30/05/2026

Corações ao alto


Uma crítica do filme
Devoradores de Estrelas

Porque frequentemente lida com o futuro da humanidade e as consequências do que fazemos no presente, a ficção científica mostra-se um gênero reflexivo por excelência. Quando confrontados com os frutos de sua falta de ética existencial (destruindo o ambiente, eliminando espécies), o homem do cinema costuma olhar para as estrelas em busca de uma esperança de sobrevivência que nem seria necessária se aprendêssemos a viver com o planeta, não contra ele. Este é o mote de filmes como Interestelar (2014), o filme de maior alcance do gênero nas duas últimas décadas.

Onde o filme de Christopher Nolan era puro rigor científico e lágrimas em profusão, Devoradores de Estrelas recorre ao humor, sem furtar-se de um pouco de piração (matéria sem a qual a ficção científica sequer existiria). Com a descoberta de que uma substância (organismo?) está esfriando o sol e estrelas vizinhas aos poucos, o medo de não sobreviver a uma nova Era Glacial faz a humanidade se unir num projeto quase delirante, de enviar uma pequena equipe à distante estrela Tau Ceti, numa viagem de quase 12 anos só de ida, para tentar descobrir por que ela é a única não afetada por aquele tipo de praga cósmica.

A missão deixa a Terra com três tripulantes, mas o professor e biólogo molecular Ryland Grace (Ryan Gosling) acorda de um coma induzido sozinho na nave, sem lembrar sequer de haver embarcado. Nomes e fatos parecem nebulosos, mas, conforme sua memória retorna, vamos tomando ciência de como Ryland chegou até ali. Enquanto isso, a nave é abordada por outra, muito maior, no que é o primeiro contato alienígena da história. Ryland conhece um ser inteligente feito de rocha que, por coincidência, também é o único sobrevivente de uma missão semelhante à sua. Decifrando aos poucos sua linguagem de murmúrios e sibilos, Ryland o batiza, muito obviamente, de Rocky.

Apesar de longo (2h 36m), o filme de Phil Lord e Chris Miller (dupla que dirigiu a animação Tá Chovendo Hambúrguer em 2009 e o remake de Anjos da Lei em 2012) tem a sorte de contar com um protagonista em plena forma. Gosling é muito bom de comédia física (se ainda não ficar convencido, veja Dois Caras Legais, de 2016) e o roteiro o coloca em situações extremas, reagindo a elas de maneiras bastante críveis - ou seja, se pelando de medo de morrer, mas parando para respirar e colocar as ideias no lugar.

Rocky e Ryland: a pior parte de esperar é esperar.

Nos flashes que recuperam sua memória fragmentada, vemos como Ryland passou de mero consultor a tripulante da missão, deixando para trás seu emprego de professor e uma fama de pária literário, por defender com paixão teses pouco populares. Nesses momentos na Terra, somos agraciados com as presenças de Lionel Boyce (o Marcus de The Bear) e Sandra Hüller (de Anatomia de uma Queda) - ele, um "leão de chácara" quase amigável, o oficial Carl; ela, a cientista chefe do Projeto Ave Maria do título original, Eva Stratt. Num momento sublime, durante a última festa da equipe antes da partida da nave, Eva canta "Sign of the Times", de Harry Styles, e o tom de "agora é tudo ou nada" em sua voz muda totalmente nossa percepção sobre a letra.

Cabe aqui um aparte sobre o título original do filme: sim, "Hail Mary" pode ser traduzido como "Ave Maria", mas é, também, uma expressão idiomática usada para descrever a tentativa final e mais desesperada de alcançar um intento. Diante da dificuldade de encontrar uma correspondente em português que transmitisse a mesma urgência (além de alegórico e vendável), optou-se pelo foco no nome dos "inimigos".

Visualmente, o filme é uma delícia de assistir e enche nosso olhos, ainda que a vastidão do espaço tenha uma aparência menos "polida" do que em Interestelar. Há momentos quase oníricos, de imenso perigo e de muita emoção, porque a gente sabe, desde o início, que a amizade entre Ryland e Rocky é o que vai garantir que haja um final feliz, mas não sem antes passar por provações que deixam o espectador aflito - e quem diria que uma "aranha de pedra" daria um bicho tão interessante e carismático?

Fazer previsões é um exercício com grandes chances de fazer a gente passar ridículo, mas gosto de pensar que Devoradores de Estrelas será para os anos 2020 o que Interestelar (perdão pela insistência na comparação, mas ela é meio que inevitável) foi para os anos 2010: o filme pelo qual toda a produção do gênero teria que se medir no período. Como espetáculo de cinema ou como metáfora de nosso medo da morte em escala cósmica, este é um filme que aposta alto no que a humanidade tem de melhor. Não é pouco.

23/05/2026

Sangue de ketchup


Uma crítica da série
The Boys, do Prime Video

Pense em grandes roteiristas de quadrinhos de super-heróis e alguns nomes pulam na sua mente logo de saída: Alan Moore, Grant Morrison, Neil Gaiman... O Olimpo particular de cada leitor tem alguns nomes em comum, mas sempre vai haver quem se lembre de um nome que pouca gente menciona. Meu "esquecido" preferido é Garth Ennis, um roteirista norte-irlandês que escreveu grandes momentos da Nona Arte, como Preacher, além de fases estelares de Justiceiro e Hellblazer.

Embora Ennis seja um escritor de mão cheia - desses que enchem as páginas de texto e você lê tudo como se estivesse chupando um picolé - é preciso reconhecer que, às vezes, ele pesa a mão no deboche, na sacanagem e na escatologia. Eu acho Preacher uma obra-prima, mas tenho amigos que a evitam, devido ao choque com algumas falas e ilustrações (a cargo de sua "alma gêmea", o brilhante artista inglês Steve Dillon).

Mesmo sendo fã de Ennis, não passei nem perto de The Boys, o quadrinho. Já bastava o Alan Moore descendo a lenha na DC, na Marvel e nos leitores que se recusavam a crescer e deixar os super-heróis para trás (no que ele tem muito de razão, mas isso é discussão para outro dia). Já bastava Watchmen (do mesmo Moore, coincidência?) mostrando super-heróis como problemáticos ou francamente degenerados. Eu não queria ler uma série com mais heróis problemáticos e degenerados.

Mas eis que a Prime Video decidiu fazer uma série baseada em The Boys e ficou impossível não prestar atenção. Para minha surpresa, todo o absurdo gore e quase pornográfico típico da obra de Ennis estava lá, recriado com ótimos efeitos especiais e um elenco perfeito em seus papéis. Quando A-Train (Jessie T. Usher) esbarra na namorada de Hughie (Jack Quaid) a altíssima velocidade e a transforma num pudim de sangue e tripas, a gente entende, logo nos primeiros minutos, que The Boys, a série de TV, não faz concessões.

Quem viu as duas versões, garante: a série de TV dá um banho de qualidade nos quadrinhos. Aparentemente, enquanto a série ainda cria contextos para discussões e situações interessantes (sem os quais dificilmente a Amazon se arriscaria investindo tanto), a revista era um caminhão de baixaria sem freios ladeira abaixo. A ousadia valeu a pena: as três primeiras temporadas de The Boys são irretocáveis e criaram um séquito de fãs (com uma parcela numerosa não muito inteligente, pelo visto nas reações de surpresa, ao saber que a série era crítica ao governo Trump).

Precedida pela primeira temporada de um bom spin-off, Gen-V, a quarta temporada já dava as primeiras mostras de cansaço, com muita enrolação e teimosia intermináveis. Não foi à toa que coadjuvantes ganharam destaque: pode ter sido de propósito, mas prolongar demais alguns dramas dos personagens centrais foi um dos pecados que fizeram das temporadas 4 e 5 blocos inferiores.

Como se a decisão de cancelar Gen-V após a segunda temporada fosse pouco, os personagens e eventos trabalhados nela foram burramente jogados no lixo. A participação de seu elenco na quinta temporada de The Boys é vergonhosa. Marie Moreau (Jaz Sinclair) e seus amigos (vários deles ignorados como se não tivessem existido) passaram pelo inferno pra acabar trancados em casa, dando sopinha pra gente que, pouco antes de um choque de realidade, bateria palmas ao saber de suas mortes.

No geral, The Boys merece crédito por ter feito ótimo comentário da situação política mundial atual, reservando um deboche todo especial ao bebezão apedeuta, mimado e delirante que ocupa a presidência dos EUA (mas, que se diga, nunca foi tão difícil para a ficção superar o absurdo da realidade). O ótimo elenco, no qual sempre se destacava Anthony Starr como o amoral Homelander (Capitão Pátria na legenda e na dublagem), era garantia de carisma, ainda que o Billy Butcher de Karl Urban tenha caído na vala da repetição.

Pois bem, The Boys acabou, mas não nos livraremos do "theboysverso" tão cedo: o derivado Vought Rising já está adiantado em suas gravações, mas só deve estrear no ano que vem. Talvez eu pague minha língua e acabe assistindo, mas, neste momento, me sinto saturado e frustrado, tendo que me limpar de tanta sujeira em troca de um encerramento tão aquém da expectativa. De sua casa em Southampton, Alan Moore sorve um gole de chá Earl Grey quentinho, enquanto se reclina na poltrona e alisa a barba, com um pequeno sorriso de satisfação nos lábios.

19/05/2026

Música e Mágica #13


TIMBALADA
Cada Cabeça É um Mundo
1994

Eu passei a adolescência dentro de um personagem de alma "londrina", com pouca vida social e muita pose de intelectual. Odiava a pequena cidade para onde minha família se mudara de repente e não me preocupei em fazer amigos da minha idade (os colegas na escola noturna já eram todos adultos ou quase). Recluso em casa, o som que eu gostava de escutar eram as bandas inglesas que chafurdavam em inquietação existencial. Eu me achava (e havia quem me achasse) um cara "cabeça", como se dizia na época.

A chegada à idade adulta me deu as ferramentas e me encarregou de cumprir uma demanda pessoal gigantesca: fazer as pazes com minha identidade como um todo. Quando meu irmão mais velho faleceu, em 1990, eu tinha 17 anos. Naquele momento, vi que a vida poderia acabar sem aviso, a qualquer instante. Percebi que estava perdendo tempo, fui tomado por uma fome de viver e me abri para tudo que antes evitava: amigos, festas, bebida (sei que beber não é algo de que deva me orgulhar, mas o álcool é um lubrificante social eficaz como poucos).

A primeira metade dos anos 90 foi um tempo muito feliz e, com a guarda baixa, passei a perceber o óbvio ululante: eu tinha sorte de ser baiano e de estar na Bahia. Quando alguém diz que a Bahia é um estado de espírito, é 100% verdade. Passei a ouvir e atribuir à música feita aqui o valor imenso que ela carrega, como arte e como expressão de identidade de um povo. A música baiana (chame de Axé Music, se lhe convém) deve ter sido o fator mais importante no resgate e lapidação de minha identidade, antes soterrada em pretensão e solenidade.

Daí que, em 1993, algo muito diferente de tudo que se havia escutado até ali chegou aos nossos ouvidos: rápidas saraivadas de timbaus e bacurinhas, emoldurando uma letra meio tatibitate: "eu canto pra lua / porque amo a lua / ai que lua, ai que lua...". Em meio a metais, corais e scats, "Canto pro Mar" virou um imenso e improvável sucesso. Era como heavy metal percussivo: o que o Olodum tinha de virtuoso e controlado, a Timbalada tinha de explosivo e caótico - e, passado o choque, soava genial e divertidíssimo.

Depois, viriam "Toque de Timbaleiro", a cover de "Emilio" (Jorge Benjor), "Mulatê do Bundê" e, principalmente, "Beija-Flor", fazendo do grupo do Candeal Pequeno de Brotas, em Salvador, a descoberta musical brasileira mais excitante do ano. Além do som, havia o atrativo da pintura corporal, vocalistas carismáticos, e a bênção do criador e maestro Carlinhos Brown.


Se a Timbalada acabasse após o primeiro álbum, já teria feito o suficiente para gravar seu nome no inexistente (ainda!) Hall of Fame do Axé, mas, em 1994, lá estavam eles de volta: Cada Cabeça é um Mundo representou um salto enorme para a banda, que encontrou um delicado e incomum equilíbrio entre o pula-pula do axé e uma classe pop que o gênero costumava atropelar com excessos, num padrão de produção muito acima do que se fazia na época.

O disco é cheio de canções que jamais deixariam o repertório dos shows, em mais de três décadas de carreira. A abertura, com "Toneladas de Desejo", já deixa clara a ambição de Brown em formatar uma espécie de pop baiano global. É uma canção de amor nada óbvia, com a letra evocando imagens incomuns ("cada noite é um vestido que o dia tem / quando o dia tira o vestido, o sono vem") e versos completados de certa maneira apenas porque sim ("pro caminho dessa Timbalada, puxa tetê" / ... / "vem me dizer que amar é hum, hum, hum").

"Se Você Se For" oferece o primeiro "pancadão" percussivo do álbum. Com citação a "Máscara Negra", marchinha de Zé Kéti, a letra é outra boa representante da "escola Brown de composição", em que palavras são escolhidas mais por como soam do que pelo que dizem, e a gramática pode ser ignorada ("meu brinquedo é com ti bailar"), sem vergonha alguma, se isso ajudar na melodia e na "cantabilidade". Tem riff de piano assombrado e breques precisos.

A elegância pop atinge o ápice em "Namoro a Dois". Uma introdução com sons de pássaros ganha a companhia de violão, teclados e assobios, para depois explodir com metais e percussão trovejante. Quando Xexéu canta por cima da levada malemolente, a gente imagina tudo: "o som da maré, o vento, a rede, o luar". Costurando e comentando tudo, um pianinho classudo que simplesmente não se ouvia em axé. Um primor, prova cabal da versatilidade da Timbalada e do domínio pop de Brown.

Com sua bela voz a serviço desta trinca introdutória matadora, Xexéu é apenas um dos enormes talentos vocais revelados pela Timbalada. Neste disco, ainda brilha muito Ninha, o "gogó de ouro", com autoridade de rua e potência perfeita pros hits mais explosivos, como "Camisinha" e "Sambaê" (volto a ela em instantes). A subestimada Patrícia Gomes é pouco ouvida: "Camafeu" tem guitarra e percussão fortes, listando diversos blocos afro de Salvador, enquanto  a gostosa "Giro o Mundo" faz uso bem melhor de seu talento.

A propósito: Patrícia é a dona dos seios pintados na capa do disco de estreia.

Aqui temos, ainda, a primeira participação de Denny Denan, que se tornaria a voz e a cara oficiais da Timbalada, permanecendo fiel ao grupo, enquanto diversos outros chegavam e partiam (apesar disso, ele próprio esteve longe por quatro anos, entre 2017 e 2021, tentando uma carreira solo que não deu em nada). Quando gravou "Pracumcum Babá", Denny tinha meros 14 anos, mas já exibia muita afinação e adequação.

O disco ainda conta com Augusto Conceição (falecido em 2025) em "Vida Rudimentar"; o ator Jackson Costa dá voz à chata e pretensiosa "Prosoema pra Ocê Ará", ponto baixo do disco; em "Camisinha", as falas de Caetano Veloso fazem a faixa parecer propaganda do Ministério da Saúde; por fim, o repente de Mestre Bule-Bule "Convênio com Cristo" mescla o canto do sertanejo com o berimbau.

A faixa que, para mim, resume a força do disco é "Sambaê", cantada por Ninha. Quando escutada nos bons fones do meu hoje pitoresco Discman de então, a faixa crescia aos poucos - com timbaus, violão de aço, sopros - e provocava arrepios incontroláveis, revolvendo qualquer coisa ancestral dentro de mim, que eu não sei até hoje se consigo identificar. Lá pelos 30 segundos iniciais, quando a percussão desabava pesada sobre meus ouvidos, eu era transportado a um lugar que não era neste mundo.

Ainda que não seja um disco perfeito, Cada Cabeça É um Mundo sintetiza a força da obra da Timbalada e mora no coração dos fãs, quase sempre como o "filho" favorito. A banda seguiria em uma curva ascendente de qualidade e popularidade - Mineral (1996) e Mãe de Samba (1997) podem muito bem virar objetos desta seção no futuro - até sua primeira crise criativa e identitária, em 1999, com o fraco Pense Minha Cor e seus vocalistas, digamos, controversos - quem é que vai pra show da Timbalada pra ouvir música sertaneja e ver asiático cantando, pelamordedeus?

Hoje, embora siga firme como uma instituição do axé, a Timbalada não consegue produzir novos hits que mobilizem as plateias. Ainda assim, seu cancioneiro clássico mais do que basta para encher as noites no Candyall Ghetto Square e os carnavais país afora. Em tempos em que tanto se vende "experiências" a peso de ouro com coisas absolutamente triviais por aí, um show da Timbalada já oferecia tanto desde seu surgimento. Não foi "um rio que passou em minha vida": foi um tsunami!

* * * * *

Timbalada
Cada Cabeça É um Mundo
Produzido por Carlinhos Brown e Wesley Rangel
Lançado em 29 de setembro de 1994

1. Toneladas de Desejo
2. Se Você Se For
3. Namoro a Dois
4. Papa Papet
5. Camafeu
6. Camisinha
7. Prosoema pra Ocê Ará
8. Choveu Sorvete
9. Pracumcum Babá
10. Giro o Mundo
11. Sambaê
12. Vida Rudimentar
13. Cadê o Timbau?
14. Convênio com Cristo

03/05/2026

Música & Mágica #12


METALLICA
Metallica
1991

O começo dos anos 90 foram de confusão e mudança - e não somente porque eu estava fazendo a transição da adolescência para a idade adulta: a década trouxe uma profusão de estilos e misturas e, embora eu não fosse o mais flexível dos ouvintes, estava acompanhando o que conseguia. Curiosamente, um dos estilos que passou a frequentar meus ouvidos era um já bem antigo: o metal. O ano de 1991 foi a explosão definitiva do Guns N' Roses, o Living Colour havia feito o Time's Up menos de um ano antes, e o Faith No More havia explodido mentes com seu show indefectível no Rock in Rio 2.

Não me entenda mal, metal e hard rock não eram estranhos totais para mim: só quem estava vivendo em Marte nos anos 80 talvez não tenha ouvido coisas como "Don't Stop Believing", do Journey; "Eye of the Tiger", do Survivor; "The Final Countdown", do Europe; ou "Rock You Like a Hurricane", dos Scorpions. Era legal, e o fato de que o "metal farofa" era amplamente usado em comerciais ajudava a dar popularidade ao estilo. Porém, eu ainda não havia cruzado a linha do thrash metal, uma variante mais pesada e mais rápida, de onde vinham o Slayer, o Anthrax e o Metallica.

Quando chegamos em agosto de 1991, porém, ficou difícil ignorar o Metallica, porque o quarteto decidiu que era hora de ocupar o topo - não apenas em seu nicho, mas no mainstream. Em seu quinto ábum de estúdio, que levava apenas o nome da banda, com uma capa preta minimalista, James Hetfield, Kirk Hammet, Lars Ulrich e Jason Newsted apostaram em peso multiplicado e produção de primeira, ajustando o ataque sonoro do thrash apenas o suficiente para não assustar os ouvintes comuns. 30 milhões de cópias vendidas depois (e o topo ocupado, como a banda queria), resta pouca dúvida sobre o sucesso da manobra.

Metallica, o álbum, foi um dos primeiros que adquiri em formato CD - e havia um excelente motivo para a opção pelo som digital: a produção primorosa de Bob Rock. Cada baquetada e acorde soava cristalino e retumbante. Era um novo nível de peso, justamente quando o Metallica estava, segundo alguns fãs antigos menos satisfeitos, amaciando seu som para fazer mais sucesso. Era verdade, mas também era uma intransigência boba: todo mundo está nessa pela fama e pela grana. O Metallica apenas percebeu que o momento era aquele.

A faixa de abertura, "Enter Sandman", tem um daqueles dedilhados que se tornam introduções clássicas, reconhecíveis no primeiro segundo. Bumbo, caixas e pratos da bateria trovejam. O riff principal dá ímpetos imediatos de air guitar. Os versos de Hetfield capturam com maestria os terrores noturnos de uma criança que tem medo de dormir. Sem falar do refrão icônico, desses que fazem a plateia se esgoelar: "exit: light / enter: night".

A pedrada seguinte é ainda mais forte: "Sad but True", uma viagem pelas regiões mais sombrias da alma humana. É a maior evidência do equilíbrio alcançado pelo Metallica entre peso distorcido e habilidade pop. A velocidade do hardcore dá o tom em faixas como "Holier than Thou", "Through the Never" e "The Struggle Within", que fecha o disco. Apesar disso, a maestria técnica e complexidade melódica do Metallica os distancia da bagaceira punk. Tudo neste álbum é nada menos que épico.

Se foi capaz de furar a bolha do mainstream com petardos pra bater cabeça, imagine se o público não seria ainda mais generoso com as baladas: "The Unforgiven" e "Nothing Else Matters" entraram para o cancioneiro definitivo daquela década, uma com peso e superação contra inimigos, a outra com delicadeza e sinceridade no amor. A segunda acabou por tornar-se a canção mais popular do Metallica. Entre uma e outra, um leviatã de mitologia estradeira, "Wherever I May Roam". Em todas elas, os solos de Hammett esbanjam emoção e criatividade.

Metallica: feios, sujos, malvados e donos do mundo.

O terço final do disco traz algumas canções que poderiam ter feito mais bonito nas paradas, mas talvez o público precisasse recuperar o fôlego, já que, até ali, os hits do Metallica não fizeram prisioneiros. 

"Of Wolf and Man" acena à natureza animal do homem, pregando uma volta "ao sentido da vida". Em uma de minhas favoritas, "The God that Failed", Hetfield se lamenta com toda a fúria pela mãe que perdeu a luta contra o câncer, ao confiar que um poder superior à salvaria, recusando a ajuda da ciência. A dor do vocalista vem embalada em rock and roll de primeira. Já "My Friend of Misery", a mais sonoramente progressiva do disco, fala de autopiedade e de viver imerso em pensamentos negativos. A já citada "The Struggle Within" fecha o disco à toda, com sua letra sobre autossabotagem.

O Metallica merece aplausos por ter recusado cobranças medíocres por suposta "autenticidade" e ignorar quem os acusou de "vendidos". Eles souberam fazer seu momento acontecer, após dez anos de muita luta. Depois de Metallica (que entrou para a História com o apelido de The Black Album), eles seguiram acertando e errando, mas podendo orgulhar-se de fazerem exatamente o que queriam. O alinhamento de sucesso comercial e prestígio crítico do disco de 1991 nunca mais se repetiu, mas isso não impediu o Metallica de seguir marchando como um gigante: sempre em frente, nunca sem ser notado.

* * * * *

Metallica
Metallica
Produzido por Bob Rock, James Hetfield e Lars Ulrich
Lançado em 12 de agosto de 1991

1. Enter Sandman
2. Sad but True
3. Holier than Thou
4. The Unforgiven
5. Wherever I May Roam
6. Don't Tread on Me
7. Throught the Never
8. Nothing Else Matters
9. Of Wolf and Man
10. The God that Failed
11. My Friend of Misery
12. The Struggle Within

01/05/2026

A cura pela dor


Uma crítica do quadrinho
Senhor Milagre - Edição de Luxo

Existe um ponto comum entre artistas tão diferentes como Amy Winehouse e Jeff Buckley, ou entre Morrissey e Joni Mitchell, e não é apenas que todos possuam vozes inconfundíveis: eles cantam de recônditos profundos de sua alma. O sofrimento que carregam é traduzido em versos que podem - às vezes, até simultaneamente - emocionar e incomodar (principalmente quando geram identificação no ouvinte). Na música ou em outras artes, poucos são os artistas capazes de desnudar-se em frente ao seu público, exposição que cumpre papel de terapia, ainda que sob pretexto de entretenimento. A dor é um motor muito potente da criatividade.

Nos quadrinhos DC ou Marvel, poucos são os autores que se abrem tanto quanto Tom King. Ex-agente de antiterrorismo da CIA, sua obra ficcional trata, quase sempre, de questões de saúde mental, como depressão e ansiedade, que King conhece em primeira mão: a ideia para Senhor Milagre nasceu após um ataque de ansiedade tão forte que o levou a pensar que estava morrendo (episódio contado no prefácio). Nas doze edições - reunidas em uma bonita Edição de Luxo com sobrecapa, que resolve alguns problemas gráficos da publicação original, em dois volumes de capa cartão - o herói escapista e Novo Deus encarna as vivências e impressões de King sobre trauma e outras síndromes.

Após um prólogo biográfico (ausente da publicação original), a primeira página é um close do rosto de Scott Free (nome civil do herói, sobre o qual há um expressivo diálogo algumas edições depois), em expressão compungida; na página dupla a seguir, ele está no chão ensanguentado do banheiro, as veias do pulso abertas, em tentativa de suicídio. A partir daí, o leitor se vê em permanente dúvida: Scott Free está morto ou não? O que vemos acontecer é a realidade ou um delírio post-mortem? Teria o Senhor Milagre escapado daquilo de que ninguém escapa?

Seja como for, Scott se vê fisicamente recuperado e acaba convocado a liderar os exércitos de Nova Gênese, quando eclode a guerra definitiva contra Apokolips. É uma batalha muito longa e inglória, na qual Nova Gênese tem pouca chance de vencer, pois Darkseid está de posse da Equação Antivida, um mantra que mina a sanidade e a vontade de viver daqueles que contamina. Quando criança, Scott (filho do Pai Celestial) foi trocado com Orion (filho de Darkseid) como prova de boa vontade, numa trégua da guerra entre os dois mundos. Criado desde muito pequeno em meio à violência, humilhação e abandono, como ele não seria uma vítima em potencial da Equação?

Scott Free: "Sei lá, acordei meio coisado hoje..."

Como veículos para suas ruminações, nem sempre os quadrinhos de Tom King resultam em boa leitura. Seu Batman me fez desistir do personagem por anos, e O Xerife da Babilônia é um dos quadrinhos mais superestimados de que se tem notícia. Heróis em Crise é um desserviço, tamanha a descaracterização de seus protagonistas. Amigos que leram Alvo Humano e Rua Perigo dizem que são gibis "sobre nada", o que me faz trocar de hipotética calçada para evitá-los. Por outro lado, seu único trabalho para a Marvel, a minissérie Visão, é das melhores coisas da editora nos anos 2010. Pessoalmente, acho esta Senhor Milagre sua obra definitiva até aqui (embora já se diga por aí que a autoral Helen de Wyndhorn é coisa muito fina).

King tem sorte e mérito em trabalhar com artistas fantásticos. Para Senhor Milagre, ele reprisa a parceria de O Xerife da Babilônia com Mitch Gerads, que opera milagres (ha!) dentro da rígida estrutura de nove quadros por página, com passagens geniais. Os desfoques e interferências ajudam na sensação constante de que algo não está certo e nem tudo é o que parece. Na ternura das conversas com Grande Barda, no humor involuntário das caras de Darkseid comendo petisco de cenoura e das histórias malucas de Funky Flashman, ou no terror dos momentos de violência, texto e arte estão alinhados de forma preciosa.

Passagens como o julgamento de Scott por traição e o desabafo de Barda sobre suas próprias frustrações fazem a gente sentir como se estivesse no mesmo ambiente que os personagens e sendo afetados por tudo que dizem. Quem dera todo quadrinho que se diz "adulto" tivesse metade desse estofo sentimental e psicológico. Não é tudo que funciona tão bem: Scott e Barda discutindo reforma do apartamento enquanto invadem Apokolips foi uma tentativa de ser cool demais que acabou sendo só isso: uma tentativa.

Como dito antes, esta Edição de Luxo corrige problemas gráficos da edição em capa cartão, como uma imensa mancha de tinta em uma das páginas e a diferente gramatura de papel, o que resultou em um segundo volume muito mais fino. Sem falar que esta bela sobrecapa é um primor. Os extras incluem o roteiro da primeira edição, além de rascunhos de Nick Derington para as capas originais e de Mitch Gerads para as alternativas. É um livro que fica muito bonito na estante, mas que só cumpre seu propósito quando lido com atenção e empatia. Sem isso, tudo mais é a Antivida.