21/03/2009

Chamou, chamou?

Chamou, chamou?

Olá, amigos. Mando mais um postal do exílio, em situação contrária à última vez: se antes eu escrevi para relaxar do estudo, hoje escrevo antes de me atracar com uma extensa produção textual e algum estudo online. Espero que vocês estejam com saúde, dinheiro e se comportando mal. Abraços a todos!

Watchmen - O Filme


Talvez a coisa mais considerada "infilmável" desde que o mesmo era dito de O Senhor dos Anéis, Watchmen chegou aos cinemas cercado de expectativa e receio, por parte dos fãs, e da costumeira postura não-vi-e-não-gostei, por parte de seu autor, Alan Moore. O que eu vi na tela justificou a espera com alguns méritos, mas... dava pra fazer melhor? Claro, era só fazer um filme com cinco ou seis horas de duração - ou, como sugeriu o Luwig ao MSN, fazer de Watchmen uma série televisiva.

Tudo que era indispensável à trama ficou lá: a Guerra Fria no auge como pano-de-fundo, as relações do Comediante com os outros personagens, a lucidez obsessiva e maniqueísta de Rorschach, a frieza distante do Dr. Manhattan, o plano para apressar o fim do mundo. Mesmo que não seja o Watchmen ideal, acredito que Zack Snyder tenha entregue o melhor Watchmen possível.

O que deu certo: as caracterizações impecáveis de Rorschach e Comediante (eles eram, enfim, os melhores personagens também na HQ); a recriação literal e minuciosa dos lugares e eventos mais emblemáticos; os diálogos e a trilha sonora; o não-alívio do que a história tinha de mais violento e sexual (incluindo aí o onipresente bilau azul do Dr. Manhattan); e a solução encontrada para alterar o final imaginado por Alan Moore, bem mais digerível do que um monstrengo telepata surgido do nada.

O que está errado: o Ozymandias nada impressionante e o pouco tempo em cena da "onça" mutante Bubastis; a agilidade dos aposentados Coruja e Espectral, como se tivessem abandonado as rondas dias antes, e não anos; a imposição estilística da câmera lenta de Snyder; a falta de maiores elementos de humanidade - tudo ficou muito "super" e Watchmen, na verdade, é sobre heróis sem poder, sobre gente comum, sobre você e sobre mim.

Quando finalmente pude assisti-lo, apenas uma semana depois de ter entrado em cartaz, o filme já estava relegado à menor sala do Shopping Iguatemi, em Salvador, sério indício de que o público comum não ficou lá muito satisfeito. Apesar do bom ritmo do filme, um cara do meu lado dava suspiros impacientes, mas o povo prendia a respiração pra valer nos momentos mais tensos.

Tenho a opinião de que era cedo para Watchmen ver a luz da tela grande, afinal, com as boas (e ainda vivas) lembranças de Batman e Homem de Ferro, o gênero vive uma "era de ouro" e o público não podia mesmo ficar muito contente com um filme que destrói, de forma tão incisiva, nossas ilusões sobre super-heróis. Curiosidade saciada, resta agora saber se Watchmen, o filme, sobreviverá aos anos com a mesma força que Watchmen, a HQ. Nota 8,0.


U2 - No Line On The Horizon
(y otras cositas más)


Demorou pouco a minha resistência a No Line On The Horizon - mas, ora pombas, é do U2 que estamos falando! Depois de All That You Can't Leave Behind (2000) e How To Dismantle An Atomic Bomb (2004), discos medianos cometidos na ânsia de recuperar os fãs assustados com as (benditas) heresias eletrônicas de Zooropa (1993) e Pop (1997), o U2 sumiu por quase cinco anos, mas, na volta, conseguiu trazer um punhado de canções poderosas e criativas. NLOTH é um disco que se revela aos poucos, com a criativa guitarra de The Edge crescendo a cada audição, sobre a galopante cozinha de Adam e Larry. Melhor ainda, Bono voltou a ser aquele vocalista capaz de causar pontadas no coração do ouvinte. "Get On Your Boots", o primeiro single, pode ser uma (deliciosa) bobagem, mas tudo que vem antes e depois dela é fruto de inspiração e emoção genuínas. Já temos o melhor do ano? Bem provável.


Mais música procês!

Art Brut, Art Brut vs. Satan - Eu só os conhecia de nome, mas não dá para não gostar de uma banda que produz versos como "DC Comics and chocolate milkshake / some things will always be great / even though I'm 28". Decenauta é mesmo gente fina! O som é punk pop de primeira, cheio de sotaque londrino.

Phoenix, Wolfgang Amadeus Phoenix - Após três anos, está de volta uma das bandas mais legais do mundo - e ela vem da França! O Phoenix prova que música pop não precisa ser burra pra ser acessível. Baixe o single "1901".

Ximena Sariñana, Mediocre - Uma jovem atriz mexicana lança-se como cantora, sob as bênçãos da lenda kitsch Miguel Bosé - e seu disco só é medíocre no nome. Outra bela surpresa em minha busca pelo bom pop latino.


Ryan Adams, Cardinology - Exceto pelo Whiskeytown, sempre ignorei esse cara - também, quem mandou ter quase o mesmo nome de um mala incorrigível (o Bryan)? Um belo disco, pra você lembrar que música country não é só aquela coisa chata que sonoriza rodeios.

Tenacious D, The Pick Of Destiny - Trilha do filme homônimo de 2006, uma sequência de piadas chulas e roteiro zero, mas com trilha sonora vibrante - procure no YouTube os vídeos das impagáveis "Kickapoo", "Classico" e "Beelzeboss". Jack Black e Kyle Gass são rock na veia!

Marvin Gaye, What's Going On - É clássico e é Marvin Gaye. Ponto.

01/03/2009

Apareceu a margarida!

Apareceu a margarida!

Olá, meu povo e minha pova!

Eu sei que anunciei meu sumiço há apenas 15 dias, mas também anunciei que apareceria de vez em quando, certo? Pois bem. Ontem tive uma pequena overdose de estudo (com direito a provas virtuais) e decidi usar o domingo para dar um polimento na minha nerdice.


CINEMA

- Vai ter a audácia de dizer que eu não merecia?

O grande lance dos últimos dias foi a entrega do Oscar. Como esperado e como era justo, Heath Ledger ganhou como ator coadjuvante e Wall-E como melhor animação. O que talvez nem todo mundo esperasse era a chuva de prêmios para Quem Quer Ser Um Milionário?, agraciado com oito estatuetas. Não vi o filme ainda, mas não devem faltar méritos, visto que é fruto da mente de um cineasta original como é Danny Boyle. O que eu continuo não aceitando é que Batman - O Cavaleiro das Trevas, o filme mais assistido e elogiado de 2008, não tenha concorrido aos prêmios de melhor filme, roteiro e direção.


QUADRINHOS

A Pixel foi pras cucuias e levou com ela minha recém-iniciada coleção de Sandman. Ediouro, vá pro inferno! Nada mais a dizer.

Já a Panini colocou no mercado sérias ameaças ao meu magro porquinho: a edição recolorizada de A Piada Mortal (Alan Moore e Brian Bolland), a inédita e promissora Coringa (Brian Azzarello e Lee Bermejo) e a edição definitiva de Watchmen (Alan Moore e Dave Gibbons), aproveitando o lançamento do filme. São mais de 400 páginas, com o astronômico preço bruto de R$ 120,00. Nas lojas virtuais, porém, pode-se achá-lo por R$ 95,00. Para quem não faz questão de capa dura e papel especial, o clássico ganha uma versão "de pobre", com capa cartonada e papel comum, em dois volumes, a R$ 28,50 cada.

Nos fronts mensais, as coisas vão bem, obrigado. Superman continua em ótima fase, agora com uma excelente história ambientada no século 31, com a Legião dos Super-Heróis, cortesia de Geoff Johns e Gary Frank. Em Batman, A Ressurreição de Ra's Al Ghul pode não ser o cúmulo da originalidade, mas é agitada e divertida. Em Lanterva Verde, acabou A Guerra dos Anéis, mas ela foi apenas a primeira parte de uma longa saga que culminará na Noite Mais Densa, em 2010. Nos próximos meses, seremos apresentados a energias de outras cores, regidas por emoções como a fúria e a avareza. Por fim, em Liga da Justiça, a equipe dona da revista tem perdido em impacto para a Sociedade da Justiça, não apenas pelas excelentes capas de Alex Ross, mas pela superioridade das tramas de Geoff Johns sobre as de Dwayne McDuffie. O Flash de Mark Waid continua acelerado (perdão pelo trocadilho infame) e até a Mulher-Maravilha de Gail Simone, pasmem, merece uma leitura mais atenta.



MÚSICA

Baixar mp3 tem sido meu lazer nerd mais constante - e, cara, quanta coisa boa eu tenho escutado!

Não nego que meu interesse por Bruce Springsteen foi aguçado pela indicação de "The Wrestler" ao Oscar. Acontece que Working On A Dream é um grande álbum em sua totalidade. Imagine como seria misturar um Bob Dylan que sabe cantar com um Roy Orbison menos triste. Assim é o Bruce, modelo 2009.

Existe na América Latina uma variedade imensa de boa música pop sendo feita, mas aqui no Brasil, a gente se limita à chatice da Shakira e à farofa do Maná (e é sempre "Vivir Sin Aire", embora eles tenham músicas bem melhores). Com quase 20 anos de carreira, o uruguaio Jorge Drexler só se tornou meu conhecido em 2008, quando baixei Eco (2005), um desses discos que a gente deixa rolando da primeira à última faixa sem reclamar. É nele que está a vencedora do Oscar "Al Otro Lado Del Río", de Diários de Motocicleta.

Dois ícones recentes da música eletrônica também caíram nas minhas graças. O duo francês Air é mais climático e melódico, enquanto o Daft Punk é mais de pista, radical e funky, como um novo Kraftwerk (não tome a baba de FM "One More Time" como base para suas impressões).

Em fevereiro, meu dinossauro favorito, Morrissey, voltou à carga com um disco de impressionante vigor, Years Of Refusal, em que abandona de vez o papo de "viado virgem" e canta as alegrias (e, claro, as tristezas) da conjunção carnal, devidamente amparado por rockões musculosos como "Something Is Squeezing My Skull" e por suas típicas (e lindas) baladonas, como "I'm Throwing My Arms Around Paris". Para mim, um agradável bônus foi ter as faixas inéditas da coletânea de 2008 (as ótimas "That's How People Grow Up" e "All You Need Is Me") incluídas no repertório. A caneta de Morrissey continua afiada e sua voz, mais cristalina a cada dia.

Por fim, após quase cinco anos, o U2 lançou disco novo. As guitarras ensandecidas do primeiro single, "Get On Your Boots", não dão o tom exato de No Line On The Horizon, que faz lembrar a fase mais experimental do grupo, com canções que não soariam deslocadas em Achtung Baby ou Zooropa. Não gruda de primeira no ouvido e, certamente, não vai revolucionar o rock porra nenhuma, como prometeu Bono meses atrás, mas talvez não se deva cobrar revoluções de bandas com 30 anos de carreira. A única coisa que espero do U2, a essa altura, é poder assistir a um show da nova turnê, que deve começar em breve.

Raspando o tacho: It's Not Me, It's You, de Lily Allen, é divertido, mas a falta de variação vocal irrita um pouco. Tonight, do Franz Ferdinand é menos certeiro que os anteriores, mas ainda é legal. The Von Bondies, apadrinhados por Jack White, são uma grata surpresa, no disco Love, Hate, And Then There's You. Fechando a tampa, para rir um pouco, recomendo Saliva-me (2005), do artista multimídia baiano Zéu Britto (aquele que sempre cantava na finada série Sexo Frágil), recheado de hard rocks com títulos maravilhosos, como "Vou Queimar Seu Peito Com Isqueiro" (ai!).



CARNAVAL

Este ano, tive um carnaval light. A maior parte do feriado foi passada em casa, descansando mesmo. Dediquei apenas um dia à orla de Salvador, durante o qual comprovei que não existe jeito melhor de ver o espetáculo do que em um camarote, de onde se pode ver os artistas e a empolgação da multidão de um ângulo favorável, seguro e emocionante; que a guerra de cervejas pode fazer Ivete Sangalo (empregada da Nova Schin) literalmente dar as costas ao camarote Skol e não parar seu trio na frente dele, coisa que todo mundo fazia; que Cláudia Leitte é uma rival que a incomoda de verdade; que Daniela Mercury oferece um espetáculo de primeira grandeza, culturalmente rico, multifacetado e geralmente gratuito; que o Asa de Águia agita o povo de uma maneira absurda, impressionante mesmo; e que álcool em doses elevadas infecciona minha garganta. Shit... :-(


Outro dia foi passado em uma pequena cidade do interior, chamada Maragojipe, que tem um carnaval à moda antiga, lembrando bastante os mascarados de Veneza (fotos acima) . A trilha sonora não é o pula-pula do axé, nem a baixaria do pagode baiano, mas antigas marchinhas e hinos de carnaval compostos por especialistas como Moraes Moreira e Armandinho. Tudo muito bonito e alegre, com jovens e idosos dividindo o mesmo espaço, dando a esperança de que nem tudo na vida é campeonato de beijos e abadás custando o olho da cara.

Foi, enfim, um carnaval magro, discreto e comedido. Nada parecido com 2007, quando tomei todas e saí no bloco das Muquiranas, no que deveria ser uma fantasia de Mulher-Gato. Para você que não acreditava que o Batman pudesse usar os trajes de sua ardilosa inimiga/amante, eis uma imagem que nao deixa dúvidas...