04/08/2026
Retorno do Detetive
20/07/2025
Batman: Acossado
A DC até se esmera na escolha dos roteiristas para o personagem, mas mesmo gente testada e aprovada parece empenhada em dar sua questionável cota de contribuição, adicionando um fato “bobástico" sobre os Wayne. ou sobre algo muito burro que o Batman fez no passado e deu muito ruim no presente. Essas tolices acabam, claro e felizmente, esquecidas em dois tempos, porque, na verdade, a essência original do Batman é forte o suficiente para garantir um chão seguro para qualquer bom argumento: filho de pais amorosos fica órfão de maneira violenta e passa a lutar para garantir que ninguém mais sofra o que ele sofreu. É muito simples e é muito sólido.
Houve um tempo em que inserções no passado do Batman eram feitas de um jeito bem mais elegante, que não mudava o que era intrínseco ao personagem. O título Legends of the Dark Knight – que a Editora Abril trouxe para nós como Um Conto de Batman, a partir de 1991, em forma de minisséries especiais – trazia aventuras dos primeiros anos de atuação do herói, enriquecendo o conhecimento sobre suas motivações e seu treinamento, sem transformá-lo num hipócrita e sem jogar a reputação de seus pais na lama.
Além de serem belas histórias (quase sempre, pelo menos), as capas tinham uma unidade visual que lhe dava muita personalidade. Com o passar dos anos e os sucessivos relançamentos em encadernados, esse charme acabou perdido. Foi numa dessas versões reestilizadas que Acossado voltou pela Panini – e eu, que, volta e meia, me via obrigado a me desfazer de partes de minha coleção a cada mudança (já viram quanto pesa uma caixa de gibis?), aproveitei a chance de ter um de meus Contos de Batman favoritos de volta na estante.
Na história, Batman está em seus primórdios de luta contra o crime: a polícia está em seu encalço e somente o ainda capitão James Gordon apoia sua atuação. Por mais que ajude em capturas e salvamentos, ele ainda é visto como mais um problema pra polícia resolver. A opinião pública e midiática está igualmente dividida, e vários especialistas se dedicam a tentar desvendar sua identidade e suas motivações – entre eles, Hugo Strange, famoso e polêmico psiquiatra. Com a ajuda de uma força-tarefa da polícia de Gotham, liderada pelo disciplinado e obcecado sargento Maxwell Cort, Strange vai chegando cada vez mais perto da verdade sobre o Batman.
Aqui, Doug Moench está em grande fase. Passaram-se mais de 30 anos desde que foi escrita, mas Acossado ainda é lida com grande prazer e, mesmo que os quadrinhos não sejam o meio ideal para grandes aprofundamentos, os insights psicológicos de Hugo Strange nunca descambam para o óbvio ou absurdo. Os momentos em que “personifica” o Batman (com direito a uniforme), emulando a provável linha de raciocínio do herói, chegam a exalar certo erotismo, tamanho o frenesi de Strange a cada conclusão. Não é diferente com Batman/Bruce. Os diálogos são precisos e temos aqui “o Batman que vale”, em qualquer época: um investigador implacável no topo do vigor físico (mas sofrendo as agruras de seu um vigilante pedestre, já que o Batmóvel ainda não está pronto).
Paul Gulacy – um desenhista cujo estilo não me agradou de primeira, quando, na Batman de 1987 da Abril, uma história sua sucedeu o impoluto Ano Um, de David Mazzucchelli – está desenhando o fino, também (impressão apoiada pela ótima arte-final de Terry Austin). Algumas expressões faciais podem lembrar os rostos “de psicopatas” de Gary Frank, mas, vindo do título do Mestre do Kung-Fu, na Marvel, Gulacy impõe ao Batman algumas poses e movimentos bem elegantes. Há ainda uma vibe geral meio Jim Steranko, o que é sempre bom sinal.
De resto, reforço o quanto é bom ler uma história dos tais “bons tempos” que ainda funciona perfeitamente, sem que pareça, por um momento que seja, datada ao ponto de essas inevitáveis diferenças temporais tirarem a atenção do leitor. Acossado é leitura altamente recompensadora.
A segunda metade do encadernado é composta de Terror, história em cinco partes, continuação “direta” de Acossado, lançada onze anos depois, com os mesmos Moench e Gulacy. Nela, Hugo Strange volta ainda mais obcecado e se alia ao Espantalho para atormentar o Batman. Porém, tudo aqui fica muito abaixo da régua estabelecida em 1990. É tudo muito raso e cartunesco, do tom geral da trama aos desenhos bem menos inspirados. Só mesmo o fato de que as histórias falam uma com a outra justificam sua inclusão num livro que poderia ter metade do volume (e do preço), além de ser um perfeito exemplo do que acontece quando artistas não sabem a hora de deixar o próprio legado em paz. Nada que prejudique a reputação da história original, mas, definitivamente, uma lição a ser aprendida.
19/11/2024
Pinguim
Vamos logo falar do elefante no meio da sala: eu não vejo problema na ausência completa do Batman, mesmo em diálogos. Entendo o personagem do filme como sendo um vigilante em início de carreira, o que pode perfeitamente explicar por que ele deixaria de saber ou não consiga atuar sobre os esquemas vistos na série. Ele ainda está aprendendo a ser o Batman – talvez subestimando a escala e o alcance do crime na cidade, por assim dizer.
De maneira semelhante, tampouco o Pinguim já é aquele bandidão estabelecido dos quadrinhos: neste universo e neste momento, está mais para empregadinho do que para chefão. No calor dos eventos depois da morte de Carmine Falcone, em Batman, Oswald “Oz” Cobb tenta se apoderar de um trunfo que pode permitir-lhe alguma ascensão no mundo do crime em Gotham. Ao invadir o escritório de seu finado patrão, porém, ele age no calor da emoção e do orgulho, cometendo o ato que põe em marcha seu plano - que ele nem sabe muito bem ainda qual é.
Lembra do selo HBO de qualidade a que me referi lá no começo? Pois bem, ele é perceptível em cada fotograma de cada um dos oito episódios de Pinguim. Desde os cenários daquela que talvez seja a melhor Gotham City das telas, passando pelo roteiro que privilegia o clima noir da história, até desembocar nas atuações simplesmente acachapantes do elenco principal, tudo é de altíssima qualidade. Em sua maquiagem espantosa, Colin Farrell já havia “sumido” em seu personagem no filme de 2022, mas o que ele alcança aqui, com maior tempo de tela e desenvolvimento, certamente o conduzirá a uma gorda temporada de prêmios. Oz é o mafioso mais carismático da TV desde Walter White, de Breaking Bad.
Seu mais constante parceiro de cena, a revelação Rhenzy Feliz, intérprete do inesperado sidekick Victor Aguilar, tem a inocência hesitante de quem se vê arrastado pra dentro de um mundo que não é o seu e se deslumbra com o que pode conseguir dele, mas que abomina a ideia de recorrer à violência, ainda que isso nem sempre o detenha.
Todos estes personagens estão tão carregados de dualidade moral, que fica difícil eleger um favorito. A estes, junta-se um elenco notável de coadjuvantes, incluindo Michael Kelly, Clancy Brown, Shohreh Aghdashloo e Mark Strong, entre outros. Com seu andar trôpego e conversinha de “homem do povo”, Oz vai colocando todos no bolso, um por vez, e pondo ideias na nossa cabeça: “pelo menos, ele é bom filho”, “gosta do Victor”, “cuida do povo do bairro”, mas, não se engane: o Pinguim é um vilão, não é um anti-herói. Ponto pra todo mundo que se lembrou disso, ao escrever.
Não é o DCU que temos, mas certamente é aquele que queremos e merecemos. A vida em Gotham não é tão madrasta assim, afinal.







