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04/08/2026

Retorno do Detetive


Uma crítica do quadrinho
Batman: Padrões Sombrios

Recentemente, tomei uma decisão radical: resolvi que vou quase zerar minha compra de quadrinhos. Exceto por algumas séries e fases que ainda desejo concluir, o plano é ficar apenas com A Saga do Batman e talvez, TALVEZ, a revista mensal de linha do personagem, que vem em boa fase. Dediquei 40 de meus 53 anos ao colecionismo de HQs, mas, agora, geralmente me falta tempo para ler tudo que compro - e, honestamente, às vezes me falta vontade. Olho para aquela estante cheia de livros ainda no plástico e, com frequência, fico pensando, "eu nunca vou (re)ler isso". Acho que já chega.

Sobre essa decisão, tenho ainda outra certeza: há muita coisa boa na minha coleção, mas, sem dúvida, os quadrinhos do Batman são aqueles que mais me doerá passar pra frente. Meu personagem favorito já está à beira dos 90 anos (e do domínio público) e muito já foi experimentado com ele - e não apenas em versões alternativas: o cânone do personagem já foi reimaginado mais vezes do que consigo me lembrar. Retcons, reboots, revamps... Pense numa "modinha" editorial qualquer: o Batman já passou por ela.

Embora alguns escritores ocasionalmente se esqueçam do fato de que o Batman é apenas um homem (ainda que no ápice da disciplina física e mental que se pode alcançar), colocando-o como alguém que antevê absolutamente tudo e dono de brinquedos tecnológicos que praticamente trabalham por ele, a essência original do personagem é sua versão mais cativante: um detetive que se preparou ao máximo para combater o crime e evitar que sua tragédia (o assassinato de seus pais) se repetisse com outros. Bobagens como backups mentais, robôs assassinos, e "babados" diversos envolvendo sua família empalidecem ante a força de suas características mais fundamentais.

"Só dói quando eu existo"

Foi por isso que, ao ler Batman: Dark Patterns em versão original digital, entre dezembro de 2024 e novembro de 2025, eu tive uma certeza muito forte: eu queria ter essa série na minha estante, em bom português e papel gostoso. Ironicamente, ela aportou nas nossas bancas quando decidi me afastar dos quadrinhos, mas, paciência. Tudo que há de certo e de bom sobre o Batman é visto nas tramas desenvolvidas ao longo de 12 edições, seis das quais compõem este primeiro volume. Batman: Padrões Sombrios é um golaço da DC - um gibi quase conservador, curiosamente, num período de grande reinvenção da editora, com a linha Absolute vendendo feito pão quentinho, varrendo as premiações e ditando tendência.

Dan Watters (Asa Noturna) escreve e Hayden Sherman (Absolute Mulher-Maravilha) desenha a série, ambientada no terceiro ano de atividade do Batman. Na primeira história, em três partes, ele investiga uma onda de assassinatos com pouca relação entre si e confronta um adversário de visual assustador, contra o qual sua força física pouco vale. O Homem-Ferida é uma autêntica criatura de pesadelos, de fazer o Pinhead de Hellraiser parecer um bichinho de pelúcia, com uma gênese trágica e uma motivação convincente. Se era de uma abertura impactante que o leitor precisava, "Nós Somos os Feridos" não deixa por menos.

"Cês tão pensando que eu sou o Batman do Tom King?"

Na segunda metade, um vilão clássico, Scarface, ressurge no comando de um edifício cuja própria arquitetura já representa um desafio, mas ainda abriga seguidores insanos e perigosos do boneco - e Arnold Wesker (chamado de "Albert", a certa altura, num erro que veio do original e a Panini manteve), o Ventríloquo, pode nem ser o maior de seus problemas. "A Voz da Torre" tem grandes momentos de Hayden Sherman, um artista que faz excelente uso de diagramações pouco óbvias e desenha um Batman que é puro Tim Sale, só que com narizes melhores. A sequência em que ele abre caminho distribuindo porrada por três andares é o tipo de coisa que amamos ver o Batman fazer.

Com o segundo volume já anunciado para setembro, Batman: Padrões Sombrios é o tipo de série que, ao longo das últimas quatro décadas, me fez perseverar em minha fé nos quadrinhos de super-heróis. É para presenciar momentos assim que a gente suporta Gotham destruída, o vai-e-vem da fortuna de Bruce Wayne, a degradação moral imposta a seus pais e a ainda não revertida perda de Alfred Pennyworth. Os escritores medíocres têm uma incrível sorte em contar com gente como Watters e Sherman para recolocar o universo e o coração do leitor de volta no eixo. Quadrinho obrigatório, mesmo para quem jurou que está parando.

20/07/2025

Batman: Acossado


Qualquer um que tenha lido os quadrinhos de linha do Batman, nos últimos 15 ou 20 anos, certamente se deparou com uma manobra constante: a de inserir novos fatos “chocantes” no passado do personagem. As vítimas preferenciais da apelação são os pobres Thomas e Martha Wayne, difamados e maltratados até não poder mais – porque, afinal, um cara que se mete em uma fantasia de morcego para socar bandidos à noite só pode ser muito dodói das ideias, né, e seu trauma seguramente vem mais do fato de que seus pais eram uns merdas do que exatamente de sua morte, segundo um psicologismo raso e bobo, que já se prolongou por muito mais tempo do que deveria.

A DC até se esmera na escolha dos roteiristas para o personagem, mas mesmo gente testada e aprovada parece empenhada em dar sua questionável cota de contribuição, adicionando um fato “bobástico" sobre os Wayne. ou sobre algo muito burro que o Batman fez no passado e deu muito ruim no presente. Essas tolices acabam, claro e felizmente, esquecidas em dois tempos, porque, na verdade, a essência original do Batman é forte o suficiente para garantir um chão seguro para qualquer bom argumento: filho de pais amorosos fica órfão de maneira violenta e passa a lutar para garantir que ninguém mais sofra o que ele sofreu. É muito simples e é muito sólido. 

Houve um tempo em que inserções no passado do Batman eram feitas de um jeito bem mais elegante, que não mudava o que era intrínseco ao personagem. O título Legends of the Dark Knight – que a Editora Abril trouxe para nós como Um Conto de Batman, a partir de 1991, em forma de minisséries especiais – trazia aventuras dos primeiros anos de atuação do herói, enriquecendo o conhecimento sobre suas motivações e seu treinamento, sem transformá-lo num hipócrita e sem jogar a reputação de seus pais na lama.

Além de serem belas histórias (quase sempre, pelo menos), as capas tinham uma unidade visual que lhe dava muita personalidade. Com o passar dos anos e os sucessivos relançamentos em encadernados, esse charme acabou perdido. Foi numa dessas versões reestilizadas que Acossado voltou pela Panini – e eu, que, volta e meia, me via obrigado a me desfazer de partes de minha coleção a cada mudança (já viram quanto pesa uma caixa de gibis?), aproveitei a chance de ter um de meus Contos de Batman favoritos de volta na estante.

Na história, Batman está em seus primórdios de luta contra o crime: a polícia está em seu encalço e somente o ainda capitão James Gordon apoia sua atuação. Por mais que ajude em capturas e salvamentos, ele ainda é visto como mais um problema pra polícia resolver. A opinião pública e midiática está igualmente dividida, e vários especialistas se dedicam a tentar desvendar sua identidade e suas motivações – entre eles, Hugo Strange, famoso e polêmico psiquiatra. Com a ajuda de uma força-tarefa da polícia de Gotham, liderada pelo disciplinado e obcecado sargento Maxwell Cort, Strange vai chegando cada vez mais perto da verdade sobre o Batman.

Aqui, Doug Moench está em grande fase. Passaram-se mais de 30 anos desde que foi escrita, mas Acossado ainda é lida com grande prazer e, mesmo que os quadrinhos não sejam o meio ideal para grandes aprofundamentos, os insights psicológicos de Hugo Strange nunca descambam para o óbvio ou absurdo. Os momentos em que “personifica” o Batman (com direito a uniforme), emulando a provável linha de raciocínio do herói, chegam a exalar certo erotismo, tamanho o frenesi de Strange a cada conclusão. Não é diferente com Batman/Bruce. Os diálogos são precisos e temos aqui “o Batman que vale”, em qualquer época: um investigador implacável no topo do vigor físico (mas sofrendo as agruras de seu um vigilante pedestre, já que o Batmóvel ainda não está pronto).

Paul Gulacy – um desenhista cujo estilo não me agradou de primeira, quando, na Batman de 1987 da Abril, uma história sua sucedeu o impoluto Ano Um, de David Mazzucchelli – está desenhando o fino, também (impressão apoiada pela ótima arte-final de Terry Austin). Algumas expressões faciais podem lembrar os rostos “de psicopatas” de Gary Frank, mas, vindo do título do Mestre do Kung-Fu, na Marvel, Gulacy impõe ao Batman algumas poses e movimentos bem elegantes. Há ainda uma vibe geral meio Jim Steranko, o que é sempre bom sinal.

De resto, reforço o quanto é bom ler uma história dos tais “bons tempos” que ainda funciona perfeitamente, sem que pareça, por um momento que seja, datada ao ponto de essas inevitáveis diferenças temporais tirarem a atenção do leitor. Acossado é leitura altamente recompensadora.

A segunda metade do encadernado é composta de Terror, história em cinco partes, continuação “direta” de Acossado, lançada onze anos depois, com os mesmos Moench e Gulacy. Nela, Hugo Strange volta ainda mais obcecado e se alia ao Espantalho para atormentar o Batman. Porém, tudo aqui fica muito abaixo da régua estabelecida em 1990. É tudo muito raso e cartunesco, do tom geral da trama aos desenhos bem menos inspirados. Só mesmo o fato de que as histórias falam uma com a outra justificam sua inclusão num livro que poderia ter metade do volume (e do preço), além de ser um perfeito exemplo do que acontece quando artistas não sabem a hora de deixar o próprio legado em paz. Nada que prejudique a reputação da história original, mas, definitivamente, uma lição a ser aprendida.

19/11/2024

Pinguim


Mesmo com o selo HBO de qualidade (quase sempre, uma garantia de produtos minimamente bem-cuidados), nem o mais otimista espectador poderia prever que uma série do Pinguim, adaptada do filme Batman (2022), de Matt Reeves, estaria entre as melhores coisas vistas na televisão nesta década. Ninguém estava preparado para tamanha profundidade psicológica ou tão adequada atmosfera noir. Inclusive, muita gente deve ter imaginado que havia grande chance de esta série estragar o legado de Batman, mas ela não apenas subverte essa expectativa como, na verdade, deixa o universo do filme mais rico e interessante.

Vamos logo falar do elefante no meio da sala: eu não vejo problema na ausência completa do Batman, mesmo em diálogos. Entendo o personagem do filme como sendo um vigilante em início de carreira, o que pode perfeitamente explicar por que ele deixaria de saber ou não consiga atuar sobre os esquemas vistos na série. Ele ainda está aprendendo a ser o Batman – talvez subestimando a escala e o alcance do crime na cidade, por assim dizer.

De maneira semelhante, tampouco o Pinguim já é aquele bandidão estabelecido dos quadrinhos: neste universo e neste momento, está mais para empregadinho do que para chefão. No calor dos eventos depois da morte de Carmine Falcone, em Batman, Oswald “Oz” Cobb tenta se apoderar de um trunfo que pode permitir-lhe alguma ascensão no mundo do crime em Gotham. Ao invadir o escritório de seu finado patrão, porém, ele age no calor da emoção e do orgulho, cometendo o ato que põe em marcha seu plano - que ele nem sabe muito bem ainda qual é.


Daí por diante, o instinto de sobrevivência e a habilidade de Oz para contar mentiras (ou meias-verdades convenientes) serão testados a cada episódio, porque a única coisa que supera sua capacidade de escapar de situações mortais é sua tendência de cair em outra mais à frente (ou criá-las ele próprio). Todo o submundo de Gotham sabe que a palavra de Oz Cobb vale muito pouco, mas, de alguma forma, ele consegue transitar entre lados rivais, jurando lealdade a quem lhe pode ser mais imediatamente útil, apenas para trair seus “aliados” logo em seguida.

Lembra do selo HBO de qualidade a que me referi lá no começo? Pois bem, ele é perceptível em cada fotograma de cada um dos oito episódios de Pinguim. Desde os cenários daquela que talvez seja a melhor Gotham City das telas, passando pelo roteiro que privilegia o clima noir da história, até desembocar nas atuações simplesmente acachapantes do elenco principal, tudo é de altíssima qualidade. Em sua maquiagem espantosa, Colin Farrell já havia “sumido” em seu personagem no filme de 2022, mas o que ele alcança aqui, com maior tempo de tela e desenvolvimento, certamente o conduzirá a uma gorda temporada de prêmios. Oz é o mafioso mais carismático da TV desde Walter White, de Breaking Bad.

Seu mais constante parceiro de cena, a revelação Rhenzy Feliz, intérprete do inesperado sidekick Victor Aguilar, tem a inocência hesitante de quem se vê arrastado pra dentro de um mundo que não é o seu e se deslumbra com o que pode conseguir dele, mas que abomina a ideia de recorrer à violência, ainda que isso nem sempre o detenha.


A grande e magnética surpresa da série, porém, é Cristin Milioti, intérprete de Sofia Falcone. Desde sua primeira cena, é impossível desviar nossos olhos dos seus, dois globos repletos de trauma, inteligência e rancor – inclusive, contra o Pinguim. Fosse outra série, eu talvez estivesse tentado a dizer que ela rouba a série para si, mas a concorrência de Milioti é duríssima: além de Farrell e Feliz, quem também dá um show é Deirdre O’Connell, no papel de Francis Cobb, a sequelada mãe de Oswald, que mantém com ele uma complexa relação de dependência e domínio.

Todos estes personagens estão tão carregados de dualidade moral, que fica difícil eleger um favorito. A estes, junta-se um elenco notável de coadjuvantes, incluindo Michael Kelly, Clancy Brown, Shohreh Aghdashloo e Mark Strong, entre outros. Com seu andar trôpego e conversinha de “homem do povo”, Oz vai colocando todos no bolso, um por vez, e pondo ideias na nossa cabeça: “pelo menos, ele é bom filho”, “gosta do Victor”, “cuida do povo do bairro”, mas, não se engane: o Pinguim é um vilão, não é um anti-herói. Ponto pra todo mundo que se lembrou disso, ao escrever.


Assistindo a esta série, a gente, também, se sente meio enganado pelo “bom” Cobb, porque todas as nossas certezas e expectativas – cultivadas por meio de nossas experiências com clichês de quadrinhos, filmes e séries de super-heróis – são formidavelmente traídas por ela, com suas sutilezas dramáticas e sua descida em espiral sem freios a lugares muito escuros da alma humana. O ruim de que ela seja tão boa é que seu merecido sucesso jogará nossas expectativas muito para cima – não só em relação a uma possível segunda temporada, como em relação a qualquer outro possível/provável derivado deste universo, incluindo aí o segundo filme do Batman, prometido para 2026.

Não é o DCU que temos, mas certamente é aquele que queremos e merecemos. A vida em Gotham não é tão madrasta assim, afinal.