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04/08/2026

Retorno do Detetive


Uma crítica do quadrinho
Batman: Padrões Sombrios

Recentemente, tomei uma decisão radical: resolvi que vou quase zerar minha compra de quadrinhos. Exceto por algumas séries e fases que ainda desejo concluir, o plano é ficar apenas com A Saga do Batman e talvez, TALVEZ, a revista mensal de linha do personagem, que vem em boa fase. Dediquei 40 de meus 53 anos ao colecionismo de HQs, mas, agora, geralmente me falta tempo para ler tudo que compro - e, honestamente, às vezes me falta vontade. Olho para aquela estante cheia de livros ainda no plástico e, com frequência, fico pensando, "eu nunca vou (re)ler isso". Acho que já chega.

Sobre essa decisão, tenho ainda outra certeza: há muita coisa boa na minha coleção, mas, sem dúvida, os quadrinhos do Batman são aqueles que mais me doerá passar pra frente. Meu personagem favorito já está à beira dos 90 anos (e do domínio público) e muito já foi experimentado com ele - e não apenas em versões alternativas: o cânone do personagem já foi reimaginado mais vezes do que consigo me lembrar. Retcons, reboots, revamps... Pense numa "modinha" editorial qualquer: o Batman já passou por ela.

Embora alguns escritores ocasionalmente se esqueçam do fato de que o Batman é apenas um homem (ainda que no ápice da disciplina física e mental que se pode alcançar), colocando-o como alguém que antevê absolutamente tudo e dono de brinquedos tecnológicos que praticamente trabalham por ele, a essência original do personagem é sua versão mais cativante: um detetive que se preparou ao máximo para combater o crime e evitar que sua tragédia (o assassinato de seus pais) se repetisse com outros. Bobagens como backups mentais, robôs assassinos, e "babados" diversos envolvendo sua família empalidecem ante a força de suas características mais fundamentais.

"Só dói quando eu existo"

Foi por isso que, ao ler Batman: Dark Patterns em versão original digital, entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, eu tive uma certeza muito forte: eu queria ter essa série na minha estante, em bom português e papel gostoso. Ironicamente, ela aportou nas nossas bancas quando decidi me afastar dos quadrinhos, mas, paciência. Tudo que há de certo e de bom sobre o Batman é visto nas tramas desenvolvidas ao longo de 12 edições, seis das quais compõem este primeiro volume. Batman: Padrões Sombrios é um golaço da DC - um gibi quase conservador, curiosamente, num período de grande reinvenção da editora, com a linha Absolute vendendo feito pão quentinho, varrendo as premiações e ditando tendência.

Dan Watters (Asa Noturna) escreve e Hayden Sherman (Absolute Mulher-Maravilha) desenha a série, ambientada no terceiro ano de atividade do Batman. Na primeira história, em três partes, ele investiga uma onda de assassinatos com pouca relação entre si e confronta um adversário de visual assustador, contra o qual sua força física pouco vale. O Homem-Ferida é uma autêntica criatura de pesadelos, de fazer o Pinhead de Hellraiser parecer um bichinho de pelúcia, com uma gênese trágica e uma motivação convincente. Se era de uma abertura impactante que o leitor precisava, "Nós Somos os Feridos" não deixa por menos.

"Cês tão pensando que eu sou o Batman do Tom King?"

Na segunda metade, um vilão clássico, Scarface, ressurge no comando de um edifício cuja própria arquitetura já representa um desafio, mas ainda abriga seguidores insanos e perigosos do boneco - e Arnold Wesker (chamado de "Albert", a certa altura, num erro que veio do original e a Panini manteve), o Ventríloquo, pode nem ser o maior de seus problemas. "A Voz da Torre" tem grandes momentos de Hayden Sherman, um artista que faz excelente uso de diagramações pouco óbvias e desenha um Batman que é puro Tim Sale, só que com narizes melhores. A sequência em que ele abre caminho distribuindo porrada por três andares é o tipo de coisa que amamos ver o Batman fazer.

Com o segundo volume já anunciado para setembro, Batman: Padrões Sombrios é o tipo de série que, ao longo das últimas quatro décadas, me fez perseverar em minha fé nos quadrinhos de super-heróis. É para presenciar momentos assim que a gente suporta Gotham destruída, o vai-e-vem da fortuna de Bruce Wayne, a degradação moral imposta a seus pais e a ainda não revertida perda de Alfred Pennyworth. Os escritores medíocres têm uma incrível sorte em contar com gente como Watters e Sherman para recolocar o universo e o coração do leitor de volta no eixo. Quadrinho obrigatório, mesmo para quem jurou que está parando.

22/01/2026

Forjada em fogo e fúria


Uma crítica da HQ
Absolute Mulher-Maravilha #1

Este é, sem meias palavras, o gibi do momento, a melhor coisa super-heroica sendo publicada pela Panini Comics. Já se pode comprar sua segunda edição, mas ainda vale a pena falar da estreia (reunindo as duas primeiras edições originais), e eu, como bom amigo, desejo que você ainda consiga achá-la por aí, nas bancas ou nos sites da sua preferência.

O Universo Absolute surgiu como uma espécie de "alternativo oficial" à linha regular da DC. No especial DC Sem Limites (nome de toda a fase atualmente em publicação), a aparente morte de Darkseid faz nascer todo um universo com base na sua essência dissipada. Neste novo universo, repleto de adversidades, Bruce Wayne não é um playboy bilionário; Kal-El não é um alien com pais adotivos amorosos; e Diana não foi criada como princesa de Themiscyra, como sempre os conhecemos. Neste mundo, super-heróis são vistos como párias.

A linha Absolute já tem suas versões de diversos heróis, mas, em minha opinião, nenhum deles rivaliza em qualidade com a Absolute Mulher-Maravilha, escrita por Kelly Thompson e desenhada por Hayden Sherman (ainda que seja o Absolute Batman, de Scott Synder e Nick Dragotta, o campeão de vendas e de hype).

Como punição de Zeus às amazonas, Diana é retirada de Themiscyra ainda bebê e entregue por Apolo aos cuidados da feiticeira Circe, que vive exilada na chamada Ilha Selvagem, no Inferno. Relutante e proibida (por meio de mágica) de dizer a palavra "amazona", Circe acaba por afeiçoar-se à menina, a quem ensina suas artes arcanas. Conforme passa o tempo, cresce a curiosidade de Diana sobre sua origem e o "pecado" que levou ao castigo das amazonas. Armada de magia, sabedoria e coragem, ela parte rumo ao mundo terreno.

Durante metade de sua octogenária existência, a Mulher-Maravilha foi tratada como heroína de segundo escalão, mera coadjuvante de colegas mais populares como Superman e Batman. Nesse passado sombrio, chegaram ao cúmulo de reduzi-la a secretária da Sociedade da Justiça, ou transformá-la numa espiã que confiava mais em artes marciais do que em seus poderes divinos (um conceito que, pensando bem, poderia render um bom gibi, mas que não parece ter sido o caso). Tudo mudou após a Crise nas Infinitas Terras (1985), megaevento que realinhou a continuidade da DC Comics. Uma das principais reinvenções do período foi a hoje clássica Mulher-Maravilha por George Pérez, que estabeleceu conceitos que valem até os dias atuais, após tantas outras décadas de retcons e reboots.

"Traz essa laranja aqui, que eu descasco..."

Com variado grau de êxito por parte de seus autores, Diana passou a ser melhor tratada dentro da sua própria casa, que a estabeleceu como uma das forças centrais do seu panteão, formando a famosa Trindade ao lado de Superman e Batman. Sua origem já foi contada e recontada mais vezes do que consigo lembrar, mas Kelly Thompson nos presenteou com uma versão muito diversa e intrigante, mantendo aspectos fundamentais da personagem: a bravura, a sabedoria e a compaixão por quem a merece; aos indignos, sobram a força de seus punhos e o fio da sua enorme espada.

Vai por mim: esta revista só melhora. Até este momento, foram publicadas 15 edições nos EUA e Kelly Thompson jamais deixou a peteca cair. Não houve edição ruim, ainda que nem todas fossem igualmente interessantes. Tudo bem, tudo normal. Só por trazer um frescor inédito a uma personagem com mais de 80 anos de idade, Thompson já mereceria reconhecimento (que veio em forma do Eisner Awards de Melhor Série Nova). Ajuda contar com a arte precisa e cheia de personalidade de Hayden Sherman (guarde este nome!), que dá às ameaças a escala e o temor que elas inspiram. O trabalho de Jordie Bellaire nas cores também foi agraciado com um Eisner. Acredite quando digo que este gibi é coisa muito fina.

Quando começou, o Universo Absolute tinha toda a cara de evento feito para durar somente até o fim da primeira supersaga que chegasse, a ser desfeito numa típica manobra mágica ou científica qualquer. Porém, DC KO (a saga da vez) já se aproxima do fim, mas, dado o sucesso da iniciativa, parece que os gibis Absolute serão vistos por um bom tempo ainda, e mais títulos vão surgindo. Espero que Thompson (ou um eventual substituto) mantenha a régua alta que foi demonstrada nesse primeiro ano da série, com a graça de Hécate.

21/05/2025

O Dia do Chacal

Sem ter lido o livro homônimo de Frederick Forsyth, escrito em 1971, e sem ter visto o filme que o adaptou em 1973, eu decidi ver O Dia do Chacal porque ela esteve presente em diversas listas das melhores coisas de 2024. Também me chamaram atenção os protagonistas: Eddie Redmayne, como o Chacal, matador de aluguel mais letal do mundo; e Lashana Lynch, como Bianca Pullman, agente do MI6 em seu encalço. Ambos ingleses, como o autor do livro, hoje com 86 anos.

Como está adaptando uma história de cinco décadas atrás, a série (um produto original do streaming Peacock, disponível para nós pelo Disney+) teve que fazer mudanças na trama e nos personagens, para encaixá-los no século XXI, a maior delas sendo substituir o detetive Claude Lebel pela agente Bianca Pullman, com seu senso de dever inabalável de veterana de guerra e forte faro investigativo, mas que, com frequência, mete os pés pelas mãos em seu esforço para capturar o Chacal. Enquanto tenta ser boa agente, boa mãe e boa esposa, Bianca vai acumulando bolas fora aqui e ali, mas sem jamais perder o rastro do assassino. O roteiro também tenta surfar a onda de assuntos da hora, como as críticas aos bilionários e a responsabilidade social (ou falta dela) das big techs.

O bom elenco é um dos grandes acertos aqui. OK, Redmayne tem um Oscar pra chamar de seu, mas ele caminha sobre uma linha muito fina, que separa estilo de interpretação da falta de versatilidade. Apesar disso, seu jeitão gélido e impassível caiu bem para o assassino Chacal, um atirador capaz de acertar alguém a quase 4 km de distância e que, determinado a levar uma vida normal ao lado da esposa espanhola (Úrsula Corberó, de La Casa de Papel) e do filho pequeno, vê-se tentado pelo altíssimo cachê e altíssima complexidade de um último serviço. Acontece que o penúltimo (no qual, ainda por cima, levou calote) chamou a atenção de Bianca Pullman, e ela não é do tipo de que ignora sua intuição ou desiste fácil. Na pele da obstinada Bianca, Lynch traz de volta a fisicalidade que a tornou destaque em cenas de ação de A Mulher Rei e 007: Sem Tempo Para Morrer, apesar do corpo sempre coberto por pesados uniformes ou roupas “de mãe”.

O jogo de gato-e-rato prende a atenção e deixa a gente nos cascos, apesar de alguns lances de pura “sorte de protagonista” em favor do Chacal – aliás, li em algum lugar na internet que o espectador ficava torcendo por ele e contra Bianca, mas não me peguei nessa contradição moral, basicamente, porque o Chacal de Redmayne não é um assassino charmoso: ele é uma mera máquina de matar. Há pouco espaço para identificação, e mesmo o esforço dele em ficar disponível para a esposa e o filho pequeno parece pouco sincero. Do lado de Bianca, a crise no casamento, embora mais passível de empatia, carece de peso dramático, previsivelmente voltando à estaca zero, bem no momento em que mais deveria importar.

Com seus dez episódios carregados de tensão, a série garante uma diversão bastante eletrizante, em produção de alto nível. O último episódio tem um final que diverge daquele do livro, medida que pareceu ter sido só um jeito de garantir uma segunda temporada – já confirmada. Achei o destino de certo personagem um exagero desnecessário (na verdade, eu espumei de ódio), mas, apesar dos pesares, O Dia do Chacal realmente merece uma vaga em qualquer lista decente das boas coisas do streaming no ano que passou – mas, para mim, longe das cabeças. Um meio do caminho honesto entre a base e o topo já está de bom tamanho.

24/03/2025

Inesquecíveis

 

O prolífico autor de quadrinhos francês Fabien Toulmé tem um caso de amor antigo com o Brasil: foi aqui, durante um intercâmbio na Paraíba, que ele conheceu sua esposa. Também viveu e trabalhou em Fortaleza. Seu tempo em nosso país ocupa muitas páginas de sua HQ de estreia, a muito sensível Não Era Você Que Eu Esperava, onde corajosamente expôs os sentimentos conflitantes que experimentou quando sua primeira filha nasceu com Síndrome de Down.

Em Inesquecíveis, Toulmé não está falando de si nem criando histórias delicadas e emocionantes: apenas faz curadoria e roteiriza histórias reais que coletou em entrevistas. São episódios que marcaram a vida das pessoas que as contaram – mesmo que não tenham sido elas a vivê-las, a exemplo da história sobre um casal de brasileiros, narrada por uma amiga.

Há o caso de uma moça estuprada pelo próprio namorado; uma menina cuja identidade foi apagada pela religião; um garoto francês que vivia em Ruanda quando estourou a sanguinária guerra civil de 1994; um casal que perde o trem do amor durante décadas, mas nunca deixa de se amar; e um garoto que parece perdido para o crime, até que um voto de confiança muda sua vida e dá início a mudanças no sistema penal francês.

Com pouco mais de 120 páginas, Inesquecíveis é uma leitura rápida, talvez até demais, pro leitor acostumado a outros trabalhos do autor. Um segundo volume já existe e deve ganhar versão brasileira em breve. Mesmo que toque o coração do leitor de diversas maneiras – certas histórias reais têm o encanto de rivalizar com a ficção em suas reviravoltas – parece fazer falta ao livro o toque da imaginação de Toulmé, seu humor autocrítico, suas observações muito pessoais sobre as pessoas e sobre a vida.

É um livro que pode deixar a gente mais feliz numa tarde de leitura e pode funcionar como porta de entrada à sua obra, mas está longe do brilhantismo de um Duas Vidas (até aqui, para mim, seu auge). Organizar esta coletânea pode ter sido o jeito que ele encontrou de manter-se próximo ao leitor, enquanto trabalha em seu próximo épico de lirismo cartunesco. É válido, mas a gratificação é pouca.

07/03/2025

O Auto da Compadecida 2

Participe da Promoção Starman!

Eu tenho por regra não me ocupar em falar mal das coisas de que não gosto. Se eu já me senti perdendo tempo com um filme, quadrinho ou disco ao consumi-lo, por que jogar fora preciosos minutos do meu dia pra escrever sobre ele? Então, eu vou tentar ser breve, pra bile não me subir muito alto pela garganta.

O Auto da Compadecida 2 não deveria existir, simples assim. Primeiro, porque o original nem era um filme exatamente, mas um recorte em longa-metragem da minissérie da Rede Globo, que adaptava a obra de Ariano Suassuna. Desta vez, a Globo nem se envolveu na produção ou distribuição, o que ajuda a explicar que o filme seja tecnicamente tão pobre, com cara de teatro (mal) filmado. Os cenários e passarinhos digitais são vergonhosos. É um filme feio de ver, saiba logo de saída – e nem vou me deter na eterna estereotipagem do Nordeste como um lugar sem vida e dos nordestinos como miseráveis e supersticiosos.

Tampouco se sustenta em sua história, já que se limita a requentar temas muito melhor explorados no primeiro filme. Como carece de uma razão de ser, apela o tempo inteiro à nossa nostalgia pelo filme original, e esses são os únicos momentos que valem a pena, porque, na falta de um Suassuna pra dar estofo, o roteiro é preguiçoso e sem-graça.

O elenco faz o que pode: o carisma de Matheus Nachtergaele e Selton Mello está intacto e, para minha surpresa, Eduardo Sterblitch e Humberto Martins não fazem feio. É bonita a amizade de João Grilo e Chicó, mas só porque a gente já sabia disso antes: bem analisando, alguém que some sem deixar rastro, apenas porque sim, por mais de 20 anos, não se qualifica como bom amigo, não – mas, vá lá, a gente compra a ideia. Chicó se envolve com a filha de um desafeto outra vez. João Grilo morre outra vez. Apela para Nossa Senhora (Thaís Araújo) outra vez. A falta de ideias (e de grana) fica ainda mais aparente quando vemos que Jesus e o Diabo são agora interpretados por Nachtergaele.

Como não concebo que nenhum dos envolvidos estivesse padecendo com boletos atrasados, só posso mesmo acreditar que este filme foi criado para, desavergonhadamente, lucrar com a nostalgia do público, sem oferecer nada digno em troca. Sou até capaz de crer que a ideia veio de “um lugar de amor” (argh!), mas você sabe que cinema costuma ser uma coisa cara pra quem assiste, né? Eu vi O Auto da Compadecida 2 em casa, mas, caso tivesse pagado por um ingresso, teria saído direto do cinema pro Procon.

18/02/2025

Ainda Estou Aqui

 

Não se esqueça que tem Promoção Starman rolando!

Aconteça o que acontecer no próximo dia 2 de março, Ainda Estou Aqui já é um fenômeno consolidado: além de muitíssimo elogiado e premiado mundo afora, já é um dos cinco filmes brasileiros mais vistos da História - imagina se não tivesse sido alvo de uma chocha tentativa de boicote! – e uniu os brasileiros em reconhecimento ao superlativo talento de sua estrela, Fernanda Torres, que esbanja graça e simpatia em nosso nome, em suas aparições televisivas.

Não é que não importe ganhar o Oscar: importa muito, principalmente se lembrarmos que a Argentina tem dois e a gente não tem nenhum.

Até o momento em que escrevo esta resenha, dos dez indicados a Melhor Filme, eu só consegui ver três: Duna Parte 2, A Substância e Ainda Estou Aqui. O nosso filme é, de longe, o que reúne mais atributos que o qualificam para o grande prêmio da noite. Para começo de conversa, não é uma alegoria regada a efeitos especiais, como os outros dois – e não estou, aqui, tentando diminuir os muitos méritos de um ou de outro. Ele larga na frente porque é uma história verdadeira, de gente como a gente, passando por eventos assustadores, aos quais estamos suscetíveis a reviver, a qualquer instante, porque uma parcela ignorante ou amnésica da população anseia pela volta do país a um tempo sem liberdade.

Os Paiva: mãe zelosa, pai coruja.

Quando o ex-deputado Rubens Paiva (Selton Mello) é levado do convívio com sua família para nunca mais ser visto, já havíamos passado o primeiro terço do filme testemunhando a rotina feliz de sua família de classe média, no Rio de Janeiro de 1971. Ao contrário de filmes como Cidade de Deus (2002), ou mesmo Central do Brasil (1998), estas não são pessoas marginalizadas, de uma realidade muito distante daquela do público que vai ao cinema. São uma família comum, fazendo coisas que famílias comuns fazem (talvez apenas com um pouco mais de dinheiro que a maioria das famílias comuns).

Atingidos em cheio pela marreta autoritária do então presidente Emilio Garrastazu Médici, não apenas seu marido é “sumido”, como a própria Eunice Paiva (Fernanda Torres) e uma de suas filhas são “convidadas” a participar de sucessivos e exaustivos interrogatórios, a fim confirmar uma alegada associação com “comunistas”. Ao sair, Eunice, no fundo, sabe que seu marido dificilmente retornará: embora não desista de questionar e de esperar, conforme passa o tempo, suas esperanças vão morrendo, a cada negativa da polícia aos seus pedidos para ver Rubens ou apenas para saber qualquer coisa sobre ele.

O que lhe resta, então, é tocar a vida. Quando Eunice chora, nunca é desabando de luto: é sempre aquela lágrima fugidia, sem soluços, porque ela sabe que não pode sucumbir, que precisa ser forte pelo marido ausente, pelos filhos e por ela própria – e ela se mostra forte. Com toda a dor do mundo e temor pelo futuro, mas, sim.

Eunice Paiva: pra frente é que se anda, porque a alternativa é pior.

Há dois momentos especialmente representativos da força de Eunice Paiva: o já famoso (pois recortado em diversas resenhas do filme no YouTube) passeio no shopping, em que seus filhos lancham, enquanto ela se pega reparando nas pessoas seguindo com suas vidas, felizes, alheias a todo o drama que ela está vivendo; e outro, quando, ao ser entrevistada e fotografada para uma revista, ela ignora o pedido desta por uma foto triste, sombria – como supostamente conviria a uma vítima da ditadura – e pede aos filhos que caprichem no sorriso.

Após tantas indicações e vitórias, qualquer coisa que se diga sobre a atuação de Fernanda Torres é chover no molhado. Se não leva o Oscar, não terá sido por falta de merecimento, mas porque sabemos que ele é, essencialmente, uma premiação de americanos para americanos, que, de vez em quando, lembram-se de incluir uns gatos pingados da produção de cinema do resto do mundo em categorias além da restritiva Melhor Filme Estrangeiro. Será ótimo se o filme vencer nesta categoria (que parece a mais “fácil”), mas um Oscar para Fernanda Torres teria o potencial de unir, por um instante que fosse, os corações e mentes do país, fazendo com que nossos muitos e imensos problemas parecessem um pouco menos assustadores.

Na verdade, é um vacilo da Academia que o filme não tenha ainda mais indicações, como o roteiro (adaptado do livro homônimo de Marcelo Rubens Paiva, filho caçula do casal) e a direção segura de Walter Salles, ou a sóbria atuação de Selton Mello como Rubens Paiva. É uma obra lançada em tempos muito sombrios, sobre outros tempos muito sombrios, para lembrar às pessoas que não há mal que não possa retornar, se a gente baixar a guarda (anistia, nem a pau!). São elementos que a Academia costuma prezar, mas, como dito lá no começo, com ou sem prêmios, Ainda Estou Aqui já é o campeão moral da temporada.

08/01/2025

Robô Selvagem

Hoje em dia, já nem faz sentido apontar a preguiça criativa que, já faz uns bons anos, tomou conta de Hollywood. É fenômeno consolidado e, pior ainda, abraçado pelo público: das dez maiores bilheterias do ano passado, impressionantes NOVE eram sequências – a única exceção foi Wicked, que não é uma continuação, mas chegou ao cinema planejado pra logo ganhar uma.

Particularmente, acho esta uma tendência terrível. Por melhor que seja rever bons personagens em novas aventuras, nem todo filme precisa acabar com as pessoas perguntando “quando será que sai o 2?” enquanto deixam o cinema. Às vezes, aquele único filme cumpre o sagrado propósito de divertir. Deveríamos reaprender a deixar que as histórias – mesmo aquelas muito boas – terminem. Nem tudo nessa vida precisa virar franquia.

Entretanto, estou pregando no deserto. Robô Selvagem já tem sua sequência encaminhada. Menos mal que estará a cargo do mesmo Chris Sanders que dirigiu este primeiro. Sanders tem boa mão: na Disney, escreveu as histórias dos principais sucessos da renascença do estúdio nos anos 90, como A Bela e a Fera, Aladdin e O Rei Leão. Estreou como diretor no ótimo Lilo & Stitch (2002). Deixando a Disney pela DreamWorks, esteve à frente de grandes sucessos: Como Treinar Seu Dragão (2010) e Os Croods (2013). Também dirigiu aquele filme do Harrison Ford com um cachorro digital, mas vamos fingir que não.

Robô Selvagem começa numa ilha, quando, durante uma tempestade, alguns animais, sem querer, ligam a robô Rozzum 7134 (voz de Lupita Nyong’o). Sem nenhum humano por perto, ela pergunta a todo animal que encontra quem seria seu novo dono. Sem resposta e sem um propósito na ilha, ela se dedica a aprender a comunicar-se com eles. Durante uma fuga, porém, cai sobre um ninho de gansos selvagens. Um único ovo resta intacto, e Rozzum 7134 se dedicará a protegê-lo, até que o pequeno ser dentro dele venha ao mundo.

Todos já vimos filmes sobre os temas de Robô Selvagem: robôs gente fina, maternidade inesperada e/ou complicada, uma literal “síndrome do patinho feio”, e retorno à natureza como antídoto da modernidade fria e tóxica. A animação de Sanders, porém, sobressai pela beleza de sua animação (com aquela bonita mistura de técnicas vista em O Gato de Botas 2) e pela progressiva naturalidade das emoções de Roz - simplificação que ela adota ao perceber que sua programação original não a ajudaria a seguir “viva” nem a criar seu “bebê”. É tocante como ela muda conforme passa o tempo, enfrentando os maiores medos e desafios de se ter um filho: a disposição para sacrificar tudo, a resignação compreensiva diante da rebeldia gratuita ou ingratidão, e o medo de perder aquele ser tão amado – um cuidado que ela acaba estendendo a todos os animais da ilha, quando enfrentam seu pior momento.

O final de Robô Selvagem é tão redentor e maduro, tão redondinho, que eu só posso mesmo me indignar por saber que vão esticar essa história, perfeitamente encerrada, para extrair cada centavo de dólar que este “universo” (argh!) possa render. No fim, é disso que se trata: nunca é sobre “dar ao povo o que ele quer”. Quase sempre, a única pessoa nos paparica sem querer nada em troca é a nossa mãe. O que a DreamWorks e outros estúdios querem é meter a mão no nosso bolso - mas, quando compensam entregando filmes bonitos assim, até que nem chiamos tanto. Espero estar errado sobre sequências quando Robô Selvagem 2 chegar.

06/01/2025

Gladiador II


Muita coisa conspirava contra a existência de Gladiador II. Primeiro, havia o óbvio ululante de que Gladiador (2000), de Ridley Scott, vencedor do Oscar de Melhor Filme (num tempo em que o termo “franquia” não era carne-de-vaca em Hollywood), contava uma história com começo, meio e fim. Segundo que, quando foi anunciada a produção da sequência, já haviam passado mais de duas décadas desde o original. Terceiro que, apesar da “envergadura moral” de ter sido o diretor do primeiro filme, Ridley Scott vinha de uma série com um filme bom, mas pouco visto (O Último Duelo, 2021), e de outros massacrados sem dó (Casa Gucci, 2021; Napoleão, 2023). Era bem alta a chance de o novo filme ser ruim o suficiente para manchar o legado do antigo.

Para surpresa geral, levando em conta o prospecto muito desfavorável, Gladiador II periga até parecer um filme melhor do que realmente é. Talvez estejamos todos sendo um pouco exigente demais com o velho Ridley, esquecendo que ele já tem 87 anos e absolutamente nada a provar, a esta altura (embora assistindo ao fabuloso Jurado nº 2, que Clint Eastwood dirigiu aos 94, possamos perceber que idade avançada não significa pulso frouxo). Em pouco mais de duas horas, Gladiador II honra seu predecessor, entregando um espetáculo honesto e divertido  - nada mais do que sua obrigação, com o astronômico orçamento de 310 milhões de dólares – mas é só.

A opção de Scott em ajudar o espectador a lembrar do original a todo instante vai muito além da sequência de abertura, que o resume numa bonita animação. Nomes, pessoas, frases e objetos retornam e, com eles, um novo, carismático e numeroso elenco, incluindo Paul Mescal, Pedro Pascal, Denzel Washington, Connie Nielsen e Joseph Quinn, entre outros. Tudo para contar a história de Hanno (Mescal), o herói que sabemos desde o início tratar-se do filho de Maximus Decimus (Russell Crowe) com Lucilla (Nielsen), mandado para longe de Roma em nome de sua segurança.

Comandada por dois jovens imperadores sifilíticos, Roma está em franca decadência e um de seus últimos atos de “glória” é justamente a invasão da nação moura onde Hanno vive com sua esposa, a exímia arqueira Arishat. Durante a invasão, liderada pelo general Acacius (Pascal), ela é morta e, como se ainda tivesse poucos motivos para odiar Roma e os romanos, Hanno é capturado, feito escravo e, logo em seguida, gladiador. Como seu pai, ele jura vingança pela esposa morta.

Parece familiar porque é. Seja nas homenagens ao filme clássico ou nas críticas ao imperialismo, sutileza não é o forte deste filme, mas nem isso chega a configurar um problema tão grande, porque Scott, quando se vê inspirado, sabe dar às pessoas o que elas querem. Mesmo que esteja sofrendo pra recuperar na bilheteria seu custo absurdo, ele teve repercussão geralmente positiva entre crítica e público. Já perto de chegar ao streaming, deve se transformar num favorito deste início de ano para aqueles que, como eu, estavam desconfiados demais para arriscar uma ida ao cinema (lazer caro!). Que não tenha se tornado um fenômeno pop como seu antecessor é sinal de que talvez estivéssemos melhor sem ele, mas a mera existência de Gladiador II não chega a ser um incômodo. Podia ter sido muito pior.

27/11/2024

Velvet

Com extensa folha corrida de bons serviços prestados à Nona Arte, há mais de duas décadas, o roteirista americano Ed Brubaker teve passagens expressivas na DC e na Marvel, tendo escrito fases marcantes para diversos personagens, como Batman, Capitão América e X-Men. Já há quase igualmente tanto tempo, desenvolve um sólido trabalho autoral – no qual está quase sempre acompanhado pelo habitual artista parceiro, Sean Phillips.

Logo que começou a trabalhar com o Capitão América, Brubaker teve a companhia de Steve Epting e, com ele, discutia as ideias que vinha tendo para uma história de espionagem protagonizada por uma mulher. Epting prontamente se convidou a ilustrar a tal história, que só veria a luz do dia quase uma década depois, por conta das obrigações contratuais de ambos – mas, olha, como valeu a pena esperar tanto: originalmente lançado entre 2013 e 2016, com três atos em 15 partes, Velvet é um gibizaço, em 400 páginas de tirar o fôlego!

Velvet começa em 1973, um tempo em que não havia internet ou celulares, o que deixa tudo muito mais interessante no trabalho de espionagem – no sentido de que, sem um aparato high-tech (sendo a única exceção um protótipo de wingsuit), a espionagem era quase uma arte, na qual alguém tinha que ser muito bom pra nela se criar. Velvet Templeton era muito boa, dotada de memória fotográfica e habilidades marciais e linguísticas incomparáveis, mas, após alguns incidentes, acabou confinada a uma mesa na sede da CAR-7, a mais secreta entre as agências secretas britânicas.


Quando um agente de campo e amigo próximo de Velvet é morto após uma missão, ela não engole as conclusões da perícia e decide investigar por conta própria, mas, ao fazê-lo, é emboscada e acaba na mira da própria CAR-7. Meio enferrujada pelos dez anos fora de ação e sem saber em quem confiar, ela refaz os passos do amigo morto e começa a puxar os fios de uma conspiração muito maior do que ela suspeitava, além de descobrir novas verdades sobre seu próprio passado.

Mulheres como espiãs não são novidade, mas, ainda são minoria: a elas, normalmente reservam o papel de vítima ou de parceira (seja de ação ou de cama) de um heroico espião qualquer. Por exemplo, é raro que alguém lembre o nome de uma Bond Girl, por mais que ela seja durona ou sagaz. A fama e o mérito são sempre exclusivos de James Bond. Por isso é que Velvet, dona de sua própria história, não apenas é durona e sagaz: ela herda de Bond a disponibilidade (e a disposição) sexual. Para aprofundar-se nos detalhes de várias operações secretas, ela foi capaz de dormir com todos os agentes de campo, deixando cada um deles pensar que era o único. Velvet não hesita em dormir com alvos, tampouco. Mesmo assim, a gente reconhece nela um senso prático de dever tão forte, que mesmo saber de tudo isso não nos faz questionar sua moralidade ou seu valor. Se James pode, por que Velvet não poderia?

O melhor é que tudo acontece sem feminismo didático, embora seja uma abordagem claramente feminista. Brubaker, porém, não alivia em nada para Velvet só porque ela é mulher: ela cai, se esfola toda, dá e toma tiro, dá e toma pancada, e troca socos com homens em pé de igualdade, quando não em clara vantagem. Ela é geralmente mais esperta que todo mundo à sua volta, mas ainda comete suas burradas. É uma pessoa normal (o que inclui, sim, fazer sexo apenas para conseguir algo que precisa ou deseja).


Se a escrita de Brubaker é afiada (no posfácio, ele reconhece que foi bom Velvet não ter saído de imediato, pois assim teve tempo de aperfeiçoar seu conceito), o mesmo pode ser dito sobre a arte de Steve Epting: com boa parte da trama desenrolando-se à noite ou em ambientes pouco iluminados, Epting esbanja domínio das sombras. Seus personagens possuem traços físicos mais distintos do que normalmente veríamos, por exemplo, em aventuras de super-heróis, e as sequências de luta e perseguição são cheias de movimento.

Velvet tem, ainda, uma das conclusões mais satisfatórias já vistas em uma obra de Brubaker - e não é que ele o faça mal em outras, é só que esta não tem aquela suspensão súbita que costuma caracterizar seus últimos quadros, deixando um “mas, e aí?” na cabeça do leitor. Ele até usa a palavra “fim”, artifício que costuma dispensar em várias de suas histórias.

Embora seja concretamente um fim, uma nova aventura de Velvet Templeton não está descartada pelo autor, cuja publicação pela Editora Mino segue firme e forte no Brasil. Com a proximidade do lançamento da série do Prime Video baseada em Criminal (prevista para 2025), Brubaker e Phillips devem gozar de merecido reconhecimento mundial, para muito além das páginas de suas graphic novels. Não deve demorar até que Velvet faça crescer os olhos de algum produtor de TV ou cinema. Parece um caminho bastante natural.

19/11/2024

Pinguim


Mesmo com o selo HBO de qualidade (quase sempre, uma garantia de produtos minimamente bem-cuidados), nem o mais otimista espectador poderia prever que uma série do Pinguim, adaptada do filme Batman (2022), de Matt Reeves, estaria entre as melhores coisas vistas na televisão nesta década. Ninguém estava preparado para tamanha profundidade psicológica ou tão adequada atmosfera noir. Inclusive, muita gente deve ter imaginado que havia grande chance de esta série estragar o legado de Batman, mas ela não apenas subverte essa expectativa como, na verdade, deixa o universo do filme mais rico e interessante.

Vamos logo falar do elefante no meio da sala: eu não vejo problema na ausência completa do Batman, mesmo em diálogos. Entendo o personagem do filme como sendo um vigilante em início de carreira, o que pode perfeitamente explicar por que ele deixaria de saber ou não consiga atuar sobre os esquemas vistos na série. Ele ainda está aprendendo a ser o Batman – talvez subestimando a escala e o alcance do crime na cidade, por assim dizer.

De maneira semelhante, tampouco o Pinguim já é aquele bandidão estabelecido dos quadrinhos: neste universo e neste momento, está mais para empregadinho do que para chefão. No calor dos eventos depois da morte de Carmine Falcone, em Batman, Oswald “Oz” Cobb tenta se apoderar de um trunfo que pode permitir-lhe alguma ascensão no mundo do crime em Gotham. Ao invadir o escritório de seu finado patrão, porém, ele age no calor da emoção e do orgulho, cometendo o ato que põe em marcha seu plano - que ele nem sabe muito bem ainda qual é.


Daí por diante, o instinto de sobrevivência e a habilidade de Oz para contar mentiras (ou meias-verdades convenientes) serão testados a cada episódio, porque a única coisa que supera sua capacidade de escapar de situações mortais é sua tendência de cair em outra mais à frente (ou criá-las ele próprio). Todo o submundo de Gotham sabe que a palavra de Oz Cobb vale muito pouco, mas, de alguma forma, ele consegue transitar entre lados rivais, jurando lealdade a quem lhe pode ser mais imediatamente útil, apenas para trair seus “aliados” logo em seguida.

Lembra do selo HBO de qualidade a que me referi lá no começo? Pois bem, ele é perceptível em cada fotograma de cada um dos oito episódios de Pinguim. Desde os cenários daquela que talvez seja a melhor Gotham City das telas, passando pelo roteiro que privilegia o clima noir da história, até desembocar nas atuações simplesmente acachapantes do elenco principal, tudo é de altíssima qualidade. Em sua maquiagem espantosa, Colin Farrell já havia “sumido” em seu personagem no filme de 2022, mas o que ele alcança aqui, com maior tempo de tela e desenvolvimento, certamente o conduzirá a uma gorda temporada de prêmios. Oz é o mafioso mais carismático da TV desde Walter White, de Breaking Bad.

Seu mais constante parceiro de cena, a revelação Rhenzy Feliz, intérprete do inesperado sidekick Victor Aguilar, tem a inocência hesitante de quem se vê arrastado pra dentro de um mundo que não é o seu e se deslumbra com o que pode conseguir dele, mas que abomina a ideia de recorrer à violência, ainda que isso nem sempre o detenha.


A grande e magnética surpresa da série, porém, é Cristin Milioti, intérprete de Sofia Falcone. Desde sua primeira cena, é impossível desviar nossos olhos dos seus, dois globos repletos de trauma, inteligência e rancor – inclusive, contra o Pinguim. Fosse outra série, eu talvez estivesse tentado a dizer que ela rouba a série para si, mas a concorrência de Milioti é duríssima: além de Farrell e Feliz, quem também dá um show é Deirdre O’Connell, no papel de Francis Cobb, a sequelada mãe de Oswald, que mantém com ele uma complexa relação de dependência e domínio.

Todos estes personagens estão tão carregados de dualidade moral, que fica difícil eleger um favorito. A estes, junta-se um elenco notável de coadjuvantes, incluindo Michael Kelly, Clancy Brown, Shohreh Aghdashloo e Mark Strong, entre outros. Com seu andar trôpego e conversinha de “homem do povo”, Oz vai colocando todos no bolso, um por vez, e pondo ideias na nossa cabeça: “pelo menos, ele é bom filho”, “gosta do Victor”, “cuida do povo do bairro”, mas, não se engane: o Pinguim é um vilão, não é um anti-herói. Ponto pra todo mundo que se lembrou disso, ao escrever.


Assistindo a esta série, a gente, também, se sente meio enganado pelo “bom” Cobb, porque todas as nossas certezas e expectativas – cultivadas por meio de nossas experiências com clichês de quadrinhos, filmes e séries de super-heróis – são formidavelmente traídas por ela, com suas sutilezas dramáticas e sua descida em espiral sem freios a lugares muito escuros da alma humana. O ruim de que ela seja tão boa é que seu merecido sucesso jogará nossas expectativas muito para cima – não só em relação a uma possível segunda temporada, como em relação a qualquer outro possível/provável derivado deste universo, incluindo aí o segundo filme do Batman, prometido para 2026.

Não é o DCU que temos, mas certamente é aquele que queremos e merecemos. A vida em Gotham não é tão madrasta assim, afinal.

04/11/2024

A Substância

 

A crítica à obsessão por beleza e juventude na sociedade em geral e na indústria de entretenimento em particular já não é novidade. O próprio cinema, onde essa obsessão ainda vigora, já fez sua cota de autocrítica. A Substância é seu mais recente esforço, que se destaca por contar com uma protagonista (Demi Moore) que viveu a pressão para manter-se com o rosto e o corpo jovens que o público supostamente queria ver – normalmente, uma opinião de homens que não viam qualquer problema neles próprios envelhecendo ou embarangando.

A carreira de Elisabeth Sparkle (belo nome para uma drag queen) da fama mundial ao semi-ostracismo é resumida, de forma bastante sucinta e esperta, na sequência de abertura, quando ganha sua estrela na Calçada da Fama de Hollywood – em meio a comentários elogiosos sobre sua beleza e talento – e, conforme avançam os anos passam de maneira acelerada, o tom dos comentários ao redor da placa muda para coisas como “lembra dela?”. De desejado ponto de visitação, vira um lugar por onde as pessoas passam sem qualquer atenção ou cuidado.

Ao completar 50 anos, Elisabeth é “convidada a sair” da emissora onde comanda um programa de fitness da chamada “melhor idade”, em favor do que a direção de seu canal (na pessoa do asqueroso personagem de Dennis Quaid) deseja em seu lugar: alguém mais jovem, mais bonita e capaz de renovar a audiência em baixa. Aos 50, Elisabeth está linda, lúcida e produtiva, mas percebe que se tornou um estorvo, num meio onde a velhice é um pecado imperdoável.

Enquanto lamenta sua nova condição de “idosa” desempregada, ela vê um anúncio de algo chamado simplesmente de A Substância, que promete (mediante instruções de uso bastante específicas) entregar uma nova versão do usuário: mais jovem, mais bonita – melhor, enfim. Levada a um endereço tenebroso, Elisabeth pega seu kit, vai pra casa e, claro submete-se ao misterioso tratamento.

Paramos por aqui, porque dar qualquer detalhe a partir deste ponto estragaria muitas surpresas do filme da diretora francesa Coralie Fargeat (que, antes, havia dirigido apenas um outro filme, o thriller Vingança, de 2017). No Festival de Cannes deste ano, A Substância estava indicado à Palma de Ouro, e saiu com o prêmio de Melhor Roteiro. Se sentir que já viu algum filme com trama bem parecida, você deve estar certo. Mesmo sem ideias tão novas assim, porém, A Substância desvia de soluções óbvias e sua principal virtude é não pisar no freio: quando você achar que já chegou ao limite da maluquice e da nojeira, ele vai lá e empurra o limite um pouco pra mais longe. De certa forma, testa nosso voyeurismo sádico, ao sugerir que chega ao fim algumas vezes – e aí, pof!, tome mais uma sequência ultrajante na cara!

Apesar do gore deslavado, a maravilhosa cinematografia, com seus cenários e planos de câmera, rende homenagem a clássicos do terror. É impossível, por exemplo, ver as cenas nos corredores da emissora e não pensar no hotel de O Iluminado (1980). Como Pearl (2023), outro filme de terror recente carregado de esmero visual, A Substância é bem bonito de assistir – isto é, até que comecem os previsíveis problemas de Elisabeth, que já qualificam o filme como um neoclássico do horror corporal como veículo de crítica social, à moda David Cronenberg.

É gratificante ver Demi Moore, uma atriz que já experimentou todo tipo de altos e baixos na profissão, retornar à relevância com tal categoria, a serviço de uma personagem com a qual certamente se identifica (tendo ela mesma se submetido a transformações artificiais que nem sempre deram certo). Além disso, com o que muita gente já chama de melhor atuação de sua carreira, Demi prova o argumento central do filme, o de que é apenas natural que a juventude se acabe, sem que isso implique em juízo do seu valor ou talento. Rejeitar a passagem do tempo, em nome da vaidade ou de uma utopia de juventude eterna, é terreno fértil para o ridículo e o grotesco. Com A Substância, Demi e Coralie deixaram pouca margem para mal-entendidos. É um filme que não faz prisioneiros, exige coragem pra ser feito e visto. Arme-se de muita!

28/10/2024

Música & Mágica #3


TRAVIS
The Man Who
1999
 
Não é um fenômeno novo, mas é interessante notar como a tristeza foi praticamente criminalizada. Parece que ninguém tem mais o direito a um dia ruim. A galera da positividade tóxica e seus mantras (“reclamar menos, agradecer mais”) estão fazendo das pessoas uma horda de zumbis com sorrisos lindos, cheios de “namastê” nos lábios... e mortos por dentro.
 
Sim, porque sentir tristeza é normal – inevitável, até – e represá-la é criar trauma para si. O modo mais rápido de acabar com ela é usá-la. Logicamente, chega um momento em que sua vontade de ficar em casa sem ver ninguém pode preocupar as pessoas ao seu redor, então, talvez esteja na hora de lembrar que o sol ainda brilha lá fora e gente que te ama sente sua falta, mas, principalmente, que a vida – e, mais ainda, a sua vida – não acabou.
 
Muito dessa recusa em viver a tristeza vem do medo de sofrer, seja por amor, luto ou frustração. É o mesmo medo que leva muita gente a, por exemplo, jamais querer assumir um compromisso amoroso, porque, enfim, pode dar merda e você acabar sozinho, chorando num canto. Acontece que o sofrimento pelas coisas que se acabam ou dão errado é uma das principais ferramentas que talham nosso espírito. É ele que, de verdade, ensina resiliência, não aquele coach que diz que você não está se esforçando o bastante em se alegrar.
 
Claro que, se a sua tristeza não passa e te faz pensar em desistir da vida, seu problema tem outro nome. Procure ajuda.
 
Para mim, no que diz respeito à arte, a tristeza é a mãe da beleza. Ao contrário de muita gente, eu prefiro escutar música triste quando estou triste – justamente para, como dito acima, viver e gastar a tristeza, até que ela passe. Só que eu também gosto de música triste quando estou feliz, simplesmente porque toda aquela emoção (com perdão pelo desfecho pobre) me emociona.
 
Daí que, desde sempre, artistas considerados melancólicos estão entre os meus favoritos: Morrissey, The Cure, Jeff Buckley, Renato Russo, Maria Bethânia... É uma lista longa e triste (e sei que haverá quem diga que é triste por outros motivos). A música dessa gente já embalou muito chororô, saudade, e aquela tristeza que dava do nada, apenas porque eu não conseguia controlar uma espiral de pensamentos intrusivos – que acabava, felizmente. Por outro lado, também, já “animou” muita faxina e dias ensolarados.
 
Não se preocupe, porém: eu também gosto muito de música alegre, claro.
 
Em 1999, a atenção do mundo se voltou a uma nova “grife” de tristeza, vinda da Escócia: a banda Travis, formada por Fran Healy (voz e guitarra), Andy Dunlop (guitarra), Dougie Payne (baixo), e Neil Primrose (bateria). Após um primeiro álbum, Good Feeling (1997), em que a melancolia se escondia entre as altas guitarras que quase o transformavam em um disco de, sei lá, hard rock – ou, pior ainda, um disco ALEGRE, imagina que absurdo – o Travis vestiu o sobretudo preto e voltou triste, feito um desses dias no Reino Unido em que escurece logo cedo e chove sem parar.

Travis: Dunlop, Healy, Primrose e Payne
 
The Man Who é uma coleção de bonitos temas de “miserê” e dor-de-cotovelo, e a gente só consegue imaginar a bagunça em que a cabeça e o coração de Fran Healy pareciam estar. O circo do pop/rock adora epítetos e rótulos e, na época, chamaram Healy de “o último heterossexual sensível do pop”. Um exagero bobo, mas, seja lá quem teve culpa pelo que em sua vida, o fato é que o homem se rasga todo nas 10 canções do disco, com sonoridade mais acústica que no anterior.
 
O primeiro single de The Man Who foi “Why Does It Always Rain on Me?”, em que Healy se vê infeliz, apesar do sucesso que lhe dizem estar desfrutando. “Eu não consigo dormir, todo mundo fica dizendo que está tudo bem”. Temática e musicalmente, o Travis agora parecia menos Oasis e mais The Smiths – e, de verdade, o disco abre com uma música, “Writing to Reach You”, que indica um certo “bode” dos Gallagher: “o rádio está tocando o de sempre / e o que é uma “wonderwall”, afinal?” O riff introdutório lembra o hit do Oasis e não é por acaso.
 
Não pense, entretanto, que porque é essencialmente triste que seja um disco monótono. O Travis estava inspiradíssimo em suas melodias, e várias delas eram ótimas para cantar junto – um fenômeno que veríamos repetido, por exemplo, cinco anos depois, com a estreia do Keane. Você sabe que está fazendo algo de bom quando Sir Paul McCartney diz que gostaria de ter escrito uma de suas músicas, “Turn” – é fácil imaginar um estádio lotado cantando, em uníssono, as agruras de um desajustado pensando em suicídio.
 
A música “alegre” do disco é “Driftwood”, sobre não fazer escolhas no momento certo e deixar as oportunidades passarem. “Luv”, a oitava faixa, é de uma tristeza abissal, amplificada pela gaita que serpenteia entre os versos de um rompimento amoroso unilateral.
 
Para este que vos escreve, porém, o grande momento do disco é a última faixa. “Slide Show” abre com ruídos de portas batendo e sendo trancadas, seguidos pelos de um carro sendo ligado e se afastando. Ela foi embora. (Esta é a história a mim sugerida, pelo menos). Em casa, ele liga o projetor e fica vendo momentos felizes. Fran Healy começa a cantar: “hoje era um dia de dança e cantoria / os pássaros nas árvores e os sinos estão soando /.../ oh, Deus, espero que eu fique bem / porque eu vou chorar”. Da segunda vez em que se canta o que há de mais próximo de um refrão, um breve e lindo verso de cordas se junta ao violão, e vem o nó na garganta. Portas são trancadas novamente. Pra sempre. Acabou.
 
(Na verdade, “Slide Show” termina aos 3:34, seguida por outros três minutos de silêncio, até que comece a não-creditada “Blue Flashing Light”).
 
Já é folclórica, no meio pop, a história de como o Travis tinha tanta moral, naquele fim de século XX, que apadrinhou a chegada do Coldplay. Hoje, os “afilhados” são incomparavelmente mais ricos e famosos, mas olha a música que o Coldplay nos oferece hoje em dia... Há males que vêm pro bem, enfim. The Man Who é um desses discos capazes de fazer a mim, ateu convicto, pedir que Deus abençoe as almas torturadas deste mundo que são capazes de transformar sua dor em arte e beleza, porque, em minha admiração confessamente mesquinha, eu sou incapaz de desejar que elas se curem.

* * * * *

Travis
The Man Who
Produzido por Nigel Godrich, Ian Grimble e Mike Hedges
Lançado em 24 de maio de 1999

01. Writing to Reach You
02. The Fear
03. As You Are
04. Driftwood
05. The Last Laugh of the Laughter
06. Turn
07. Why Does It Always Rain on Me?
08. Luv
09. She's So Strange
10. Slide Show
Faixa oculta: Blue Flashing Light

21/08/2024

Deadpool & Wolverine


Menos de um mês após sua estreia, Deadpool & Wolverine ostenta uma bilheteria bilionária. Já é o segundo maior filme do ano, atrás apenas de Divertida Mente 2. Por mais impressionantes que sejam as cifras, o maior feito do filme é outro: o de desmentir essa história de que existe um cansaço com o gênero de super-heróis. Existe um cansaço compreensível, sim - mas dirigido a filmes ruins, que se tornaram mais a regra que a exceção.

Além de realizar a profecia do próprio personagem de que ele seria “o Jesus da Marvel”, Deadpool & Wolverine mostra que o público ainda tem, sim, bastante interesse pelo MCU e, ainda que alguém queira atribuir seu sucesso apenas ao inigualável carisma da dupla de protagonistas (Ryan Reynolds e Hugh Jackman), D&W tem boas ideias de sobra e honra o legado de seus personagens, seja em papel ou em película.

Aliás, o filme funciona como uma carinhosa elegia à “era Fox” de filmes do gênero, que, entre erros e acertos, divertiu muita gente desde tempos pré-Marvel Studios. Embora o extenso círculo de amizades e o imenso poder de convencimento de Ryan Reynolds tenha garantido algumas presenças ilustres e nostálgicas, em número suficiente para dar um lustro especial a este filme cheio de adrenalina, riso e emoção, muita gente boa ainda ficou de fora – e tudo bem, não se pode ter tudo, mesmo.

Além de ter os amigos certos nos lugares certos, Reynolds tem amor de sobra: pelos quadrinhos em geral, pelo Deadpool em particular e, principalmente, por interpretá-lo. Sim, é verdade que ele e Jackman estão ganhando rios de dinheiro - o que sempre deixa tudo muito mais legal - mas é possível ver que ambos estão, acima de tudo, se divertindo de verdade em fazer este filme juntos. Pode procurar uma featurette qualquer no YouTube e você verá que os dois são amigos de longa data e há tempos buscavam uma oportunidade de trabalhar juntos.

Outro amigo no projeto é o diretor Shawn Levy, canadense como Ryan Reynolds, e que já havia trabalhado tanto com ele (em Free Guy e O Projeto Adam) quanto com Hugh Jackman (em Gigantes de Aço). Levy cria sequências muito divertidas e empolgantes de ação, que nos dão a sensação de estar lendo um belo gibi no sofá de casa, com um sorriso no rosto. Até as sequências emocionais funcionam bem – mas, como se trata de um filme de Deadpool, a esculhambação volta a tomar conta em cinco segundos.

Vale um sincero elogio à Marvel/Disney por não ter “domesticado” os personagens ao inseri-los no MCU. D&W está repleto de morte, mutilação, humor de 5ª série e insinuações sexuais. A Disney pode ser careta, mas não é burra: ela sabe que o público não se interessaria por um Deadpool limpinho, censura livre. Chega ao ponto de aceitar ser seguidamente sacaneada sobre seus fracassos e decisões estúpidas. Ponto pra Reynolds, de novo: ele não apenas sabe rir de si mesmo, como sabe ensinar a fazê-lo.

Ao fim do filme, a gente se sente feliz e gostosamente anestesiado com o banquete de piadas, aparições especiais, menções a fases clássicas e mais easter-eggs do que somos capazes de processar – mas, ei, existe uma boa história aqui! Com seu universo em risco de ser apagado por um agente independente da AVT (aquela da série do Loki), Deadpool vai atrás de um Wolverine pra chamar de seu e salvar todo mundo, mas tem que se contentar com uma versão do herói que deixou seus X-Men e seu mundo morrerem, “o pior Wolverine que existe”. Juntos (e com ajuda de alguns amigos), eles vão enfrentar a AVT, a vilã Cassandra Nova, um exército de Deadpools e, diversas e divertidas vezes, um ao outro.

Não chega a ser um primor de roteiro nem ambiciona ser a pedra angular de qualquer coisa, mas não querer reinventar a roda é justamente uma das maiores qualidades deste filme muito merecedor de seu sucesso, que devolve alguma vida à agonizante Marvel do cinema. Resta saber se ela vai aprender suas lições ou ficar eternamente confiando nos milagres de seu Jesus.

15/07/2024

Sugar

John Sugar (Colin Farrell) é um detetive particular, especializado em encontrar pessoas desaparecidas. Quando o conhecemos, ele está em Tóquio, em busca do filho sequestrado de um chefe da Yakuza. Após voltar a Los Angeles, onde mora, Sugar é contratado pelo magnata do cinema Jonathan Siegel (James Cromwell) para achar sua neta, a problemática Olivia, que já possui histórico de sumiços regados a drogas, mas sempre mantinha contato e sempre acabava voltando. Desta vez, porém, a demora e a falta de notícias deixam o avô preocupado. Investigando o paradeiro da moça (inclusive, a contragosto da agência que o emprega), Sugar vai puxando os fios de um mistério cheio de verdades incômodas.

Se é verdade que a trama de Sugar, nos oito episódios desta sua primeira temporada, não é bem das mais originais, não significa que falte charme ou interesse à série da Apple TV+.

Pra começo de conversa, existe este fascinante protagonista: um detetive cujo trabalho tem sempre muita chance de descambar para a violência, mas que tenta ser razoável e dialogar a cada vez que encara um meliante. Por outro lado, ele também reconhece de longe um mentiroso e mostra-se incansável ao encontrar seus alvos, exibindo um vigor físico e um destemor que contrastam com sua persona calma e amante do cinema e de coisas vintage em geral (como o Corvette Sting Ray 66 que dirige).


Colin Farrell parece divertir-se muito com seu personagem, um tipo que lembra um monge em ternos impecáveis, além de ser portador de uma boa índole inabalável e de uma memória cinematográfica prodigiosa: cada ação sua é pontuada pelo flash de algum clássico de Hollywood, especialmente dos anos 40 e 50, evocado pelas pessoas e acontecimentos ao seu redor.

Embora ambientada no presente, a série tem trama, clima e design de produção imediatamente reconhecíveis como de film noir – exceto, claro, pelo fato de Sugar ser quase uma antítese total dos tipos durões e moralmente dúbios presentes em filmes assim. Ele é bom até a medula, não bebe, fala vários idiomas, e é genuinamente legal com pessoas vulneráveis, seja uma mulher bêbada que flerta com ele ou um mendigo e seu cão na porta do bar onde busca informação. Um tipo que, em mãos menos hábeis, cairia fácil na caricatura ou ganharia nossa antipatia por ser “legal demais”, mas que funciona extremamente bem.


O elenco de apoio não deixa a peteca cair jamais: além do sempre ótimo James Cromwell, outro destaque é Amy Ryan, uma atriz muito talentosa e agradável, que, aos poucos, vai se transformando no que eu entendo como “ex-namoradinha da América”, por jamais tê-lo sido quando mais jovem. Ela lembra uma Meg Ryan mais séria, mais madura, e está por aí há bastante tempo (pode-se vê-la, por exemplo, em The Wire), mas só agora ela está realmente “acontecendo”. Kirby (que abdicou do sobrenome Howell-Baptiste), a Morte de Sandman, faz a melhor amiga e contato da agência por quem o coração de Sugar parece balançar. O ótimo Nate Corddry está em mais um de seus papéis moralmente minúsculos, o neto do personagem de Cromwell.

Créditos sejam dados à charmosa co-direção, dividida entre o nosso Fernando Meirelles (Cidade de Deus) e Adam Arkin (ator e diretor, filho do saudoso Alan Arkin). O roteiro de Mark Protosevich vai muito bem quase o tempo todo, mas, lá pelo sexto episódio, um novo fato sobre John Sugar e a agência coloca a série em um rumo que ainda me pergunto se gosto ou não. Achei o plot twist entre descabido e desnecessário. Minha esperança é que esse novo fato não se torne o foco central de uma possível segunda temporada.

A gente entende melhor o “deslize” quando percebe que Mark Protosevich está apenas sendo ele mesmo, o cara que escreveu filmes divisivos, pra dizer o mínimo, como Eu Sou a Lenda e o primeiro Thor. Apesar de não terminar tão bem quanto começa, Sugar está entre as melhores coisas que o streaming ofereceu no primeiro semestre.