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23/05/2026

Sangue de ketchup


Uma crítica da série
The Boys, do Prime Video

Pense em grandes roteiristas de quadrinhos de super-heróis e alguns nomes pulam na sua mente logo de saída: Alan Moore, Grant Morrison, Neil Gaiman... O Olimpo particular de cada leitor tem alguns nomes em comum, mas sempre vai haver quem se lembre de um nome que pouca gente menciona. Meu "esquecido" preferido é Garth Ennis, um roteirista norte-irlandês que escreveu grandes momentos da Nona Arte, como Preacher, além de fases estelares de Justiceiro e Hellblazer.

Embora Ennis seja um escritor de mão cheia - desses que enchem as páginas de texto e você lê tudo como se estivesse chupando um picolé - é preciso reconhecer que, às vezes, ele pesa a mão no deboche, na sacanagem e na escatologia. Eu acho Preacher uma obra-prima, mas tenho amigos que a evitam, devido ao choque com algumas falas e ilustrações (a cargo de sua "alma gêmea", o brilhante artista inglês Steve Dillon).

Mesmo sendo fã de Ennis, não passei nem perto de The Boys, o quadrinho. Já bastava o Alan Moore descendo a lenha na DC, na Marvel e nos leitores que se recusavam a crescer e deixar os super-heróis para trás (no que ele tem muito de razão, mas isso é discussão para outro dia). Já bastava Watchmen (do mesmo Moore, coincidência?) mostrando super-heróis como problemáticos ou francamente degenerados. Eu não queria ler uma série com mais heróis problemáticos e degenerados.

Mas eis que a Prime Video decidiu fazer uma série baseada em The Boys e ficou impossível não prestar atenção. Para minha surpresa, todo o absurdo gore e quase pornográfico típico da obra de Ennis estava lá, recriado com ótimos efeitos especiais e um elenco perfeito em seus papéis. Quando A-Train (Jessie T. Usher) esbarra na namorada de Hughie (Jack Quaid) a altíssima velocidade e a transforma num pudim de sangue e tripas, a gente entende, logo nos primeiros minutos, que The Boys, a série de TV, não faz concessões.

Quem viu as duas versões, garante: a série de TV dá um banho de qualidade nos quadrinhos. Aparentemente, enquanto a série ainda cria contextos para discussões e situações interessantes (sem os quais dificilmente a Amazon se arriscaria investindo tanto), a revista era um caminhão de baixaria sem freios ladeira abaixo. A ousadia valeu a pena: as três primeiras temporadas de The Boys são irretocáveis e criaram um séquito de fãs (com uma parcela numerosa não muito inteligente, pelo visto nas reações de surpresa, ao saber que a série era crítica ao governo Trump).

Precedida pela primeira temporada de um bom spin-off, Gen-V, a quarta temporada já dava as primeiras mostras de cansaço, com muita enrolação e teimosia intermináveis. Não foi à toa que coadjuvantes ganharam destaque: pode ter sido de propósito, mas prolongar demais alguns dramas dos personagens centrais foi um dos pecados que fizeram das temporadas 4 e 5 blocos inferiores.

Como se a decisão de cancelar Gen-V após a segunda temporada fosse pouco, os personagens e eventos trabalhados nela foram burramente jogados no lixo. A participação de seu elenco na quinta temporada de The Boys é vergonhosa. Marie Moreau (Jaz Sinclair) e seus amigos (vários deles ignorados como se não tivessem existido) passaram pelo inferno pra acabar trancados em casa, dando sopinha pra gente que, pouco antes de um choque de realidade, bateria palmas ao saber de suas mortes.

No geral, The Boys merece crédito por ter feito ótimo comentário da situação política mundial atual, reservando um deboche todo especial ao bebezão apedeuta, mimado e delirante que ocupa a presidência dos EUA (mas, que se diga, nunca foi tão difícil para a ficção superar o absurdo da realidade). O ótimo elenco, no qual sempre se destacava Anthony Starr como o amoral Homelander (Capitão Pátria na legenda e na dublagem), era garantia de carisma, ainda que o Billy Butcher de Karl Urban tenha caído na vala da repetição.

Pois bem, The Boys acabou, mas não nos livraremos do "theboysverso" tão cedo: o derivado Vought Rising já está adiantado em suas gravações, mas só deve estrear no ano que vem. Talvez eu pague minha língua e acabe assistindo, mas, neste momento, me sinto saturado e frustrado, tendo que me limpar de tanta sujeira em troca de um encerramento tão aquém da expectativa. De sua casa em Southampton, Alan Moore sorve um gole de chá Earl Grey quentinho, enquanto se reclina na poltrona e alisa a barba, com um pequeno sorriso de satisfação nos lábios.

18/04/2024

Sr. e Sra. Smith


Após concluir Sr. e Sra. Smith, a série, eu quis rever o filme de 2005, no qual é inspirada, com Brad Pitt e Angelina Jolie, para efeito de comparação. O filme foi um desses que demorei bastante a assistir, e só o havia feito uma vez. Lembro de ter pensado que parecia ser apenas um enorme comercial de perfume, no qual o casal mais bonito de Hollywood apenas desfilaria sua “boniteza” pela tela. Estava errado, claro: era fruto da imaginação ainda afiada de Simon Kinberg e dirigido por Doug Liman, um sujeito que quase nunca erra quando o assunto é ação com humor.

Sim, Pitt e Jolie estão lindos na tela (especialmente, ela) e, mesmo que o filme não seja lá muito exigente em termos de drama, exibem talento (especialmente, ele, que tem cenas impagáveis de humor físico). O estopim da briga entre o casal é meio fuleiro: eles são designados para a mesma missão, acabam se atrapalhando mutuamente e já partem para matar um ao outro, com sangue no olho e sem diálogo, mesmo após cinco – seis? – anos de casados, nos quais um não sabia da vida dupla que o outro levava. Precipitação é eufemismo.

Com oito episódios de cerca de 60 minutos para desenvolver sua trama, a série do Prime Video faz tudo com muito mais paciência e lógica. Donald Glover e Maya Erskine (em papel que antes seria de Phoebe Waller-Bridge) são os novos John e Jane Smith, completos estranhos um ao outro. Eles são designados para viver juntos e cumprir missões dadas por alguém que apelidam de Oioi, porque é assim que o misterioso chefe os cumprimenta no “zap do trabalho”, antes de passar suas instruções.

Donald Glover e Maya Erskine: chumbo trocado dói, sim!

As missões começam relativamente fáceis, mas, desde a primeira, John e Jane percebem que existe risco real envolvido. Conforme a dificuldade dos trabalhos aumenta, os dois vão se conhecendo melhor e acabam apaixonados – e é claro que misturar trabalho e sentimentos começa a comprometer a eficiência do casal de agentes, que só tem permissão para fracassar em suas missões três vezes.

O filme contava com muita gente boa, como Kerry Washington, Jennifer Morrison e Michelle Monaghan, mas em papéis modestos, meras escadas para o casal de astros. Adam Brody, sendo o pivô da missão que detonava a briga dos Smiths, teve sorte um pouco melhor. O filme ainda tinha Vince Vaughn, péssimo como sempre e irritante como nunca.

Na série, o elenco coadjuvante é estrelado e seus personagens têm função na história e tempo para brilhar. Gente como Paul Dano, John Turturro, Micaela Coel, Parker Posey e Wagner Moura – este último rouba para si cada cena em que aparece, exalando charme e desembaraço com o inglês. Há até piada com isso, quando John diz para Jane: “É aquele sotaque, né? A gente fica com vontade de ajudá-lo”.

Wagner Moura: dono ladrão da porra toda!

O luxuoso auxílio desses atores, porém, não significaria muito, caso o novo casal de protagonistas não desse conta do recado. Donald Glover e Maya Erskine são ótimos no humor, no romance e na ação, mas de um jeito bem mais “pé no chão” que o casal do filme. Primeiro, são donos de uma beleza bem diferente daquela. São bonitos, mas não parecem (perdão, se me repito) modelos em um comercial de perfume (e é de Glover a sensualidade mais explorada). Suas personalidades possuem tantas camadas interessantes, que é até covardia comparar os novos Smiths com os antigos. Os tiroteios não são posados e acrobáticos. Muita coisa dá errado para eles e tudo tem consequências.

Quando a coisa finalmente chega ao ponto em que um tenta matar o outro, já rolou muita água, amor e mágoa entre eles. A gente entende como eles chegaram ali (e aquela inesperada fatalidade do primeiro ataque certamente não ajudou). Acaba que a série, por melhor que seja como entretenimento de ação, revela-se um tratado sobre a incomunicabilidade – não apenas entre casais, mas entre pessoas – e como essa dificuldade em expressar sentimentos – um sério mal de nosso tempo – pode arruinar até as coisas mais belas.

Não quer dizer que Sr. e Sra. Smith seja uma série “cabeça”. Ela é inteligente, bem escrita e bem interpretada, não desaponta como espetáculo de ação e consegue fazer que nos importemos com o casal, temendo pelos desafios que enfrentam entre si e pelos perigos que correm em suas missões. Assim como foi com o filme, demorei a dar o play na série, mas, agora – especialmente, após o tenso gancho do último episódio – mal posso esperar por uma nova temporada!