Eu entrei na década de 1980 com sete anos de idade. Os males da época, como ditadura, inflação, reserva de mercado e outros, não me preocupavam. Eu só queria saber de ler os gibis da Disney e da Turma da Mônica. Com o tempo, descobri Marvel e DC. Lia os meus, de amigos, de parentes. A bem da verdade, eu lia qualquer coisa que caísse nas mãos. Era meio como um tique nervoso.
Porém, quase um ano antes de começar a
comprar gibis com meu próprio dinheiro (hábito que jamais abandonei totalmente,
ao longo dos últimos 40 anos), me vi acometido por outras duas paixões: uma de
ouvir e uma de ler.
A primeira delas já se insinuava para mim
havia algum tempo: o rock and roll. Uma das memórias mais antigas que tenho é a
de estar na casa de meus padrinhos, em Feira de Santana, por volta de 1979 e,
insistentemente, repetir “(I Can’t Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones,
em seu toca-discos. Eu não fazia ideias das palavras que Mick Jagger estava
proferindo – eu não sabia sequer quem era Mick Jagger! – mas isso não
importava: aquela batida, aquela melodia e aquele refrão me pegaram de tal
maneira naquele momento que, quase 50 anos depois, aqui estou eu falando deles.
Em minha própria casa, eu me lembro que meu pai tinha, entre outros, a
coletânea Shaved Fish e o álbum Double Fantasy, de John Lennon. “Mind Games”,
“Instant Karma”, “Woman” e “(Just Like) Starting Over” tocavam até dizer chega
– principalmente porque, pouco depois de lançar Double Fantasy, Lennon
seria morto a tiros, e a comoção foi geral.
Em janeiro de 1985, meu amor pelo rock foi
confirmado, carimbado e assinado em três vias timbradas com o acontecimento do
primeiro Rock in Rio. Aquelas pessoas estranhas e legais, que eu já acompanhava
por programas de clipes e FMs, estavam ali, “pertinho” (elas, no Rio; eu, em Ibotirama, no
remoto oeste baiano), e eu sempre queria assistir aos compactos que a Globo
exibia nas tardes de sábado. Ao lado de grandes nomes estrangeiros, estavam
muitas das bandas que, nos últimos cinco anos, estavam dando forma a um rock
brasileiro totalmente diferente do modelo que existiu por aqui em décadas
anteriores. Entrando na adolescência, eu me via muito ligado naquilo tudo. O
rock era o momento.
Em agosto do mesmo ano, surgia minha
segunda grande paixão: a revista Bizz, dedicada à música em geral, mas com foco
majoritário no rock. Era anunciada na Globo em comerciais engraçadinhos, protagonizados
por Marcelo Tas. As três primeiras traziam Bruce Springsteen, Madonna e Nina
Hagen nas capas. A primeira que comprei foi a quarta edição, com Gilberto Gil. Longe
demais de qualquer grande centro, onde eu pudesse sintonizar uma FM rockeira qualquer,
era impossível reconhecer 95% dos nomes que eu lia nela. Mesmo assim, a Bizz
foi, pouco a pouco, tornando-se uma espécie de oráculo musical para mim,
moldando meus gostos e minhas opiniões – e isso, em alguns casos, revelava-se
um problema que eu demorava a reconhecer. Ao longo dos anos, tive que derrubar
muitos preconceitos musicais que eu ergui com ajuda da revista.
Apesar disso, a Bizz mais me ajudou do que
prejudicou. Foi por meio dela que conheci vários de meus artistas favoritos até
hoje em dia. Seus articulistas eram gente que acabava virando “amigos”
distantes para o adolescente solitário e em conflito que eu era. Escrever para
ela era um sonho que movia certa ambição minha de ser jornalista (carreira que nunca
persegui). Minhas edições eram cuidadosamente dispostas em minha estante e
relê-las era um perpétuo prazer. Ela acabou duas vezes: a primeira, em 2001.
Depois, voltou para mais uma temporada em 2005, acabando de vez em 2007. Não
houve e não haverá revista como a Bizz – até porque, hoje em dia, quem ainda compra
revista?
O editor que reabriu e fechou as portas foi Ricardo
Alexandre, cuja obra autoral inclui um dos livros que me ajudaram a eleger
biografias como meu gênero literário favorito: o ótimo Nem Vem que Não Tem: a Vida e
o Veneno de Wilson Simonal. É ele o autor de Dias de Luta: o Rock e o Brasil
dos Anos 80, um belíssimo relato da dor e da delícia daqueles tempos em que
citar Caetano Veloso, como fiz agora, era um tremendo vacilo. Sua primeira publicação
data de 2002, mas a edição que li foi a comemorativa de 10 anos, com novas
anotações.
O autor Ricardo Alexandre
Em mais de 400 páginas, Dias de Luta
detalha o clima que reinava no país, naquela virada de década dos 70 pros 80,
quando o Brasil aos poucos se abria para o mundo, com uma juventude sedenta por
uma renovação cultural que escapasse, com igual desenvoltura, da sanha
moralista do governo e do pedantismo que havia tomado conta da MPB “oficial”: como na
profética canção de Belchior, os ídolos ainda eram os mesmos, e os mais jovens não
se viam refletidos neles.
Acertadamente, o autor estabelece o disco
homônimo de Rita Lee de 1979 (aquele com “Mania de Você” e “Doce Vampiro”) como
a pedra fundamental da linguagem musical da década à frente e, se você estava
vivo então, certamente se lembra do furacão que ele representou. Já a partir de
1980, as coisas começariam a tomar formas loucas e seguir caminhos inesperados,
com uma naturalidade contagiante. Em pouco tempo, quando ficou impossível negar
a juventude como uma força de consumo, os olhos da indústria se voltariam para
o novo rock brasileiro e, para o bem e para o mal, as coisas nunca mais seriam
as mesmas.
De Gang 90 & As Absurdettes em 1980
aos Inimigos do Rei em 1989, a linha evolutiva do rock nacional é destrinchada
com precisão por Ricardo Alexandre, que destaca, em relatos mais extensos, as
bandas e artistas que formaram a linha de frente do rock nacional, como Blitz, Barão
Vermelho, Os Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, RPM, Titãs, Ira! e Legião Urbana.
Ainda que as frentes carioca (do “rock de bermudas”) e paulista (dos punks e
alternativos) tenham predominância, existe espaço para comentar cenas menores,
como as de Brasília, Porto Alegre e Belo Horizonte.
As histórias de bastidores e entrevistas
ajudam a elucidar episódios que, para mim, ainda eram nebulosos – menos por
falta de fontes e mais por mero esquecimento de buscar a verdade – como as
razões para o fim da Blitz e para o sumiço da obra de João Penca & Seus
Miquinhos Amestrados, e por que tantos artistas de sucesso jamais eram vistos
no programa do Chacrinha, entre outros.
As histórias de formação das bandas e os bastidores das gravadoras e shows renderiam (algumas até já renderam) livros à parte, tantos que são os lances de sorte e azar, esperteza e burrice, amor e ódio, ruína e superação. Dias de Luta funciona como um muito eficiente resumo da trajetória de uma geração que, na raça, peitou e subverteu as regras do jogo, criando todo um contexto cultural que se estendeu para muito além da música. De tudo, porém, foi principalmente ela que ficou, e o grande barato da leitura é revirar nossa própria memória e perceber que foi sensacional estar vivo para testemunhar, de perto ou de longe, em tempo mais ou menos real, os impactantes eventos reunidos nestas páginas. Belíssimo livro.