Olho para aquela estante cheia de livros ainda no plástico e, com frequência, fico pensando, "eu nunca vou (re)ler isso". Acho que já chega.

Sobre essa decisão, tenho ainda outra certeza: há muita coisa boa na minha coleção, mas, sem dúvida, os quadrinhos do Batman são aqueles que mais me doerá passar pra frente. Meu personagem favorito já está à beira dos 90 anos (e do domínio público) e muito já foi experimentado com ele - e não apenas em versões alternativas: o cânone do personagem já foi reimaginado mais vezes do que consigo me lembrar. Retcons, reboots, revamps... Pense numa "modinha" editorial qualquer: o Batman já passou por ela.

Embora alguns escritores ocasionalmente se esqueçam do fato de que o Batman é apenas um homem (ainda que no ápice da disciplina física e mental que se pode alcançar), colocando-o como alguém que antevê absolutamente tudo e dono de brinquedos tecnológicos que praticamente trabalham por ele, a essência original do personagem é sua versão mais cativante: um detetive que se preparou ao máximo para combater o crime e evitar que sua tragédia (o assassinato de seus pais) se repetisse com outros. Bobagens como backups mentais, robôs assassinos, e "babados" diversos envolvendo sua família empalidecem ante a força de suas características mais fundamentais.

"Só dói quando eu existo"

Foi por isso que, ao ler Batman: Dark Patterns em versão original digital, entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, eu tive uma certeza muito forte: eu queria ter essa série na minha estante, em bom português e papel gostoso. Ironicamente, ela aportou nas nossas bancas quando decidi me afastar dos quadrinhos, mas, paciência. Tudo que há de certo e de bom sobre o Batman é visto nas tramas desenvolvidas ao longo de 12 edições, seis das quais compõem este primeiro volume. Batman: Padrões Sombrios é um golaço da DC - um gibi quase conservador, curiosamente, num período de grande reinvenção da editora, com a linha Absolute vendendo feito pão quentinho, varrendo as premiações e ditando tendência.

Dan Watters (Asa Noturna) escreve e Hayden Sherman (Absolute Mulher-Maravilha) desenha a série, ambientada no terceiro ano de atividade do Batman. Na primeira história, em três partes, ele investiga uma onda de assassinatos com pouca relação entre si e confronta um adversário de visual assustador, contra o qual sua força física pouco vale. O Homem-Ferida é uma autêntica criatura de pesadelos, de fazer o Pinhead de Hellraiser parecer um bichinho de pelúcia, com uma gênese trágica e uma motivação convincente. Se era de uma abertura impactante que o leitor precisava, "Nós Somos os Feridos" não deixa por menos.

"Cês tão pensando que eu sou o Batman do Tom King?"

Na segunda metade, um vilão clássico, Scarface, ressurge no comando de um edifício cuja própria arquitetura já representa um desafio, mas ainda abriga seguidores insanos e perigosos do boneco - e Arnold Wesker (chamado de "Albert", a certa altura, num erro que veio do original e a Panini manteve), o Ventríloquo, pode nem ser o maior de seus problemas. "A Voz da Torre" tem grandes momentos de Hayden Sherman, um artista que faz excelente uso de diagramações pouco óbvias e desenha um Batman que é puro Tim Sale, só que com narizes melhores. A sequência em que ele abre caminho distribuindo porrada por três andares é o tipo de coisa que amamos ver o Batman fazer.

Com o segundo volume já anunciado para setembro, Batman: Padrões Sombrios é o tipo de série que, ao longo das últimas quatro décadas, me fez perseverar em minha fé nos quadrinhos de super-heróis. É para presenciar momentos assim que a gente suporta Gotham destruída, o vai-e-vem da fortuna de Bruce Wayne, a degradação moral imposta a seus pais e a ainda não revertida perda de Alfred Pennyworth. Os escritores medíocres têm uma incrível sorte em contar com gente como Watters e Sherman para recolocar o universo e o coração do leitor de volta no eixo. Quadrinho obrigatório, mesmo para quem jurou que está parando.

21/06/2026

Do cóccix até o pescoço


Uma crítica do quadrinho
Do Inferno

Entre 1888 e 1891, na Londres da era vitoriana, 11 mulheres foram assassinadas com requintes de crueldade. Várias delas eram prostitutas. Pelo menos cinco destes crimes nunca foram esclarecidos e a identidade do assassino nunca foi confirmada, embora suspeitos tenham sido cogitados. Restou apenas um pseudônimo (e uma lenda) que já dura mais de dois séculos: Jack, o Estripador. A partir de teorias do jornalista e escritor inglês Stephen Knight, o autor inglês Alan Moore deu sua versão em quadrinhos para os crimes de Whitechapel, com arte do conterrâneo Eddie Campbell.

Do Inferno investe alto na ideia de que a onda de crimes de Jack, o Estripador foi um conluio entre a realeza e a maçonaria, duas instituições que, de modo ostensivo (a realeza) ou secreto (a maçonaria), controlavam os rumos da nação. Para encobrir uma besteira cometida pelo então príncipe Albert Victor, a rainha Vitória teria encomendado ao cirurgião William Withey Gull a discreta eliminação da jovem balconista de confeitaria Annie Crook (engravidada e secretamente desposada pelo príncipe) e de um grupo de prostitutas que esperavam lucrar com a transgressão real.

A obra autoral de Alan Moore costuma ser leitura desafiadora: mesmo quando desenvolve histórias cativantes (caso de V de Vingança e do primeiro arco da Liga Extraordinária), Moore costuma valorizar - ou superestimar - o interesse do leitor: é surreal o teor de pesquisa e elaboração que Moore agrega, quando a trama em si provavelmente já bastaria. Um perfeito exemplo da sua obsessão investigativa é o capítulo em que William Gull conduz o cocheiro John Netley por um passeio por Londres, enumerando as influências religiosas, místicas e maçônicas na arquitetura da cidade, com alguns prédios - principalmente igrejas - construídos com o deliberado intuito de fazer o homem sentir-se pequeno e mantê-lo obediente.

Por vezes, o detalhismo de Moore pode tornar a leitura pesada. Certos diálogos abusam do prosaico ou perdem foco, talvez porque é assim que conversas reais aconteçam. Há também muita vulgaridade sexual, o que é até esperado, numa trama que se passa numa zona de prostituição. Para mim, incomodou também o excesso de personagens, que acabavam por tornar-se meio indistintos no traço de Campbell, impressão reforçada pela arte em preto e branco. A fonte usada nos diálogos, pequena e tortuosa, é outro obstáculo para a paciência e a visão do leitor 50+, como é meu caso.

Uma história sobre serial killer também precisa ser violenta, e nem Moore nem Campbell desapontam: a falta de cor nas páginas não impedem o choque ou o ultraje de cada crime, especialmente no capítulo dedicado ao assassinato de Marie Kelly, em que Gull se alonga e se deleita, sem poupar o leitor do horror da mutilação. A crueldade extrapola a mera violência física, revelando o suposto assassino como alguém que desprezava as mulheres e acreditava cumprir algum tipo de desígnio divino com seus crimes. Não espere sucumbir a um ímpeto de "maratonar" Do Inferno, porque é uma leitura incômoda. É mais fácil que você queira descansar um dia ou dois entre cada capítulo. Difícil aguentar tanto mundo-cão.

A bonita edição da Veneta tem formato grande, uma bela capa e papel de ótima gramatura. Lançada em 2014, custava R$ 94,90 e hoje tem preço cheio de R$ 229,90 - portanto, agarre-se a cupom, cashback ou qualquer manobra que te garanta o desconto mais generoso possível (imagina o que o próprio Alan Moore diria sobre isso, ele que andou falando que os quadrinhos se tornaram inviáveis para o trabalhador médio). Esta foi a primeira (e provavelmente única) leitura que fiz de Do Inferno. Recomendo porque Moore sempre vale a pena, mas não é uma obra que habite meu Top 5 particular do barbudo. Felizmente, uma possível decepção é um risco bem menor que um passeio noturno no Whitechapel do século XIX.

01/05/2026

A cura pela dor


Uma crítica do quadrinho
Senhor Milagre - Edição de Luxo

Existe um ponto comum entre artistas tão diferentes como Amy Winehouse e Jeff Buckley, ou entre Morrissey e Joni Mitchell, e não é apenas que todos possuam vozes inconfundíveis: eles cantam de recônditos profundos de sua alma. O sofrimento que carregam é traduzido em versos que podem - às vezes, até simultaneamente - emocionar e incomodar (principalmente quando geram identificação no ouvinte). Na música ou em outras artes, poucos são os artistas capazes de desnudar-se em frente ao seu público, exposição que cumpre papel de terapia, ainda que sob pretexto de entretenimento. A dor é um motor muito potente da criatividade.

Nos quadrinhos DC ou Marvel, poucos são os autores que se abrem tanto quanto Tom King. Ex-agente de antiterrorismo da CIA, sua obra ficcional trata, quase sempre, de questões de saúde mental, como depressão e ansiedade, que King conhece em primeira mão: a ideia para Senhor Milagre nasceu após um ataque de ansiedade tão forte que o levou a pensar que estava morrendo (episódio contado no prefácio). Nas doze edições - reunidas em uma bonita Edição de Luxo com sobrecapa, que resolve alguns problemas gráficos da publicação original, em dois volumes de capa cartão - o herói escapista e Novo Deus encarna as vivências e impressões de King sobre trauma e outras síndromes.

Após um prólogo biográfico (ausente da publicação original), a primeira página é um close do rosto de Scott Free (nome civil do herói, sobre o qual há um expressivo diálogo algumas edições depois), em expressão compungida; na página dupla a seguir, ele está no chão ensanguentado do banheiro, as veias do pulso abertas, em tentativa de suicídio. A partir daí, o leitor se vê em permanente dúvida: Scott Free está morto ou não? O que vemos acontecer é a realidade ou um delírio post-mortem? Teria o Senhor Milagre escapado daquilo de que ninguém escapa?

Seja como for, Scott se vê fisicamente recuperado e acaba convocado a liderar os exércitos de Nova Gênese, quando eclode a guerra definitiva contra Apokolips. É uma batalha muito longa e inglória, na qual Nova Gênese tem pouca chance de vencer, pois Darkseid está de posse da Equação Antivida, um mantra que mina a sanidade e a vontade de viver daqueles que contamina. Quando criança, Scott (filho do Pai Celestial) foi trocado com Orion (filho de Darkseid) como prova de boa vontade, numa trégua da guerra entre os dois mundos. Criado desde muito pequeno em meio à violência, humilhação e abandono, como ele não seria uma vítima em potencial da Equação?

Scott Free: "Sei lá, acordei meio coisado hoje..."

Como veículos para suas ruminações, nem sempre os quadrinhos de Tom King resultam em boa leitura. Seu Batman me fez desistir do personagem por anos, e O Xerife da Babilônia é um dos quadrinhos mais superestimados de que se tem notícia. Heróis em Crise é um desserviço, tamanha a descaracterização de seus protagonistas. Amigos que leram Alvo Humano e Rua Perigo dizem que são gibis "sobre nada", o que me faz trocar de hipotética calçada para evitá-los. Por outro lado, seu único trabalho para a Marvel, a minissérie Visão, é das melhores coisas da editora nos anos 2010. Pessoalmente, acho esta Senhor Milagre sua obra definitiva até aqui (embora já se diga por aí que a autoral Helen de Wyndhorn é coisa muito fina).

King tem sorte e mérito em trabalhar com artistas fantásticos. Para Senhor Milagre, ele reprisa a parceria de O Xerife da Babilônia com Mitch Gerads, que opera milagres (ha!) dentro da rígida estrutura de nove quadros por página, com passagens geniais. Os desfoques e interferências ajudam na sensação constante de que algo não está certo e nem tudo é o que parece. Na ternura das conversas com Grande Barda, no humor involuntário das caras de Darkseid comendo petisco de cenoura e das histórias malucas de Funky Flashman, ou no terror dos momentos de violência, texto e arte estão alinhados de forma preciosa.

Passagens como o julgamento de Scott por traição e o desabafo de Barda sobre suas próprias frustrações fazem a gente sentir como se estivesse no mesmo ambiente que os personagens e sendo afetados por tudo que dizem. Quem dera todo quadrinho que se diz "adulto" tivesse metade desse estofo sentimental e psicológico. Não é tudo que funciona tão bem: Scott e Barda discutindo reforma do apartamento enquanto invadem Apokolips foi uma tentativa de ser cool demais que acabou sendo só isso: uma tentativa.

Como dito antes, esta Edição de Luxo corrige problemas gráficos da edição em capa cartão, como uma imensa mancha de tinta em uma das páginas e a diferente gramatura de papel, o que resultou em um segundo volume muito mais fino. Sem falar que esta bela sobrecapa é um primor. Os extras incluem o roteiro da primeira edição, além de rascunhos de Nick Derington para as capas originais e de Mitch Gerads para as alternativas. É um livro que fica muito bonito na estante, mas que só cumpre seu propósito quando lido com atenção e empatia. Sem isso, tudo mais é a Antivida.

11/03/2026

História revista e ampliada


Uma crítica do quadrinho
Mulher-Maravilha - História: As Amazonas

Quando ainda usava o nome A Era do Ócio, eu cheguei a escrever sobre esta HQ após ler sua conclusão original, em inglês, em dezembro de 2022, mas ainda sofria com a limitação de caracteres imposta pelo Instagram (e ainda não havia tido a ideia de espalhar o review pelos comentários - um improviso pouco digno). Três anos depois, Mulher-Maravilha - História: As Amazonas continua sendo, em minha modesta opinião, o melhor e mais bonito lançamento já feito pelo selo DC Black Label.

Encomendada para comemorar os 80 anos da Mulher-Maravilha, a publicação ocorreu em três edições semestrais. O longo intervalo se justificava: para dar corpo às palavras de Kelly Sue DeConnick (escritora indicada ao Eisner), a editora convocou três artistas com fortes assinaturas visuais - dois deles, intimamente ligados aos quadrinhos da amazona: para o primeiro volume, Phil Jimenez; para o segundo, Gene Ha; para o terceiro e último, Nicola Scott. Com tempo para caprichar, o trio de desenhistas não decepcionou: História é, para começo de conversa, um deleite sem igual para os olhos.

A primeira coisa que se deve saber sobre o livro é que, embora seja uma trama situada em seu universo, a princesa Diana não é a protagonista. É uma sucessão de eventos anteriores ao seu nascimento (que só acontece nas últimas páginas).

Cansadas de verem mulheres mortais abusadas, escravizadas ou mortas, sete deusas do Olimpo recorrem a Zeus para que castigue os homens que maltratam ou matam mulheres. Porém, se os homens são feitos à imagem de seu(s) deus(es), também é verdade que herdaram traços divinos de personalidade: os deuses gregos são cheios de sentimentos pouco nobres, e Zeus, em particular, é muito machista e mulherengo, vindo à terra em forma humana para desfrutar de companhia feminina, sem se importar com sentimentos ou consequências. Para ele, servir e sofrer são os papéis reservados às mulheres na existência.

Instigadas pela sempre traída esposa de Zeus, Hera (mas sem sua participação direta), as deusas não se deixam abater pela negativa de seu rei. Dando novo corpo às almas de mulheres mortas por homens, elas criam, em segredo, uma estirpe superior de mulheres, que não temem nem se curvam a eles: as Amazonas saem pela noite como vigilantes, resgatando mulheres e corrigindo injustiças - sempre e somente à noite, para não chamar atenção de Zeus (o que é, claro, uma questão de tempo). Ao deparar-se com as guerreiras e depois segui-las, uma jovem desesperada chamada Hipólita nem imagina o quanto sua vida está prestes a mudar.

Apesar de sua ilustre ausência, História é um quadrinho do universo particular de uma heroína vista como um dos alicerces da DC Comics. Kelly Sue DeConnick escreve uma história com muita ambição e execução à altura. É inevitável ver paralelos com o começo da fase escrita por George Pérez (1954-2022), mas a autora sabe evitar as armadilhas da "homenagem" preguiçosa e demonstra muita personalidade, atualizando uma narrativa que já era feminista em 1987. O fato de que praticamente 40 anos se passaram e as demandas continuam as mesmas dá uma mostra do quão pouco se avança (principalmente, em tempos de crescimento do pensamento conservador, como agora).

Lembra do que falei sobre o deleite visual de ler este livro? Os três artistas escolhidos pela DC deram tudo de si. Na primeira parte, Phil Jimenez dá uma aula de impacto visual, criando os cenários, objetos e vestimentas mais opulentos e detalhados que já se viu. Cada página dupla de Jimenez explode de beleza que faz a gente pensar que está vendo cores pela primeira vez na vida. De correto imitador de George Pérez (tendo, inclusive, escrito e desenhado o título mensal da Mulher-Maravilha) ele alcança maturidade inegável em História, dividindo o mérito do Eisner conquistado com DeConnick.


Não tenho nenhum apreço especial pela arte de Gene Ha como um todo, mas ele não deixa a peteca cair na segunda parte de História. Com traço mais delicado que o habitual, cabe a ele ilustrar as andanças noturnas das Amazonas, em arte que contrasta com o colorido frenético de Jimenez. Aqui há muito azul, muita sombra e soluções visuais muito espertas e elegantes, como as aparições de Ártemis para Hipólita, em que suas formas aparecem "esculpidas" na vegetação e em outros elementos cênicos. Tudo muito sóbrio - e também sombrio, pelo rumo que a trama toma.


A terceira parte é ilustrada por outra veterana do gibi de linha da Mulher-Maravilha: na arte de Nicola Scott, com as Amazonas já descobertas Por Zeus e pelos homens, voltam a dominar os cenários ensolarados, mas as cores do dia são menos chapadas que na primeira parte, em razão do conflito que se desenha. Com sua tendência de dar a todos os personagens um olhar choroso sob controle, Scott entrega o melhor trabalho de sua vida, com splash pages realmente impressionantes e um domínio narrativo atípico.


Existe uma espécie de "decreto" entre alguns amigos meus, segundo o qual a Mulher-Maravilha não tem seu próprio O Cavaleiro das Trevas, uma história na qual seu heroísmo seja testado ao limite e se torne um legado maior que ela própria. A estes, eu digo: Diana não é o Batman. Ela não é um homem marcado pela tragédia, mas uma mulher nascida como guerreira, que veio ao mundo para ser o epítome da compaixão humana. Ela é literalmente divina, e as coisas divinas não podem ser contidas pelas sombras. Ela é da luz, das cores e do dia. Como imortal, quem carrega e honra seu legado é ela mesma, que já teve sua cota de histórias memoráveis. Provocação final: é bem provável que seja mais correto dizer que o Batman é que não tem uma História para chamar de sua!

Brincadeiras à parte, é bobagem querer comparar, de qualquer forma, dois personagens tão diferentes (e notar que este é o terceiro review de um gibi da Diana por aqui, em apenas um semestre, dá pista do quanto gosto dela). O certo é curtir o melhor que há para ler de ambos (e de outros). Boas fases vêm e vão para todos, mas posso afirmar que esta festa de 80 anos pareceu bem mais bonita e divertida que esta outra aqui. No fim das contas, o que conta é ter este quadrinho maravilhoso na estante e emprestá-lo para as pessoas mais importantes na sua vida. Elas não serão as mesmas depois de ler História.

17/02/2026

Espiões ao relento


Uma crítica do quadrinho
Incógnito: Edição Confidencial

Deu tristeza saber do melancólico fim da Editora Mino. Por cerca de cinco anos, ela foi responsável pelo lançamento da obra autoral de Ed Brubaker por aqui. Foi graças a ela que os leitores brasileiros puderam saber como Criminal prosseguia após Lawless (segundo volume da série e último publicado pela Panini, há 15 anos), além de ter acesso a grande parte do impecável catálogo da dupla, em ótimo padrão gráfico. Porém, embora quadrinhos sejam uma paixão, eles também são um negócio e precisam gerar dinheiro. A conta não fechava mais, e a Mino liquidou seu estoque em janeiro, anunciando a suspensão total de suas atividades. Reckless ficou incompleta, faltando o quinto volume. Embora a Panini tenha publicado Sleeper (2002) e a QS Comics tenha publicado Friday (2020), até o momento, nenhuma editora foi confirmada como a nova casa oficial de Brubaker no Brasil.

Incógnito: Edição Confidencial foi o último Brubaker da Mino que comprei e, por alguma razão, ele furou a fila de leitura (que inclui Fade Out, Reckless #3 e o Sleeper da Panini). Foi degustado com avidez, ao longo de duas sentadas (mmm), uma para cada minissérie do encadernado: sábado foi dia da Incógnito original, domingo foi dia de Incógnito: Más Influências. As 368 páginas deste bonito encadernado incluem as capas duplas originais e alguns sketches de Sean Phillips (o parceiro mais constante de Brubaker) e um posfácio do escritor Jess Nevins, com a qualidade gráfica irrepreensível que foi uma marca da Mino.

Todo esse luxo em celulose seria inútil se a história fosse um lixo. Felizmente, um quadrinho de segunda de Ed Brubaker ainda consegue ser melhor do que os melhores esforços de muito escritor chamado de "gênio" a esmo por aí - e nem é o caso: Incógnito é um senhor quadrinho. Se há algo de que reclamar, é que ambas têm final em suspenso; a diferença é que a minissérie original termina deixando o futuro a cargo da imaginação do leitor, enquanto a segunda tem cara de ideia abandonada no meio, mesmo.

Inclusive, no prefácio do autor, a gente descobre que Incógnito nasceu de um impulso de voltar ao universo dos super-humanos, do qual ele se distanciou para escrever sobre gente comum. Após deixar sua marca em heróis da Marvel e DC (entre outros, Demolidor e Batman), ele sentiu o comichão de uma ideia sobre um supervilão aposentado e inserido em um programa de proteção a testemunhas. A Incógnito original foi publicada dentro do selo autoral Icon, da Marvel, a partir de dezembro de 2008.

Por anos, Zack Chacina e seu irmão Xander aterrorizaram o país em nome do Morte Negra, um supervilão bicentenário. Com força e resistência sobre-humanas, os irmãos Chacina matavam muito e alegremente. Após a morte de Xander, Zack foi colocado sob proteção do governo numa nova identidade civil, como arquivista, usando um soro inibidor de poderes. Ser um cidadão comum o está matando aos poucos - de tédio. Para extravasar, certa noite, ele fica chapado com um amigo, que o oferece um líquido para apagar o rastro das drogas no sangue, mas que acaba tendo um efeito adverso bastante interessante: ele anula o efeito do soro inibidor.

Zack Chacina: "eu racho cabeças, mas, no fundo, sou fofo."

Para testar os poderes reconquistados, Zack quebra a cara (e o resto da cabeça) de bandidinhos que iam atacar uma mulher. Não é a única surpresa do dia: ele adora matar, mas acaba descobrindo que também gosta de salvar pessoas. Suas saidinhas noturnas logo deixam de ser secretas e chamam atenção do governo e de seus antigos aliados no crime - e ninguém parece muito satisfeito com a volta de Zack Chacina à atividade. Seu novo mergulho no submundo vai colocá-lo diante de verdades sobre seu passado e dúvidas sobre seu futuro.

Como dito antes, a conclusão da minissérie original é daquelas que deixam a imaginação do leitor trabalhar, mas, de fato, é uma conclusão - ainda que atípica, abrupta e em aberto, como é de praxe nos trabalhos de Brubaker. A impressão é diferente ao fim de Incógnito: Más Influências (2010). Nas cinco edições da série, Zack Chacina está integrado ao programa de espionagem do governo e recebe a missão de se infiltrar na Level 9 para resgatar um agente duplo. Uma figura ligada ao passado de Zack reaparece, mas Brubaker não amarra as pontas soltas deixadas com Más Influências - e lá se vão 15 anos, então, é pouca a chance de que ele volte a este universo para uma conclusão, o que é uma pena.

Confesso que comprei Incógnito: Edição Confidencial às cegas e que este porém da falta de conclusão me desanimaria, mas este encadernado é, como tudo feito pela dupla Brubaker/Phillips, uma ótima leitura. Resta torcer para, um belo dia, acordar com a notícia de que Incógnito voltará para mais uma temporada - agora, com a esperança extra de que a dupla já tenha um novo (e bom) lar por aqui. A Mino nos deixou mal acostumados.

22/01/2026

Forjada em fogo e fúria


Uma crítica da HQ
Absolute Mulher-Maravilha #1

Este é, sem meias palavras, o gibi do momento, a melhor coisa super-heroica sendo publicada pela Panini Comics. Já se pode comprar sua segunda edição, mas ainda vale a pena falar da estreia (reunindo as duas primeiras edições originais), e eu, como bom amigo, desejo que você ainda consiga achá-la por aí, nas bancas ou nos sites da sua preferência.

O Universo Absolute surgiu como uma espécie de "alternativo oficial" à linha regular da DC. No especial DC Sem Limites (nome de toda a fase atualmente em publicação), a aparente morte de Darkseid faz nascer todo um universo com base na sua essência dissipada. Neste novo universo, repleto de adversidades, Bruce Wayne não é um playboy bilionário; Kal-El não é um alien com pais adotivos amorosos; e Diana não foi criada como princesa de Themiscyra, como sempre os conhecemos. Neste mundo, super-heróis são vistos como párias.

A linha Absolute já tem suas versões de diversos heróis, mas, em minha opinião, nenhum deles rivaliza em qualidade com a Absolute Mulher-Maravilha, escrita por Kelly Thompson e desenhada por Hayden Sherman (ainda que seja o Absolute Batman, de Scott Synder e Nick Dragotta, o campeão de vendas e de hype).

Como punição de Zeus às amazonas, Diana é retirada de Themiscyra ainda bebê e entregue por Apolo aos cuidados da feiticeira Circe, que vive exilada na chamada Ilha Selvagem, no Inferno. Relutante e proibida (por meio de mágica) de dizer a palavra "amazona", Circe acaba por afeiçoar-se à menina, a quem ensina suas artes arcanas. Conforme passa o tempo, cresce a curiosidade de Diana sobre sua origem e o "pecado" que levou ao castigo das amazonas. Armada de magia, sabedoria e coragem, ela parte rumo ao mundo terreno.

Durante metade de sua octogenária existência, a Mulher-Maravilha foi tratada como heroína de segundo escalão, mera coadjuvante de colegas mais populares como Superman e Batman. Nesse passado sombrio, chegaram ao cúmulo de reduzi-la a secretária da Sociedade da Justiça, ou transformá-la numa espiã que confiava mais em artes marciais do que em seus poderes divinos (um conceito que, pensando bem, poderia render um bom gibi, mas que não parece ter sido o caso). Tudo mudou após a Crise nas Infinitas Terras (1985), megaevento que realinhou a continuidade da DC Comics. Uma das principais reinvenções do período foi a hoje clássica Mulher-Maravilha por George Pérez, que estabeleceu conceitos que valem até os dias atuais, após tantas outras décadas de retcons e reboots.

"Traz essa laranja aqui, que eu descasco..."

Com variado grau de êxito por parte de seus autores, Diana passou a ser melhor tratada dentro da sua própria casa, que a estabeleceu como uma das forças centrais do seu panteão, formando a famosa Trindade ao lado de Superman e Batman. Sua origem já foi contada e recontada mais vezes do que consigo lembrar, mas Kelly Thompson nos presenteou com uma versão muito diversa e intrigante, mantendo aspectos fundamentais da personagem: a bravura, a sabedoria e a compaixão por quem a merece; aos indignos, sobram a força de seus punhos e o fio da sua enorme espada.

Vai por mim: esta revista só melhora. Até este momento, foram publicadas 15 edições nos EUA e Kelly Thompson jamais deixou a peteca cair. Não houve edição ruim, ainda que nem todas fossem igualmente interessantes. Tudo bem, tudo normal. Só por trazer um frescor inédito a uma personagem com mais de 80 anos de idade, Thompson já mereceria reconhecimento (que veio em forma do Eisner Awards de Melhor Série Nova). Ajuda contar com a arte precisa e cheia de personalidade de Hayden Sherman (guarde este nome!), que dá às ameaças a escala e o temor que elas inspiram. O trabalho de Jordie Bellaire nas cores também foi agraciado com um Eisner. Acredite quando digo que este gibi é coisa muito fina.

Quando começou, o Universo Absolute tinha toda a cara de evento feito para durar somente até o fim da primeira supersaga que chegasse, a ser desfeito numa típica manobra mágica ou científica qualquer. Porém, DC KO (a saga da vez) já se aproxima do fim, mas, dado o sucesso da iniciativa, parece que os gibis Absolute serão vistos por um bom tempo ainda, e mais títulos vão surgindo. Espero que Thompson (ou um eventual substituto) mantenha a régua alta que foi demonstrada nesse primeiro ano da série, com a graça de Hécate.

01/01/2026

A Flecha do Caçador


Uma crítica do omnibus
Arqueiro Verde por Mike Grell, Vol. 1

Este foi o primeiro omnibus que eu li. É verdade que eu já li Sandman Edição Definitiva, com mais de 600 páginas por volume, o que é mais do que alguns "busões" que a gente vê por aí, mas foi o primeiro oficialmente batizado como tal. Tendo estreado no formato, posso afirmar: eu não gosto dele.

Veja bem, este aqui, com suas 768 páginas, nem é dos mais volumosos. Fico imaginando o pesadelo que deve ser manusear as quase 1.300 páginas do primeiro volume com a Sociedade da Justiça por Geoff Johns. Um omnibus te obriga a ler sentado à mesa, como se estivesse debruçado sobre um Vade Mecum pra estudar Direito. Nada mais avesso à ideia geral do que é ler um gibi.

Antes que algum defensor de editora se apresse me desqualificar, deixo claro que não culpo a Panini Comics por nada disso. Ela não inventou o formato, cuja única vantagem consiste na semelhança com o hábito de maratonar uma série: você vai lendo os capítulos sem parar (se puder) e, de repente, dá conta de uma fase inteira. Porém, posso perfeitamente culpá-la por não apostar (ou não apostar também) em formatos menos "tijolescos": por exemplo, imagina essa fase do Johns saindo em uma A Saga da Sociedade da Justiça? Bem mais legal.

Disclaimer feito, vamos ao material em si.

O Arqueiro Verde já tinha uma tradição de tramas mais próximas da vida real, desde a famosa fase da road trip com o Lanterna Verde, escrita por Denny O'Neill e desenhada por Neal Adams, nos anos 70. Para esta versão, de 1987, o editor Mike Gold (que escreve um divertido posfácio) convenceu Mike Grell a voltar para DC Comics, sob pretexto de reinventar o Arqueiro Verde como um caçador urbano.

O primeiro fruto desse trabalho foi a graphic novel em três partes The Longbow Hunters, publicada no Brasil como Os Caçadores, a partir de janeiro de 1989, pela Editora Abril. Naquele fim de década, gibi de luxo ainda era um formato que dava seus primeiros passos por aqui, muita coisa chegando por conta do aniversário de 50 anos do Batman. A série, escrita e desenhada por Grell, colocava Oliver Queen contra traficantes de drogas, serial killers e a máfia japonesa Yakuza, na figura de uma ninja fatal chamada Shado, ela própria uma exímia arqueira. Além de um realismo que ainda era quase novidade, Os Caçadores tinha arte e acabamento gráfico de alto padrão, na época. Era um troço de encher os olhos do adolescente de 15 anos que eu era então.

A graphic novel abre este primeiro volume do omnibus de Arqueiro Verde por Mike Grell. Completam o livro as 20 primeiras edições da então nova revista do Arqueiro Verde, em que Grell dá continuidade à sua abordagem realista do herói. Pra começo de conversa, nada de Star City ou qualquer outro lugar que só existe no gibi: Oliver Queen e Dinah Lance (a Canário Negro) passam a viver em Seattle, metrópole real, chuvosa e cinzenta. As ameaças no caminho de Ollie são traficantes de drogas e de gente, ladrões, políticos e parte da polícia local que não aceita vigilantismo, por mais bem-intencionado. O compromisso com a verossimilhança é tanto, que nem se fala no grito sônico da Canário.

Na maioria das edições de Green Arrow, a arte ficou por conta de Ed Hannigan (em estilo bem próximo ao do próprio Grell), mas também é possível conferir o talento de Eduardo Barreto, Dan Jurgens (já com traços reconhecíveis do estilo que o consagrou na revista do Superman), e mais alguns outros. As tramas são rápidas, resolvendo-se em duas ou três edições, e os finais parecem, hoje em dia, até meio abruptos - mas era um tempo em que ninguém fazia vídeo explicando final de gibi ou de filme: o que não estava explícito era completado na imaginação do leitor, e ninguém morria por usá-la. Era uma abordagem digna da Vertigo dentro do universo regular da DC, explicitada pela recomendação a leitores adultos na capa.

As tramas são todas minimamente interessantes, e não há uma edição que se possa chamar de ruim. Entre os extras, existem fichas e estudos de personagens, capas de edições encadernadas e, para minha surpresa e confusão, diversas capas do título do Arqueiro Verde de 2012, dentro dos famigerados Novos 52. Meio aleatório, mas nada de que valha a pena reclamar, diante da alta qualidade geral do material reunido aqui. Volto a frisar, não gosto de omnibus, mas não vejo certas coisas ganhando novas chances por aqui em outro formato - então, tratei de garantir este primeiro volume, e mal vejo a hora de achar o segundo por um preço que não seja uma dolorosa flechada na minha carteira.

15/12/2025

Resumão 2025 (Melhores do Ano)




FILMES


A Hora do Mal, de Zach Cregger - Depois do ótimo Noites Brutais, Cregger retornou com um filme que parece um filhote bastardo de M. Night Shyamalan com Sam Raimi. Estranheza cômica e brutalidade sangrenta dividindo o mesmo espaço. O nome de Amy Madigan (a pavorosa Tia Gladys) começa a ganhar força para o Oscar de 2026.


F1, de Joseph Kosinski - Este filme cumpre com excelência certas expectativas que Kosinski deixou frustradas com Top Gun: Maverick. História mais consistente, veterano (Brad Pitt) dividindo a tela numa boa com um novato em ascensão (Damson Idris), e resultado final que não parece apenas uma peça de propaganda de orçamento inflado. É cinema pra valer.


Faça Ela Voltar, de Michael Phillipou e Danny Phillipou - Fale Comigo foi interessante, mas os irmãos Phillipou voltaram com sangue nos olhos para este filme: o trauma e a perda são o tema de um filme incômodo e violento, que gruda em nossas retinas e mentes por dias. Não a vejo tendo chances no Oscar, mas a atuação de Sally Hawkins é um colosso.


Pecadores, de Ryan Coogler - Um filme de gângster, que é um filme de vampiros, que é um musical. Não é indecisão: tudo está tão bem mesclado, que só podemos qualificar como alquimia. Em seu primeiro grande projeto pessoal e original, Ryan Coogler beirou a genialidade. Que atire a primeira pedra (na própria cabeça) quem não se arrepiou na cena do baile.


Uma Batalha Após a Outra, de Paul Thomas Anderson - Aos poucos, o cinema de PTA vai encontrando um caminho do meio entre o alternativo e o mainstream, respeitando a inteligência de quem vai ao cinema e preservando o senso de diversão e espetáculo, sem deixar de apontar o dedo para a cara feia da América de Donald Trump (no post anterior, uma crítica mais detalhada).


SÉRIES


A Diplomata (T3), Netflix - Trocando patriotadas malucas por uma visão realista e pragmática das relações internacionais, as desventuras da embaixadora americana Kate Wyler (Kerri Russell) para preservar os interesses nacionais e respeitar a soberania dos aliados rendem ótimos diálogos, regados a muito orgulho ferido, conchavos, concessões e sexo. É só gente falando o tempo inteiro, mas é sensacional e altamente viciante.


Andor (T2), Disney+ - Uma aula magna sobre a crueldade dos governos totalitários e a importância de combatê-los. Não se vê um Jedi por perto, mas, mesmo assim, Andor é o melhor produto com a marca Star Wars a sair dos estúdios da Disney. Fazendo ponte perfeita para a introdução de Rogue One (2016), chega em ótima hora para nos lembrar que não existe isso de "lado bom da ditadura".


Pluribus (T1), Apple TV - Vince Gilligan retoma a parceria com a maravilhosa Rhea Seehorn para mostrar o apocalipse mais sereno que já se viu: um vírus alienígena se espalha e a humanidade vira uma grande mente de colméia, com todo mundo feliz e dividindo memórias, conhecimentos e habilidades - exceto por 12 sortudos (?), entre os quais, a irascível e enlutada Carol Sturka (Seehorn), que se recusa a aceitar numa boa tanta paz e amor.


Task (T1), HBO Max - Foi anunciada como minissérie, mas já anunciaram uma segunda temporada, e eu não reclamo se virar uma antologia, na linha True Detective. Quando um grupo começa a atacar pontos de fabricação e distribuição de drogas para roubar dinheiro, o agente Tom Brandis (Mark Ruffalo) larga a "boa vida" do trabalho burocrático (e do recorrente alcoolismo) para investigar os crimes em campo. Vários níveis de miséria humana e ótimas atuações.


Terra Indomável, Netflix - O ano já começou a mil, com esta minissérie que mostra o oeste selvagem mais selvagem que já se viu. A promessa de terras e riquezas na costa pacífica leva gente boa e gente muito ruim a cruzar caminho em Utah, onde os fanáticos da igreja mórmon se somam aos enormes perigos naturais e humanos. É tudo tão potente e cuidadoso que lembra mais um produto da HBO que da Netflix.


QUADRINHOS


O inquestionável destaque do ano foi o sucesso da linha Absolute - que, a bem da verdade, começou lá fora no fim de 2024 e, em tese, deveria chegar ao fim com a derrota de Darkseid ao fim do evento DC K.O, mas é improvável que a DC vá jogar no lixo gibis que vendem tanto. Para mim, o Superman de Jason Aaron foi intragável desde o começo; o Batman de Scott Snyder começou muito bem, mas foi virando paródia de si próprio e me perdeu.

Já a Mulher-Maravilha de Kelly Thompson e Hayden Sherman é um gibi impecável, que não perdeu fôlego ao longo de suas atuais 14 edições. Traz uma ótima caracterização da heroína, que não teme ameaça ou sacrifício algum, exalando bondade e bravura, em arcos que se concluem a cada duas ou três edições.

Outro que também segue uma cartilha de quadrinismo clássico, com uma interpretação quase ideal do personagem, é o herói visto em Batman: Dark Patterns, maxissérie escrita por Dan Watters e, também, desenhada por Hayden Sherman. Nos quatro arcos de suas 12 edições, um vilão clássico repaginado (Scarface) e três novas ameaças, entre as quais sobressai o apavorante Wound Man. Aguardo ansioso pra ter na estante a versão nacional, a ser anunciada pela Panini.


MÚSICA

Eu não escutei nenhum discaaaço gringo em 2025, o que, logicamente, não significa que não tenha saído nenhum. A culpa foi minha, pois me dediquei mais a ouvir velharias - segundo o wrapped do Spotify, eu tenha 34 "anos musicais" como ouvinte, dando preferência a material das décadas de 2000 e 2010. Então, já que não me lembro de nenhum grande disco gringo no ano, me abstenho de fazer uma lista de melhores, mas posso afirmar que um disco muito bonito que escutei este ano foi o elegantíssimo R&B de Beloved, do Giveon.


Já na música nacional, 2025 foi um excelente ano, principalmente entre os independentes, que demonstraram riqueza e vigor musicais. Entretanto, exceto pelo já resenhado disco do Seu Pereira, me faltou tempo para uma audição mais cuidadosa e analítica dos indicados, por isso a falta de textos sobre eles (prometo ser menos relapso em 2026). Os cinco melhores discos brasileiros que escutei este ano foram:


Joaquim, Varanda dos Palpites
Luedji Luna, Antes que a Terra Acabe
Luedji Luna, Um Mar para Cada Um
Raquel Reis, Divina Casca
Seu Pereira e Coletivo 401, Obsoleto


30/09/2025

A Saga da Mulher-Maravilha #1 (Segunda Temporada)

Enquanto A Saga do Batman e A Saga dos X-Men já ultrapassaram todas as expectativas de sucesso (com algumas edições simplesmente sumindo do mercado ou sendo vendidas a peso de ouro), com a primeira confirmada para relançamento de sua primeira temporada (em sistema de assinatura e box de coleção), as Sagas de heróis menos populares prosperam mais devagar, com suas edições bimestrais. É o caso da Mulher-Maravilha, cuja primeira temporada trouxe, em sete edições, a fase de John Byrne - de que já não gostei em seu lançamento original, pela Editora Abril, e, portanto, evitei.

Na oitava edição, começa a segunda temporada de A Saga da Mulher-Maravilha, com a primeira fase escrita por Greg Rucka - o que significa que a Panini saltou, sem qualquer cerimônia, a fase com Phil Jimenez na escrita e na arte (na qual ele colaborou brevemente com sua principal influência, o saudoso mestre George Pérez). É mais uma decisão questionável da editora, embora não tão grave quanto foi, para mim, o hediondo duplo twist carpado que deram sobre a extensa e gostosa fase de Joe Kelly, quando esta seria a coisa mais lógica para inaugurar a segunda temporada d'A Saga da Liga da Justiça; ou a amada fase de Tom Grummett, na agora finada A Saga dos Novos Titãs, ignorada em favor da fase de Geoff Johns, medíocre e já publicada dentro da própria Panini.

Nas mãos de Greg Rucka, Diana atua como embaixadora de Themiscyra nos Estados Unidos (com direito a escritório, assessores e toda a burocracia que vem junto). Ao mesmo tempo, Diana publica um livro com uma versão resumida de sua visão de mundo, gerando muita controvérsia. Era 2003, quando a internet ainda era "mato", as redes sociais ainda eram relativamente "inocentes", mas já se discutiam o ódio gratuito e a defesa apaixonada de opiniões preconceituosas e sem embasamento. Se os americanos tivessem a mínima ideia de como as coisas degringolariam em 20 anos...

Bom, talvez eles tivessem, e o plano fosse esse, mesmo.

Enfim, Diana está ocupada como jamais pensou que estaria, equilibrando-se entre os papéis de heroína, diplomata, celebridade literária e mulher com vontades bem humanas, como comer doce e ter um boy pra chamar de seu. Mais ou menos alheias ao seu controle, pequenas e grandes conspirações se revelam, vindas de muito longe (com as dinâmicas de poder entre um Zeus cada vez menos influente e uma Hera cada vez mais ciumenta representando perigo para todas as amazonas) e de muito perto (com a cientista e empresária Veronica Cale desvirtuando as palavras e ações de Diana, provocando reações cada vez mais negativas da população).

Não é uma unanimidade, mas me agrada a caracterização de Diana como uma pessoa extremamente paciente diante da raiva e da burrice de seus detratores, ao mesmo tempo em que precisa ser implacável com antigos e novos inimigos (entre estes, a versão deturpada e letal de uma amiga querida). O grande diferencial da escrita de Greg Rucka está nas interações sociais de Diana com as pessoas em seu entorno, sejam os funcionários da embaixada, os colegas da Liga, repórteres ou cientistas. É um gibi no qual não falta ação (este não é, afinal, um conceito limitado a tiro, porrada e bomba), mas Rucka não tem pressa em posicionar as peças no tabuleiro. Mistério e intriga são especialidades suas desde sempre.

Chama atenção, também, a reestilização dos deuses olimpianos: exceto por Zeus e Hera (mais velhos e apegados aos costumes do passado), todo o panteão se veste e se comporta como humanos modernos, ostentando cabelos estilosos, óculos escuros e roupas da moda. Atena é vista com um iPad. Hermes fuma maconha o dia todo. Pouco lembrados pela atual sociedade ocidental, o que resta a fazer para deuses sem seguidores? O mais antigo dos bons conselhos: aproveitar a vida - o que fica ainda melhor quando dinheiro e tempo não são problemas.

A arte de Drew Johnson também traz novidades para o visual de Diana: com uma pele mais morena, cabelos muito lisos e nariz alongado, a heroína agora lembra menos uma caucasiana e mais uma persa (exceto, talvez, pelos olhos muito azuis). Tal mudança, porém, não é refletida nas ótimas capas da fase, com belas ilustrações de Adam Hughes e J. G. Jones (há duas de Phil Noto neste volume, mas parecem estranhas e indignas junto às demais), em que Diana é a mesma top model entalhada em mármore que conhecemos desde sempre.

Foram 30 edições escritas por Rucka, então, talvez esta segunda temporada seja ainda mais curta que a primeira. Caso prossiga, trará a fase de Allen Heinberg, que foi comprometida por atrasos e enxertada com uma série catastrófica, "O Ataque das Amazonas". Outro salto deixaria tudo muito perto da cronologia atual (outro erro cometido com a A Saga da Liga da Justiça), então, talvez seja o momento de a) mandar a cronologia às cucuias e publicar as 25 edições de Phil Jimenez, ou b) sacrificar mais uma Saga mal-planejada, em nome de uma "segurança" editorial discutível.

10/04/2025

A Bela Casa do Lago

James Tynion IV ganhou moral dentro da DC Comics ao co-escrever a maxissérie  Batman Eterno (2014) com Scott Snyder e outros. Em seguida, assumiu a Detective Comics, casa original do personagem, no começo da fase Renascimento, em 2016. Começou bem, mas não demorou a degringolar para a mesmice apelativa de destruir Gotham e/ou tirar a fortuna de Bruce Wayne e/ou desentocar segredos sujos dos seus pais e/ou fazer de um vilão mequetrefe qualquer um inimigo subitamente capaz de colocar o Batman e seus aliados de joelhos. Em suma, ficou um porre e me afastou do personagem.

Em seu favor, só mesmo o fato de que muitos outros depois dele, também, cometeram a mesmíssima besteira – de modo que, diante de seu nome numa capa de gibi, meu pulso não via motivos para acelerar. Como não li Something is Killing the Children, elogiado gibi autoral que Tynion lançou pela Boom! Studios (com o qual ganhou alguns Harvey e Eisner), não tinha qualquer base pra opinar sobre sua escrita fora do universo super-heroico.

Eis que A Bela Casa do Lago é lançada lá fora, pela DC Black Label – ou seja, a DC viu nela algo que 1) lembrava a produção da saudosa Vertigo, e 2) eles preferiam lançar a deixar que outra editora lançasse. Havia o título atraente, as capas bonitas e misteriosas e, por fim, o entusiasmo de um amigo (obrigado, Luwig!) que leu antes de mim e atestou a qualidade da coisa – e isso, antes de eu sequer notar aquele selo de “indicada ao Prêmio Eisner” na capa do segundo volume da edição nacional. Em suas doze partes, esta série chegou para surpreender aos descrentes no talento de James Tynion IV como escritor – eu entre eles.

Dez amigos são convidados para passar uma semana numa luxuosa e enorme mansão à beira de um lago, em Wisconsin. Quase todos eles já se conhecem há muitos anos. Funcionando como um fio costurando as relações entre o grupo, a devota amizade de Walter, autor do convite, um sujeito que todo mundo parece conhecer tão bem e tão pouco. Ao longo dos anos, Walter fez de tudo para que a amizade entre eles não se perdesse e, agora, parece haver um forte propósito nesta reunião – na qual todos têm um talento, pelo qual são identificados nos convites e nas instruções deixadas na casa: um músico, uma médica, uma escritora, e outros mais.

Nas primeiras horas do reencontro, aquela esperada alegria de rever amigos de longa data só é estremecida pela presença de Ryan, uma artista visual que é a amizade mais recente e inesperada pelo grupo, que apostava em outro amigo da mesma área. Apesar da promessa de que teriam internet de qualidade para trabalhar durante o período, o sinal é escasso e, quando finalmente permite alguma atualização, os amigos ficam sabendo que algo horrível aconteceu ao mundo fora dali. Quando finalmente surge na casa, Walter garante aos amigos que eles estão totalmente a salvo de qualquer perigo – isto é, desde que não deixem a bela casa do lago. A partir daí (e de algumas descobertas em suas explorações do terreno), os amigos começam a questionar tudo que sabem sobre Walter e a influência dele em suas vidas.

A arte do espanhol Álvaro Martinez Bueno (que lembra bastante a de Mitch Gerads, por exemplo) acompanha o tom sombrio da história, entregando certa escuridão que acompanha os habitantes da casa, mesmo durante o dia. Se a casa é descrita como bela e opulenta e o cenário em volta parece muito convidativo do alto, dos interiores e do chão da floresta tudo parece meio desgastado e perigoso (seguindo a percepção dos envolvidos, talvez).


O jeito mais certo de ler A Bela Casa do Lago é não sabendo coisa alguma sobre a história, então, peço desculpas por ter abordado certos aspectos da trama, mesmo que com todo o cuidado possível, tentando não estragar surpresas – e, acredite, elas acontecem aos montes. Cada virada altera nossa percepção sobre a história e os rumos que tomará em seguida – e eu até pensei em citar algumas das possibilidades aqui, mas a mera menção a gêneros pode dar pistas do que acontece. Saiba apenas que Tynion conduz tudo com habilidade, realizando um estudo de relações humanas nada pedante e demolindo as noções de sucesso e felicidade que nos são vendidas no processo

O sucesso de crítica e pública garantiu uma sequência, The Nice House by the Sea (em tradução livre, A Bela Casa da Praia), que esperamos chegar em breve pela Panini. Lá fora, foi a série que reabriu as portas da Vertigo, aquecendo o coração do leitor saudoso e insatisfeito com o Black Label, que, apesar do sucesso de vendas, era um forte desvio do conceito original. O que queremos são mais originais autorais e menos versões alternativas do Batman e correlatos. Se A Bela Casa do Lago servir de indício, podemos dizer que Tynion reabriu os trabalhos da nova velha Vertigo de maneira espetacular.

24/03/2025

Inesquecíveis

 

O prolífico autor de quadrinhos francês Fabien Toulmé tem um caso de amor antigo com o Brasil: foi aqui, durante um intercâmbio na Paraíba, que ele conheceu sua esposa. Também viveu e trabalhou em Fortaleza. Seu tempo em nosso país ocupa muitas páginas de sua HQ de estreia, a muito sensível Não Era Você Que Eu Esperava, onde corajosamente expôs os sentimentos conflitantes que experimentou quando sua primeira filha nasceu com Síndrome de Down.

Em Inesquecíveis, Toulmé não está falando de si nem criando histórias delicadas e emocionantes: apenas faz curadoria e roteiriza histórias reais que coletou em entrevistas. São episódios que marcaram a vida das pessoas que as contaram – mesmo que não tenham sido elas a vivê-las, a exemplo da história sobre um casal de brasileiros, narrada por uma amiga.

Há o caso de uma moça estuprada pelo próprio namorado; uma menina cuja identidade foi apagada pela religião; um garoto francês que vivia em Ruanda quando estourou a sanguinária guerra civil de 1994; um casal que perde o trem do amor durante décadas, mas nunca deixa de se amar; e um garoto que parece perdido para o crime, até que um voto de confiança muda sua vida e dá início a mudanças no sistema penal francês.

Com pouco mais de 120 páginas, Inesquecíveis é uma leitura rápida, talvez até demais, pro leitor acostumado a outros trabalhos do autor. Um segundo volume já existe e deve ganhar versão brasileira em breve. Mesmo que toque o coração do leitor de diversas maneiras – certas histórias reais têm o encanto de rivalizar com a ficção em suas reviravoltas – parece fazer falta ao livro o toque da imaginação de Toulmé, seu humor autocrítico, suas observações muito pessoais sobre as pessoas e sobre a vida.

É um livro que pode deixar a gente mais feliz numa tarde de leitura e pode funcionar como porta de entrada à sua obra, mas está longe do brilhantismo de um Duas Vidas (até aqui, para mim, seu auge). Organizar esta coletânea pode ter sido o jeito que ele encontrou de manter-se próximo ao leitor, enquanto trabalha em seu próximo épico de lirismo cartunesco. É válido, mas a gratificação é pouca.