28/05/2008

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal

Indiana Jones
e o Reino da Caveira de Cristal


- O que é ser jovem, afinal?

Para alguns, a resposta passa pelo óbvio: ser jovem é ter pouca idade, ou um corpo sarado. Para outros, é manter a mente ativa e lúcida, ou permitir-se prazeres a qualquer momento da vida.

Harrison Ford talvez respondesse: "ser jovem é mostrar-se capaz de preservar a força e o encanto do ícone que você ajudou a construir, mesmo após quase duas décadas de ausência e de projetos malsucedidos no caminho".

Eu acrescentaria: "ser jovem é ser capaz de vencer a apatia e a descrença de jovens que pensam ser impossível a alguém com mais de 25 anos mostrar desenvoltura física e manter-se relevante após seis décadas de vida e quase 40 de profissão, emplacando um blockbuster que tem o poder de arrastar, de volta ao cinema, os pais desses jovens desrespeitosos (que chegam ao cúmulo de perguntar 'quem é Indiana Jones?'), sem que, para isso, tenham sido necessárias 'atualizações' fora de hora."

Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal responde ainda a outras perguntas feitas antes de sua estréia: sim, Harrison Ford já passou dos 60, mas continua fisicamente capaz; não, Shia LaBeouf não o ofusca; e sim, o personagem continua chegado em mistérios e os resolve de forma paciente, sem jamais cansar seus espectadores - o que quer dizer que, sim, Steven Spielberg ainda domina a arte do cinema de aventura.

Entretanto, o filme não é a última bolacha do pacote. No ímpeto de agradar às novas platéias (ou apenas forçando a mão nas homenagens a épocas mais inocentes do cinema), Spielberg apela para uns lances cartunescos demais, comete desrespeitos vergonhosos às leis da Fisica e faz da apoteose um exagero de efeitos especiais. Além disso, a ausência de Sean Connery é uma sombra que cobre o filme de ponta a ponta, ainda mais quando seu personagem é mencionado e brevemente visto.

Claro, nada disso embaça tanto o brilho de um retorno tão ansiosamente aguardado. Spielberg consegue combinar o espírito das antigas sessões de aventura com a correria exigida pelo público atual, e o mistério principal é interessante e bem desenvolvido e resolvido. Isso sem falar do elenco impecável, no qual sobressaem, além de Ford e LaBeouf, Cate Blanchett e John Hurt. A esperada "passagem de tocha" não vem de forma tão explícita, então, o jeito é esperar pelas decisões dos produtores sobre uma possível sucessão de Jones.

Apenas um conselho: embora não seja indispensável assistir aos três filmes anteriores, Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal é melhor curtido com o prévio conhecimento do que aconteceu neles. Não importa se você nunca os viu, ou se já os conhece de trás pra frente: qualquer desculpa é válida para assistir à série Indiana Jones. Afinal, ela tem o poder de nos manter jovens. Nota 7,0.

27/05/2008

Fine Young Cannibals: Live At The Paramount

Fine Young Cannibals:
Live At The Paramount

Em 1989, o Fine Young Cannibals colhia os frutos do sucesso mundial do seu segundo disco, The Raw And The Cooked, de onde saíram singles impecáveis como "She Drives Me Crazy", "Good Thing" e "Don't Look Back". Misturando soul music e eletrônica, o FYC podia não ser exatamente original em seu som, mas possuía marcas inconfundíveis: "os homens das pernas de borracha", Andy Cox e David Steele (guitarrista e baixista), e um vocalista carismático, de rosto marcante e voz inconfundível, Roland Gift.

Numa noite de outubro daquele ano, durante a etapa de Seattle da turnê pelos EUA, o trio resolveu registrar sua performance em vídeo. Daí saiu este Live At The Paramount. A Band chegou a apresentá-lo, praticamente na íntegra, num programa da série Hollywood Rock In Concert, no já distante ano de 1991. Eu tinha gravado e assistia praticamente todos os dias - e várias vezes ao dia.

Razões para minha empolgação não faltavam: além do repertório poderoso, o trio principal era encorpado por uma banda com percussão, teclados e metais, além de um sexteto vocal feminino, The Mint Juleps. Roland Gift revelava-se um gigante no palco, um soulman de primeira, arriscando-se até em brincadeiras ao piano e coreografias ligeiramente desengonçadas. Além disso, é impossível não se derreter em elogios às Mint Juleps, não apenas pela afinação, mas, também, pela presença de palco graciosa e divertida.

A edição era típica daqueles anos, quando a MTV fazia escola: cortes abruptos, texturas e imagens "nervosas", algumas propositalmente desfocadas. Depois de um tempo, tantos efeitos especiais podem cansar um pouco, mas isso não diminuía em nada o prazer de ver uma bela banda pop no auge da sua forma, fazendo versões definitivas de seus clássicos. Antes do grand finale (claro, com "She Drives Me Crazy"), há um sublime momento a cappella, com Roland e as Mint Juleps emprestando ainda mais beleza à já perfeita "My Girl", dos Temptations.

São momentos assim que fazem valer uma máxima, não escrita, segundo a qual, não houve década como os anos 80 para a música pop. O Fine Young Cannibals se separou logo no começo dos anos 90. Desde então, Cox e Steele dedicam-se à produção musical, e Gift virou ator elogiado, mas avesso ao showbiz. O trio se reuniu em 1999, para registrar as três canções inéditas da coletânea The Finest - e só. Roland Gift lançou um simpático disco solo em 2002, mas nada aconteceu. Bem que ele podia dar o ar de sua graça, sozinho ou bem acompanhado. "Johnny Roland, won't you come on home?"

Infelizmente, Live At The Paramount não tem edição em DVD - nem aqui, nem lá fora. O VHS também está fora de catálogo há um tempão. Caso se interesse, há no Orkut um paulista chamado Robson Aurélio, apaixonado pela banda e que tomou a divina providência de digitalizar seu VHS, com ótima qualidade, e ainda incluir clips e especiais como extras. O cara é honesto e prestativo. O preço pedido é de R$ 35, frete incluso. Vale a pena!

22/05/2008

O buraco é mais embaixo!

O buraco é mais embaixo!

O passado é um lugar bonito, seguro e confortável. Com meus 35 anos (a completar dia 27/06), eu estou perigosamente perto daquela fase da vida em que tudo é desculpa para o velho chavão: “no meu tempo é que era bom”. Deus me livre dessa má hora, porém – e não apenas porque ter na vida uma época chamada de “meu tempo” é um inequívoco sinal de velhice, mas, também, porque prefiro manter a cabeça ativa e arejada. A coisa que eu menos desejo na vida é virar um saudosista ferrenho, um cara com raiva do novo.

Por isso, não deixa de ser engraçado perceber, quando converso com novos e velhos amigos sobre música, o quanto se agarram ao passado, como se nada de bom tivesse acontecido nos últimos 10 ou 15 anos. Para gente assim, “Sunday Bloody Sunday” ainda é a melhor música do U2 (ok, gosto é uma coisa absolutamente pessoal, mas só é possível acreditar em tal afirmação se você não ouviu nada da banda desde War) e hoje “só se faz porcaria”.

Não é verdade. Nos anos 80 e 90, como hoje, havia toneladas de estrume genérico e diluído para cada pequeno achado de qualidade musical, vocal e/ou poética. Além do mais, o showbiz musical é, hoje, muito menos inocente; além disso, as facilidades proporcionadas pela tecnologia tornaram a música um mero objeto de uso rápido e descartável. Qualquer idiota com o software certo pode se proclamar “artista” e espalhar seus esforços mundo afora, via internet.

Isto posto, com alguma boa vontade, é possível deparar-se com verdadeiras jóias de velhos artistas esquecidos pela mídia ou de gente nova e ávida por ter seu nome nas revistas, sites e livros de História. Talvez você, atropelado pela mediocridade das rádios e da repetitiva programação da MTV, ainda não tenha se dado conta: existe por aí MUITA gente boa fazendo música MUITO boa.

Apesar disso, é compreensível que alguém perca a fé no gosto musical dos jovens, especialmente aqui no Brasil. Afinal, de uns tempos para cá, a baixaria é um poço cujo fundo parece simplesmente não ser alcançado. Quando a gente pensa que já presenciou o ápice da idiotice, dos maus exemplos e da sacanagem, chega algum “visionário” com a desculpa de que “isso é o que povão quer ouvir” e cava um pouco mais no chão do abismo.

As pessoas acham que isso é uma mera questão de gosto pessoal, mas estão erradas. Existe, sim, a ruindade inquestionável. Veja o caso do funk carioca, por exemplo. Assim como é impossível resistir à batida contagiante, é impossível não criticar a estupidez e a apelação de coisas como “Vai, Serginho” (o cafetão da Lacraia, autor de versos cândidos como “eu vou morder o seu grelinho”) ou a atual febre, a “Dança do Créu”. Será que o povo só gosta mesmo de escutar coisas que falem aos chamados baixos instintos? Todas as coreografias devem ter conotação sexual? Por quê? Tudo bem que o homem é um animal, mas “bicho” parece um termo mais adequado a quem só pensa com a cabeça de baixo.

Não é diferente em outros gêneros de “música do povão”: o tecnobrega paraense, o forró eletrônico, o pagode soteropolitano. Nestes gêneros, duplo sentido é coisa para os mais refinados – a regra é detalhar as coisas e os atos. Por isso é que a gente sai pela cidade escutando coisas como “você me lambendo todinha, eu fico molhadinha”, “desce com a mão no tabaco”, “olha o badalo do negão” e outras preciosidades de igual quilate.

(As mulheres, suas contribuições e sua evidente aquiescência para com gêneros musicais que as esculacham sem dó serão assunto de outro post, num futuro próximo)

Engana-se quem pensa que isto aqui é apenas mais um capítulo do meu “Manual de Malhação da Pobretada Para Iniciantes”. Os proletários talvez sejam culpados de fabricar as drogas, mas há consumidores ávidos na autodenominada “alta sociedade”. Há uns fulanos que instalam em seus carros sistemas de som caríssimos e hiperpotentes, apenas para atormentar os vizinhos com o fino da baixaria.

Entre as bandas de rock, um gênero tido como “sério” (coisa que ele não é, nem deveria ser), a nova onda é o otimismo boboca e a auto-ajuda de meia-tigela – e, convenhamos, superficialidade arrotada com ares de sabedoria é um crime apenas um pouco menos hediondo do que a baixaria pura e simples. Méritos musicais à parte, não existe a menor preocupação com uma rima mais criativa ou em dizer algo de novo – apenas os mesmos chavões de sempre sobre “ir atrás dos seus sonhos”. Nome a alguns bois: Jota Quest, CPM 22, Charlie Brown Jr.

“Quem poderá nos salvar, Batman?”, pergunta o ansioso menino-prodígio dentro de você (lá ele). Quem dá a resposta é nossa Ministra da Sacanagem, Martha Suplicy: relaxa e goza! Você não vai querer sair por aí dando uma de Michael Douglas em Um Dia de Fúria, quebrando alto-falantes e espancando pagodeiros, né? As pessoas não vão mesmo mudar, essas coisas não funcionam de fora para dentro. Siga garimpando novos sons legais e prestigiando os ídolos de outrora. Ao chegar do inferno que são as ruas do seu fuleiríssimo país, ponha para tocar aquele som que mais te agrada. O mundo lá fora continuará o mesmo, mas, pelo menos, você terá reunido forças para enfrentá-lo mais uma vez amanhã.

13/05/2008

Resumão Panini/DC - Abril 2008

Resumão Panini/DC – Abril 2008

Depois de alguns meses de ausência, voltam os Resumões! Pra começo de conversa, uma explicação que também é uma reclamação: não incluí Batman Extra no mix, simplesmente, porque a setorização da revista já alcançou absurdos seis meses e a periodicidade de sua chegada no eixo discriminado continua irregular.

As cinco MELHORES histórias de Abril:

1 - Batman: “O Palhaço à Meia-Noite”.
(Grant Morrison / John Van Fleet – Batman 65)
O Coringa se reinventa de forma apavorante nesta história com estrutura de romance, na qual descobrimos de onde veio a idéia para as bochechas cortadas de Heath Ledger, no filme que estréia em julho. Depois do tiro que levou em Batman 58, o Coringa sente que é hora de “redescobrir a graça” da piada que é a vida. Na prática, isso quer dizer que muita gente vai morrer, e Morrison capricha nas descrições repugnantes. Não leia antes de dormir.

2 – Superman: “O Último Filho”, parte 2.
(Richard Donner / Geoff Johns / Adam Kubert – Superman 65)

3 – Liga da Justiça: “O Rastro do Tornado”, epílogo.
(Brad Meltzer / Ed Benes - Liga da Justiça 65)

4 – Sociedade da Justiça: “A Nova Geração”, parte 4.
(Geoff Johns / Dale Eaglesham – Universo DC 11)

5 – Batman: “Mordida de Tubarão”
(Paul Dini / Don Kramer – Batman 65)

Menções Honrosas: Xeque-Mate (Rucka / Scott, UDC 11), Robin (Beechen / E. Williams II, NT 46) e Mulher-Maravilha (Picoult / Johnson, MM 10)


As cinco PIORES histórias de Abril:

1 – Supergirl: “A Verdade”
(Joe Kelly / Ale Garza – Superman 65)
Não ponham a culpa disso no Joe Kelly: ele só está tentando consertar a confusão iniciada por Jeph Loeb e piorada por Greg Rucka. Infelizmente, já é tarde demais: a “nova” Supergirl é um fiasco completo. Esse nheco-nheco envolve a Zona Fantasma, planos para matar o Superman e outras boas razões para bocejar descontroladamente. A leitura até que flui, mas estamos diante de uma personagem que, na verdade, sequer deveria existir e, muito menos, ter um título próprio.

2 – Asa Noturna: “Noiva e Noivo”, parte 1.
(Marv Wolfman / James Igle – Batman 65)

3 – Flash: “Velocidade Máxima”, parte 2.
(Marc Guggenheim / Paco Diaz – Os Melhores do Mundo 10)

4 – Renegados: “Pague No Caminho”, parte 2.
(Judd Winick / Carlo Barbieri – Novos Titãs 46)

5 – OMAC: “Dentro de Você, Sem Você”.
(Bruce Jones / Renato Guedes – Universo DC 11)


Artistas do Mês:
Adam Kubert e Carlos Pacheco (Superman)
Drew Johnson (Mulher-Maravilha)
Ed Benes (Liga da Justiça)

Fanfarrões do Mês:
Pat Lee (Superman & Batman)
Al Barrionuevo (Novos Titãs)
Carlo Barbieri (Renegados)


Melhor capa de Abril:
Batman 65 (Simone Bianchi)


Pior capa de Abril:
Superman & Batman 34 (Pat Lee)

Especial de Especiais

Especial de Especiais

Marvel Apresenta 35 – Punho de Ferro

Como você sabe, eu praticamente parei com a Marvel há algum tempo, mas decidi dar uma chance a esta revista, porque a) é o começo de uma nova fase para o Punho de Ferro, que b) é um personagem legal e que c) está em uma fase elogiada, escrita por Ed Brubaker e desenhada por David Aja. Não me arrependi. Embora seja um número 1, não é exatamente uma história de origens, mas trata do passado e das várias encarnações do Punho de Ferro durante a História. Além de enfrentar a Hidra, que tenta tomar controle de sua empresa através de uma firma de fachada, Daniel Rand sente que outra pessoas está usando o seu poder de Punho de Ferro – o que, em tese, seria impossível – e precisa encarar um oponente tão poderoso quanto ele próprio. Este é um gibi tão divertido quanto os melhores filmes de artes marciais que se vêem por aí: ágil, bem escrito e bem desenhado. Não tornou o Punho um de meus favoritos, mas, com certeza, valeu o investimento. Nota 9,0.


Os Desafios de Shazam 1 a 4

Por que Judd Winick não é sempre assim? Esta minissérie foi, desde o começo, uma grata surpresa: leve e despretensiosa, com bons desenhos de Howard Porter (bem melhor que nos tempos da LJA de Morrison). Mesmo tratando de um tema espinhoso (a substituição de um personagem tradicional como Billy Batson no posto de Capitão Marvel, agora que ele assumiu o lugar do Mago Shazam na Pedra da Eternidade), Winick tem defendido a tarefa com méritos. Não é original ao apresentar deuses em roupagem mortal, mas faz isso com bom humor e doses de ação, bem diferente do que anda fazendo com os Renegados, que virou um dos piores gibis da DC. Na série, Freddy Freeman (o ex-Capitão Marvel Jr.) é escolhido para ser o novo Capitão Marvel, mas agora precisa enfrentar desafios dos deuses para merecer o poder. O problema é que tem mais uma pessoa disputando este poder com ele – e ela joga sujo. Um gibizinho bastante agradável. Nota 8,5.


Justiceira: O Julgamento da Mulher-Maravilha

Esta edição reúne as seis últimas edições de Manhunter (revista que, lá nos EUA, acaba de ser ressuscitada, de volta à numeração normal) e diz respeito ao julgamento da Mulher-Maravilha na Corte Internacional, pelo assassinato de Maxwell Lord. Perdemos nada menos que 24 edições de elogiadas aventuras da personagem, mas a Panini colocou um extenso resumo do que aconteceu com ela nesse tempo. Há participações interessantes do Batman e do... Besouro Azul? Sim, o falecido herói dá as caras e é parte do mistério que envolve os misteriosos esforços contra a Mulher-Maravilha. Enquanto corre a trama do julgamento, Mark Shaw, que também já foi um Caçador, é cooptado pela Ordem de São Dumas para ser o novo Azrael. Justiceira é bem escrita por Marc Andreyko e tem bons desenhos de Javier Pina. Pelo jeito, a gente andou perdendo muita coisa boa. Nota 8,5.

10/05/2008

Capas: O Luxo e o Lixo!

Capas: o Luxo e o Lixo!

O CD recusa-se a morrer e, por um lado, isso é muito bom. Com a morte definitiva das plataformas físicas para a música, chegará ao fim uma das coisas mais interessantes que o showbiz musical legou ao mundo: as capas de discos.

A pior reação que uma capa de disco pode causar é a indiferença. O conteúdo pode ser uma droga, mas, se a capa for legal, há uma boa chance do lançamento mais mequetrefe ganhar uma chance na casa do freguês. Nesta seleção (de critérios absolutamente pessoais, claro), procurei listar acertos e deslizes de artistas consagrados na hora de embalar suas bolachinhas. Concordando ou discordando, não deixe de dar sua opinião! (Clique nas imagens para vê-las maiores)

COWBOY JUNKIES
O luxo: At The End Of Paths Taken (2007)
O lixo: Whites Off Earth Now!!! (1988)

Eu adoro quando uma imagem tão simples diz tanto, não apenas sobre o conteúdo do disco, mas, também, à memória afetiva de quem olha. Os Cowboy Junkies foram imensamente felizes na escolha da capa de At The End Of Paths Taken. Ela deve redimi-los desta verdadeira peça de terror que foi a capa de seu disco de estréia, digna de figurar nos pesadelos de crianças mais impressionáveis.


LULU SANTOS
O luxo:
Anticiclone Tropical (1996)

O lixo:
Liga Lá (1997)

Com esse título, a capa de Anticiclone Tropical parece a imagem de um desses fenômenos. Abrindo o encarte, descobrimos que se trata de um close do cocoruto de Lulu, devidamente photoshopeado! Grande sacada, mestre! Pena que, já no ano seguinte, Lulu quis parecer mais "moderno" do que devia. Para um disco fuleiro, uma capa fuleira: um ouriço high tech. Santa falta de idéias, Batman!


MADONNA
O luxo:
Like A Prayer (1989)

O lixo:
Bedtime Stories (1994)

A capa de Like A Prayer é um primor de neopsicodelia: badulaques hippies sobre o cobiçado umbigo da cantora e pequenos grafismos discretamente religiosos. Uma foto simples, porém, marcante. Bedtime Stories é outra coisa: desconfiada de que o mundo estava cansado de uma década de sacanagem, Madonna tascou uma foto estilo "tia perua espalhada na cama queen size". Mau negócio.


TIMBALADA
O luxo: Andei Road (1995)
O lixo: Serviço de Animação Popular (2005)

Uma idéia singela, mas eficiente: transformar as faixas de uma rodovia em uma pintura de timbaleiro. Ponto para o designer de Andei Road! A trupe percussiva de Carlinhos Brown, porém, fez em 2005 um grafismo pavoroso, um compêndio das piores idéias que contaminam o mercado da música baiana. Só faltaram imagens dos timbaleiros pulando, em poses aeróbicas (será que por dentro tem? Brrrr...)


MORRISSEY
O luxo:
You Are The Quarry (2004)

O lixo:
Bona Drag (1989)

Depois de anos de ostracismo, o cd de 2004 recolocou Morrissey no céu dos astros pop relevantes. Com aquelas letras furiosas e mal-criadas, a imagem de Moz com uma metralhadora dá seu recado. Em 1989, ele embalou um disco fraco com uma capa medonha: "Ai, gente, esta jaqueta vermelha brega, de napa de sofá de pobre, está me matando de calor! Acho que vou desmaiar... ooh!"


TITÃS
O luxo:
Õ Blésq Blom (1989)

O lixo:
Volume Dois (1998)

Considerado o ápice criativo dos Titãs, Õ Blésq Blom veio embalado em uma capa criada por Arnaldo Antunes, que combinava com o espírito de colagem e reciclagem presente no disco. Quase dez anos depois, desfrutando dos louros de fazer uma cover de Roberto Carlos, posavam de "artistas maduros". A foto não é feia, mas dá uma idéia de "ei, estamos gravando nosso primeiro clipe pro Fantástico!"

(pra quem não sabe, até meados da década de 90, clipes do Fantástico eram sinônimos de breguice e impiedosamente achacados na imprensa)

04/05/2008

Homem de Ferro

Homem de Ferro

Meu coração decenauta chora de ver como a DC/Warner patina feio no cinema (exceção feita ao Batman), entre adaptações meia-boca e cancelamentos, enquanto a Marvel vai colecionando sucessos de bilheteria. Homem de Ferro é a primeira do que parece ser uma série de bolas dentro que os recém-fundados Marvel Studios prometem para os próximos anos, com gente do meio quadrinhístico mais diretamente envolvida, o que garante maior fidelidade às origens (é confortador ver, por exemplo, o nome de Adi Granov, artista da HQ Extremis, entre os consultores do design da armadura).

Admito que Marvel nunca foi meu forte e que sempre achei o Tony Stark do universo Marvel "oficial" um mané sem carisma. Minha opinião sobre o personagem começou a mudar com a iniciativa Ultimate, que originou os sensacionais Supremos, recriação dos Vingadores que atualizava os personagens para o século 21. Pelas mãos de Mark Millar, Tony Stark pode até não ser tão diferente assim da sua contraparte tradicional, mas, pelo menos, eu estava lendo uma história de primeira, em que a ironia fina do personagem estava a serviço de diálogos brilhantes, que me fizeram gostar do Ferroso. Depois, veio a Guerra Civil e Tony, transformado num direitista ferrenho, ganhou uma personalidade a um passo da vilania - embora, claro, não seja o caso. O fato é que, mesmo ainda estando longe do pódio dos meus favoritos, o Homem de Ferro ganhou meu respeito.

Quando anunciaram esta adaptação, fiquei imaginando que veríamos uma bobagem do quilate dos filmes do Quarteto Fantástico: simplista, infantilóide e apressada. Minha única certeza, desde o primeiro momento, foi a de que a escolha de Robert Downey Jr. para o papel principal havia sido o maior acerto de todos. As confirmações do elenco restante seguiram me impressionando positivamente, com os ganhadores do Oscar Gwyneth Paltrow e Terrence Howard, mais o sempre eficiente Jeff Bridges. A coisa parecia, enfim, estar ficando bem melhor do que a encomenda.

Pois bem. Depois da decepção que foi Homem-Aranha 3, a Marvel sabia que estava devendo e caprichou mesmo em Homem de Ferro. A direção de Jon Favreau privilegia a ação e o espetáculo, mas não agride nossa inteligência, nem quando nos apresenta os gadgets eletrônicos mais incríveis do cinema recente, nem quando torna o mordomo Jarvis um programa inteligente de gerenciamento da casa e da oficina de Tony (com a voz do excelente Paul Bettany), ou mesmo com o "alívio cômico" proporcionado pelo servo robótico Dummy (não se preocupe, não é um robô que faz piadinhas chulas).

A origem do herói é trazida para os dias de hoje, quando as Indústrias Stark são as maiores fabricantes mundiais de armas de guerra. Durante uma exibição no Afeganistão, Stark é capturado e, durante três meses, mantido cativo e forçado a construir um novo protótipo explosivo, altamente destrutivo. Com a ajuda de outro cientista, o que ele fabrica mesmo é a primeira versão de sua armadura, que permite sua fuga. Depois, já de volta aos EUA, Stark decide fechar a divisão armamentista de suas indústrias, o que, claro, desagrada a muita gente, inclusive a gente bem próxima de Tony.

Como eu disse antes, Robert Downey Jr. tem tudo a ver com Tony Stark. Ele próprio sempre foi um hedonista de marca maior, envolvido em escândalos cabeludos - e não dá pra garantir que tenha tomado jeito. No filme, Tony não perde tempo com muita conversa com mulheres, "artigos" que, para ele, só têm função na saciedade de seus prazeres - exceto, como esperado, com a leal ajudante Pepper Potts (que raio de nome é esse?), vivida com discrição por Gwyneth Paltrow. Se ela é seu braço direito, o esquerdo com certeza é Jim Rhodes, pupilo dedicado e melhor amigo, que livra a cara de Stark quando os militares estão no seu pé. Completando o cast principal, temos Obadiah Stane, personagem de Jeff Bridges, melhor amigo do falecido pai de Stark e seu mentor dentro da empresa.

Cada aparição de qualquer das armaduras de Tony (vemos três delas em ação) é de deixar nerds babando, com ação na medida e efeitos especiais bastante convincentes. Minha única resslava é a de fazer daquele vilão talibã, meio "projeto de Osama", uma figura secundária na trama. Estou certo de que seria mais interessante (embora, talvez, maniqueísta) ter uma ameaça externa mais furiosa do que o caminho adotado (que já está se convertendo em padrão, nos paranóicos dias de hoje na América).

Por fim, não saia do cinema antes do fim dos créditos: ficou para o final uma das maiores nerdices do filme, um verdadeiro lance de "a arte imita a outra arte". Um sonho concretizado. Nota 9,0.