04/08/2026
Retorno do Detetive
22/01/2026
Forjada em fogo e fúria
21/05/2025
O Dia do Chacal
Sem ter lido o livro homônimo de Frederick Forsyth, escrito em 1971, e sem ter visto o filme que o adaptou em 1973, eu decidi ver O Dia do Chacal porque ela esteve presente em diversas listas das melhores coisas de 2024. Também me chamaram atenção os protagonistas: Eddie Redmayne, como o Chacal, matador de aluguel mais letal do mundo; e Lashana Lynch, como Bianca Pullman, agente do MI6 em seu encalço. Ambos ingleses, como o autor do livro, hoje com 86 anos.
Como está adaptando uma história de cinco décadas atrás, a série (um produto original do streaming Peacock, disponível para nós pelo Disney+) teve que fazer mudanças na trama e nos personagens, para encaixá-los no século XXI, a maior delas sendo substituir o detetive Claude Lebel pela agente Bianca Pullman, com seu senso de dever inabalável de veterana de guerra e forte faro investigativo, mas que, com frequência, mete os pés pelas mãos em seu esforço para capturar o Chacal. Enquanto tenta ser boa agente, boa mãe e boa esposa, Bianca vai acumulando bolas fora aqui e ali, mas sem jamais perder o rastro do assassino. O roteiro também tenta surfar a onda de assuntos da hora, como as críticas aos bilionários e a responsabilidade social (ou falta dela) das big techs.
O bom elenco é um dos grandes acertos aqui. OK, Redmayne tem um Oscar pra chamar de seu, mas ele caminha sobre uma linha muito fina, que separa estilo de interpretação da falta de versatilidade. Apesar disso, seu jeitão gélido e impassível caiu bem para o assassino Chacal, um atirador capaz de acertar alguém a quase 4 km de distância e que, determinado a levar uma vida normal ao lado da esposa espanhola (Úrsula Corberó, de La Casa de Papel) e do filho pequeno, vê-se tentado pelo altíssimo cachê e altíssima complexidade de um último serviço. Acontece que o penúltimo (no qual, ainda por cima, levou calote) chamou a atenção de Bianca Pullman, e ela não é do tipo de que ignora sua intuição ou desiste fácil. Na pele da obstinada Bianca, Lynch traz de volta a fisicalidade que a tornou destaque em cenas de ação de A Mulher Rei e 007: Sem Tempo Para Morrer, apesar do corpo sempre coberto por pesados uniformes ou roupas “de mãe”.
O jogo de gato-e-rato prende a atenção e deixa a gente nos cascos, apesar de alguns lances de pura “sorte de protagonista” em favor do Chacal – aliás, li em algum lugar na internet que o espectador ficava torcendo por ele e contra Bianca, mas não me peguei nessa contradição moral, basicamente, porque o Chacal de Redmayne não é um assassino charmoso: ele é uma mera máquina de matar. Há pouco espaço para identificação, e mesmo o esforço dele em ficar disponível para a esposa e o filho pequeno parece pouco sincero. Do lado de Bianca, a crise no casamento, embora mais passível de empatia, carece de peso dramático, previsivelmente voltando à estaca zero, bem no momento em que mais deveria importar.
Com seus dez episódios carregados de tensão, a série garante uma diversão bastante eletrizante, em produção de alto nível. O último episódio tem um final que diverge daquele do livro, medida que pareceu ter sido só um jeito de garantir uma segunda temporada – já confirmada. Achei o destino de certo personagem um exagero desnecessário (na verdade, eu espumei de ódio), mas, apesar dos pesares, O Dia do Chacal realmente merece uma vaga em qualquer lista decente das boas coisas do streaming no ano que passou – mas, para mim, longe das cabeças. Um meio do caminho honesto entre a base e o topo já está de bom tamanho.
24/03/2025
Inesquecíveis
O prolífico autor de quadrinhos francês Fabien Toulmé tem um caso de amor antigo com o Brasil: foi aqui, durante um intercâmbio na Paraíba, que ele conheceu sua esposa. Também viveu e trabalhou em Fortaleza. Seu tempo em nosso país ocupa muitas páginas de sua HQ de estreia, a muito sensível Não Era Você Que Eu Esperava, onde corajosamente expôs os sentimentos conflitantes que experimentou quando sua primeira filha nasceu com Síndrome de Down.
Em Inesquecíveis, Toulmé não está falando de si nem criando histórias delicadas e emocionantes: apenas faz curadoria e roteiriza histórias reais que coletou em entrevistas. São episódios que marcaram a vida das pessoas que as contaram – mesmo que não tenham sido elas a vivê-las, a exemplo da história sobre um casal de brasileiros, narrada por uma amiga.
Há o caso de uma moça estuprada pelo próprio namorado; uma menina cuja identidade foi apagada pela religião; um garoto francês que vivia em Ruanda quando estourou a sanguinária guerra civil de 1994; um casal que perde o trem do amor durante décadas, mas nunca deixa de se amar; e um garoto que parece perdido para o crime, até que um voto de confiança muda sua vida e dá início a mudanças no sistema penal francês.
Com pouco mais de 120 páginas, Inesquecíveis é uma leitura rápida, talvez até demais, pro leitor acostumado a outros trabalhos do autor. Um segundo volume já existe e deve ganhar versão brasileira em breve. Mesmo que toque o coração do leitor de diversas maneiras – certas histórias reais têm o encanto de rivalizar com a ficção em suas reviravoltas – parece fazer falta ao livro o toque da imaginação de Toulmé, seu humor autocrítico, suas observações muito pessoais sobre as pessoas e sobre a vida.
É um livro que pode deixar a gente mais feliz
numa tarde de leitura e pode funcionar como porta de entrada à sua obra, mas
está longe do brilhantismo de um Duas Vidas (até aqui, para mim, seu auge).
Organizar esta coletânea pode ter sido o jeito que ele encontrou de manter-se
próximo ao leitor, enquanto trabalha em seu próximo épico de lirismo
cartunesco. É válido, mas a gratificação é pouca.
07/03/2025
O Auto da Compadecida 2
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Eu tenho por regra não me ocupar em falar mal das coisas de que não gosto. Se eu já me senti perdendo tempo com um filme, quadrinho ou disco ao consumi-lo, por que jogar fora preciosos minutos do meu dia pra escrever sobre ele? Então, eu vou tentar ser breve, pra bile não me subir muito alto pela garganta.
O Auto da Compadecida 2 não deveria existir, simples assim. Primeiro, porque o original nem era um filme exatamente, mas um recorte em longa-metragem da minissérie da Rede Globo, que adaptava a obra de Ariano Suassuna. Desta vez, a Globo nem se envolveu na produção ou distribuição, o que ajuda a explicar que o filme seja tecnicamente tão pobre, com cara de teatro (mal) filmado. Os cenários e passarinhos digitais são vergonhosos. É um filme feio de ver, saiba logo de saída – e nem vou me deter na eterna estereotipagem do Nordeste como um lugar sem vida e dos nordestinos como miseráveis e supersticiosos.
Tampouco se sustenta em sua história, já que se limita a requentar temas muito melhor explorados no primeiro filme. Como carece de uma razão de ser, apela o tempo inteiro à nossa nostalgia pelo filme original, e esses são os únicos momentos que valem a pena, porque, na falta de um Suassuna pra dar estofo, o roteiro é preguiçoso e sem-graça.
O elenco faz o que pode: o carisma de Matheus Nachtergaele e Selton Mello está intacto e, para minha surpresa, Eduardo Sterblitch e Humberto Martins não fazem feio. É bonita a amizade de João Grilo e Chicó, mas só porque a gente já sabia disso antes: bem analisando, alguém que some sem deixar rastro, apenas porque sim, por mais de 20 anos, não se qualifica como bom amigo, não – mas, vá lá, a gente compra a ideia. Chicó se envolve com a filha de um desafeto outra vez. João Grilo morre outra vez. Apela para Nossa Senhora (Thaís Araújo) outra vez. A falta de ideias (e de grana) fica ainda mais aparente quando vemos que Jesus e o Diabo são agora interpretados por Nachtergaele.
Como não concebo que nenhum dos envolvidos estivesse padecendo com boletos atrasados, só posso mesmo acreditar que este filme foi criado para, desavergonhadamente, lucrar com a nostalgia do público, sem oferecer nada digno em troca. Sou até capaz de crer que a ideia veio de “um lugar de amor” (argh!), mas você sabe que cinema costuma ser uma coisa cara pra quem assiste, né? Eu vi O Auto da Compadecida 2 em casa, mas, caso tivesse pagado por um ingresso, teria saído direto do cinema pro Procon.
18/02/2025
Ainda Estou Aqui
Aconteça o que acontecer no próximo dia 2 de
março, Ainda Estou Aqui já é um fenômeno consolidado: além de muitíssimo elogiado
e premiado mundo afora, já é um dos cinco filmes brasileiros mais vistos da
História - imagina se não tivesse sido alvo de uma chocha tentativa de boicote!
– e uniu os brasileiros em reconhecimento ao superlativo talento de sua estrela,
Fernanda Torres, que esbanja graça e simpatia em nosso nome, em suas aparições televisivas.
Não é que não importe ganhar o Oscar: importa muito, principalmente se lembrarmos que a Argentina tem dois e a gente não tem nenhum.
Até o momento em que escrevo esta resenha, dos dez indicados a Melhor Filme, eu só consegui ver três: Duna Parte 2, A Substância e Ainda Estou Aqui. O nosso filme é, de longe, o que reúne mais atributos que o qualificam para o grande prêmio da noite. Para começo de conversa, não é uma alegoria regada a efeitos especiais, como os outros dois – e não estou, aqui, tentando diminuir os muitos méritos de um ou de outro. Ele larga na frente porque é uma história verdadeira, de gente como a gente, passando por eventos assustadores, aos quais estamos suscetíveis a reviver, a qualquer instante, porque uma parcela ignorante ou amnésica da população anseia pela volta do país a um tempo sem liberdade.
Atingidos em cheio pela marreta autoritária do então presidente Emilio Garrastazu Médici, não apenas seu marido é “sumido”, como a própria Eunice Paiva (Fernanda Torres) e uma de suas filhas são “convidadas” a participar de sucessivos e exaustivos interrogatórios, a fim confirmar uma alegada associação com “comunistas”. Ao sair, Eunice, no fundo, sabe que seu marido dificilmente retornará: embora não desista de questionar e de esperar, conforme passa o tempo, suas esperanças vão morrendo, a cada negativa da polícia aos seus pedidos para ver Rubens ou apenas para saber qualquer coisa sobre ele.
O que lhe resta, então, é tocar a vida. Quando Eunice chora, nunca é desabando de luto: é sempre aquela lágrima fugidia, sem soluços, porque ela sabe que não pode sucumbir, que precisa ser forte pelo marido ausente, pelos filhos e por ela própria – e ela se mostra forte. Com toda a dor do mundo e temor pelo futuro, mas, sim.
Após tantas indicações e vitórias, qualquer coisa que se diga sobre a atuação de Fernanda Torres é chover no molhado. Se não leva o Oscar, não terá sido por falta de merecimento, mas porque sabemos que ele é, essencialmente, uma premiação de americanos para americanos, que, de vez em quando, lembram-se de incluir uns gatos pingados da produção de cinema do resto do mundo em categorias além da restritiva Melhor Filme Estrangeiro. Será ótimo se o filme vencer nesta categoria (que parece a mais “fácil”), mas um Oscar para Fernanda Torres teria o potencial de unir, por um instante que fosse, os corações e mentes do país, fazendo com que nossos muitos e imensos problemas parecessem um pouco menos assustadores.
Na verdade, é um vacilo da Academia que o filme não tenha ainda mais indicações, como o roteiro (adaptado do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho caçula do casal) e a direção segura de Walter Salles, ou a sóbria atuação de Selton Mello como Rubens Paiva. É uma obra lançada em tempos muito sombrios, sobre outros tempos muito sombrios, para lembrar às pessoas que não há mal que não possa retornar, se a gente baixar a guarda (anistia, nem a pau!). São elementos que a Academia costuma prezar, mas, como dito lá no começo, com ou sem prêmios, Ainda Estou Aqui já é o campeão moral da temporada.
08/01/2025
Robô Selvagem
Hoje em dia, já nem faz sentido apontar a preguiça criativa que, já faz uns bons anos, tomou conta de Hollywood. É fenômeno consolidado e, pior ainda, abraçado pelo público: das dez maiores bilheterias do ano passado, impressionantes NOVE eram sequências – a única exceção foi Wicked, que não é uma continuação, mas chegou ao cinema planejado pra logo ganhar uma.
Particularmente, acho esta uma tendência terrível. Por melhor que seja rever bons personagens em novas aventuras, nem todo filme precisa acabar com as pessoas perguntando “quando será que sai o 2?” enquanto deixam o cinema. Às vezes, aquele único filme cumpre o sagrado propósito de divertir. Deveríamos reaprender a deixar que as histórias – mesmo aquelas muito boas – terminem. Nem tudo nessa vida precisa virar franquia.
Entretanto, estou pregando no deserto. Robô Selvagem já tem sua sequência encaminhada. Menos mal que estará a cargo do mesmo Chris Sanders que dirigiu este primeiro. Sanders tem boa mão: na Disney, escreveu as histórias dos principais sucessos da renascença do estúdio nos anos 90, como A Bela e a Fera, Aladdin e O Rei Leão. Estreou como diretor no ótimo Lilo & Stitch (2002). Deixando a Disney pela DreamWorks, esteve à frente de grandes sucessos: Como Treinar Seu Dragão (2010) e Os Croods (2013). Também dirigiu aquele filme do Harrison Ford com um cachorro digital, mas vamos fingir que não.
Robô Selvagem começa numa ilha, quando, durante uma tempestade, alguns animais, sem querer, ligam a robô Rozzum 7134 (voz de Lupita Nyong’o). Sem nenhum humano por perto, ela pergunta a todo animal que encontra quem seria seu novo dono. Sem resposta e sem um propósito na ilha, ela se dedica a aprender a comunicar-se com eles. Durante uma fuga, porém, cai sobre um ninho de gansos selvagens. Um único ovo resta intacto, e Rozzum 7134 se dedicará a protegê-lo, até que o pequeno ser dentro dele venha ao mundo.
Todos já vimos filmes sobre os temas de Robô Selvagem: robôs gente fina, maternidade inesperada e/ou complicada, uma literal “síndrome do patinho feio”, e retorno à natureza como antídoto da modernidade fria e tóxica. A animação de Sanders, porém, sobressai pela beleza de sua animação (com aquela bonita mistura de técnicas vista em O Gato de Botas 2) e pela progressiva naturalidade das emoções de Roz - simplificação que ela adota ao perceber que sua programação original não a ajudaria a seguir “viva” nem a criar seu “bebê”. É tocante como ela muda conforme passa o tempo, enfrentando os maiores medos e desafios de se ter um filho: a disposição para sacrificar tudo, a resignação compreensiva diante da rebeldia gratuita ou ingratidão, e o medo de perder aquele ser tão amado – um cuidado que ela acaba estendendo a todos os animais da ilha, quando enfrentam seu pior momento.
O final de Robô Selvagem é tão redentor e maduro, tão redondinho, que eu só posso mesmo me indignar por saber que vão esticar essa história, perfeitamente encerrada, para extrair cada centavo de dólar que este “universo” (argh!) possa render. No fim, é disso que se trata: nunca é sobre “dar ao povo o que ele quer”. Quase sempre, a única pessoa nos paparica sem querer nada em troca é a nossa mãe. O que a DreamWorks e outros estúdios querem é meter a mão no nosso bolso - mas, quando compensam entregando filmes bonitos assim, até que nem chiamos tanto. Espero estar errado sobre sequências quando Robô Selvagem 2 chegar.
06/01/2025
Gladiador II
Para surpresa geral, levando em conta o prospecto muito desfavorável, Gladiador II periga até parecer um filme melhor do que realmente é. Talvez estejamos todos sendo um pouco exigente demais com o velho Ridley, esquecendo que ele já tem 87 anos e absolutamente nada a provar, a esta altura (embora assistindo ao fabuloso Jurado nº 2, que Clint Eastwood dirigiu aos 94, possamos perceber que idade avançada não significa pulso frouxo). Em pouco mais de duas horas, Gladiador II honra seu predecessor, entregando um espetáculo honesto e divertido - nada mais do que sua obrigação, com o astronômico orçamento de 310 milhões de dólares – mas é só.
A opção de Scott em ajudar o espectador a lembrar do original a todo instante vai muito além da sequência de abertura, que o resume numa bonita animação. Nomes, pessoas, frases e objetos retornam e, com eles, um novo, carismático e numeroso elenco, incluindo Paul Mescal, Pedro Pascal, Denzel Washington, Connie Nielsen e Joseph Quinn, entre outros. Tudo para contar a história de Hanno (Mescal), o herói que sabemos desde o início tratar-se do filho de Maximus Decimus (Russell Crowe) com Lucilla (Nielsen), mandado para longe de Roma em nome de sua segurança.
Comandada por dois jovens imperadores sifilíticos, Roma está em franca decadência e um de seus últimos atos de “glória” é justamente a invasão da nação moura onde Hanno vive com sua esposa, a exímia arqueira Arishat. Durante a invasão, liderada pelo general Acacius (Pascal), ela é morta e, como se ainda tivesse poucos motivos para odiar Roma e os romanos, Hanno é capturado, feito escravo e, logo em seguida, gladiador. Como seu pai, ele jura vingança pela esposa morta.
Parece familiar porque é. Seja nas homenagens ao filme clássico ou nas críticas ao imperialismo, sutileza não é o forte deste filme, mas nem isso chega a configurar um problema tão grande, porque Scott, quando se vê inspirado, sabe dar às pessoas o que elas querem. Mesmo que esteja sofrendo pra recuperar na bilheteria seu custo absurdo, ele teve repercussão geralmente positiva entre crítica e público. Já perto de chegar ao streaming, deve se transformar num favorito deste início de ano para aqueles que, como eu, estavam desconfiados demais para arriscar uma ida ao cinema (lazer caro!). Que não tenha se tornado um fenômeno pop como seu antecessor é sinal de que talvez estivéssemos melhor sem ele, mas a mera existência de Gladiador II não chega a ser um incômodo. Podia ter sido muito pior.
27/11/2024
Velvet
Com extensa folha corrida de bons serviços prestados à Nona Arte, há mais de duas décadas, o roteirista americano Ed Brubaker teve passagens expressivas na DC e na Marvel, tendo escrito fases marcantes para diversos personagens, como Batman, Capitão América e X-Men. Já há quase igualmente tanto tempo, desenvolve um sólido trabalho autoral – no qual está quase sempre acompanhado pelo habitual artista parceiro, Sean Phillips.
Logo que começou a trabalhar com o Capitão América, Brubaker teve a companhia de Steve Epting e, com ele, discutia as ideias que vinha tendo para uma história de espionagem protagonizada por uma mulher. Epting prontamente se convidou a ilustrar a tal história, que só veria a luz do dia quase uma década depois, por conta das obrigações contratuais de ambos – mas, olha, como valeu a pena esperar tanto: originalmente lançado entre 2013 e 2016, com três atos em 15 partes, Velvet é um gibizaço, em 400 páginas de tirar o fôlego!
Velvet começa em 1973, um tempo em que não havia internet ou celulares, o que deixa tudo muito mais interessante no trabalho de espionagem – no sentido de que, sem um aparato high-tech (sendo a única exceção um protótipo de wingsuit), a espionagem era quase uma arte, na qual alguém tinha que ser muito bom pra nela se criar. Velvet Templeton era muito boa, dotada de memória fotográfica e habilidades marciais e linguísticas incomparáveis, mas, após alguns incidentes, acabou confinada a uma mesa na sede da CAR-7, a mais secreta entre as agências secretas britânicas.
Mulheres como espiãs não são novidade, mas, ainda são minoria: a elas, normalmente reservam o papel de vítima ou de parceira (seja de ação ou de cama) de um heroico espião qualquer. Por exemplo, é raro que alguém lembre o nome de uma Bond Girl, por mais que ela seja durona ou sagaz. A fama e o mérito são sempre exclusivos de James Bond. Por isso é que Velvet, dona de sua própria história, não apenas é durona e sagaz: ela herda de Bond a disponibilidade (e a disposição) sexual. Para aprofundar-se nos detalhes de várias operações secretas, ela foi capaz de dormir com todos os agentes de campo, deixando cada um deles pensar que era o único. Velvet não hesita em dormir com alvos, tampouco. Mesmo assim, a gente reconhece nela um senso prático de dever tão forte, que mesmo saber de tudo isso não nos faz questionar sua moralidade ou seu valor. Se James pode, por que Velvet não poderia?
O melhor é que tudo acontece sem feminismo didático, embora seja uma abordagem claramente feminista. Brubaker, porém, não alivia em nada para Velvet só porque ela é mulher: ela cai, se esfola toda, dá e toma tiro, dá e toma pancada, e troca socos com homens em pé de igualdade, quando não em clara vantagem. Ela é geralmente mais esperta que todo mundo à sua volta, mas ainda comete suas burradas. É uma pessoa normal (o que inclui, sim, fazer sexo apenas para conseguir algo que precisa ou deseja).
Velvet tem, ainda, uma das conclusões mais satisfatórias já vistas em uma obra de Brubaker - e não é que ele o faça mal em outras, é só que esta não tem aquela suspensão súbita que costuma caracterizar seus últimos quadros, deixando um “mas, e aí?” na cabeça do leitor. Ele até usa a palavra “fim”, artifício que costuma dispensar em várias de suas histórias.
Embora seja concretamente um fim, uma nova aventura de Velvet Templeton não está descartada pelo autor, cuja publicação pela Editora Mino segue firme e forte no Brasil. Com a proximidade do lançamento da série do Prime Video baseada em Criminal (prevista para 2025), Brubaker e Phillips devem gozar de merecido reconhecimento mundial, para muito além das páginas de suas graphic novels. Não deve demorar até que Velvet faça crescer os olhos de algum produtor de TV ou cinema. Parece um caminho bastante natural.
19/11/2024
Pinguim
Vamos logo falar do elefante no meio da sala: eu não vejo problema na ausência completa do Batman, mesmo em diálogos. Entendo o personagem do filme como sendo um vigilante em início de carreira, o que pode perfeitamente explicar por que ele deixaria de saber ou não consiga atuar sobre os esquemas vistos na série. Ele ainda está aprendendo a ser o Batman – talvez subestimando a escala e o alcance do crime na cidade, por assim dizer.
De maneira semelhante, tampouco o Pinguim já é aquele bandidão estabelecido dos quadrinhos: neste universo e neste momento, está mais para empregadinho do que para chefão. No calor dos eventos depois da morte de Carmine Falcone, em Batman, Oswald “Oz” Cobb tenta se apoderar de um trunfo que pode permitir-lhe alguma ascensão no mundo do crime em Gotham. Ao invadir o escritório de seu finado patrão, porém, ele age no calor da emoção e do orgulho, cometendo o ato que põe em marcha seu plano - que ele nem sabe muito bem ainda qual é.
Lembra do selo HBO de qualidade a que me referi lá no começo? Pois bem, ele é perceptível em cada fotograma de cada um dos oito episódios de Pinguim. Desde os cenários daquela que talvez seja a melhor Gotham City das telas, passando pelo roteiro que privilegia o clima noir da história, até desembocar nas atuações simplesmente acachapantes do elenco principal, tudo é de altíssima qualidade. Em sua maquiagem espantosa, Colin Farrell já havia “sumido” em seu personagem no filme de 2022, mas o que ele alcança aqui, com maior tempo de tela e desenvolvimento, certamente o conduzirá a uma gorda temporada de prêmios. Oz é o mafioso mais carismático da TV desde Walter White, de Breaking Bad.
Seu mais constante parceiro de cena, a revelação Rhenzy Feliz, intérprete do inesperado sidekick Victor Aguilar, tem a inocência hesitante de quem se vê arrastado pra dentro de um mundo que não é o seu e se deslumbra com o que pode conseguir dele, mas que abomina a ideia de recorrer à violência, ainda que isso nem sempre o detenha.
Todos estes personagens estão tão carregados de dualidade moral, que fica difícil eleger um favorito. A estes, junta-se um elenco notável de coadjuvantes, incluindo Michael Kelly, Clancy Brown, Shohreh Aghdashloo e Mark Strong, entre outros. Com seu andar trôpego e conversinha de “homem do povo”, Oz vai colocando todos no bolso, um por vez, e pondo ideias na nossa cabeça: “pelo menos, ele é bom filho”, “gosta do Victor”, “cuida do povo do bairro”, mas, não se engane: o Pinguim é um vilão, não é um anti-herói. Ponto pra todo mundo que se lembrou disso, ao escrever.
Não é o DCU que temos, mas certamente é aquele que queremos e merecemos. A vida em Gotham não é tão madrasta assim, afinal.
04/11/2024
A Substância
A crítica à obsessão por beleza e juventude na sociedade em geral e na indústria de entretenimento em particular já não é novidade. O próprio cinema, onde essa obsessão ainda vigora, já fez sua cota de autocrítica. A Substância é seu mais recente esforço, que se destaca por contar com uma protagonista (Demi Moore) que viveu a pressão para manter-se com o rosto e o corpo jovens que o público supostamente queria ver – normalmente, uma opinião de homens que não viam qualquer problema neles próprios envelhecendo ou embarangando.
A carreira de Elisabeth Sparkle (belo nome para uma drag queen) da fama mundial ao semi-ostracismo é resumida, de forma bastante sucinta e esperta, na sequência de abertura, quando ganha sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood – em meio a comentários elogiosos sobre sua beleza e talento – e, conforme avançam os anos passam de maneira acelerada, o tom dos comentários ao redor da placa muda para coisas como “lembra dela?”. De desejado ponto de visitação, vira um lugar por onde as pessoas passam sem qualquer atenção ou cuidado.
Ao completar 50 anos, Elisabeth é “convidada a sair” da emissora onde comanda um programa de fitness da chamada “melhor idade”, em favor do que a direção de seu canal (na pessoa do asqueroso personagem de Dennis Quaid) deseja em seu lugar: alguém mais jovem, mais bonita e capaz de renovar a audiência em baixa. Aos 50, Elisabeth está linda, lúcida e produtiva, mas percebe que se tornou um estorvo, num meio onde a velhice é um pecado imperdoável.
Enquanto lamenta sua
nova condição de “idosa” desempregada, ela vê um anúncio de algo chamado
simplesmente de A Substância, que promete (mediante instruções de uso bastante
específicas) entregar uma nova versão do usuário: mais jovem, mais bonita –
melhor, enfim. Levada a um endereço tenebroso, Elisabeth pega seu kit, vai pra
casa e, claro submete-se ao misterioso tratamento.
Paramos por aqui,
porque dar qualquer detalhe a partir deste ponto estragaria muitas surpresas do
filme da diretora francesa Coralie Fargeat (que, antes, havia dirigido apenas
um outro filme, o thriller Vingança, de 2017). No Festival de Cannes deste ano,
A Substância estava indicado à Palma de Ouro, e saiu com o prêmio de Melhor
Roteiro. Se sentir que já viu algum filme com trama bem parecida, você deve
estar certo. Mesmo sem ideias tão novas assim, porém, A Substância desvia de
soluções óbvias e sua principal virtude é não pisar no freio: quando você achar
que já chegou ao limite da maluquice e da nojeira, ele vai lá e empurra o
limite um pouco pra mais longe. De certa forma, testa nosso voyeurismo sádico,
ao sugerir que chega ao fim algumas vezes – e aí, pof!, tome mais uma sequência
ultrajante na cara!
Apesar do gore deslavado, a maravilhosa cinematografia, com seus cenários e planos de câmera, rende homenagem a clássicos do terror. É impossível, por exemplo, ver as cenas nos corredores da emissora e não pensar no hotel de O Iluminado (1980). Como Pearl (2023), outro filme de terror recente carregado de esmero visual, A Substância é bem bonito de assistir – isto é, até que comecem os previsíveis problemas de Elisabeth, que já qualificam o filme como um neoclássico do horror corporal como veículo de crítica social, à moda David Cronenberg.
É gratificante ver Demi Moore, uma atriz que já experimentou todo tipo de altos e baixos na profissão, retornar à relevância com tal categoria, a serviço de uma personagem com a qual certamente se identifica (tendo ela mesma se submetido a transformações artificiais que nem sempre deram certo). Além disso, com o que muita gente já chama de melhor atuação de sua carreira, Demi prova o argumento central do filme, o de que é apenas natural que a juventude se acabe, sem que isso implique em juízo do seu valor ou talento. Rejeitar a passagem do tempo, em nome da vaidade ou de uma utopia de juventude eterna, é terreno fértil para o ridículo e o grotesco. Com A Substância, Demi e Coralie deixaram pouca margem para mal-entendidos. É um filme que não faz prisioneiros, exige coragem pra ser feito e visto. Arme-se de muita!
28/10/2024
Música & Mágica #3
21/08/2024
Deadpool & Wolverine
Além de realizar a profecia do próprio personagem de que ele seria “o Jesus da Marvel”, Deadpool & Wolverine mostra que o público ainda tem, sim, bastante interesse pelo MCU e, ainda que alguém queira atribuir seu sucesso apenas ao inigualável carisma da dupla de protagonistas (Ryan Reynolds e Hugh Jackman), D&W tem boas ideias de sobra e honra o legado de seus personagens, seja em papel ou em película.
Aliás, o filme funciona como uma carinhosa elegia à “era Fox” de filmes do gênero, que, entre erros e acertos, divertiu muita gente desde tempos pré-Marvel Studios. Embora o extenso círculo de amizades e o imenso poder de convencimento de Ryan Reynolds tenha garantido algumas presenças ilustres e nostálgicas, em número suficiente para dar um lustro especial a este filme cheio de adrenalina, riso e emoção, muita gente boa ainda ficou de fora – e tudo bem, não se pode ter tudo, mesmo.
Além de ter os amigos certos nos lugares certos, Reynolds tem amor de sobra: pelos quadrinhos em geral, pelo Deadpool em particular e, principalmente, por interpretá-lo. Sim, é verdade que ele e Jackman estão ganhando rios de dinheiro - o que sempre deixa tudo muito mais legal - mas é possível ver que ambos estão, acima de tudo, se divertindo de verdade em fazer este filme juntos. Pode procurar uma featurette qualquer no YouTube e você verá que os dois são amigos de longa data e há tempos buscavam uma oportunidade de trabalhar juntos.
Outro amigo no projeto é o diretor Shawn Levy, canadense como Ryan Reynolds, e que já havia trabalhado tanto com ele (em Free Guy e O Projeto Adam) quanto com Hugh Jackman (em Gigantes de Aço). Levy cria sequências muito divertidas e empolgantes de ação, que nos dão a sensação de estar lendo um belo gibi no sofá de casa, com um sorriso no rosto. Até as sequências emocionais funcionam bem – mas, como se trata de um filme de Deadpool, a esculhambação volta a tomar conta em cinco segundos.
Vale um sincero elogio à Marvel/Disney por não ter “domesticado” os personagens ao inseri-los no MCU. D&W está repleto de morte, mutilação, humor de 5ª série e insinuações sexuais. A Disney pode ser careta, mas não é burra: ela sabe que o público não se interessaria por um Deadpool limpinho, censura livre. Chega ao ponto de aceitar ser seguidamente sacaneada sobre seus fracassos e decisões estúpidas. Ponto pra Reynolds, de novo: ele não apenas sabe rir de si mesmo, como sabe ensinar a fazê-lo.
Ao fim do filme, a gente se sente feliz e gostosamente anestesiado com o banquete de piadas, aparições especiais, menções a fases clássicas e mais easter-eggs do que somos capazes de processar – mas, ei, existe uma boa história aqui! Com seu universo em risco de ser apagado por um agente independente da AVT (aquela da série do Loki), Deadpool vai atrás de um Wolverine pra chamar de seu e salvar todo mundo, mas tem que se contentar com uma versão do herói que deixou seus X-Men e seu mundo morrerem, “o pior Wolverine que existe”. Juntos (e com ajuda de alguns amigos), eles vão enfrentar a AVT, a vilã Cassandra Nova, um exército de Deadpools e, diversas e divertidas vezes, um ao outro.
Não chega a ser um primor de roteiro nem ambiciona ser a pedra angular de qualquer coisa, mas não querer reinventar a roda é justamente uma das maiores qualidades deste filme muito merecedor de seu sucesso, que devolve alguma vida à agonizante Marvel do cinema. Resta saber se ela vai aprender suas lições ou ficar eternamente confiando nos milagres de seu Jesus.
15/07/2024
Sugar
John Sugar (Colin Farrell) é um detetive particular, especializado em encontrar pessoas desaparecidas. Quando o conhecemos, ele está em Tóquio, em busca do filho sequestrado de um chefe da Yakuza. Após voltar a Los Angeles, onde mora, Sugar é contratado pelo magnata do cinema Jonathan Siegel (James Cromwell) para achar sua neta, a problemática Olivia, que já possui histórico de sumiços regados a drogas, mas sempre mantinha contato e sempre acabava voltando. Desta vez, porém, a demora e a falta de notícias deixam o avô preocupado. Investigando o paradeiro da moça (inclusive, a contragosto da agência que o emprega), Sugar vai puxando os fios de um mistério cheio de verdades incômodas.
Se é verdade que a trama de Sugar, nos oito episódios desta sua primeira temporada, não é bem das mais originais, não significa que falte charme ou interesse à série da Apple TV+.
Pra começo de conversa, existe este fascinante protagonista: um detetive cujo trabalho tem sempre muita chance de descambar para a violência, mas que tenta ser razoável e dialogar a cada vez que encara um meliante. Por outro lado, ele também reconhece de longe um mentiroso e mostra-se incansável ao encontrar seus alvos, exibindo um vigor físico e um destemor que contrastam com sua persona calma e amante do cinema e de coisas vintage em geral (como o Corvette Sting Ray 66 que dirige).
Embora ambientada no presente, a série tem trama, clima e design de produção imediatamente reconhecíveis como de film noir – exceto, claro, pelo fato de Sugar ser quase uma antítese total dos tipos durões e moralmente dúbios presentes em filmes assim. Ele é bom até a medula, não bebe, fala vários idiomas, e é genuinamente legal com pessoas vulneráveis, seja uma mulher bêbada que flerta com ele ou um mendigo e seu cão na porta do bar onde busca informação. Um tipo que, em mãos menos hábeis, cairia fácil na caricatura ou ganharia nossa antipatia por ser “legal demais”, mas que funciona extremamente bem.
Créditos sejam dados à charmosa co-direção, dividida entre o nosso Fernando Meirelles (Cidade de Deus) e Adam Arkin (ator e diretor, filho do saudoso Alan Arkin). O roteiro de Mark Protosevich vai muito bem quase o tempo todo, mas, lá pelo sexto episódio, um novo fato sobre John Sugar e a agência coloca a série em um rumo que ainda me pergunto se gosto ou não. Achei o plot twist entre descabido e desnecessário. Minha esperança é que esse novo fato não se torne o foco central de uma possível segunda temporada.
A gente entende melhor o “deslize” quando percebe que Mark Protosevich está apenas sendo ele mesmo, o cara que escreveu filmes divisivos, pra dizer o mínimo, como Eu Sou a Lenda e o primeiro Thor. Apesar de não terminar tão bem quanto começa, Sugar está entre as melhores coisas que o streaming ofereceu no primeiro semestre.






























