Existe um ponto comum entre artistas tão diferentes como Amy Winehouse e Jeff Buckley, ou entre Morrissey e Joni Mitchell, e não é apenas que todos possuam vozes inconfundíveis: eles cantam de recônditos profundos de sua alma. O sofrimento que carregam é traduzido em versos que podem - às vezes, até simultaneamente - emocionar e incomodar (principalmente quando geram identificação no ouvinte). Na música ou em outras artes, poucos são os artistas capazes de desnudar-se em frente ao seu público, exposição que cumpre papel de terapia, ainda que sob pretexto de entretenimento. A dor é um motor muito potente da criatividade.
Nos quadrinhos DC ou Marvel, poucos são os autores que se abrem tanto quanto Tom King. Ex-agente de antiterrorismo da CIA, sua obra ficcional trata, quase sempre, de questões de saúde mental, como depressão e ansiedade, que King conhece em primeira mão: a ideia para Senhor Milagre nasceu após um ataque de ansiedade tão forte que o levou a pensar que estava morrendo (episódio contado no prefácio). Nas doze edições - reunidas em uma bonita Edição de Luxo com sobrecapa, que resolve alguns problemas gráficos da publicação original, em dois volumes de capa cartão - o herói escapista e Novo Deus encarna as vivências e impressões de King sobre trauma e outras síndromes.
Após um prólogo biográfico (ausente da publicação original), a primeira página é um close do rosto de Scott Free (nome civil do herói, sobre o qual há um expressivo diálogo algumas edições depois), em expressão compungida; na página dupla a seguir, ele está no chão ensanguentado do banheiro, as veias do pulso abertas, em tentativa de suicídio. A partir daí, o leitor se vê em permanente dúvida: Scott Free está morto ou não? O que vemos acontecer é a realidade ou um delírio post-mortem? Teria o Senhor Milagre escapado daquilo de que ninguém escapa?
Seja como for, Scott se vê fisicamente recuperado e acaba convocado a liderar os exércitos de Nova Gênese, quando eclode a guerra definitiva contra Apokolips. É uma batalha muito longa e inglória, na qual Nova Gênese tem pouca chance de vencer, pois Darkseid está de posse da Equação Antivida, um mantra que mina a sanidade e a vontade de viver daqueles que contamina. Quando criança, Scott (filho do Pai Celestial) foi trocado com Orion (filho de Darkseid) como prova de boa vontade, numa trégua da guerra entre os dois mundos. Criado desde muito pequeno em meio à violência, humilhação e abandono, como ele não seria uma vítima em potencial da Equação?
Scott Free: "Sei lá, acordei meio coisado hoje..."
Como veículos para suas ruminações, nem sempre os quadrinhos de Tom King resultam em boa leitura. Seu Batman me fez desistir do personagem por anos, e O Xerife da Babilônia é um dos quadrinhos mais superestimados de que se tem notícia. Heróis em Crise é um desserviço, tamanha a descaracterização de seus protagonistas. Amigos que leram Alvo Humano e Rua Perigo dizem que são gibis "sobre nada", o que me faz trocar de hipotética calçada para evitá-los. Por outro lado, seu único trabalho para a Marvel, a minissérie Visão, é das melhores coisas da editora nos anos 2010. Pessoalmente, acho esta Senhor Milagre sua obra definitiva até aqui (embora já se diga por aí que a autoral Helen de Wyndhorn é coisa muito fina).
King tem sorte e mérito em trabalhar com artistas fantásticos. Para Senhor Milagre, ele reprisa a parceria de O Xerife da Babilônia com Mitch Gerads, que opera milagres (ha!) dentro da rígida estrutura de nove quadros por página, com passagens geniais. Os desfoques e interferências ajudam na sensação constante de que algo não está certo e nem tudo é o que parece. Na ternura das conversas com Grande Barda, no humor involuntário das caras de Darkseid comendo petisco de cenoura e das histórias malucas de Funky Flashman, ou no terror dos momentos de violência, texto e arte estão alinhados de forma preciosa.
Passagens como o julgamento de Scott por traição e o desabafo de Barda sobre suas próprias frustrações fazem a gente sentir como se estivesse no mesmo ambiente que os personagens e sendo afetados por tudo que dizem. Quem dera todo quadrinho que se diz "adulto" tivesse metade desse estofo sentimental e psicológico. Não é tudo que funciona tão bem: Scott e Barda discutindo reforma do apartamento enquanto invadem Apokolips foi uma tentativa de ser cool demais que acabou sendo só isso: uma tentativa.
Como dito antes, esta Edição de Luxo corrige problemas gráficos da edição em capa cartão, como uma imensa mancha de tinta em uma das páginas e a diferente gramatura de papel, o que resultou em um segundo volume muito mais fino. Sem falar que esta bela sobrecapa é um primor. Os extras incluem o roteiro da primeira edição, além de rascunhos de Nick Derington para as capas originais e de Mitch Gerads para as alternativas. É um livro que fica muito bonito na estante, mas que só cumpre seu propósito quando lido com atenção e empatia. Sem isso, tudo mais é a Antivida.


Um comentário:
Nossa que belo texto sobre está elogiadissima hq do Senhor Milagre por Tom King eu ainda não tive à oportunidade de ler mas já fiquei mais do que empolgado com sua resenha pois a densidade psicológica numa história que toca em temas pesados numa hq de super heróis dando um tom sombriu é sempre mais que bem vinda.
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