13/03/2026

Pastel de vento e luxo


Uma crítica do álbum
Make-Up Is a Lie, de Morrissey

Este ano começou cheio de surpresas: apenas entre janeiro e fevereiro, eu publiquei 16 vezes, metade de tudo que saiu por aqui em 2025. Desovei posts obsessivamente e me sentia inspirado. Para melhorar, dois de meus ídolos na música deram as caras: dia 18 de fevereiro, o U2 lançou o EP Days of Ash de supetão; três semanas depois, em 06 de março, foi a vez de Morrissey retornar com disco novo, seis anos após I'm Not a Dog on a Chain.

Daí que, passada a empolgação inicial, nada sobreviveu muito bem no decorrer dos dias: o disquinho do U2 não bateu tão bem e minha produtividade minguou em março - este é apenas o segundo post do mês, já quase em sua metade. O pior de tudo, porém, ficou por conta de Morrissey: os singles fracos já davam ideia de que Make-Up Is a Lie nem de longe seria memorável, mas ninguém esperava um álbum tão insípido, incolor e inodoro.

Não é de agora que tem sido difícil aturar a pessoa pública que Morrissey se tornou, mas, sendo ele o artista mais influente em minha vida, eu sempre lhe dava o relutante benefício da separação entre o artista e sua arte. De uns tempos pra cá, porém, ele parece estar chafurdando na senilidade - e, agora, com este novo álbum, flertando perigosamente com a irrelevância.

A pior coisa que um artista pode fazer contra mim é lançar um disco inofensivo, e Make-Up Is a Lie salva-se por pouco. É tudo muito bem gravado e produzido, e a voz do homem está melhor a cada dia, mas é lamentável que o luxo dos recursos técnicos esteja a serviço de letras débeis e refrões pobres, alguns dos piores que Morrissey já gravou - vários deles, limitados à repetição de uma palavra ou frase, em flagrante contradição com seu status (e sua pose) de intelectual.

Não pode ser isto aqui o que sobrou de Bonfire of Teenagers, o famoso álbum nunca lançado que Morrissey chamava de sua obra-prima e que, segundo ele, nenhuma gravadora era corajosa o bastante para lançar (dificuldade que teria prolongado o hiato desde o último disco). Passando os olhos pelos créditos das músicas, surge uma possível razão para todo esse "bege": Boz Boorer, o genial guitarrista e compositor que o acompanhou por três décadas, não está mais entre os colaboradores. Por outro lado, Alain Whyte, outro que escreveu ótimas melodias para o homem no passado, está - mas, poxa, essas músicas não fazem justiça à parceria deles nos anos 90 e 00.

Pode ser que este disco acabe crescendo em meu conceito, porque, como já dito, é um triunfo técnico, parece um discão luxuoso dos anos 80. Nem de longe ele é RUIM: é só "MEH", um mal que já afligia o disco de 2020 (e este novo é melhor, pasme). As últimas músicas de Morrissey que me fizeram salivar foram algumas de Low in High School, de 2017. Faltam a Make-Up Is a Lie letras e refrões melhores, um punch de rock and roll. Além de tudo, essa capa é como uma mão cheia de lama jogada em nossas caras, a pior imagem do ano.

Morrissey: testando limites (no caso, os meus)

Nestas primeiras audições, as que desceram mais redondo foram duas: a faixa de abertura, "You're Right, It's Time" (co-escrita pela tecladista Camila Grey Gutierrez), e a de encerramento, "The Monsters of Pig Alley" (parceria com Whyte). São as que mais se aproximam da qualidade de outrora, embora a primeira seja uma dessas que têm refrão "flat" - mas, pelo menos, as guitarras têm personalidade e a bateria é muito boa. A última do disco é uma delícia pop que poderia, tranquilamente, estar em um disco bem melhor que este.

Quando passar a vergonha alheia pelas últimas patacoadas lidas na internet (uma insistência maluca em falar de censura e reclamar de cancelamento, mas um conveniente silêncio sobre os constantes cancelamentos de shows e outros problemas de verdade com suas declarações), quem sabe eu volte a escutar este disco com mais carinho. Por enquanto, minha audição está contaminada por um ranço que eu segurei por muito tempo, mas não consigo mais fingir que não existe.

* * * * *

Morrissey
Make-Up Is a Lie
Produzido por Joe Chiccarelli
Lançado em 6 de março de 2026

1. You're Right, It's Time
2. Make-Up Is a Lie
3. Notre-Dame
4. Amazona
5. Headache
6. Boulevard
7. Zoom Zoom Little Boy
8. The Night Pop Dropped
9. Kerching Kerching
10. Lester Bangs
11. Many Icebergs Ago
12. The Monsters of Pig Alley

11/03/2026

História revista e ampliada


Uma crítica do quadrinho
Mulher-Maravilha - História: As Amazonas

Quando ainda usava o nome A Era do Ócio, eu cheguei a escrever sobre esta HQ após ler sua conclusão original, em inglês, em dezembro de 2022, mas ainda sofria com a limitação de caracteres imposta pelo Instagram (e ainda não havia tido a ideia de espalhar o review pelos comentários - um improviso pouco digno). Três anos depois, Mulher-Maravilha - História: As Amazonas continua sendo, em minha modesta opinião, o melhor e mais bonito lançamento já feito pelo selo DC Black Label.

Encomendada para comemorar os 80 anos da Mulher-Maravilha, a publicação ocorreu em três edições semestrais. O longo intervalo se justificava: para dar corpo às palavras de Kelly Sue DeConnick (escritora indicada ao Eisner), a editora convocou três artistas com fortes assinaturas visuais - dois deles, intimamente ligados aos quadrinhos da amazona: para o primeiro volume, Phil Jimenez; para o segundo, Gene Ha; para o terceiro e último, Nicola Scott. Com tempo para caprichar, o trio de desenhistas não decepcionou: História é, para começo de conversa, um deleite sem igual para os olhos.

A primeira coisa que se deve saber sobre o livro é que, embora seja uma trama situada em seu universo, a princesa Diana não é a protagonista. É uma sucessão de eventos anteriores ao seu nascimento (que só acontece nas últimas páginas).

Cansadas de verem mulheres mortais abusadas, escravizadas ou mortas, sete deusas do Olimpo recorrem a Zeus para que castigue os homens que maltratam ou matam mulheres. Porém, se os homens são feitos à imagem de seu(s) deus(es), também é verdade que herdaram traços divinos de personalidade: os deuses gregos são cheios de sentimentos pouco nobres, e Zeus, em particular, é muito machista e mulherengo, vindo à terra em forma humana para desfrutar de companhia feminina, sem se importar com sentimentos ou consequências. Para ele, servir e sofrer são os papéis reservados às mulheres na existência.

Instigadas pela sempre traída esposa de Zeus, Hera (mas sem sua participação direta), as deusas não se deixam abater pela negativa de seu rei. Dando novo corpo às almas de mulheres mortas por homens, elas criam, em segredo, uma estirpe superior de mulheres, que não temem nem se curvam a eles: as Amazonas saem pela noite como vigilantes, resgatando mulheres e corrigindo injustiças - sempre e somente à noite, para não chamar atenção de Zeus (o que é, claro, uma questão de tempo). Ao deparar-se com as guerreiras e depois segui-las, uma jovem desesperada chamada Hipólita nem imagina o quanto sua vida está prestes a mudar.

Apesar de sua ilustre ausência, História é um quadrinho do universo particular de uma heroína vista como um dos alicerces da DC Comics. Kelly Sue DeConnick escreve uma história com muita ambição e execução à altura. É inevitável ver paralelos com o começo da fase escrita por George Pérez (1954-2022), mas a autora sabe evitar as armadilhas da "homenagem" preguiçosa e demonstra muita personalidade, atualizando uma narrativa que já era feminista em 1987. O fato de que praticamente 40 anos se passaram e as demandas continuam as mesmas dá uma mostra do quão pouco se avança (principalmente, em tempos de crescimento do pensamento conservador, como agora).

Lembra do que falei sobre o deleite visual de ler este livro? Os três artistas escolhidos pela DC deram tudo de si. Na primeira parte, Phil Jimenez dá uma aula de impacto visual, criando os cenários, objetos e vestimentas mais opulentos e detalhados que já se viu. Cada página dupla de Jimenez explode de beleza que faz a gente pensar que está vendo cores pela primeira vez na vida. De correto imitador de George Pérez (tendo, inclusive, escrito e desenhado o título mensal da Mulher-Maravilha) ele alcança maturidade inegável em História, dividindo o mérito do Eisner conquistado com DeConnick.


Não tenho nenhum apreço especial pela arte de Gene Ha como um todo, mas ele não deixa a peteca cair na segunda parte de História. Com traço mais delicado que o habitual, cabe a ele ilustrar as andanças noturnas das Amazonas, em arte que contrasta com o colorido frenético de Jimenez. Aqui há muito azul, muita sombra e soluções visuais muito espertas e elegantes, como as aparições de Ártemis para Hipólita, em que suas formas aparecem "esculpidas" na vegetação e em outros elementos cênicos. Tudo muito sóbrio - e também sombrio, pelo rumo que a trama toma.


A terceira parte é ilustrada por outra veterana do gibi de linha da Mulher-Maravilha: na arte de Nicola Scott, com as Amazonas já descobertas Por Zeus e pelos homens, voltam a dominar os cenários ensolarados, mas as cores do dia são menos chapadas que na primeira parte, em razão do conflito que se desenha. Com sua tendência de dar a todos os personagens um olhar choroso sob controle, Scott entrega o melhor trabalho de sua vida, com splash pages realmente impressionantes e um domínio narrativo atípico.


Existe uma espécie de "decreto" entre alguns amigos meus, segundo o qual a Mulher-Maravilha não tem seu próprio O Cavaleiro das Trevas, uma história na qual seu heroísmo seja testado ao limite e se torne um legado maior que ela própria. A estes, eu digo: Diana não é o Batman. Ela não é um homem marcado pela tragédia, mas uma mulher nascida como guerreira, que veio ao mundo para ser o epítome da compaixão humana. Ela é literalmente divina, e as coisas divinas não podem ser contidas pelas sombras. Ela é da luz, das cores e do dia. Como imortal, quem carrega e honra seu legado é ela mesma, que já teve sua cota de histórias memoráveis. Provocação final: é bem provável que seja mais correto dizer que o Batman é que não tem uma História para chamar de sua!

Brincadeiras à parte, é bobagem querer comparar, de qualquer forma, dois personagens tão diferentes (e notar que este é o terceiro review de um gibi da Diana por aqui, em apenas um semestre, dá pista do quanto gosto dela). O certo é curtir o melhor que há para ler de ambos (e de outros). Boas fases vêm e vão para todos, mas posso afirmar que esta festa de 80 anos pareceu bem mais bonita e divertida que esta outra aqui. No fim das contas, o que conta é ter este quadrinho maravilhoso na estante e emprestá-lo para as pessoas mais importantes na sua vida. Elas não serão as mesmas depois de ler História.