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10/04/2025

A Bela Casa do Lago

James Tynion IV ganhou moral dentro da DC Comics ao co-escrever a maxissérie  Batman Eterno (2014) com Scott Snyder e outros. Em seguida, assumiu a Detective Comics, casa original do personagem, no começo da fase Renascimento, em 2016. Começou bem, mas não demorou a degringolar para a mesmice apelativa de destruir Gotham e/ou tirar a fortuna de Bruce Wayne e/ou desentocar segredos sujos dos seus pais e/ou fazer de um vilão mequetrefe qualquer um inimigo subitamente capaz de colocar o Batman e seus aliados de joelhos. Em suma, ficou um porre e me afastou do personagem.

Em seu favor, só mesmo o fato de que muitos outros depois dele, também, cometeram a mesmíssima besteira – de modo que, diante de seu nome numa capa de gibi, meu pulso não via motivos para acelerar. Como não li Something is Killing the Children, elogiado gibi autoral que Tynion lançou pela Boom! Studios (com o qual ganhou alguns Harvey e Eisner), não tinha qualquer base pra opinar sobre sua escrita fora do universo super-heroico.

Eis que A Bela Casa do Lago é lançada lá fora, pela DC Black Label – ou seja, a DC viu nela algo que 1) lembrava a produção da saudosa Vertigo, e 2) eles preferiam lançar a deixar que outra editora lançasse. Havia o título atraente, as capas bonitas e misteriosas e, por fim, o entusiasmo de um amigo (obrigado, Luwig!) que leu antes de mim e atestou a qualidade da coisa – e isso, antes de eu sequer notar aquele selo de “indicada ao Prêmio Eisner” na capa do segundo volume da edição nacional. Em suas doze partes, esta série chegou para surpreender aos descrentes no talento de James Tynion IV como escritor – eu entre eles.

Dez amigos são convidados para passar uma semana numa luxuosa e enorme mansão à beira de um lago, em Wisconsin. Quase todos eles já se conhecem há muitos anos. Funcionando como um fio costurando as relações entre o grupo, a devota amizade de Walter, autor do convite, um sujeito que todo mundo parece conhecer tão bem e tão pouco. Ao longo dos anos, Walter fez de tudo para que a amizade entre eles não se perdesse e, agora, parece haver um forte propósito nesta reunião – na qual todos têm um talento, pelo qual são identificados nos convites e nas instruções deixadas na casa: um músico, uma médica, uma escritora, e outros mais.

Nas primeiras horas do reencontro, aquela esperada alegria de rever amigos de longa data só é estremecida pela presença de Ryan, uma artista visual que é a amizade mais recente e inesperada pelo grupo, que apostava em outro amigo da mesma área. Apesar da promessa de que teriam internet de qualidade para trabalhar durante o período, o sinal é escasso e, quando finalmente permite alguma atualização, os amigos ficam sabendo que algo horrível aconteceu ao mundo fora dali. Quando finalmente surge na casa, Walter garante aos amigos que eles estão totalmente a salvo de qualquer perigo – isto é, desde que não deixem a bela casa do lago. A partir daí (e de algumas descobertas em suas explorações do terreno), os amigos começam a questionar tudo que sabem sobre Walter e a influência dele em suas vidas.

A arte do espanhol Álvaro Martinez Bueno (que lembra bastante a de Mitch Gerads, por exemplo) acompanha o tom sombrio da história, entregando certa escuridão que acompanha os habitantes da casa, mesmo durante o dia. Se a casa é descrita como bela e opulenta e o cenário em volta parece muito convidativo do alto, dos interiores e do chão da floresta tudo parece meio desgastado e perigoso (seguindo a percepção dos envolvidos, talvez).


O jeito mais certo de ler A Bela Casa do Lago é não sabendo coisa alguma sobre a história, então, peço desculpas por ter abordado certos aspectos da trama, mesmo que com todo o cuidado possível, tentando não estragar surpresas – e, acredite, elas acontecem aos montes. Cada virada altera nossa percepção sobre a história e os rumos que tomará em seguida – e eu até pensei em citar algumas das possibilidades aqui, mas a mera menção a gêneros pode dar pistas do que acontece. Saiba apenas que Tynion conduz tudo com habilidade, realizando um estudo de relações humanas nada pedante e demolindo as noções de sucesso e felicidade que nos são vendidas no processo

O sucesso de crítica e pública garantiu uma sequência, The Nice House by the Sea (em tradução livre, A Bela Casa da Praia), que esperamos chegar em breve pela Panini. Lá fora, foi a série que reabriu as portas da Vertigo, aquecendo o coração do leitor saudoso e insatisfeito com o Black Label, que, apesar do sucesso de vendas, era um forte desvio do conceito original. O que queremos são mais originais autorais e menos versões alternativas do Batman e correlatos. Se A Bela Casa do Lago servir de indício, podemos dizer que Tynion reabriu os trabalhos da nova velha Vertigo de maneira espetacular.

11/04/2024

Pobres Criaturas


“Didático” é um termo muito utilizado para qualificar filmes que não fazem questão de sutileza ao promover seu valor moral central. Acontece que somente pessoas já minimamente confortáveis com a questão social apresentada percebem o suposto didatismo – o filme, de certa forma, não foi feito para elas. É claro que um(a) feminista vai achar, por exemplo, Barbie um filme didático em seu feminismo. A mensagem é para quem ainda não entendeu o recado, já passado tantas vezes antes.

Não é muito diferente agora, com Pobres Criaturas, igualmente “didático” como peça feminista – com a diferença de que, enquanto Barbie pegou a estrada da fofura e do deboche, o filme de Yorgos Lanthimos escolheu o bem mais tortuoso caminho do surrealismo e da luxúria. Indicado em impressionantes 11 categorias no último Oscar, Pobres Criaturas saiu da festa com quatro deles: maquiagem e cabelo, figurino, design de produção e melhor atriz para Emma Stone, muito mais merecedora do que em 2017, quando venceu com La La Land.


Uma dessas personagens que entram sem escala para a História do Cinema, a Bella Baxter interpretada por Stone é uma espécie de Frankenstein fêmea: ela é o corpo de uma mulher suicida com o cérebro da bebê que carregava dentro de si ao morrer, trazida de volta à vida pelo Dr. Godwin Baxter (Willem Dafoe) - apelidado, sem modéstia alguma, de “God” – ele próprio, um tipo de Frankenstein em experiências malucas realizadas por seu pai.

Como já chegou ao mundo crescida, vemos Bella amadurecer de forma extremamente rápida – com ações, expressões e falas infantis dando lugar às de uma mulher bastante segura e assertiva – e não digo exatamente “questionadora” porque Bella, criada por “God” (e há tantos sentidos nisso) sequer entende por que alguém viveria, senão segundo seus próprios desejos. Ela não conhece nem reconhece nada além da liberdade.


Enxergo um pouco do cinema de Wes Anderson nos cenários surreais com cores intensas e na conduta bizarra dos personagens. O elenco central (que, além de Stone e Dafoe, conta com Mark Ruffalo em grande momento) mergulha de cabeça, abraçando a excentricidade do roteiro de Tony McNamara (que já havia trabalhado com Lanthimos em A Favorita), o que certamente facilita para o espectador divertir-se com aquele ultraje final, quando o realismo dá um adeus definitivo e uma figura nefasta da vida anterior de Bella encontra seu destino.

Provavelmente, Pobres Criaturas só incomodou menos do que Barbie porque, afinal, não é um filme para as massas. Além de ser muito sexual (o que não significa que seja erótico), exige atenção, desprendimento e comprometimento intelectual que muita gente, hoje em dia, não parece muito disposta a empregar. Este é um problema do mundo, porém, não desta bela obra. É exatamente por causa das pessoas que vão achar seu feminismo “militante” ou “doutrinador” que ele existe e prova-se necessário. Quem dera todo filme “didático” fosse sempre tão interessante.

Pobres Criaturas pode ser visto no Star+.

19/01/2024

Anatomia de Uma Queda


O que parece um cenário pior: uma família lentamente destruída por uma quase-tragédia e pelo subsequente ressentimento; ou uma família rapidamente destruída por uma tragédia completa, talvez causada por alguém dentro dela?

A resposta encontrada em Anatomia de Uma Queda, da diretora francesa Justine Triet, é: "desgraça pouca é bobagem". Por que escolher?

Sandra (Sandra Hüller, excelente) é uma escritora alemã, que vive numa comunidade rural perto de Grenoble, nos Alpes Franceses, com o marido francês Samuel (Samuel Theis) e o filho Daniel (Milo Machado Graner, bela promessa), de 11 anos. Um atropelamento aos 4 anos deixou o garoto com o nervo óptico danificado e cegueira parcial. Certo dia, Sandra está tentando dar uma entrevista, mas o marido de Sandra faz muito ruído com seu trabalho de reforma do andar de cima, além de tocar música em volume irritantemente alto. Sandra desiste da entrevista e sobe para falar com Samuel. Daniel sai para passear com seu cão-guia e, ao retornar, encontra o pai morto na neve.


Sendo então a única outra pessoa na casa, Sandra logo vira suspeita. A partir da investigação, dos ensaios de defesa com o advogado/amigo Vincent (Swann Arlaud) e, em especial, durante o julgamento, a intimidade de Sandra com Samuel é destrinchada em detalhes embaraçosos e assustadores, revelando muita frustração e acusações mútuas, possíveis motivos para assassinato e abrindo outras possibilidades.

Além de ser um soberbo drama de tribunal - com presença de um jovem e muito irritante (embora bem-intencionado) promotor de justiça (Antoine Reinartz), um desses tipos que tomam o filme para si – Anatomia de Uma Queda é um filme complicado de assistir, e isso tem pouco a ver com seu ritmo paciente (nunca chato): são as interações do casal, cheias de conversas muito difíceis, carregadas de brutal sinceridade, que ficam ressoando na cabeça de qualquer um que tem ou já teve uma vida a dois. O amor pode tornar-se uma coisa bem feia, e nem todo mundo possui a paciência para esperar que ele troque de pele, ao fim do processo.


Nem tudo é lavagem de roupa suja, porém. Existe ainda - e ainda bem – muita delicadeza no filme, em especial quando está em cena o discreto e observador Daniel, talvez o personagem mais afetado por tudo que acontece (e aquele cão, por favor, tragam um Oscar pra ele!). A direção de Justine Triet sabiamente evita clichês de filmes americanos de tribunal, como música triunfante e closes de “epifania”. É tudo muito próximo do real – e muito bom.

O filme ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes de 2023, além do Golden Globe de Melhor Filme em língua não-inglesa e de Melhor Roteiro e diversos prêmios importantes mundo afora. Quando sair o anúncio dos candidatos ao Oscar 2024, não se surpreenda ao vê-lo concorrendo nas categorias principais. Estreia nos cinemas brasileiros no dia 25 de janeiro.