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19/05/2026

Música e Mágica #13


TIMBALADA
Cada Cabeça É um Mundo
1994

Eu passei a adolescência dentro de um personagem de alma "londrina", com pouca vida social e muita pose de intelectual. Odiava a pequena cidade para onde minha família se mudara de repente e não me preocupei em fazer amigos da minha idade (os colegas na escola noturna já eram todos adultos ou quase). Recluso em casa, o som que eu gostava de escutar eram as bandas inglesas que chafurdavam em inquietação existencial. Eu me achava (e havia quem me achasse) um cara "cabeça", como se dizia na época.

A chegada à idade adulta me deu as ferramentas e me encarregou de cumprir uma demanda pessoal gigantesca: fazer as pazes com minha identidade como um todo. Quando meu irmão mais velho faleceu, em 1990, eu tinha 17 anos. Naquele momento, vi que a vida poderia acabar sem aviso, a qualquer instante. Percebi que estava perdendo tempo, fui tomado por uma fome de viver e me abri para tudo que antes evitava: amigos, festas, bebida (sei que beber não é algo de que deva me orgulhar, mas o álcool é um lubrificante social eficaz como poucos).

A primeira metade dos anos 90 foi um tempo muito feliz e, com a guarda baixa, passei a perceber o óbvio ululante: eu tinha sorte de ser baiano e de estar na Bahia. Quando alguém diz que a Bahia é um estado de espírito, é 100% verdade. Passei a ouvir e atribuir à música feita aqui o valor imenso que ela carrega, como arte e como expressão de identidade de um povo. A música baiana (chame de Axé Music, se lhe convém) deve ter sido o fator mais importante no resgate e lapidação de minha identidade, antes soterrada em pretensão e solenidade.

Daí que, em 1993, algo muito diferente de tudo que se havia escutado até ali chegou aos nossos ouvidos: rápidas saraivadas de timbaus e bacurinhas, emoldurando uma letra meio tatibitate: "eu canto pra lua / porque amo a lua / ai que lua, ai que lua...". Em meio a metais, corais e scats, "Canto pro Mar" virou um imenso e improvável sucesso. Era como heavy metal percussivo: o que o Olodum tinha de virtuoso e controlado, a Timbalada tinha de explosivo e caótico - e, passado o choque, soava genial e divertidíssimo.

Depois, viriam "Toque de Timbaleiro", a cover de "Emilio" (Jorge Benjor), "Mulatê do Bundê" e, principalmente, "Beija-Flor", fazendo do grupo do Candeal Pequeno de Brotas, em Salvador, a descoberta musical brasileira mais excitante do ano. Além do som, havia o atrativo da pintura corporal, vocalistas carismáticos, e a bênção do criador e maestro Carlinhos Brown.


Se a Timbalada acabasse após o primeiro álbum, já teria feito o suficiente para gravar seu nome no inexistente (ainda!) Hall of Fame do Axé, mas, em 1994, lá estavam eles de volta: Cada Cabeça é um Mundo representou um salto enorme para a banda, que encontrou um delicado e incomum equilíbrio entre o pula-pula do axé e uma classe pop que o gênero costumava atropelar com excessos, num padrão de produção muito acima do que se fazia na época.

O disco é cheio de canções que jamais deixariam o repertório dos shows, em mais de três décadas de carreira. A abertura, com "Toneladas de Desejo", já deixa clara a ambição de Brown em formatar uma espécie de pop baiano global. É uma canção de amor nada óbvia, com a letra evocando imagens incomuns ("cada noite é um vestido que o dia tem / quando o dia tira o vestido, o sono vem") e versos completados de certa maneira apenas porque sim ("pro caminho dessa Timbalada, puxa tetê" / ... / "vem me dizer que amar é hum, hum, hum").

"Se Você Se For" oferece o primeiro "pancadão" percussivo do álbum. Com citação a "Máscara Negra", marchinha de Zé Kéti, a letra é outra boa representante da "escola Brown de composição", em que palavras são escolhidas mais por como soam do que pelo que dizem, e a gramática pode ser ignorada ("meu brinquedo é com ti bailar"), sem vergonha alguma, se isso ajudar na melodia e na "cantabilidade". Tem riff de piano assombrado e breques precisos.

A elegância pop atinge o ápice em "Namoro a Dois". Uma introdução com sons de pássaros ganha a companhia de violão, teclados e assobios, para depois explodir com metais e percussão trovejante. Quando Xexéu canta por cima da levada malemolente, a gente imagina tudo: "o som da maré, o vento, a rede, o luar". Costurando e comentando tudo, um pianinho classudo que simplesmente não se ouvia em axé. Um primor, prova cabal da versatilidade da Timbalada e do domínio pop de Brown.

Com sua bela voz a serviço desta trinca introdutória matadora, Xexéu é apenas um dos enormes talentos vocais revelados pela Timbalada. Neste disco, ainda brilha muito Ninha, o "gogó de ouro", com autoridade de rua e potência perfeita pros hits mais explosivos, como "Camisinha" e "Sambaê" (volto a ela em instantes). A subestimada Patrícia Gomes é pouco ouvida: "Camafeu" tem guitarra e percussão fortes, listando diversos blocos afro de Salvador, enquanto  a gostosa "Giro o Mundo" faz uso bem melhor de seu talento.

A propósito: Patrícia é a dona dos seios pintados na capa do disco de estreia.

Aqui temos, ainda, a primeira participação de Denny Denan, que se tornaria a voz e a cara oficiais da Timbalada, permanecendo fiel ao grupo, enquanto diversos outros chegavam e partiam (apesar disso, ele próprio esteve longe por quatro anos, entre 2017 e 2021, tentando uma carreira solo que não deu em nada). Quando gravou "Pracumcum Babá", Denny tinha meros 14 anos, mas já exibia muita afinação e adequação.

O disco ainda conta com Augusto Conceição (falecido em 2025) em "Vida Rudimentar"; o ator Jackson Costa dá voz à chata e pretensiosa "Prosoema pra Ocê Ará", ponto baixo do disco; em "Camisinha", as falas de Caetano Veloso fazem a faixa parecer propaganda do Ministério da Saúde; por fim, o repente de Mestre Bule-Bule "Convênio com Cristo" mescla o canto do sertanejo com o berimbau.

A faixa que, para mim, resume a força do disco é "Sambaê", cantada por Ninha. Quando escutada nos bons fones do meu hoje pitoresco Discman de então, a faixa crescia aos poucos - com timbaus, violão de aço, sopros - e provocava arrepios incontroláveis, revolvendo qualquer coisa ancestral dentro de mim, que eu não sei até hoje se consigo identificar. Lá pelos 30 segundos iniciais, quando a percussão desabava pesada sobre meus ouvidos, eu era transportado a um lugar que não era neste mundo.

Ainda que não seja um disco perfeito, Cada Cabeça É um Mundo sintetiza a força da obra da Timbalada e mora no coração dos fãs, quase sempre como o "filho" favorito. A banda seguiria em uma curva ascendente de qualidade e popularidade - Mineral (1996) e Mãe de Samba (1997) podem muito bem virar objetos desta seção no futuro - até sua primeira crise criativa e identitária, em 1999, com o fraco Pense Minha Cor e seus vocalistas, digamos, controversos - quem é que vai pra show da Timbalada pra ouvir música sertaneja e ver asiático cantando, pelamordedeus?

Hoje, embora siga firme como uma instituição do axé, a Timbalada não consegue produzir novos hits que mobilizem as plateias. Ainda assim, seu cancioneiro clássico mais do que basta para encher as noites no Candyall Ghetto Square e os carnavais país afora. Em tempos em que tanto se vende "experiências" a peso de ouro com coisas absolutamente triviais por aí, um show da Timbalada já oferecia tanto desde seu surgimento. Não foi "um rio que passou em minha vida": foi um tsunami!

* * * * *

Timbalada
Cada Cabeça É um Mundo
Produzido por Carlinhos Brown e Wesley Rangel
Lançado em 29 de setembro de 1994

1. Toneladas de Desejo
2. Se Você Se For
3. Namoro a Dois
4. Papa Papet
5. Camafeu
6. Camisinha
7. Prosoema pra Ocê Ará
8. Choveu Sorvete
9. Pracumcum Babá
10. Giro o Mundo
11. Sambaê
12. Vida Rudimentar
13. Cadê o Timbau?
14. Convênio com Cristo

30/01/2025

Starman Edição de Luxo, vol. 1


Por um breve e marcante momento, na já bem distante década de 90, a DC Comics deu sucessivos “choques de realidade” no seu panteão: entre os eventos de maior impacto, Superman foi morto, Batman foi aleijado, Mulher-Maravilha foi destituída de seu título, Arqueiro Verde morreu em uma explosão, e o Lanterna Verde Hal Jordan perdeu a cidade e o juízo, tornando-se um vilão. 

Parecia um tempo muito sombrio, mas era justamente o contrário: dando a impressão de que o tempo finalmente alcançou seus maiores nomes, a DC investiu num pesado movimento de legado, apresentando aos leitores uma forte onda de jovens substitutos, por parentesco ou afinidade: o Superboy havaiano, Jean-Paul Valley como Batman, Ártemis como a Mulher-Maravilha titular, o surgimento de Connor Hawke e Kyle Rayner, e muitos outros. Nem tudo era tão legal assim e, como esperado, tudo depois voltou a ser mais ou menos como sempre foi, – mas, sejamos honestos, foi bonito de acompanhar.

Um dos quadrinhos a melhor retratar uma “passagem de manto” foi Starman, escrito por James Robinson e desenhado por Tony Harris, primeiro publicado no Brasil entre 1997 e 1998, pela Magnum. Teve quatro números, depois reunidos num “encalhernado” de 1999, com as edições 0 a 3. Depois, em 1999, a Tudo em Quadrinhos publicou outros quatro números, com duas histórias por edição, cobrindo as edições 4 a 11. Enquanto isso, os leitores da Editora Abril queimavam a mufa, tentando entender por que um quadrinho tão elogiado não saía pela casa “mais oficial” da DC no Brasil, à época.

Seria quase uma década de “escuridão” até que a Panini (licenciada da DC desde o fim de 2002) decidisse republicar Starman, em 2008, numa edição em capa dura que, infelizmente, seria filha única: junto com a solitária primeira edição da republicação da Liga da Justiça por Grant Morrison, a desistência de Starman virou um desses enigmas que a Panini nunca fez questão de esclarecer. Felizmente, em 2022, lançou uma nova coleção, em seis edição de luxo que, ao longo dos dois anos seguintes, completaram a saga de Starman no Brasil.

Ao fim de Zero Hora (1994), privados da energia que os mantinha artificialmente jovens, a Sociedade da Justiça (com exceção de Alan Scott) torna-se o bando de vovôs que deveriam ser. Sentindo as limitações naturais da idade de uma forma nada gradual, Ted Knight, o Starman, decide afastar-se do cajado cósmico que lhe dá poder, colocando seu filho mais velho, David, em seu lugar como protetor de Opal City. Digamos que, logo de saída, as coisas não dão tão certo assim, e seu filho mais novo, Jack, se vê forçado pelos acontecimentos a assumir o heroico legado, do qual preferia manter distância.

Muito diferente de David – o filho “preferido”, atlético e ansioso por suceder o pai – Jack é um sujeito mais arredio, dado a disfarçar suas carências com um humor, por vezes, questionável. A vida com Ted e, especialmente, com David, é entre algumas patadas e muita gozação passivo-agressiva com o que ele considera vergonha alheia: a afinidade (que muito inveja) entre Ted e David, o espalhafatoso uniforme vermelho e verde com barbatana no elmo, e o trabalho de super-herói em si. Jack prefere gastar seu tempo procurando relíquias raras pro seu antiquário.

Quando o legado de seu pai cai em seu colo, porém, seu tão querido negócio é uma das primeiras baixas, mas ele não tem tempo de lamentar: está em marcha um plano de vingança de um antigo inimigo de Ted Knight, o Névoa. Como o próprio Starman sênior, o vilão está idoso e, aparentemente, padecendo de Alzheimer. Com o pouco de vida e sanidade que lhe restam, está colocando seus filhos nos negócios da família. Como Jack, sua filha Nash é relutante em assumir a luta do pai, mas, também de forma semelhante, os acontecimentos a levam a não apenas aceitar, como abraçar e descobrir-se dentro desse legado.

Já houve outros heróis chamados Starman, fora da família Knight. Um deles é visto neste primeiro volume: o alienígena de pele azul Mikaal Thomas, que estrelou um título na segunda metade dos anos 70. O primeiro que conheci foi na revista DC 2000, da Editora Abril, em 1990: Will Payton, com poderes que nada tinham a ver com o cajado cósmico de Ted Knight. A bem da verdade, nenhum deles era um pilar de carisma super-heroico. Ted Knight ganhava mais por estar com a Sociedade da Justiça do que ela por tê-lo no elenco. Antes que James Robinson se interessasse por ele, era um bucha inimigo da moda. Jack Knight was right. Por isso é que ele prefere jaqueta preta, óculos antiofuscantes, estrelinha de xerife de cereal e um cajado reestilizado. Não chega a ser bem um uniforme, mas, haja estilo.

A linhagem Starman

Colocando muito de si em Jack Knight (o gosto por antiguidades, por exemplo), Robinson criou um personagem que, provavelmente, serviu de terapia de expiação – e histórias muito pessoais sobre essas coisas que unem basicamente todos os seres humanos (família, herança, dever) acabam facilitando a identificação com o leitor. Logo após um primeiro arco que é apenas simpático, acontece, na edição 5, o primeiro grande momento da série: uma conversa entre Jack e David num cemitério. É quando certas memórias falsas e/ou bloqueadas de Jack começam a ruir. Essa me pegou de jeito, sendo eu um sujeito que perdeu um irmão (então com 19 anos) e sonhou diversas vezes com ele “voltando” dos mortos. Não há como dizer com certeza, porém, se Jack está sonhando ou vivendo aquilo – e, honestamente, é uma certeza que não faz a menor falta. Brilhante, nada menos.

Igualmente brilhante é a construção do Sombra, um tipo oscilando entre vilão reformado e profeta do caos: ele passa a ajudar e proteger a família Knight, dizendo que eles devem preparar-se para uma grande provação. Nos diários de sua longa vida (Sombra é um imortal com, no mínimo, uns 200 anos de idade), ele espera que Jack encontre pistas que o preparem. O primeiro desses contos é um encontro com o escritor Oscar Wilde, em 1882. Com seus modos sofisticados e seu poder terrível, a dualidade do Sombra é um tremendo trunfo da série.

Se na capa deste volume é possível reconhecer o Tony Harris de, por exemplo, Ex Machina (2004), na arte de interna de Starman, a arte-final de Wade Von Grawbadger deixa seu traço parecido com o de Brian Stelfreeze, mas onde Harris brilha pra valer é na construção da identidade visual de Opal City, com seu ar de futurismo retrô. Entre os artistas convidados, estão Stuart Immonen, Chris Sprouse e Matt Smith.

Em textos introdutórios e posfácios, James Robinson rodopia entre temas diversos, aproveitando para contar sua jornada como escritor de quadrinhos até aquele momento e desculpar-se pelas muitas vezes em que foi um babaca acidental ou intencional com gente do ramo, como Dave McKean. Ele perde o fio da meada e emenda um assunto atrás do outro, para só lá na frente concluir um pensamento inicial. Parece confuso, mas é leitura bem prazerosa, pelo tom confessional de quem aprendeu a não se levar tão a sério.

São muitos (seis) e caros (preço cheio acima de 200 reais, busque ofertas!) volumes, mas, nas palavras de quem já leu todos e gravou belos e altamente recomendados episódios de podcast sobre a coleção – meu amigo Luwig, de Os Escapistas, e seus convidados – Starman Edição de Luxo é o quadrinho de heróis definitivo, aquele que atinge um patamar que talvez te faça querer largar de vez os homens e mulheres de colante colorido. Se isto será uma bênção ou maldição, cabe a você decidir. A resposta está em meio às estrelas. Do meu lado, mal posso esperar para começar a folhear o segundo livro.

16/02/2024

Música & Mágica #1


MARISA MONTE
Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão
1994

Não faltam na internet artigos, vídeos ou podcasts dizendo que 1994 foi revolucionário na música brasileira. Aos tantos bons e novos artistas que surgiram ou se firmaram naquele ano, juntaram-se trabalhos expressivos de artistas já consagrados, das mais variadas vertentes.

Um notável salto qualitativo foi dado por Marisa Monte em seu terceiro álbum. Surgida em 1989, no que acabou sendo um boom de cantoras de MPB chamadas de “ecléticas”, Marisa foi lançada num disco de covers ao vivo, MM (contendo a inédita “Bem Que Se Quis”, versão de um hit italiano), começou a dar sinais de talento de compositora no segundo álbum, Mais (1991), e chegou ao terceiro disco cercada de boas ideias e boas companhias.

Verde Anil Amarelo Cor-de-Rosa e Carvão é uma incomparável coleção de canções simpáticas, interessantes e comoventes. Para alcançar tal resultado, Marisa trouxe a bordo parceiros como Nando Reis, Arnaldo Antunes e Carlinhos Brown e dividiu a produção com um gringo acostumado à música brasileira, Arto Lindsay (que produziu, por exemplo, O Estrangeiro, de Caetano Veloso).

O disco tem brilho pop e ostenta uma brasilidade orgulhosa, mesmo ao servir um clássico do rock, como “Pale Blue Eyes”, de Lou Reed, toda em violão e percussão. As covers do álbum incluem “Dança da Solidão”, de Paulinho da Viola, com Gilberto Gil provendo violão e vocais; a suingada “Balança Pema”, de Jorge Benjor; e “Esta Melodia”, de Jamelão, em que Marisa expõe sua veia sambista, abrindo com o violão triste de Paulinho da Viola e desaguando em versos doloridos (“não suporto mais tua ausência / já pedi a Deus paciência”).

É nas canções inéditas, porém, que Marisa Monte mais contribui na criação de um modelo de pop altamente melódico e com os dois pés fincados na música brasileira. Exceto por “De Mais Ninguém”, uma seresta ortodoxa escrita por (pasme!) Arnaldo Antunes e executada pelo grupo de choro Época de Ouro, tudo mais vinha embalado em um frescor que só mesmo a “madura juventude” de seus parceiros poderia proporcionar.


A primeira do disco, “Maria de Verdade”, tem grife Carlinhos Brown, com rimas percussivas na letra que fala de uma mulher que se sente forte o bastante sozinha para entregar-se a outra pessoa – “mesmo que doa, Maria”. Também é dele a monumental “Segue o Seco”, com sua percussão abrindo a estrada por onde a sanfona de Waldonys serpenteia, nordestina em sonoridade e temática. Em parceria com Marisa e Nando Reis, ele ainda entrega a mais perfeita “carta de intenções” do disco, “Na Estrada”, uma melodia solar e ótima de cantar junto.

Além de “De Mais Ninguém”, Arnaldo Antunes contribui com “Bem Leve”, parceria com Marisa, que fala de aceitação da morte de uma maneira, digamos, bem leve. “Alta Noite” é, tecnicamente, uma cover, mas quem é que lembra da versão contida em Nome, primeiro disco solo de Arnaldo, do ano anterior? O belíssimo arranjo de cordas, violão e percussão acentua a solidão resignada do personagem na letra.

“Ao Meu Redor”, de Nando Reis, é aquilo que sentimos quando não conseguimos deixar de pensar em alguém, mesmo e principalmente quando essa pessoa não está por perto. “O Céu” é sobre o céu, mesmo, a coisa mais rock and roll em um álbum sem guitarras. Nando e Marisa brilham excepcionalmente, porém, em “Enquanto Isso”, uma reflexão sobre como as coisas estão acontecendo sempre e em toda parte, mesmo longe de nosso olhar, numa narrativa em tempo reverso, da madrugada à alvorada. Uma versão em inglês da letra é falada por Laurie Anderson, artista conceitual e viúva de Lou Reed.

Num ano em que artistas como Chico Science e tantos outros buscavam uma nova identidade musical que fosse simultaneamente brasileira e cosmopolita, Marisa foi uma das que estavam mais atentas aos ventos que sopravam naqueles tempos.  Menos ousada que seus contemporâneos, talvez, mas ciente de que um pop brasileiro de fato (não apenas feito no Brasil) era possível, Marisa encheu nossos olhos e ouvidos com um disco lindo em forma e conteúdo.

*   *   *   *   *

Marisa Monte
Verde Anil Amarelo Cor de Rosa e Carvão
Produzido por Arto Lindsay e Marisa Monte
Lançado em 29 de Julho de 1994

01 - Maria de Verdade
02 - Na Estrada
03 - Ao Meu Redor
04 - Segue o Seco
05 - Pale Blue Eyes
06 - Dança da Solidão
07 - De Mais Ninguém
08 - Alta Noite
09 - O Céu
10 - Bem Leve
11 - Balança Pema
12 - Enquanto Isso
13 - Esta Melodia