Não é muito diferente agora, com Pobres Criaturas, igualmente “didático” como peça feminista – com a diferença de que, enquanto Barbie pegou a estrada da fofura e do deboche, o filme de Yorgos Lanthimos escolheu o bem mais tortuoso caminho do surrealismo e da luxúria. Indicado em impressionantes 11 categorias no último Oscar, Pobres Criaturas saiu da festa com quatro deles: maquiagem e cabelo, figurino, design de produção e melhor atriz para Emma Stone, muito mais merecedora do que em 2017, quando venceu com La La Land.
Como já chegou ao mundo crescida, vemos Bella amadurecer de forma extremamente rápida – com ações, expressões e falas infantis dando lugar às de uma mulher bastante segura e assertiva – e não digo exatamente “questionadora” porque Bella, criada por “God” (e há tantos sentidos nisso) sequer entende por que alguém viveria, senão segundo seus próprios desejos. Ela não conhece nem reconhece nada além da liberdade.
Provavelmente, Pobres Criaturas só incomodou menos do que Barbie porque, afinal, não é um filme para as massas. Além de ser muito sexual (o que não significa que seja erótico), exige atenção, desprendimento e comprometimento intelectual que muita gente, hoje em dia, não parece muito disposta a empregar. Este é um problema do mundo, porém, não desta bela obra. É exatamente por causa das pessoas que vão achar seu feminismo “militante” ou “doutrinador” que ele existe e prova-se necessário. Quem dera todo filme “didático” fosse sempre tão interessante.
Pobres Criaturas pode ser visto no Star+.


