21/08/2026

Sem volta para casa


Uma crítica do filme
A Odisseia

Goste-se deles ou não, os filmes de Christopher Nolan têm o poder de instigar o espectador e provocar discussões acaloradas - daquele tipo que hoje parece quase perdido: a troca de opiniões sustentadas por argumentos embasados em observação atenta e, claro, gosto pessoal. Mesmo quando escrutinados em busca de qualquer detalhe que renda discussões vazias (como a suposta cor da pele de uma personagem fictícia), tudo sempre volta ao principal: a qualidade de seus filmes como peças de cinema - e, rapaz, que tremendo pedaço de cinema é este A Odisseia!

Para mim, a última vez que um filme de Nolan me deixou na ponta dos cascos foi em Dunkirk (2017). Tenet (2020) foi uma enfadonha quimera para mim, e achei que o melhor em Oppenheimer (2023) era a estelar atuação de Robert Downey Jr. como antagonista. Que um filme tão formal e "cabeçudo" tenha se tornado um hit de verão (além das 13 indicações e sete vitórias no Oscar) é prova inequívoca do fascínio que seus filmes exercem. Só quem estava em Marte não se lembra do fenômeno "Barbenheimer", no verão setentrional de 2023.

Para um cineasta recém-oscarizado, Nolan não parece acomodado em sua glória, enchendo seu novo filme de impacto narrativo e visual que o qualifica como digno de respirar o rarefeito ar do Top 5 de sua sempre ambiciosa filmografia. Precisão histórica e fidelidade à obra original são bem-vindos numa adaptação, mas nunca foram indispensáveis na produção de bons filmes - e Nolan comete liberdades com a obra de Homero, mas o saldo geral é mais do que positivo.

Após a queda de Troia, a caminho de casa, Odisseu (Matt Damon) e sua tripulação param em uma ilha para procurar provisões para a longa viagem. Ao deparar-se com um ciclope gigante, vários soldados são devorados, mas Odisseu o cega, sem saber que é um filho de Poseidon, deus dos mares. Amaldiçoados, Odisseu e seus homens sofrem com todo tipo de azar (de mar revolto a sereias e monstros), perdidos no oceano por 20 anos.

Odisseu e amigos: piora muito antes de melhorar.

Enquanto isso, em seu lar, em Ítaca, dezenas de nobres voejam em torno de sua esposa, Penélope (Anne Hathaway), como urubus sobre a carniça - especialmente o pulha chamado Antinos (Robert Pattinson). Incomodado com aquela invasão e com o assédio sobre sua mãe, Telêmaco (Tom Holland) parte em busca de notícias de seu pai, junto a pessoas que estiveram com ele na guerra de Tróia, como o espartano Menelau (Jon Bernthal).

Sendo uma narrativa mitológica, grande parte do interesse reside nos desafios fantásticos que Odisseu e sua tripulação enfrentam nos anos em que a maldição de Poseidon os persegue. O ciclope gigante Polifemo, tem o ótimo padrão visual dos efeitos que Nolan usa, mas a opção por um "ciclopismo realista" é um preciosismo que diminui o potencial de terror do momento (ainda que favoreça a compaixão que o gigante talvez deva inspirar). A sequência com os Lestrigões (guerreiros com uns 4 metros de altura, em armaduras reluzentes) é bem impressionante como ameaça violenta, mas a sequência como a bruxa Circe mescla surpresa, choque e asco, um ponto muito alto em um filme cheio deles.

O elenco central é muito bom. Como Penélope, Anne Hathaway (linda como sempre, vesga como nunca) transmite a esperança aflita de sua personagem, dividida entre a espera cansativa pelo retorno do marido e a urgência das decisões difíceis por tomar. Tom Holland já havia se provado para mim como um talento dramático na série Entre Estranhos, da Apple TV. Seu Telêmaco é puro ímpeto e impaciência resignada. Robert Pattinson faz de Antinos um tipinho simplesmente repugnante.

Penélope: "Como assim, vai comprar cigarro e já volta, Odisseu?"

Já sobre o protagonista Matt Damon, como Odisseu, tenho opiniões ambivalentes: ele é ótimo ator, muito seguro em papéis de "cara legal", mas parece que lhe falta um pouco de "fogo e paixão" para ser um herói trágico clássico. Ainda que a cena de seu retorno a Ítaca seja um grande momento do personagem, no resto do filme Damon parece o mesmo sujeito visto em vários de seus filmes. Deve ganhar sua indicação ao Oscar, ano que vem, mais por conta do efeito "arrastão" que o filme certamente vai provocar do que exatamente por mérito.

Os coadjuvantes são muitos e muito estrelados: além do já citado Bernthal, vemos Charlize Theron, Himesh Patel, Lupita Nyong'o, Mia Goth, Ben Safdie, Samantha Morton e Zendaya, pra não me alongar demais. Não posso deixar de apontar, porém, a ótima surpresa de notar o bom momento de John Leguizamo (como Eumeu, o cego amigo e mentor de Odisseu), um ator que jamais me impressionou, mas que, com a velhice, parece estar entrando numa curva ascendente.

É praticamente garantido que A Odisseia passe como um vendaval pelas indicações ao Oscar 2027, e será com bons motivos. Nolan demonstra muita segurança de seu ofício, e até seu famoso didatismo parece sob controle. Não é o melhor filme do ano para mim, mas valeu o ingresso caro da Sala VIP e as três horas de uma segunda-feira de pouco trabalho. Um belo trabalho deste diretor que ama muito ao cinema, embora, como todo bobo apaixonado, nem sempre saiba muito bem o que fazer com tanto amor.

13/08/2026

Música & Mágica #15


FINE YOUNG CANNIBALS
The Raw and the Cooked
1989

No distante rincão do oeste baiano onde eu morava em 1985, minhas maiores chances de ouvir o fino do pop internacional contemporâneo estavam com as trilhas de novelas e os programas de videoclipes da época, como o Clip Clip da Globo ou o FMTV da Manchete. A partir daí, o próximo passo era encomendar a gravação de uma mixtape na loja de discos local. Escolhido o repertório (e uma Basf cromo, se possível), era esperar a bichinha ficar pronta e partir pro abraço.

Naquele ano, qualquer faixa do autointitulado disco de estreia do Fine Young Cannibals que tenha passado nesses programas a) foi ignorada por mim, ou b) passou num dia em que não assisti. Fato é que, embora lesse sobre a banda e o disco na revista Bizz, por muito tempo, eu não tive a menor noção de como soavam "Johnny Come Home" e sua cover de "Suspicious Minds", por exemplo.

Em 1990, tive a chance de morar em Goiânia, com lojas muito mais variadas e várias boas rádios FM ao meu alcance. Quando cheguei por lá, já estava familiarizado com "She Drives Me Crazy", um dos maiores hits e uma favorita pessoal do ano anterior. Também já tinha escutado "Don't Look Back" e "Good Thing", mas fui ainda mais exposto a elas através de comerciais de TV, ou da sorte de estar sintonizado na rádio certa, na hora certa.

Naquele tempo, não era comum que um segundo álbum levasse tanto tempo (quatro anos!) desde uma estreia de sucesso. Roland Gift (voz), Andy Cox (guitarras) e David Steele (baixo, teclados e drum machine), porém, não tiveram pressa em preparar um segundo disco, pelo fato de que haviam se juntado para fazer música por amor à música em si. Que bom que também dava pra ganhar dinheiro, claro, mas não era apenas isso que os movia.

Com seu som de caixa muito característico, "She Drives Me Crazy" era imediatamente reconhecível. O vocal de Gift se dividia entre o falsete dos versos e a entrega visceral do refrão. Sobre a base rítmica genial de David Z (produtor que havia trabalhado com Prince), a guitarra de Cox era ora funkeada, ora distorcida. Tinha tudo para dar errado, mas dava incrivelmente certo. Um clássico instantâneo.

Em partes iguais muito vintage e muito moderna, "Good Thing" tinha uma levada Motown/Stax de guitarra, baixo, bateria e piano, abrigando o lamento de Gift sobre não superar a partida da mulher que ele bestamente perdeu. Quando colocar batida de hip-hop em uma canção romântica ainda era um tipo de transgressão, os FYC nos deram "I'm Not the Man I Used to Be", com suas dúvidas cruéis: "me pergunto no que você está pensando / me pergunto por que estou bebendo / mas está na cara / eu não sou o homem que eu era".


Cox, Gift e Steele: diversão acima de tudo

O álbum é inteiro sobre coisas do coração. O som vai do soul quase ortodoxo de "Tell Me What" à levada rock de "Don't Look Back", com suas guitarras fenomenais e refrão empolgante. As batidas black eram o que havia de mais moderno naquele fim de década e o álbum teve impressionantes SETE singles entre suas meras dez faixas. Apesar disso, "Don't Let It Get You Down" é um vacilo, quase uma brincadeira estridente, enquanto "As Hard As It Is" tem firulas vocais que devem ter provocado ligações no meio da noite de Mike Patton (Faith No More) para Roland Gift.

Se o pique cai um pouco perto do fim, a retomada é espetacular na conclusão: a cover de "Ever Fallen in Love", dos Buzzcocks, é um exemplo perfeito de como fazer uma versão que melhora muito a original, desacelerando e adicionando peso e drama (afinal, a letra é sobre um dilema sexual), onde antes só havia distorção e pressa. Os Buzzocks devem aos Fine Young Cannibals a sobrevida de sua canção no imaginário popular .

O sucesso mundial rendeu uma pressão enorme por parte da gravadora, que exigia dos FYC um terceiro disco mais rápido do que eles se achavam capazes de fazer (isto é, dentro dos padrões de qualidade e diversão que estabeleceram para si). Houve também muito disse-me-disse sobre possíveis trocas na formação e sobre como a banda era "Gift e mais dois". A deixar que a fofoca e a cobrança por resultados (leia-se dinheiro) estragassem a coisa toda, o trio achou melhor simplesmente debandar, encerrando suas atividades no auge.

Anos depois, quando o Brasil finalmente ganhou um mercado de home video musical decente, fui apresentado ao maravilhoso filme-concerto Fine Young Cannibals Live at the Paramount (1990), onde finalmente pude conhecer, junto às faixas de The Raw and the Cooked, grande parte do repertório do primeiro álbum. Ao charme natural de frontman de Roland Gift e o jeitão "boneco de posto" de Cox e Steele, havia o acréscimo da presença graciosa e versátil do sexteto vocal feminino The Mint Juleps. Uma delícia de ver e ouvir, e registro definitivo de um trio pop que implodiu sob o peso da própria genialidade.


* * * * *

Fine Young Cannibals
The Raw and the Cooked

Produzido por Fine Young Cannibals, Jerry Harrison e David Z
Lançado em 13 de janeiro de 1989

1. She Drives Me Crazy
2. Good Thing
3. I'm Not the Man I Used to Be
4. I'm Not Satisfied
5. Tell Me What
6. Don't Look Back
7. It's OK (It's Alright)
8. Don't Let It Get You Down
9. As Hard As It Is
10. Ever Fallen in Love

12/08/2026

Memória afetiva


Uma crítica do filme
Homem-Aranha: Um Novo Dia

A esta altura, este filme já vai beirando 2 bilhões de dólares em bilheteria, sepultando de vez a falácia do "cansaço de super-heróis". Existe um cansaço, sim, mas é de filmes genéricos lançados a esmo. Lamento por filmes razoáveis, como Thunderbolts e Quarteto Fantástico, que tentaram furar essa bolha de mesmice, mas pegaram o público no auge da irritação (principalmente, na esteira da bomba de dejetos que foi Capitão América: Admirável Mundo Novo).

Apesar dos três filmes próprios simpáticos e do destaque em filmes dos Vingadores, o Homem-Aranha de Tom Holland não era imune a problemas: os anos passavam e aquele Peter Parker parecia o mesmo moleque bobão que surgiu em Capitão América: Guerra Civil. Também parecia eternamente carente da atenção e dos presentes do onipresente Tony Stark, figura paterna inventada nos filmes, sacada de onde o sol não brilha, por pessoas ruins que resolveram destratar a memória do tio Ben.

Em Homem-Aranha: Sem Volta para Casa (2021), porém, a tragédia bateu à porta de Peter Parker e ele não teve opção, exceto amadurecer. Além do luto, sofre com o apagamento de sua presença das mentes do melhor amigo, Ned (Jacob Batalon), e da namorada, MJ (Zendaya). O Peter Parker que vemos em Homem-Aranha: Um Novo Dia é, finalmente, o cara que ele é nos quadrinhos, alguém marcado pela tristeza que, ainda assim, escolhe viver a vida do jeito mais leve que consegue.

No mesmo ano do último Homem-Aranha, Destin Daniel Cretton dirigiu Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis, um filme que demonstrou imenso potencial em sua primeira metade, mas, do meio pro fim, claramente tomado de suas mãos por executivos que pensavam saber muito bem o que os fãs queriam ver: bichinhos fofinhos, CGI medíocre, Mandarim redimido e uma constrangedora ponta de Trevor Slattery, um dos personagens mais odiados do MCU. "Jênios".

"Aff, não aguento mais Vini Jr. e Virgínia..."

SPOILERS a partir deste ponto. Siga por sua conta e risco!

Nos últimos cinco anos, porém, enquanto o público dava as costas à Marvel, os roteiristas Chris McKenna e Erik Sommers aprimoravam a história de Homem-Aranha: Um Novo Dia, que serve como primeiro vislumbre dos novos X-Men do cinema, cujo primeiro filme chega em 2028, dirigido por Jake Schreier (de Thunderbolts). Ao impedir um assalto, o Aranha se vê confrontado por uma presença que salta entre corpos e parece ter alvos específicos. Quem leu qualquer coisa sobre o filme antes de sua estreia já sabia quem era: Jean Grey (Sadie Sink).

Enquanto isso, o estresse da vida sem amor e sem amigos está cobrando do corpo de Peter: sua porção aranha, que até então se resguardara (obrigado, Gilberto Gil), começa a assumir controle, levando Peter a sofrer apagões, ganhar os polêmicos lançadores de teia fisiológicos e tornar-se um cara bem menos legal. Outro herói de Nova York também está no encalço de Jean Grey: o Justiceiro (Jon Bernthal), com aquela típica vontade de resolver tudo na bala.

Sem dirigir qualquer filme desde Shang-Chi, Cretton deu tudo de si. O visual do filme oscila entre contrastes de cinza e cores saturadas, especialmente nas cores do herói, vermelho e azul (belíssimo trabalho fotográfico de Brett Pawlak), a exemplo das muitíssimo bem-feitas sequências de luta, especialmente aquelas contra o Tentáculo: Peter parece ler nossas mentes, em um frame totalmente gibizeiro, quando vê os assassinos saltando acrobaticamente e solta um "cara, isso é tão maneiro!". Quando abraça de vez sua parte aracnídea, Peter dá uma demonstração de poder impressionante e visualmente espetacular. Absolute Cinema!

Sendo da parcela da audiência cansada dos velhos truques da Marvel, eu entrei no cinema sem qualquer expectativa, mas fui pego de surpresa por um filme que faz um ótimo trabalho no desenvolvimento de seu protagonista e dá aos coadjuvantes chances de brilhar. Destaca ainda outro aspecto importante do personagem: seu amor incondicional e plenamente correspondido por Nova York. A sequência na frente do hospital, em que revemos um guri que o Aranha salvara no começo do filme, tem o peso simbólico das coisas que fazem o herói ter certeza de que trava o bom combate. 

O Aranha tem ótimas interações ao celular com a Capitã DeWolff (Liza Colón-Zayas), que faz as vezes de "mãezona" remota. Os momentos de Peter, MJ e Ned, juntos novamente pela primeira vez, chegam a emocionar - e embora os poderes de Jean Grey talvez pudessem desfazer tudo em dois palitos, o roteiro opta pela trilha mais tortuosa para resolver o problema do estranhamento entre eles: isso se chama respeitar a inteligência do público. É muito bom entrar no cinema pra ver um filme e dividir com o herói tudo aquilo que ele sente. Era um encanto que parecia perdido, mas, como dizem os mais sábios, não há bem que dure para sempre, nem mal que nunca se acabe - ou algo do tipo.

Bem-vindo de volta, Peter. Você parece diferente, mas a gente se lembra.

04/08/2026

Retorno do Detetive


Uma crítica do quadrinho
Batman: Padrões Sombrios

Recentemente, tomei uma decisão radical: resolvi que vou quase zerar minha compra de quadrinhos. Exceto por algumas séries e fases que ainda desejo concluir, o plano é ficar apenas com A Saga do Batman e talvez, TALVEZ, a revista mensal de linha do personagem, que vem em boa fase. Dediquei 40 de meus 53 anos ao colecionismo de HQs, mas, agora, geralmente me falta tempo para ler tudo que compro - e, honestamente, às vezes me falta vontade. Olho para aquela estante cheia de livros ainda no plástico e, com frequência, fico pensando, "eu nunca vou (re)ler isso". Acho que já chega.

Sobre essa decisão, tenho ainda outra certeza: há muita coisa boa na minha coleção, mas, sem dúvida, os quadrinhos do Batman são aqueles que mais me doerá passar pra frente. Meu personagem favorito já está à beira dos 90 anos (e do domínio público) e muito já foi experimentado com ele - e não apenas em versões alternativas: o cânone do personagem já foi reimaginado mais vezes do que consigo me lembrar. Retcons, reboots, revamps... Pense numa "modinha" editorial qualquer: o Batman já passou por ela.

Embora alguns escritores ocasionalmente se esqueçam do fato de que o Batman é apenas um homem (ainda que no ápice da disciplina física e mental que se pode alcançar), colocando-o como alguém que antevê absolutamente tudo e dono de brinquedos tecnológicos que praticamente trabalham por ele, a essência original do personagem é sua versão mais cativante: um detetive que se preparou ao máximo para combater o crime e evitar que sua tragédia (o assassinato de seus pais) se repetisse com outros. Bobagens como backups mentais, robôs assassinos, e "babados" diversos envolvendo sua família empalidecem ante a força de suas características mais fundamentais.

"Só dói quando eu existo"

Foi por isso que, ao ler Batman: Dark Patterns em versão original digital, entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, eu tive uma certeza muito forte: eu queria ter essa série na minha estante, em bom português e papel gostoso. Ironicamente, ela aportou nas nossas bancas quando decidi me afastar dos quadrinhos, mas, paciência. Tudo que há de certo e de bom sobre o Batman é visto nas tramas desenvolvidas ao longo de 12 edições, seis das quais compõem este primeiro volume. Batman: Padrões Sombrios é um golaço da DC - um gibi quase conservador, curiosamente, num período de grande reinvenção da editora, com a linha Absolute vendendo feito pão quentinho, varrendo as premiações e ditando tendência.

Dan Watters (Asa Noturna) escreve e Hayden Sherman (Absolute Mulher-Maravilha) desenha a série, ambientada no terceiro ano de atividade do Batman. Na primeira história, em três partes, ele investiga uma onda de assassinatos com pouca relação entre si e confronta um adversário de visual assustador, contra o qual sua força física pouco vale. O Homem-Ferida é uma autêntica criatura de pesadelos, de fazer o Pinhead de Hellraiser parecer um bichinho de pelúcia, com uma gênese trágica e uma motivação convincente. Se era de uma abertura impactante que o leitor precisava, "Nós Somos os Feridos" não deixa por menos.

"Cês tão pensando que eu sou o Batman do Tom King?"

Na segunda metade, um vilão clássico, Scarface, ressurge no comando de um edifício cuja própria arquitetura já representa um desafio, mas ainda abriga seguidores insanos e perigosos do boneco - e Arnold Wesker (chamado de "Albert", a certa altura, num erro que veio do original e a Panini manteve), o Ventríloquo, pode nem ser o maior de seus problemas. "A Voz da Torre" tem grandes momentos de Hayden Sherman, um artista que faz excelente uso de diagramações pouco óbvias e desenha um Batman que é puro Tim Sale, só que com narizes melhores. A sequência em que ele abre caminho distribuindo porrada por três andares é o tipo de coisa que amamos ver o Batman fazer.

Com o segundo volume já anunciado para setembro, Batman: Padrões Sombrios é o tipo de série que, ao longo das últimas quatro décadas, me fez perseverar em minha fé nos quadrinhos de super-heróis. É para presenciar momentos assim que a gente suporta Gotham destruída, o vai-e-vem da fortuna de Bruce Wayne, a degradação moral imposta a seus pais e a ainda não revertida perda de Alfred Pennyworth. Os escritores medíocres têm uma incrível sorte em contar com gente como Watters e Sherman para recolocar o universo e o coração do leitor de volta no eixo. Quadrinho obrigatório, mesmo para quem jurou que está parando.