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13/08/2026

Música & Mágica #15


FINE YOUNG CANNIBALS
The Raw and the Cooked
1989

No distante rincão do oeste baiano onde eu morava em 1985, minhas maiores chances de ouvir o fino do pop internacional contemporâneo estavam com as trilhas de novelas e os programas de videoclipes da época, como o Clip Clip da Globo ou o FMTV da Manchete. A partir daí, o próximo passo era encomendar a gravação de uma mixtape na loja de discos local. Escolhido o repertório (e uma Basf cromo, se possível), era esperar a bichinha ficar pronta e partir pro abraço.

Naquele ano, qualquer faixa do autointitulado disco de estreia do Fine Young Cannibals que tenha passado nesses programas a) foi ignorada por mim, ou b) passou num dia em que não assisti. Fato é que, embora lesse sobre a banda e o disco na revista Bizz, por muito tempo, eu não tive a menor noção de como soavam "Johnny Come Home" e sua cover de "Suspicious Minds", por exemplo.

Em 1990, tive a chance de morar em Goiânia, com lojas muito mais variadas e várias boas rádios FM ao meu alcance. Quando cheguei por lá, já estava familiarizado com "She Drives Me Crazy", um dos maiores hits e uma favorita pessoal do ano anterior. Também já tinha escutado "Don't Look Back" e "Good Thing", mas fui ainda mais exposto a elas através de comerciais de TV, ou da sorte de estar sintonizado na rádio certa, na hora certa.

Naquele tempo, não era comum que um segundo álbum levasse tanto tempo (quatro anos!) desde uma estreia de sucesso. Roland Gift (voz), Andy Cox (guitarras) e David Steele (baixo, teclados e drum machine), porém, não tiveram pressa em preparar um segundo disco, pelo fato de que haviam se juntado para fazer música por amor à música em si. Que bom que também dava pra ganhar dinheiro, claro, mas não era apenas isso que os movia.

Com seu som de caixa muito característico, "She Drives Me Crazy" era imediatamente reconhecível. O vocal de Gift se dividia entre o falsete dos versos e a entrega visceral do refrão. Sobre a base rítmica genial de David Z (produtor que havia trabalhado com Prince), a guitarra de Cox era ora funkeada, ora distorcida. Tinha tudo para dar errado, mas dava incrivelmente certo. Um clássico instantâneo.

Em partes iguais muito vintage e muito moderna, "Good Thing" tinha uma levada Motown/Stax de guitarra, baixo, bateria e piano, abrigando o lamento de Gift sobre não superar a partida da mulher que ele bestamente perdeu. Quando colocar batida de hip-hop em uma canção romântica ainda era um tipo de transgressão, os FYC nos deram "I'm Not the Man I Used to Be", com suas dúvidas cruéis: "me pergunto no que você está pensando / me pergunto por que estou bebendo / mas está na cara / eu não sou o homem que eu era".


Cox, Gift e Steele: diversão acima de tudo

O álbum é inteiro sobre coisas do coração. O som vai do soul quase ortodoxo de "Tell Me What" à levada rock de "Don't Look Back", com suas guitarras fenomenais e refrão empolgante. As batidas black eram o que havia de mais moderno naquele fim de década e o álbum teve impressionantes SETE singles entre suas meras dez faixas. Apesar disso, "Don't Let It Get You Down" é um vacilo, quase uma brincadeira estridente, enquanto "As Hard As It Is" tem firulas vocais que devem ter provocado ligações no meio da noite de Mike Patton (Faith No More) para Roland Gift.

Se o pique cai um pouco perto do fim, a retomada é espetacular na conclusão: a cover de "Ever Fallen in Love", dos Buzzcocks, é um exemplo perfeito de como fazer uma versão que melhora muito a original, desacelerando e adicionando peso e drama (afinal, a letra é sobre um dilema sexual), onde antes só havia distorção e pressa. Os Buzzocks devem aos Fine Young Cannibals a sobrevida de sua canção no imaginário popular .

O sucesso mundial rendeu uma pressão enorme por parte da gravadora, que exigia dos FYC um terceiro disco mais rápido do que eles se achavam capazes de fazer (isto é, dentro dos padrões de qualidade e diversão que estabeleceram para si). Houve também muito disse-me-disse sobre possíveis trocas na formação e sobre como a banda era "Gift e mais dois". A deixar que a fofoca e a cobrança por resultados (leia-se dinheiro) estragassem a coisa toda, o trio achou melhor simplesmente debandar, encerrando suas atividades no auge.

Anos depois, quando o Brasil finalmente ganhou um mercado de home video musical decente, fui apresentado ao maravilhoso filme-concerto Fine Young Cannibals Live at the Paramount (1990), onde finalmente pude conhecer, junto às faixas de The Raw and the Cooked, grande parte do repertório do primeiro álbum. Ao charme natural de frontman de Roland Gift e o jeitão "boneco de posto" de Cox e Steele, havia o acréscimo da presença graciosa e versátil do sexteto vocal feminino The Mint Juleps. Uma delícia de ver e ouvir, e registro definitivo de um trio pop que implodiu sob o peso da própria genialidade.


* * * * *

Fine Young Cannibals
The Raw and the Cooked

Produzido por Fine Young Cannibals, Jerry Harrison e David Z
Lançado em 13 de janeiro de 1989

1. She Drives Me Crazy
2. Good Thing
3. I'm Not the Man I Used to Be
4. I'm Not Satisfied
5. Tell Me What
6. Don't Look Back
7. It's OK (It's Alright)
8. Don't Let It Get You Down
9. As Hard As It Is
10. Ever Fallen in Love

16/07/2026

Música & Mágica #14


ALANIS MORRISSETTE
Jagged Little Pill
1995

Em 1995, ainda faltava quase uma década para Pitty emergir como artista e, apesar dos esforços de todas que vieram antes dela (Rita Lee, Marina Lima, e até Marisa Monte), o pop rock brasileiro ainda era um terreno não apenas dominado por homens, mas, também, bastante machista. No ano anterior, os Raimundos haviam estreado com um disco arrasador, no qual as letras cômicas ajudavam a distrair um pouco o ouvinte do fato de que eles tratavam mulher feito lixo. No primeiro disco de Jorge Cabeleira, do mesmo 1994, "A História do Zé Pedrinho" terminava com "cinco tiros na cara daquela quenga safada". Vista sob a lente da vivência que só o passar no tempo permite, era uma época bem preocupante, mas éramos mais jovens e estávamos ocupados demais nos divertindo pra perceber.

Lá fora, não era muito melhor: o gangsta rap crescia e tomava as paradas, e "bitch" era o termo mais carinhoso que se ouvia, mas mulheres como Queen Latifah e Salt-N-Pepa botavam o dedo na cara dos fulaninhos e ajudavam as garotas a se sentirem mais donas de si. No rock, estava a pleno vapor o movimento Riot Grrrls, de bandas como Bikini Kill e L7, além de moças como PJ Harvey, Fiona Apple e Melissa Etheridge, todas cansadas de um sistema e de indivíduos que sempre as arrastavam para baixo nas relações pessoais e profissionais.

Lá no Canadá, a coisa bateu especialmente forte para uma cantora adolescente que havia lançado dois álbuns de pop que venderam muito mal e já ensaiava uma postura contrária à que esperavam dela na gravadora que a dispensou. Alanis Morrissette saiu de Ontário e foi viver em Los Angeles, nos EUA. Numa sucessão de acasos felizes, Alanis conheceu o empresário Scott Welch e, em seguida, o compositor e produtor Glen Ballard. Ambos acreditaram no talento vocal e poético da moça e a levaram para um selo feminista em essência: o hoje finado Maverick, co-dirigido por Madonna.

O primeiro fruto dessa união deveria ter vendido apenas o bastante pra Alanis garantir um novo álbum, mas a coisa simplesmente saiu do controle: apesar de toda a raiva e frustração de sua letra sobre irresponsabilidade emocional, "You Oughta Know", escolhida como primeiro single, explodiu em popularidade. Foi um divisor de águas tão potente na carreira de Alanis que muita gente, ainda hoje, pensa que Jagged Little Pill foi seu primeiro disco. Para mim, acostumado que estava a ouvir mulheres apenas no pop dançante ou romântico, foi um gratificante choque ouvir aquela garota de 19 anos esbravejar ao microfone, sobre a guitarra agressiva de Dave Navarro e o baixo pulsante de Flea, dos Red Hot Chili Peppers: "e eu estou aqui pra te lembrar da bagunça que você deixou ao ir embora".

Ao longo das suas 12 faixas (13 no CD, que tinha um mix alternativo de "You Oughta Know"), Jagged Little Pill é Alanis Morrissette chorando as pitangas de relacionamentos frustrados, reclamando da imaturidade de homens que esperam muito sem oferecer o mínimo em troca, e deixando claro que ela faz suas próprias escolhas e vive em paz com elas. No segundo single, "You Learn", ela diz que está tudo bem em surtar um pouco quando preciso: "eu recomendo meter os pés pelas mãos sempre que der, sinta-se livre". Cheia de anticonselhos, Alanis soava como alguém chapada de tranquilizantes sobre a batida malemolente, sampleada de "Mr. Loverman", de Shabba Ranks.

Por outro lado, o disco não era só choro e ranger de dentes: no belíssimo folk "Head Over Feet", Alanis é só elogios para o homem que consegue ser, ao mesmo tempo, namorado e melhor amigo: "você é o melhor ouvinte que já conheci / obrigado por sua paciência". Na indefectível "Ironic", ela lista uma série de reveses (nem sempre irônicos) em um tom comicamente resignado: "é como conhecer o homem de meus sonhos / e depois conhecer sua linda esposa". A lição é que coisas ruins acontecem quando a gente está distraído com as coisas boas, mas que a vida continua.

Alanis: "deu mole pra caramba, tremendo vacilão!"

Não é só nas letras que Alanis se destaca: dona de uma voz potente e cheia de maneirismos (que podem fascinar ou irritar, com pouca chance de meio-termo), ela e Ballard acertaram em cheio na execução, num equilíbrio difícil entre a potência do rock e a suavidade baladeira do pop. A música eficiente com certeza ajudou a mensagem de Alanis a afagar o coração das meninas e apunhalar o ego dos meninos - e por mais que algum deles possa dizer que ela canta essas coisas porque "não gosta de homem", a verdade é que quem não deve, não teme.

Pensar nisso me traz à memória alguém que conheci em 2001, um estadunidense em torno dos 35 anos, que visitava o Brasil com a família, para a qual trabalhei como intérprete. Em meio a uma conversa sobre meus ídolos na música, eu mencionei que estava ouvindo bastante este disco de Alanis, o que lhe fez comentar "she's a dangerous woman" (ela é uma mulher perigosa), com base na letra de "You Oughta Know". Imagine o que ele diria sobre "Your House", a faixa escondida do CD, uns cinco minutos após a última, em que ela invade a casa vazia do ex-namorado, vasculha suas coisas e chora em sua cama...

Lembrem-se de tratar bem suas namoradas, garotos. Elas guardam nomes, fatos e, às vezes, chaves.

* * * * *

Alanis Morrissette
Jagged Little Pill
Produzido por Glen Ballard
Lançado em 13 de junho de 1995

1. All I Really Want
2. You Oughta Know
3. Perfect
4. Hand in My Pocket
5. Right Through You
6. Forgiven
7. You Learn
8. Head Over Feet
9. Mary Jane
10. Ironic
11. Not the Doctor
12. Wake Up
13. You Oughta Know (mix) / Your House (a cappella)

03/05/2026

Música & Mágica #12


METALLICA
Metallica
1991

O começo dos anos 90 foram de confusão e mudança - e não somente porque eu estava fazendo a transição da adolescência para a idade adulta: a década trouxe uma profusão de estilos e misturas e, embora eu não fosse o mais flexível dos ouvintes, estava acompanhando o que conseguia. Curiosamente, um dos estilos que passou a frequentar meus ouvidos era um já bem antigo: o metal. O ano de 1991 foi a explosão definitiva do Guns N' Roses, o Living Colour havia feito o Time's Up menos de um ano antes, e o Faith No More havia explodido mentes com seu show indefectível no Rock in Rio 2.

Não me entenda mal, metal e hard rock não eram estranhos totais para mim: só quem estava vivendo em Marte nos anos 80 talvez não tenha ouvido coisas como "Don't Stop Believing", do Journey; "Eye of the Tiger", do Survivor; "The Final Countdown", do Europe; ou "Rock You Like a Hurricane", dos Scorpions. Era legal, e o fato de que o "metal farofa" era amplamente usado em comerciais ajudava a dar popularidade ao estilo. Porém, eu ainda não havia cruzado a linha do thrash metal, uma variante mais pesada e mais rápida, de onde vinham o Slayer, o Anthrax e o Metallica.

Quando chegamos em agosto de 1991, porém, ficou difícil ignorar o Metallica, porque o quarteto decidiu que era hora de ocupar o topo - não apenas em seu nicho, mas no mainstream. Em seu quinto ábum de estúdio, que levava apenas o nome da banda, com uma capa preta minimalista, James Hetfield, Kirk Hammet, Lars Ulrich e Jason Newsted apostaram em peso multiplicado e produção de primeira, ajustando o ataque sonoro do thrash apenas o suficiente para não assustar os ouvintes comuns. 30 milhões de cópias vendidas depois (e o topo ocupado, como a banda queria), resta pouca dúvida sobre o sucesso da manobra.

Metallica, o álbum, foi um dos primeiros que adquiri em formato CD - e havia um excelente motivo para a opção pelo som digital: a produção primorosa de Bob Rock. Cada baquetada e acorde soava cristalino e retumbante. Era um novo nível de peso, justamente quando o Metallica estava, segundo alguns fãs antigos menos satisfeitos, amaciando seu som para fazer mais sucesso. Era verdade, mas também era uma intransigência boba: todo mundo está nessa pela fama e pela grana. O Metallica apenas percebeu que o momento era aquele.

A faixa de abertura, "Enter Sandman", tem um daqueles dedilhados que se tornam introduções clássicas, reconhecíveis no primeiro segundo. Bumbo, caixas e pratos da bateria trovejam. O riff principal dá ímpetos imediatos de air guitar. Os versos de Hetfield capturam com maestria os terrores noturnos de uma criança que tem medo de dormir. Sem falar do refrão icônico, desses que fazem a plateia se esgoelar: "exit: light / enter: night".

A pedrada seguinte é ainda mais forte: "Sad but True", uma viagem pelas regiões mais sombrias da alma humana. É a maior evidência do equilíbrio alcançado pelo Metallica entre peso distorcido e habilidade pop. A velocidade do hardcore dá o tom em faixas como "Holier than Thou", "Through the Never" e "The Struggle Within", que fecha o disco. Apesar disso, a maestria técnica e complexidade melódica do Metallica os distancia da bagaceira punk. Tudo neste álbum é nada menos que épico.

Se foi capaz de furar a bolha do mainstream com petardos pra bater cabeça, imagine se o público não seria ainda mais generoso com as baladas: "The Unforgiven" e "Nothing Else Matters" entraram para o cancioneiro definitivo daquela década, uma com peso e superação contra inimigos, a outra com delicadeza e sinceridade no amor. A segunda acabou por tornar-se a canção mais popular do Metallica. Entre uma e outra, um leviatã de mitologia estradeira, "Wherever I May Roam". Em todas elas, os solos de Hammett esbanjam emoção e criatividade.

Metallica: feios, sujos, malvados e donos do mundo.

O terço final do disco traz algumas canções que poderiam ter feito mais bonito nas paradas, mas talvez o público precisasse recuperar o fôlego, já que, até ali, os hits do Metallica não fizeram prisioneiros. 

"Of Wolf and Man" acena à natureza animal do homem, pregando uma volta "ao sentido da vida". Em uma de minhas favoritas, "The God that Failed", Hetfield se lamenta com toda a fúria pela mãe que perdeu a luta contra o câncer, ao confiar que um poder superior à salvaria, recusando a ajuda da ciência. A dor do vocalista vem embalada em rock and roll de primeira. Já "My Friend of Misery", a mais sonoramente progressiva do disco, fala de autopiedade e de viver imerso em pensamentos negativos. A já citada "The Struggle Within" fecha o disco à toda, com sua letra sobre autossabotagem.

O Metallica merece aplausos por ter recusado cobranças medíocres por suposta "autenticidade" e ignorar quem os acusou de "vendidos". Eles souberam fazer seu momento acontecer, após dez anos de muita luta. Depois de Metallica (que entrou para a História com o apelido de The Black Album), eles seguiram acertando e errando, mas podendo orgulhar-se de fazerem exatamente o que queriam. O alinhamento de sucesso comercial e prestígio crítico do disco de 1991 nunca mais se repetiu, mas isso não impediu o Metallica de seguir marchando como um gigante: sempre em frente, nunca sem ser notado.

* * * * *

Metallica
Metallica
Produzido por Bob Rock, James Hetfield e Lars Ulrich
Lançado em 12 de agosto de 1991

1. Enter Sandman
2. Sad but True
3. Holier than Thou
4. The Unforgiven
5. Wherever I May Roam
6. Don't Tread on Me
7. Throught the Never
8. Nothing Else Matters
9. Of Wolf and Man
10. The God that Failed
11. My Friend of Misery
12. The Struggle Within

16/04/2026

Milagres do povo


Uma crítica do EP
Easter Lily, do U2

O U2 é uma banda que adora simbolismos. Cristãos praticantes desde sempre, não foi à toa que escolheram a Quarta-Feira de Cinzas (primeiro dia da Quaresma) para lançar Days of Ash, um EP de protesto sobre questões que afligem o mundo atual. O problema é que eles não se lembraram de embalar as mensagens em música memorável. Nenhuma das seis canções tem aquele gancho que faz a gente querer se esgoelar num estádio lotado.

Tampouco foi acidental a escolha da Sexta-Feira da Paixão para a chegada ao mundo do novo EP Easter Lily. No fim de semana que simboliza a morte e a ressurreição de Jesus Cristo, quando as pessoas estão (ou deveriam estar) mais reflexivas, o U2 chega com seis novas canções, menos furiosas e mais pessoais. Desta vez, contudo, a banda caprichou bem mais, e pelo menos metade deste EP está entre as melhores coisas que eles entregaram nos últimos 15 anos.

O fraseado inicial de guitarra em "Song for Hal" joga nossa memória de volta a "Bad" e reacende nossa fé na habilidade do U2 de compor música cativante. Esta, sozinha, já é melhor que Days of Ash inteiro, e eu mal me lembro que desci o pau na banda há apenas um mês.

"In a Life" tem um quê de "City of Blinding Lights", uma das minhas canções favoritas de toda a sua carreira. Ao contrário das letras do EP anterior, em que davam pitacos pretensiosos e meio desesperados para parecer ainda relevantes, Bono, Edge, Larry e Adam reencontraram aqui sua conexão com o coração dos fãs, ao optar por falar de temas como amizade, solidão e dúvida.

"Foi mal pelo Days of Ash, a gente tava doidão!"

"São suas cicatrizes que te dão beleza / Não cubra suas cicatrizes", versos de "Scars", talvez sejam os mais verdadeiramente afetuosos que Bono escreveu em muito tempo - e só com estas três primeiras músicas, um belo bloco da próxima turnê (que há de passar pelo Brasil) já estará garantido. Em todas elas, a banda está dando o máximo, e o máximo do U2 é uma força nada desprezível.

A segunda metade do EP deixa a temperatura baixar um pouco, mas mantém a boa perspectiva pelo disco integral que o U2 diz que vai lançar nos próximos meses. "Resurrection Song" e "Easter Parade" são baladas dignas, e "COEXIST (I Will Bless the Lord at All Times?)", em que Bono sussurra uma letra sobre as marcas da guerra, marca a reunião da banda com Brian Eno, produtor com quem a banda fez seus álbuns mais famosos. 

Retorno às origens parece ser o caminho escolhido pelo U2 para celebrar seus 50 anos. A ótima impressão deixada por Easter Lily pode não se confirmar no vindouro novo álbum, mas é impossível não enxergar simbolismos nos últimos movimentos: o lançamento da Quarta de Cinzas mostrava uma banda que parecia moribunda, mas a Páscoa trouxe um U2 ressuscitado e ainda capaz de emocionar. Caetano Veloso já sabia o que dizer em horas assim: "Quem é ateu e viu milagres, como eu..."

* * * * *

U2
Easter Lily
Produzido por Jacknife Lee
Lançado em 3 de abril de 2026

1. Song for Hal
2. In a Life
3. Scars
4. Resurrection song
5. Easter Parade
6. COEXIST (I Will Bless the Lord at All Times?)

01/02/2026

Música & Mágica #10


NEW ORDER
Technique
1989

O New Order foi um fenômeno que eu demorei a entender. Minha principal referência de música em toda a segunda metade dos anos 80, a revista Bizz (1985-2007), falava muito bem deles desde sempre, mas eu, isolado de quase tudo no oeste baiano, nunca os tinha escutado. Se cheguei a vê-los em algum programa de clipes da TV aberta (a MTV Brasil só chegaria em 1990), ou não percebi que eram eles, ou ouvi e não fiquei impressionado.

Meu primeiro contato consciente com o som do New Order aconteceu em 1990, em Goiânia, onde morei naquele ano. Um amigo/familiar chegou em casa com um vinil deste Technique e botou pra tocar. A primeira coisa que chamava atenção (e nesse aspecto, o da apreciação visual que acompanha a música, o vinil é imbatível) era esta capa barroca e psicodélica incrível, do habitual designer da banda, Peter Saville.

Finda a audição, eu havia gostado de apenas três músicas: "All the Way", "Love Less" e "Dream Attack", porque tinham uma pegada mais indie rock. Tudo mais que era eletrônico ou híbrido foi ouvido com a devida má-vontade. Leve em conta que eu era um adolescente de 17 anos cheio de certezas - ou seja, muito burro. Durante muito tempo, meu conhecimento do Technique esteve limitado a essas três faixas.

Os anos me apresentaram a clássicos do New Order que caíram bem em meus ouvidos cada vez mais tolerantes: "Bizarre Love Triangle", "Blue Monday", "The Perfect Kiss", "Regret"... Ao ponto em que eu, antes resistente, comprei em CD a coletânea (The Best of) New Order, de 1994, com a já clássica capa da interrogação azul estilizada. Nela, conheci coisas como "True Faith" e "1963". O New Order era bom de verdade, eu precisava admitir.

Daí que, em diversos momentos dos anos seguintes, me dediquei a redescobrir o Technique, sempre listado entre os melhores discos da banda e presença certa em listas dos grandes discos dos anos 80.

Começando pelas faixas que eu já curtia, "All the Way" é um rock acelerado, guiado pelo baixo inigualável de Peter Hook, sempre em primeiro plano. Tem um refrão que faz mais pela sua autoestima do que cursos inteiros de positividade tóxica: "leva anos pra encontrar a coragem / de se afastar do que você fez / pra encontrar a verdade dentro de si / e não depender de ninguém". Tem, ainda, um riff de teclados bem bonito, cortesia de Gillian Gilbert.

"Love Less" abre com a bateria forte de Stephen Morris, mas, de novo, o baixo de Hook sobressai, sinuoso. A voz grave de Bernard Sumner entrega a queixa do cara que está tentando de tudo, mas não derrete o coração da moça: "eu trabalho duro pra dar tudo que você precisa / e basicamente qualquer coisa que você veja / eu passei uma vida toda investindo em você / e você nem fala comigo". Boas letras são uma constante por aqui.

"Dream Attack" é a faixa que encerra o disco, então, deixo pro final.

A faixa de abertura, "Fine Time", é o New Order fazendo house music - e muito bem, diga-se. A banda pegou os beats populares nos clubes de lugares como Ibiza (onde parte do disco foi gravada) e deu um verniz todo particular, uma aula de programação rítmica. Vítima de total rejeição de minha parte naquele 1990, segue não sendo uma favorita, mas já ouço suas virtudes. Sou eu o problema, não ela.

Bernard, Stephen, Peter e Gillian: tardiamente amados

"Round & Round" estava pronta para ser um grande hit de FM - e foi. Também, pudera: tem um loop de percussão absolutamente matador e um refrão muito bom de cantar junto. Até a voz quase sempre estranha de Sumner soa como a mais adequada a ela. "Guilty Partner" é um ótimo rock, de ritmo forte, e as coisas ficam um pouco mais tranquilas em "Run", com boas guitarras do vocalista.

Perto do fim, a eletrônica domina (o teor de maquinário no disco foi causa de incômodo para Hook, que preferia uma direção mais rock and roll): "Mr. Disco" e "Vanishing Point" são as faixas que menos funcionam para mim. A primeira é o inegável ponto baixo do álbum, para mim. A segunda tem ótima programação, mas não gosto da melodia dos versos.

Felizmente, Technique encerra da melhor maneira possível: "Dream Attack" é um espetáculo de construção gradual: quatro marretadas na bateria, com violão, guitarra, programação, baixo e teclado entrando no rastro delas. Se posso fazer uma comparação elogiosa, me faz lembrar a introdução de "Just Like Heaven", do The Cure. Como esta, também é uma love song: "eu não vejo sentido na sua partida / só preciso do seu amor pra acreditar nele / e por você, eu faria o que pudesse / mas não posso mudar quem eu sou".

Escutar este álbum repetidamente para a produção deste texto me fez perceber que, apesar de a banda ter ganhado meu respeito, ignorei a produção do New Order quase completamente depois da coletânea de 1994. É muita coisa para colocar em dia, mas quero ouvir tudo que for possível. Se vou encontrar algo tão bom quanto Technique, não importa: o New Order não precisa me provar mais nada.

* * * * *

New Order
Technique
Produzido por New Order
Lançado em 30 de janeiro de 1989

1. Fine Time
2. All the Way
3. Love Less
4. Round & Round
5. Guilty Partner
6. Run
7. Mr. Disco
8. Vanishing Point
9. Dream Attack

21/10/2025

Música & Mágica #8


TRACY CHAPMAN
Tracy Chapman
1988

Há pouquíssimo tempo, chegou ao fim o remake de Vale Tudo, novela da Rede Globo que, em 1988, mobilizou a audiência em torno do mistério sobre quem matou Odete Roitman. Naquele tempo, quase quatro décadas atrás, as trilhas das novelas da Globo eram um importante componente na formação (inicial, pelo menos) do gosto musical dos brasileiros. Para os artistas daqui - especialmente, aqueles em início de carreira - era a chance de ser elevado sem escalas ao mainstream nacional, principalmente se sua música virasse tema de um personagem querido.

A novela de Gilberto Braga teve uma trilha internacional de imenso sucesso. Dela constavam nomes como George Michael, Natalie Cole, Rod Stewart, Whitney Houston e Sade, só pra ficar em alguns. Entre tantos grandes astros, chamava atenção o nome de uma estreante, que lançou uma balada acústica extremamente açucarada, que virou um dos maiores hits daquele ano. A música era "Baby Can I Hold You" e a cantora se chamava Tracy Chapman.

Chapman desafiava classificações. Era meio andrógina, com seu cabelo black curtinho, se vestia com simplicidade, tinha voz de contralto e tocava violão folk, diferindo drasticamente das demais cantoras negras na trilha, com seus looks de grife e produção de ponta, em hits feitos para dançar ou namorar. Verdade que "Baby..." era uma música romântica, e não era a única do tipo no epônimo disco de estreia de Tracy, mas quem fosse a uma loja comprá-lo, na esperança de ouvi-la falar de amor da primeira à última faixa, tinha boas chances de se decepcionar - com mente aberta e ouvidos dispostos, porém, ficava claro que ela tinha muito a dizer.

A primeira faixa, "Talkin' 'Bout a Revolution", já era uma carta de intenções: Tracy alertando aos donos do poder que o povo estava esperto e prestando atenção à péssima qualidade de vida que sobrava aos que sonhavam "errado" o sonho americano (os 99% que não ficavam milionários antes dos 30 anos, para quem a vida era uma luta diária). "Finalmente, as mesas estão começando a virar", ela dizia, quase ingenuamente - mas, pensando bem, não dá para ser idealista ou sonhador sem ser um pouco ingênuo, também.

Sem perda de tempo, já caímos na obra-prima do disco: "Fast Car", em que Tracy se imagina na pele de uma moça que se junta ao namorado na busca de um futuro melhor. Enquanto ela persiste e se vira pra pagar as contas, alimentar os filhos e não repetir os erros da mãe, ele vai cedendo aos pouco à acomodação e ao álcool. O sonho de dirigir pela cidade sem preocupações ("era gostoso o seu braço passado em volta do meu ombro") acaba atropelado pela dificuldade em encontrar emprego digno e prosperar juntos. Sobre o riff simplicíssimo e circular de seu violão, a letra de Tracy pintava um retrato sombrio das perspectivas da juventude nos guetos americanos.

A barra pesa ainda mais em "Behind the Wall", cantada a cappella, em que a violência doméstica e a inépcia policial são amigas íntimas. "Why?" era didática em perguntar "por que bebês passam fome, se há comida que dá pra alimentar o mundo?" Apesar da indigência lírica e de certa condescendência, se existe algo que hoje sabemos com certeza, é que o óbvio também precisa ser dito. Tem recado que não pode ser cifrado: tem que ser uma voadora com os dois pés no peito do ouvinte.

Felizmente, nem tudo é revolta e miséria: o reggae "She's Got Her Ticket" oferece às meninas o direito de sonhar com uma vida melhor, mesmo vindo de famílias horríveis ou desfeitas. "Mountains o' Things" soa como um delírio febril de alguém cansado de trabalhar para apenas sobreviver, que se permite sonhar em acumular coisas e, bem, ser um pouco cuzão apenas por ser rico. Curioso é que, embora saibamos de qual parcela da população Tracy está falando nesses momentos de crítica social, ela só usa as palavras "black" e "white" em uma música, "Across the Lines".

Na metade romântica do seu disco, Tracy equilibra a sacarina de "Baby Can I Hold You" com a delicadeza de coisas para se cantar ao pé do ouvido, como "For You" e "If Not Now". Os perrengues de namorar um cara, digamos, problemático, estão descritos em "For My Lover": "as coisas que não fazemos por amor...", diz a coitada que, aos poucos, vai perdendo dinheiro e juízo.


Apesar da dureza de alguns temas, Tracy Chapman, o disco, é de muito fácil audição, com uma produção cristalina, beirando o pasteurizado, a cargo de David Kershenbaum (que já produziu Duran Duran, Supertramp e Bryan Adams). A cena musical da época estava dividida entre o pop ultraproduzido de artistas como A-Ha e Depeche Mode e o bom momento do hard rock (o Guns N' Roses, por exemplo, tinha lançado seu primeiro álbum no ano anterior). Tracy chegou de mansinho, com seu disco de trovadora, quase anacrônico, e firmou os dois pés nas paradas e listas de premiações. Tracy Chapman, o álbum, vendeu 20 milhões de cópias mundialmente, 250 mil delas no Brasil (disco de platina), e ganhou três Grammy.

Seus discos subsequentes não repetiram o sucesso mundial de sua estreia, mas ela continuou gravando até 2008, quando lançou seu último álbum, Our Bright Future. Embora seja frequentemente reconhecida e homenageada por seu trabalho musical, Tracy não está simplesmente descansando sobre os louros da antiga fama: ela é uma ocupada ativista dos direitos humanos, atuando em diversas partes do mundo no combate à fome e outras tragédias. Em vez de virar mesas, Chapman parece agora mais empenhada em arrumá-las para quem tem urgência em sentar-se a uma. Diferente, mas coerente.

* * * * *

Tracy Chapman
Tracy Chapman
Produzido por David Kershenbaum
Lançado em 5 de abril de 1988

1. Talkin' 'Bout a Revolution
2. Fast Car
3. Across the Lines
4. Behind the Wall
5. Baby Can I Hold You
6. Mountains o' Things
7. She's Got Her Ticket
8. Why?
9. If Not Now...
10. For You

30/07/2025

Dias de Luta: O Rock e o Brasil dos Anos 80, de Ricardo Alexandre

Eu entrei na década de 1980 com sete anos de idade. Os males da época, como ditadura, inflação, reserva de mercado e outros, não me preocupavam. Eu só queria saber de ler os gibis da Disney e da Turma da Mônica. Com o tempo, descobri Marvel e DC. Lia os meus, de amigos, de parentes. A bem da verdade, eu lia qualquer coisa que caísse nas mãos. Era meio como um tique nervoso.

Porém, quase um ano antes de começar a comprar gibis com meu próprio dinheiro (hábito que jamais abandonei totalmente, ao longo dos últimos 40 anos), me vi acometido por outras duas paixões: uma de ouvir e uma de ler.

A primeira delas já se insinuava para mim havia algum tempo: o rock and roll. Uma das memórias mais antigas que tenho é a de estar na casa de meus padrinhos, em Feira de Santana, por volta de 1979 e, insistentemente, repetir “(I Can’t Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones, em seu toca-discos. Eu não fazia ideias das palavras que Mick Jagger estava proferindo – eu não sabia sequer quem era Mick Jagger! – mas isso não importava: aquela batida, aquela melodia e aquele refrão me pegaram de tal maneira naquele momento que, quase 50 anos depois, aqui estou eu falando deles. Em minha própria casa, eu me lembro que meu pai tinha, entre outros, a coletânea Shaved Fish e o álbum Double Fantasy, de John Lennon. “Mind Games”, “Instant Karma”, “Woman” e “(Just Like) Starting Over” tocavam até dizer chega – principalmente porque, pouco depois de lançar Double Fantasy, Lennon seria morto a tiros, e a comoção foi geral.

Em janeiro de 1985, meu amor pelo rock foi confirmado, carimbado e assinado em três vias timbradas com o acontecimento do primeiro Rock in Rio. Aquelas pessoas estranhas e legais, que eu já acompanhava por programas de clipes e FMs, estavam ali, “pertinho” (elas, no Rio; eu, em Ibotirama, no remoto oeste baiano), e eu sempre queria assistir aos compactos que a Globo exibia nas tardes de sábado. Ao lado de grandes nomes estrangeiros, estavam muitas das bandas que, nos últimos cinco anos, estavam dando forma a um rock brasileiro totalmente diferente do modelo que existiu por aqui em décadas anteriores. Entrando na adolescência, eu me via muito ligado naquilo tudo. O rock era o momento.

Em agosto do mesmo ano, surgia minha segunda grande paixão: a revista Bizz, dedicada à música em geral, mas com foco majoritário no rock. Era anunciada na Globo em comerciais engraçadinhos, protagonizados por Marcelo Tas. As três primeiras traziam Bruce Springsteen, Madonna e Nina Hagen nas capas. A primeira que comprei foi a quarta edição, com Gilberto Gil. Longe demais de qualquer grande centro, onde eu pudesse sintonizar uma FM rockeira qualquer, era impossível reconhecer 95% dos nomes que eu lia nela. Mesmo assim, a Bizz foi, pouco a pouco, tornando-se uma espécie de oráculo musical para mim, moldando meus gostos e minhas opiniões – e isso, em alguns casos, revelava-se um problema que eu demorava a reconhecer. Ao longo dos anos, tive que derrubar muitos preconceitos musicais que eu ergui com ajuda da revista.

Apesar disso, a Bizz mais me ajudou do que prejudicou. Foi por meio dela que conheci vários de meus artistas favoritos até hoje em dia. Seus articulistas eram gente que acabava virando “amigos” distantes para o adolescente solitário e em conflito que eu era. Escrever para ela era um sonho que movia certa ambição minha de ser jornalista (carreira que nunca persegui). Minhas edições eram cuidadosamente dispostas em minha estante e relê-las era um perpétuo prazer. Ela acabou duas vezes: a primeira, em 2001. Depois, voltou para mais uma temporada em 2005, acabando de vez em 2007. Não houve e não haverá revista como a Bizz – até porque, hoje em dia, quem ainda compra revista?

O editor que reabriu e fechou as portas foi Ricardo Alexandre, cuja obra autoral inclui um dos livros que me ajudaram a eleger biografias como meu gênero literário favorito: o ótimo Nem Vem que Não Tem: a Vida e o Veneno de Wilson Simonal. É ele o autor de Dias de Luta: o Rock e o Brasil dos Anos 80, um belíssimo relato da dor e da delícia daqueles tempos em que citar Caetano Veloso, como fiz agora, era um tremendo vacilo. Sua primeira publicação data de 2002, mas a edição que li foi a comemorativa de 10 anos, com novas anotações.

O autor Ricardo Alexandre

Em mais de 400 páginas, Dias de Luta detalha o clima que reinava no país, naquela virada de década dos 70 pros 80, quando o Brasil aos poucos se abria para o mundo, com uma juventude sedenta por uma renovação cultural que escapasse, com igual desenvoltura, da sanha moralista do governo e do pedantismo que havia tomado conta da MPB “oficial”: como na profética canção de Belchior, os ídolos ainda eram os mesmos, e os mais jovens não se viam refletidos neles.

Acertadamente, o autor estabelece o disco homônimo de Rita Lee de 1979 (aquele com “Mania de Você” e “Doce Vampiro”) como a pedra fundamental da linguagem musical da década à frente e, se você estava vivo então, certamente se lembra do furacão que ele representou. Já a partir de 1980, as coisas começariam a tomar formas loucas e seguir caminhos inesperados, com uma naturalidade contagiante. Em pouco tempo, quando ficou impossível negar a juventude como uma força de consumo, os olhos da indústria se voltariam para o novo rock brasileiro e, para o bem e para o mal, as coisas nunca mais seriam as mesmas.

De Gang 90 & As Absurdettes em 1980 aos Inimigos do Rei em 1989, a linha evolutiva do rock nacional é destrinchada com precisão por Ricardo Alexandre, que destaca, em relatos mais extensos, as bandas e artistas que formaram a linha de frente do rock nacional, como Blitz, Barão Vermelho, Os Paralamas do Sucesso, Kid Abelha, RPM, Titãs, Ira! e Legião Urbana. Ainda que as frentes carioca (do “rock de bermudas”) e paulista (dos punks e alternativos) tenham predominância, existe espaço para comentar cenas menores, como as de Brasília, Porto Alegre e Belo Horizonte.

As histórias de bastidores e entrevistas ajudam a elucidar episódios que, para mim, ainda eram nebulosos – menos por falta de fontes e mais por mero esquecimento de buscar a verdade – como as razões para o fim da Blitz e para o sumiço da obra de João Penca & Seus Miquinhos Amestrados, e por que tantos artistas de sucesso jamais eram vistos no programa do Chacrinha, entre outros.

As histórias de formação das bandas e os bastidores das gravadoras e shows renderiam (algumas até já renderam) livros à parte, tantos que são os lances de sorte e azar, esperteza e burrice, amor e ódio, ruína e superação. Dias de Luta funciona como um muito eficiente resumo da trajetória de uma geração que, na raça, peitou e subverteu as regras do jogo, criando todo um contexto cultural que se estendeu para muito além da música. De tudo, porém, foi principalmente ela que ficou, e o grande barato da leitura é revirar nossa própria memória e perceber que foi sensacional estar vivo para testemunhar, de perto ou de longe, em tempo mais ou menos real, os impactantes eventos reunidos nestas páginas. Belíssimo livro.

21/07/2025

Música & Mágica #6


CAPITAL INICIAL
Acústico MTV
2000

Música & Mágica é uma seção deste blog dedicada a discos clássicos. Eu tento sempre mantê-la restrita a álbuns originais, mas algumas coletâneas e discos ao vivo acabam tornando-se tão representativos dentro da obra de certos artistas, que fica difícil negar seu status. Foi por esta “brecha na lei” que o Acústico MTV do Capital Inicial ganhou sua vez: ele funcionava muito bem como retrospectiva dos primeiros 15 anos de carreira do Capital e sedimentava a volta à boa forma, alcançada com o álbum Atrás dos Olhos, de 1998. Trouxe algumas das versões definitivas para os clássicos da banda e ótimas novas canções e participações especiais, fazendo sucesso avassalador.

Um pouco de contexto: exceto pelo primeiro álbum, quando “Música Urbana” era escutada em toda parte, o Capital Inicial (Dinho Ouro Preto, Lôro Jones, e os irmãos Felipe e Flávio Lemos) não conseguiu mais furar a bolha da “série B” do rock brasileiro. Nenhum hit posterior, como “Independência”, “Fogo” ou “Mickey Mouse em Moscou”, repetia aquele êxito ou, muito menos, colocava o Capital em pé de igualdade com outras bandas nacionais em grande momento criativo naquela virada dos anos 80 para os 90, como Titãs e Paralamas do Sucesso.

Muito disso vinha do fato de que personalidade não era o forte do som do Capital Inicial. Até que Dinho Ouro Preto começasse a cantar, uma música deles podia estar tocando e dificilmente alguém diria “isso parece Capital Inicial”. A cada disco, a banda era espinafrada pela crítica musical – e eu, que nunca fui muito fã, cedia ao alerta de prevenção e mantinha distância segura. Em 1992, o tecladista Bozo Barretti (agregado em 1987) deixou a banda. Pouco depois, foi a vez de Dinho abandonar o barco e tentar carreira solo. O Capital chegou a gravar um álbum, Rua 47, com um novo vocalista, Murilo Lima. O impacto foi zero.

A maré virou quando a formação original se reuniu e gravou Atrás dos Olhos – de fato, um belo disco, maduro e bem-produzido. “O Mundo” e “Eu Vou Estar” foram hits, e o Capital foi convidado a gravar seu Acústico MTV, um formato que, celebrando 10 anos na MTV Brasil, já dava sinais de desgaste, mas ainda funcionava – e, caramba, como funcionou para o Capital! Os números definitivos nunca foram divulgados, mas o CD recebeu disco de platina triplo. Por conta da pirataria, as vacas eram tão magras naquela virada de século que bastava vender 100.000 cópias para receber um disco de platina, mas não seria surpresa se os números estivessem muito acima dos 300.000, porque onde quer que se fosse, ali estava tocando uma música do álbum. Uma altamente improvável “capitalmania” assolou o país.

O sucesso veio por indiscutível mérito: o formato acústico deu novo frescor ao repertório da banda e as músicas inéditas escolhidas tinham potência e gancho pop. Como bons punks, o Capital abriu mão da pompa de violinos ou metais. Ao de Lôro Jones, foram acrescidos os violões de Kiko Zambianchi e Marcelo Sussekind (que também toca slide guitar e produz o disco). Aislan Gomes ficou com o órgão Hammond e Denny Conceição  com a percussão. A única convidada especial do disco, Zélia Duncan, toca bandolim na bonita "Eu Vou Estar". Os arranjos enxutos e precisos foram coroados com a ótima performance vocal de Dinho (que não perdeu, mas aprendeu a dosar melhor os cacoetes que irritavam seus detratores).

O disco abre com uma bela versão desacelerada de “O Passageiro”, cover de “The Passenger”, de Iggy Pop. Em seguida, “O Mundo” (um clássico instantâneo composto por Pit Passarell) explode com pegada forte e arrepiantes riffs de Hammond. A primeira inédita, “Tudo que Vai”, é uma pepita pop de alto quilate, parceria de Alvin L. com Dado Villa-Lobos e Toni Platão, com caprichadíssima entrega de Dinho.

A leveza acústica trouxe à tona belezas antes escondidas em arranjos confusos ou equivocados, caso de “Independência” e “Fogo”. A segunda inédita, “Natasha” é uma bobagem sobre uma garota “rebelde” que parece ter saído de algum túnel do tempo, vinda dos anos 80, mas é tocada com tanto tesão que a gente até esquece o quanto aquele “feminismo” é anacrônico.

O maior sucesso do disco, porém, não foi uma música do próprio Capital: “Primeiros Erros (Chove)”, clássico de Kiko Zambianchi, viu-se apropriada pelos brasilienses diante de seus olhos e com sua luxuosa ajuda, sendo ouvida em toda parte e a todo instante.

A trinca que encerra o disco são canções da Aborto Elétrico, banda punk da qual se originaram o Capital e a Legião Urbana. As antes polêmicas e censuradas “Fátima” e “Veraneio Vascaína” puderam ser melhor apreciadas em tempos mais tolerantes, apesar de as provocações soarem bem mais ingênuas para o homem à beira dos 30 que eu era naquele ano 2000 – imagine hoje. O disco chega ao fim, claro, com “Música Urbana”, seu primeiro sucesso, fechando um ciclo de 15 anos com rápida ascensão, prolongada queda e inesperada ressurgência.

O apogeu viria numa consagradora apresentação no Rock in Rio de 2001, diante de 250 mil pessoas. Hoje em dia, o Capital segue colhendo os louros (e os lucros) do Acústico, com uma turnê que celebra os 25 anos do disco. Para mim, depois dele, rapidamente voltaram a ser aquela banda que lança um monte de discos que não colam nos meus ouvidos – mas, tudo bem. Por terem protagonizado uma das voltas por cima mais sensacionais que já testemunhei, o Capital tem meu respeito, ainda que respeito seja a última coisa que um punk de verdade espere ou ofereça.

* * * * *

Capital Inicial
Acústico MTV
Produzido por Marcelo Sussekind
Lançado em 26 de maio de 2000

1. O Passageiro
2. O Mundo
3. Todas as Noites
4. Tudo que Vai
5. Independência
6. Leve Desespero
7. Eu Vou Estar
8. Primeiros Erros (Chove)
9. Cai a Noite
10. Natasha
11. Fogo
12. Fátima
13. Veraneio Vascaína
14. Música Urbana

26/05/2025

Seu Pereira e Coletivo 401 - Obsoleto (2025)

Talvez você não saiba, mas, a despeito do nome sofrível, a banda paraibana Seu Pereira e Coletivo 401 é uma das melhores do país. É dela um dos melhores discos brasileiros dos anos 2010, Eu Não Sou Boa Influência Pra Você (2017) – qualquer dúvida, recomendo audição da faixa-título, “Otário”, “Love in Gotham City”, ou da estupenda “Geladeira Azul”, balada que crava as unhas no coração de qualquer um, a quem o surrado órgão ainda pudesse ter alguma serventia.

Jonathas Pereira Falcão, vulgo Seu Pereira, letrista e cantor, é uma espécie de “menestrel da bagaceira”, escrevendo com muita autoironia e perspicácia sobre coisas nas quais os jovens de hoje parecem cada vez menos interessados: sair pela noite pra beber e conhecer pessoas e lugares ordinários, quando não abertamente questionáveis, pouco ou nada “instagramáveis”, para filosofar sobre a vida e/ou apenas jogar conversa fora.

A prosa de Seu Pereira é direta, sem curvas, o que não a impede de soar lírica. Carrega uma aspereza que é típica dos compositores nordestinos desde sempre, entoada em um timbre barítono cheio de personalidade, que não hesita em fazer uso de sotaque e gírias regionais. Além do vocalista, que também toca guitarra, a banda conta com Thiago Sombra (baixo), Chico Correa (guitarras) e Victor Rama (bateria). O quarteto pratica um combo de rock and roll e MPB eletrificada, muito bem temperado com cerveja, sarcasmo e corações partidos.

Eis que, após oito anos de espera (período no qual a banda lançou singles e o vocalista lançou um álbum solo, Módulo Lunar, de 2022), Seu Pereira e Coletivo 401 estão de volta, e os paraibanos não decepcionam: as 10 faixas de Obsoleto recolocam a banda como uma das mais interessantes em atividade no país, consagrando Jonathas como um dos melhores letristas da atualidade – e todas as disposições em contrário ficam revogadas desde a primeira audição. Quer discordar, vá discordar na sua casa (apud Hilton).

A funkeada “Desde o Dia em que Meu Bem Partiu” abre os trabalhos, dando a medida do estrago emocional de uma separação: “meus amigos não suportam mais a minha cara fudida”. Como uma viajante do tempo a surgir de um portal em 2025, “Sem Futuro” é uma balada egressa de algum ponto dos anos 1970, com um órgão Hammond (e uma classe) que quase não se ouve mais por aqui. O arranjo, a letra, a interpretação... Tudo nela evoca Belchior e/ou Raul Seixas – tente imaginar que os dois se apaixonaram e tiveram um filhotinho eloquente e boêmio.


Em “Obsoleto”, Seu Pereira se assume como uma criatura que não acha lugar confortável no mundo atual (e é possível encontrar várias referências da letra na capa do álbum, concebida pela artista visual pernambucana Lua Rabelo). São três as participações especiais: a primeira é de Chico César, na rockeira e bem-humorada “Autopistas”; Totonho e Os Cabra ajudam na dor-de-corno esperançosa de “Um Dia”; por fim, Glaucia Lima declama poema contra o “cidadão de bem” na feminista “Erva Daninha”, faixa que fecha o disco.

Fosse por mim, inverteria a ordem desta última com “Boy da Amarok”, título que pode evocar sertanejo universitário, mas que está mais para uma parente distante e socialmente promovida da clássica “Fuscão Preto”, de Almir Rogério, em que certa mulher dispensa a “cross” do vocalista, preferindo o conforto da cabine da picape. Parece um encerramento mais adequado pra esse cordel de obsolescência – programada, talvez; e enfrentada, certamente.

Que não seja preciso esperar outros quase dez anos pelo sucessor de Obsoleto. Pessoas com tanto a dizer (e que embalam seu discurso em um som de tamanha qualidade) não podem ficar longe dos holofotes por tanto tempo. Fazer música no Brasil nem sempre é a melhor das aventuras, e a arte (e, por consequência, a vida) sempre fica um pouco pior quando grandes talentos se cansam de dar murro em ponta de faca. Desejo a Jonathas Pereira e banda paciência e punhos fortes.

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Seu Pereira e Coletivo 401
Obsoleto
Produzido por Chico Correa e Marcelo Macedo
Lançado em 16 de maio de 2025

1. Desde o Dia em que Meu Bem Partiu
2. Sem Futuro
3. Obsoleto
4. Só por Um Instante
5. Autopistas
6. Maré Cheia
7. No Dia em que Vendi Minha Alma
8. Um Dia
9. Boy da Amarok
10. Erva Daninha

03/04/2025

Música & Mágica #5

 

NAÇÃO ZUMBI
Fome de Tudo
2007

Considerando que Radiola Vol. 1 (2017) era um disco de covers, já faz espantosos 11 anos desde que a Nação Zumbi lançou um disco – e o curioso disso é que a banda não acabou, nem se afastou dos palcos. Na época do lançamento de Nação Zumbi, o disco de 2014, fiz uma crítica positiva do álbum, hoje arquivada. Nos comentários, troquei argumentos com um fã mais hardcore da banda sobre a qualidade do trabalho, que ele considerou altamente questionável.

Do meu lado, defendi que a banda estivesse tentando fazer um pouco mais de sucesso, e que o disco fosse mais curto e mais relaxado que a maioria de seus trabalhos. Já ele entendia o álbum apenas como relaxado, mesmo – só que no sentido de frouxo. Disse, ainda, como resposta à minha sugestão de que a banda estaria, com a guinada a um tipo de pop, mostrando-se mais convidativa ao público, que fazer uma música mais elaborada ou experimental não significava deixar o público de fora, mas que achar a entrada fazia parte da brincadeira.

Sendo a apreciação da Arte um troço completamente subjetivo, é claro que ninguém estava totalmente certo ou errado: se acertei que músicas como “Um Sonho” e “A Melhor Hora da Praia” se tornariam itens queridos do setlist dos shows, muitos devem concordar com seu argumento de que esse disco era pálido perto de outros, já que qualquer audição menos atenta de álbuns como o homônimo Nação Zumbi (2002), Futura (2005), ou do estupendo objeto deste texto, Fome de Tudo (2007), revela-se bem mais impactante.

Um pequeno aparte, a título de “a última palavra é minha”: continuo achando que “Cicatriz” é do caralho, com sua introdução caceteira e sua produção cristalina, séria candidata a integrar aquela playlist do Spotify chamada “Songs to Test Headphones With”.

Em 2007, o Brasil surfava uma onda de otimismo, impulsionada pelos bons resultados econômicos e sociais do primeiro governo de Lula, já em seu segundo mandato. Na ocasião, embora suas políticas públicas já começassem a melhorar bastante a condição de vida geral do povo (em especial, de sua parcela mais carente), o Brasil ainda figurava no mapa da fome das Nações Unidas e só o deixaria alguns anos à frente, em 2014. No título de seu disco, porém, a Nação Zumbi enfatizava que não era só comida que faltava – de certa forma, uma retomada do conceito de “Comida”, dos Titãs, de 20 anos antes.


A Nação Zumbi em 2007: em pé, Lúcio Maia, Gilmar Bola 8 e Toca Ogan;
sentados, Pupillo, Jorge dü Peixe e Dengue

Mas é a fome literal o centro temático da poderosa faixa-título, que traz um dos versos mais contundentes já escritos sobre o assunto: “a fome tem uma saúde de ferro / forte como quem come”. É prova inequívoca do alto poder de fogo instrumental da Nação, em especial a bateria precisa de Pupillo e as inspiradas guitarras sobrepostas de Lúcio Maia – o homem estava imparável, ouça e comprove.

Desde a primeira faixa, a forte “Bossa Nostra” (um tratado da fome de autoconhecimento), a Nação pesa bonito a mão, um baque groovado após o outro. “Infeste” é praticamente Linkin Park via sertão agreste, as alfaias pesando uma tonelada e a proteção dos orixás nas imagens evocadas na letra. Em “Carnaval”, chama atenção o inspirado órgão Hammond de Marcelo Jeneci. Céu contribui com delicados backing vocals em “Inferno”.

A Nação joga até um sambinha de salão, com ajuda dos sopros marotos da Orquestra Popular do Recife, em “Nascedouro”. A musculosa “Onde Tenho que Ir”, ligada a “Assustado” por uma vinheta eletrônica sobre a fome como negócio, é uma pedrada cheia de balanço, com forte protagonismo das alfaias e das guitarras, com uma cítara adicionando bem-vinda psicodelia.

Em suas 12 faixas, Fome de Tudo traz a Nação Zumbi ostentando um sotaque pop nada óbvio (cortesia da finíssima produção de Mário Caldato), com resultados bem superiores aos de 2014 – basicamente, porque este disco não dilui sua potência política nem aposta na segurança de uma balada. Os vocais de Jorge dü Peixe soam mais versáteis e as boas letras garantiram refrãos empolgantes. Não é nada habitual uma banda atingir tamanho pico de criatividade uma década depois de perder seu membro mais famoso e principal cabeça pensante (Chico Science, falecido em 1997).

Em qualquer país sério, um onde as rádios não estivessem sendo sistematicamente compradas para abrigar apenas um gênero ou dois e nivelar tudo por muito, muito baixo, este disco teria potencial para frequentar as FMs e transformar a Nação Zumbi em mania nacional. Não era garantido que mais sucesso e grana fossem diminuir os hiatos criativos ou evitar a saída de vários membros importantes (entre eles, Pupillo e Lúcio Maia, perdas incalculáveis), mas ninguém jamais vai poder dizer que eles não tentaram do jeito certo.

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NAÇÃO ZUMBI
Fome de Tudo
Produzido por Mário Caldato e Nação Zumbi
Lançado em 27 de Outubro de 2007

01. Bossa Nostra
02. Infeste
03. Carnaval
04. Inferno
05. Nascedouro
06. Onde Tenho que Ir
07. Assustado
08. Fome de Tudo
09. Toda Surdez Será Castigada
10. A Culpa
11. Originais do Sonho
12. No Olimpo