ALANIS MORRISSETTE
Jagged Little Pill
1995
Em 1995, ainda faltava quase uma década para Pitty emergir como artista e, apesar dos esforços de todas que vieram antes dela (Rita Lee, Marina Lima, e até Marisa Monte), o pop rock brasileiro ainda era um terreno não apenas dominado por homens, mas, também, bastante machista. No ano anterior, os Raimundos haviam estreado com um disco arrasador, no qual as letras cômicas ajudavam a distrair um pouco o ouvinte do fato de que eles tratavam mulher feito lixo. No primeiro disco de Jorge Cabeleira, do mesmo 1994, "A História do Zé Pedrinho" terminava com "cinco tiros na cara daquela quenga safada". Vista sob a lente da vivência que só o passar no tempo permite, era uma época bem preocupante, mas éramos mais jovens e estávamos ocupados demais nos divertindo pra perceber.
Lá fora, não era muito melhor: o gangsta rap crescia e tomava as paradas, e "bitch" era o termo mais carinhoso que se ouvia, mas mulheres como Queen Latifah e Salt-N-Pepa botavam o dedo na cara dos fulaninhos e ajudavam as garotas a se sentirem mais donas de si. No rock, estava a pleno vapor o movimento Riot Grrrls, de bandas como Bikini Kill e L7, além de moças como PJ Harvey, Fiona Apple e Melissa Etheridge, todas cansadas de um sistema e de indivíduos que sempre as arrastavam para baixo nas relações pessoais e profissionais.
Lá no Canadá, a coisa bateu especialmente forte para uma cantora adolescente que havia lançado dois álbuns de pop que venderam muito mal e já ensaiava uma postura contrária à que esperavam dela na gravadora que a dispensou. Alanis Morrissette saiu de Ontário e foi viver em Los Angeles, nos EUA. Numa sucessão de acasos felizes, Alanis conheceu o empresário Scott Welch e, em seguida, o compositor e produtor Glen Ballard. Ambos acreditaram no talento vocal e poético da moça e a levaram para um selo feminista em essência: o hoje finado Maverick, co-dirigido por Madonna.
O primeiro fruto dessa união deveria ter vendido apenas o bastante pra Alanis garantir um novo álbum, mas a coisa simplesmente saiu do controle: apesar de toda a raiva e frustração de sua letra sobre irresponsabilidade emocional, "You Oughta Know", escolhida como primeiro single, explodiu em popularidade. Foi um divisor de águas tão potente na carreira de Alanis que muita gente, ainda hoje, pensa que Jagged Little Pill foi seu primeiro disco. Para mim, acostumado que estava a ouvir mulheres apenas no pop dançante ou romântico, foi um gratificante choque ouvir aquela garota de 19 anos esbravejar ao microfone, sobre a guitarra agressiva de Dave Navarro e o baixo pulsante de Flea, dos Red Hot Chili Peppers: "e eu estou aqui pra te lembrar da bagunça que você deixou ao ir embora".
Ao longo das suas 12 faixas (13 no CD, que tinha um mix alternativo de "You Oughta Know"), Jagged Little Pill é Alanis Morrissette chorando as pitangas de relacionamentos frustrados, reclamando da imaturidade de homens que esperam muito sem oferecer o mínimo em troca, e deixando claro que ela faz suas próprias escolhas e vive em paz com elas. No segundo single, "You Learn", ela diz que está tudo bem em surtar um pouco quando preciso: "eu recomendo meter os pés pelas mãos sempre que der, sinta-se livre". Cheia de antoconselhos, Alanis soava como alguém chapada de tranquilizantes sobre a batida malemolente, sampleada de "Mr. Loverman", de Shabba Ranks.
Por outro lado, o disco não era só choro e ranger de dentes: no belíssimo folk "Head Over Feet", Alanis é só elogios para o homem que consegue ser, ao mesmo tempo, namorado e melhor amigo: "você é o melhor ouvinte que já conheci / obrigado por sua paciência". Na indefectível "Ironic", ela lista uma série de reveses (nem sempre irônicos) em um tom comicamente resignado: "é como conhecer o homem de meus sonhos / e depois conhecer sua linda esposa". A lição é que coisas ruins acontecem quando a gente está distraído com as coisas boas, mas que a vida continua.
Não é só nas letras que Alanis se destaca: dona de uma voz potente e cheia de maneirismos (que podem fascinar ou irritar, com pouca chance de meio-termo), ela e Ballard acertaram em cheio na execução, num equilíbrio difícil entre a potência do rock e a suavidade baladeira do pop. A música eficiente com certeza ajudou a mensagem de Alanis a afagar o coração das meninas e apunhalar o ego dos meninos - e por mais que algum deles possa dizer que ela canta essas coisas porque "não gosta de homem", a verdade é que quem não deve, não teme.
Pensar nisso me traz à memória alguém que conheci em 2001, um estadunidense em torno dos 35 anos, que visitava o Brasil com a família, para a qual trabalhei como intérprete. Em meio a uma conversa sobre meus ídolos na música, eu mencionei que estava ouvindo bastante este disco de Alanis, o que lhe fez comentar "she's a dangerous woman" (ela é uma mulher perigosa), com base na letra de "You Oughta Know". Imagine o que ele diria sobre "Your House", a faixa escondida do CD, uns cinco minutos após a última, em que ela invade a casa vazia do ex-namorado, vasculha suas coisas e chora em sua cama...
Lembrem-se de tratar bem suas namoradas, garotos. Elas guardam nomes, fatos e, às vezes, chaves.
* * * * *
Alanis Morrissette
Jagged Little Pill
Produzido por Glen Ballard
Lançado em 13 de junho de 1995
1. All I Really Want
2. You Oughta Know
3. Perfect
4. Hand in My Pocket
5. Right Through You
6. Forgiven
7. You Learn
8. Head Over Feet
9. Mary Jane
10. Ironic
11. Not the Doctor
12. Wake Up
13. You Oughta Know (mix) / Your House (a cappella)


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