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11/03/2026

História revista e ampliada


Uma crítica do quadrinho
Mulher-Maravilha - História: As Amazonas

Quando ainda usava o nome A Era do Ócio, eu cheguei a escrever sobre esta HQ após ler sua conclusão original, em inglês, em dezembro de 2022, mas ainda sofria com a limitação de caracteres imposta pelo Instagram (e ainda não havia tido a ideia de espalhar o review pelos comentários - um improviso pouco digno). Três anos depois, Mulher-Maravilha - História: As Amazonas continua sendo, em minha modesta opinião, o melhor e mais bonito lançamento já feito pelo selo DC Black Label.

Encomendada para comemorar os 80 anos da Mulher-Maravilha, a publicação ocorreu em três edições semestrais. O longo intervalo se justificava: para dar corpo às palavras de Kelly Sue DeConnick (escritora indicada ao Eisner), a editora convocou três artistas com fortes assinaturas visuais - dois deles, intimamente ligados aos quadrinhos da amazona: para o primeiro volume, Phil Jimenez; para o segundo, Gene Ha; para o terceiro e último, Nicola Scott. Com tempo para caprichar, o trio de desenhistas não decepcionou: História é, para começo de conversa, um deleite sem igual para os olhos.

A primeira coisa que se deve saber sobre o livro é que, embora seja uma trama situada em seu universo, a princesa Diana não é a protagonista. É uma sucessão de eventos anteriores ao seu nascimento (que só acontece nas últimas páginas).

Cansadas de verem mulheres mortais abusadas, escravizadas ou mortas, sete deusas do Olimpo recorrem a Zeus para que castigue os homens que maltratam ou matam mulheres. Porém, se os homens são feitos à imagem de seu(s) deus(es), também é verdade que herdaram traços divinos de personalidade: os deuses gregos são cheios de sentimentos pouco nobres, e Zeus, em particular, é muito machista e mulherengo, vindo à terra em forma humana para desfrutar de companhia feminina, sem se importar com sentimentos ou consequências. Para ele, servir e sofrer são os papéis reservados às mulheres na existência.

Instigadas pela sempre traída esposa de Zeus, Hera (mas sem sua participação direta), as deusas não se deixam abater pela negativa de seu rei. Dando novo corpo às almas de mulheres mortas por homens, elas criam, em segredo, uma estirpe superior de mulheres, que não temem nem se curvam a eles: as Amazonas saem pela noite como vigilantes, resgatando mulheres e corrigindo injustiças - sempre e somente à noite, para não chamar atenção de Zeus (o que é, claro, uma questão de tempo). Ao deparar-se com as guerreiras e depois segui-las, uma jovem desesperada chamada Hipólita nem imagina o quanto sua vida está prestes a mudar.

Apesar de sua ilustre ausência, História é um quadrinho do universo particular de uma heroína vista como um dos alicerces da DC Comics. Kelly Sue DeConnick escreve uma história com muita ambição e execução à altura. É inevitável ver paralelos com o começo da fase escrita por George Pérez (1954-2022), mas a autora sabe evitar as armadilhas da "homenagem" preguiçosa e demonstra muita personalidade, atualizando uma narrativa que já era feminista em 1987. O fato de que praticamente 40 anos se passaram e as demandas continuam as mesmas dá uma mostra do quão pouco se avança (principalmente, em tempos de crescimento do pensamento conservador, como agora).

Lembra do que falei sobre o deleite visual de ler este livro? Os três artistas escolhidos pela DC deram tudo de si. Na primeira parte, Phil Jimenez dá uma aula de impacto visual, criando os cenários, objetos e vestimentas mais opulentos e detalhados que já se viu. Cada página dupla de Jimenez explode de beleza que faz a gente pensar que está vendo cores pela primeira vez na vida. De correto imitador de George Pérez (tendo, inclusive, escrito e desenhado o título mensal da Mulher-Maravilha) ele alcança maturidade inegável em História, dividindo o mérito do Eisner conquistado com DeConnick.


Não tenho nenhum apreço especial pela arte de Gene Ha como um todo, mas ele não deixa a peteca cair na segunda parte de História. Com traço mais delicado que o habitual, cabe a ele ilustrar as andanças noturnas das Amazonas, em arte que contrasta com o colorido frenético de Jimenez. Aqui há muito azul, muita sombra e soluções visuais muito espertas e elegantes, como as aparições de Ártemis para Hipólita, em que suas formas aparecem "esculpidas" na vegetação e em outros elementos cênicos. Tudo muito sóbrio - e também sombrio, pelo rumo que a trama toma.


A terceira parte é ilustrada por outra veterana do gibi de linha da Mulher-Maravilha: na arte de Nicola Scott, com as Amazonas já descobertas Por Zeus e pelos homens, voltam a dominar os cenários ensolarados, mas as cores do dia são menos chapadas que na primeira parte, em razão do conflito que se desenha. Com sua tendência de dar a todos os personagens um olhar choroso sob controle, Scott entrega o melhor trabalho de sua vida, com splash pages realmente impressionantes e um domínio narrativo atípico.


Existe uma espécie de "decreto" entre alguns amigos meus, segundo o qual a Mulher-Maravilha não tem seu próprio O Cavaleiro das Trevas, uma história na qual seu heroísmo seja testado ao limite e se torne um legado maior que ela própria. A estes, eu digo: Diana não é o Batman. Ela não é um homem marcado pela tragédia, mas uma mulher nascida como guerreira, que veio ao mundo para ser o epítome da compaixão humana. Ela é literalmente divina, e as coisas divinas não podem ser contidas pelas sombras. Ela é da luz, das cores e do dia. Como imortal, quem carrega e honra seu legado é ela mesma, que já teve sua cota de histórias memoráveis. Provocação final: é bem provável que seja mais correto dizer que o Batman é que não tem uma História para chamar de sua!

Brincadeiras à parte, é bobagem querer comparar, de qualquer forma, dois personagens tão diferentes (e notar que este é o terceiro review de um gibi da Diana por aqui, em apenas um semestre, dá pista do quanto gosto dela). O certo é curtir o melhor que há para ler de ambos (e de outros). Boas fases vêm e vão para todos, mas posso afirmar que esta festa de 80 anos pareceu bem mais bonita e divertida que esta outra aqui. No fim das contas, o que conta é ter este quadrinho maravilhoso na estante e emprestá-lo para as pessoas mais importantes na sua vida. Elas não serão as mesmas depois de ler História.

30/09/2025

A Saga da Mulher-Maravilha #1 (Segunda Temporada)

Enquanto A Saga do Batman e A Saga dos X-Men já ultrapassaram todas as expectativas de sucesso (com algumas edições simplesmente sumindo do mercado ou sendo vendidas a peso de ouro), com a primeira confirmada para relançamento de sua primeira temporada (em sistema de assinatura e box de coleção), as Sagas de heróis menos populares prosperam mais devagar, com suas edições bimestrais. É o caso da Mulher-Maravilha, cuja primeira temporada trouxe, em sete edições, a fase de John Byrne - de que já não gostei em seu lançamento original, pela Editora Abril, e, portanto, evitei.

Na oitava edição, começa a segunda temporada de A Saga da Mulher-Maravilha, com a primeira fase escrita por Greg Rucka - o que significa que a Panini saltou, sem qualquer cerimônia, a fase com Phil Jimenez na escrita e na arte (na qual ele colaborou brevemente com sua principal influência, o saudoso mestre George Pérez). É mais uma decisão questionável da editora, embora não tão grave quanto foi, para mim, o hediondo duplo twist carpado que deram sobre a extensa e gostosa fase de Joe Kelly, quando esta seria a coisa mais lógica para inaugurar a segunda temporada d'A Saga da Liga da Justiça; ou a amada fase de Tom Grummett, na agora finada A Saga dos Novos Titãs, ignorada em favor da fase de Geoff Johns, medíocre e já publicada dentro da própria Panini.

Nas mãos de Greg Rucka, Diana atua como embaixadora de Themiscyra nos Estados Unidos (com direito a escritório, assessores e toda a burocracia que vem junto). Ao mesmo tempo, Diana publica um livro com uma versão resumida de sua visão de mundo, gerando muita controvérsia. Era 2003, quando a internet ainda era "mato", as redes sociais ainda eram relativamente "inocentes", mas já se discutiam o ódio gratuito e a defesa apaixonada de opiniões preconceituosas e sem embasamento. Se os americanos tivessem a mínima ideia de como as coisas degringolariam em 20 anos...

Bom, talvez eles tivessem, e o plano fosse esse, mesmo.

Enfim, Diana está ocupada como jamais pensou que estaria, equilibrando-se entre os papéis de heroína, diplomata, celebridade literária e mulher com vontades bem humanas, como comer doce e ter um boy pra chamar de seu. Mais ou menos alheias ao seu controle, pequenas e grandes conspirações se revelam, vindas de muito longe (com as dinâmicas de poder entre um Zeus cada vez menos influente e uma Hera cada vez mais ciumenta representando perigo para todas as amazonas) e de muito perto (com a cientista e empresária Veronica Cale desvirtuando as palavras e ações de Diana, provocando reações cada vez mais negativas da população).

Não é uma unanimidade, mas me agrada a caracterização de Diana como uma pessoa extremamente paciente diante da raiva e da burrice de seus detratores, ao mesmo tempo em que precisa ser implacável com antigos e novos inimigos (entre estes, a versão deturpada e letal de uma amiga querida). O grande diferencial da escrita de Greg Rucka está nas interações sociais de Diana com as pessoas em seu entorno, sejam os funcionários da embaixada, os colegas da Liga, repórteres ou cientistas. É um gibi no qual não falta ação (este não é, afinal, um conceito limitado a tiro, porrada e bomba), mas Rucka não tem pressa em posicionar as peças no tabuleiro. Mistério e intriga são especialidades suas desde sempre.

Chama atenção, também, a reestilização dos deuses olimpianos: exceto por Zeus e Hera (mais velhos e apegados aos costumes do passado), todo o panteão se veste e se comporta como humanos modernos, ostentando cabelos estilosos, óculos escuros e roupas da moda. Atena é vista com um iPad. Hermes fuma maconha o dia todo. Pouco lembrados pela atual sociedade ocidental, o que resta a fazer para deuses sem seguidores? O mais antigo dos bons conselhos: aproveitar a vida - o que fica ainda melhor quando dinheiro e tempo não são problemas.

A arte de Drew Johnson também traz novidades para o visual de Diana: com uma pele mais morena, cabelos muito lisos e nariz alongado, a heroína agora lembra menos uma caucasiana e mais uma persa (exceto, talvez, pelos olhos muito azuis). Tal mudança, porém, não é refletida nas ótimas capas da fase, com belas ilustrações de Adam Hughes e J. G. Jones (há duas de Phil Noto neste volume, mas parecem estranhas e indignas junto às demais), em que Diana é a mesma top model entalhada em mármore que conhecemos desde sempre.

Foram 30 edições escritas por Rucka, então, talvez esta segunda temporada seja ainda mais curta que a primeira. Caso prossiga, trará a fase de Allen Heinberg, que foi comprometida por atrasos e enxertada com uma série catastrófica, "O Ataque das Amazonas". Outro salto deixaria tudo muito perto da cronologia atual (outro erro cometido com a A Saga da Liga da Justiça), então, talvez seja o momento de a) mandar a cronologia às cucuias e publicar as 25 edições de Phil Jimenez, ou b) sacrificar mais uma Saga mal-planejada, em nome de uma "segurança" editorial discutível.