31/05/2009

Os bonitinhos do Gospel

Cantai como filhos do Senhor!
Jesus, me chicoteia! São os bonitinhos do gospel!

Os intervalos comerciais da Rede Globo foram tomados de assalto por uma tendência que não é exatamente novidade. Por meio de sua gravadora, a famigerada Som Livre, a líder de audiência descobriu o que sua concorrente mais incômoda (a Record) já sabia há muito tempo: sex God sells.

Há o comercial do cd Milagres, da bonita de rosto e voz Adriana; o do cd Deus do Impossível, da certinha (e chatinha) Aline Barros; e o atual xodozinho das "tias" católicas, o bonitão Padre Fábio de Melo, com seu cd/dvd Eu e o Tempo, todos devidamente consagrados como campeões de vendas e de pirataria - mas, espere, não é só isso! Tem algo mais unindo esses três lançamentos, além do óbvio e ululante tema das canções: a beleza física de seus intérpretes.

Antes que você abra seu saco de clichês para me dizer que a beleza deles é um "presente de Deus" ou qualquer coisa assim, eu tenho uma verdade muito mais palpável pra apresentar: a Globo não dá ponto sem nó. Daí, que não bastava (re)entrar no mercado gospel contando apenas com o apelo das canções, ou investir no agora já passadinho Padre Marcelo Rossi. Era preciso contar com gente bonita, dotada de uma necessária dose de sex appeal, capaz de elevar as vendas em igual proporção à da libido dos fiéis. Claro, tudo devidamente embalado numa aura de pureza e boas intenções.

Verdade seja dita, nenhum dos três é exatamente novo no mundo gospel e já possuem um séquito de fãs. Você não há de duvidar, porém, que eles foram escolhidos a dedo pela Som Livre, né? Adriana tem aquele jeito imponente de top model que amadureceu. Aline Barros, uma pinta de mocinha tão pura que deve peidar cheiroso, mas, assim como outra da mesma espécie, a Sandy, tem quem goste. Fábio de Melo, o galã da hora, tem aquele nariz curiosamente fálico, emoldurado por um ar de homem que não avança o sinal (isto é, se mocinha - ou tia - não pedir).

Adriana canta bem. Aline canta bem. O repertório pode ser tedioso e repetitivo, mas aí já são outros quinhentos. Fábio de Melo, porém, não é cantor. Os comerciais já dão pista do seu alcance vocal limitado, de modo que não fiquei surpreso quando ele se apresentou no Domingão do Faustão umas semanas atrás, semitonando horrivelmente em vários momentos. É óbvio que os discos dele não existiriam sem um ProTools (software de edição de voz) ou equivalente. O playback deve comer solto em seus shows. Ou isso, ou a massa católica está pouco se lixando pra parte musical e só quer mesmo louvar ao Senhor.

O repertório do padre inclui, de forma bastante despropositada, clássicos do cancioneiro popular que destoam completamente do restante do repertório, pelo simples fato de não serem canções gospel, apenas citando palavras ou expressões caras ao catolicismo, como "Romaria" (Renato Teixeira) e "Pai" (Fábio Jr.), essa última falando de um pai extremamente mundano e falho, nada adequado para comparações com o Criador. Até "Apenas Mais Uma de Amor", de Lulu Santos, entrou no baile, sabe-se lá sob qual pretexto.

Desde os tempos do Padre Marcelo Rossi, pulando ao lado de dançarinas e "celebridades" seminuas no programa do Gugu, que se discute se é correto que a Igreja Católica lance mão desse tipo de artifício, se isso é evangelização ou circo pop - mas, ora bolas, se outras podem e o fazem sem pudor, por que não? O que eu gostaria é que eles assumissem de uma vez o caráter de "braço armado", de tática de guerrilha, que esses cantores representam, ao invés de ficar negando que a beleza é o grande trunfo do padre do nariz erótico. Afinal, cantores bem melhores existem aos montes, inclusive no universo religioso, e nem por isso eles estão ganhando preciosos segundos no horário nobre.

17/05/2009

Rapidinhas

Rapidinhas

- Até que enfim, caminha no Congresso um projeto de lei que acaba com a absurda criminalização da homossexualidade nas Forças Armadas, que deve estender-se às polícias. Num momento em que o Brasil começa a figurar como uma moderna potência mundial, é realmente vergonhoso que uma lei tão medieval esteja em vigor, desrespeitando direitos civis e desperdiçando potencial humano. Homens e mulheres gays sempre existiram, sempre existirão e não é fazendo de conta que eles não já integram determinadas corporações, ou aplicando-lhes descabidas punições ao descobrir-se sua condição sexual, que essas corporações serão melhores.

- Comprei a versão motherfucker de Watchmen lançada pela Panini, basicamente por três motivos: 1) minha edição de 1999 da Editora Abril (ótima, diga-se) já se encontra abalada pelas sucessivas mudanças de endereço; 2) ela parecia ter ficado linda, impressão que se confirmou quando pude finalmente tê-la em mãos; 3) um desconto de R$ 40 sobre o preço de capa (R$ 120) pode ser bastante persuasivo, ainda mais com parcelamento em três vezes. Foi pelo site da Saraiva, mas Americanas e Submarino têm condições semelhantes.

- Eu tinha resolvido não dizer uma linha sobre o monte de estrume que é o filme do Wolverine, mas me peguei percebendo que ele tem um tom que já começava a delinear-se em X-Men - O Confronto Final: uma maçaroca de boas tramas condensadas em situações forçadas e clichês constrangedores. Ao que parece, Homem de Ferro foi uma exceção no caminho que a Marvel resolveu adotar, pontuado por ação descerebrada e brigas inexplicáveis - e detesto dizer que eu já previa o desastre, mas é verdade. Vejamos o que os próximos filmes reservam.

- Voltando um pouco ao assunto do post anterior, ontem estava pensando em como mudei minha impressão sobre "Vertigo", do U2, desde seu lançamento, há cinco anos. Na época, admito, achei uma porcaria sem tamanho, era como o U2 estivesse virando o Green Day. Veio a visita ao Brasil em 2006 e minha percepção foi mudando aos poucos. Hoje, se tem uma música que me deixa feliz, que me anima o dia, é "Vertigo". Sabe o que eu percebo nela? Que é um dos poucos momentos em que o U2, uma banda tão afeita a hinos pomposos e causas nobres, permite-se ser apenas uma banda de rock, e das boas. Guitarra, baixo e bateria estão infernalmente rock 'n' roll, e Bono a interpreta com o tesão de um garoto de 19 anos. Não é pouca coisa. Se rolar mesmo show ano que vem, espero estar perto do palco para contar "uno, dos, tres, catorce!"

- Beijomeliga!

10/05/2009

Teste dos 20 Anos

Teste dos 20 anos

Em 1989, um CD custava de cinco a dez vezes mais que um LP. Naquele Brasil que ainda iria realizar sua primeira eleição direta, ainda bem fechado política e economicamente, não havia internet ou globalização de qualquer espécie; importar um LP ou CD demandava uma boa grana ou boa vontade por parte daquele parente/amigo em viagem ao exterior. A Bizz tinha pouco mais de três anos de existência e publicava, orgulhosa, notícias de dois ou três meses antes. O U2 enfrentava sua primeira crise criativa, a dance music tomava as paradas de assalto e as bandas de rock nacional atingiam o pico de sua popularidade, do qual despencariam vertiginosamente com a chegada dos sertanejos.

Foi o ano da polêmica edição da Veja em que Cazuza admitia ter AIDS, que também vitimaria o ator Lauro Corona. O ano das mortes de Raul Seixas, de Luiz Gonzaga e do pintor Salvador Dalí. O ano da primeira disputa de Lula pela presidência do país, que perderia para o famigerado Fernando Collor de Mello, o alagoano que tinha aquilo roxo. O ano da queda do Muro de Berlim.

Como não poderia deixar de ser, foi, também, o ano de discos memoráveis, alguns dos quais prometiam marcar a ferro seu nome na História. De boas intenções, porém, o inferno está lotado e os sebos, cheios dos empoeirados esforços de gente que tentava ganhar ou manter seu lugar ao efêmero sol das paradas. Duas décadas depois, porém, quantos destes discos realmente resistem a uma audição?

Como sempre acontece nestes casos, a lista é limitadíssima e minha opinião, nada profissional. Trata-se da opinião de um fã que curtiu os discos na época de seu lançamento e compara as sensações de então com as de agora. Concordando ou discordando, não deixe de comentar!


CAZUZA - Burguesia

- Você sempre me amou?
Mesmo agonizando com a AIDS, Cazuza colhia os frutos de respeito e sucesso obtidos com Ideologia e ampliados com o Ao Vivo, de onde constava a fundamental "O Tempo Não Para". Cercado de expectativa, Burguesia foi uma decepção. Gravado a toque de caixa, o pretensioso disco duplo tinha os piores timbres possíveis e a voz de Cazuza reduzida a um fiapo. Não ajudavam as letras medíocres, em especial na total falta de sutileza de "Cobaias de Deus" e "Filho Único". Mesmo assim, foi possível me afeiçoar a algumas canções, como "Azul e Amarelo", "Mulher Sem Razão" e "Como Já Dizia Djavan".

- Vinte anos não são vinte dias!
Infelizmente, o tempo foi inclemente com Burguesia e seus defeitos foram apenas ressaltados com a evolução das produções musicais no Brasil. As canções ruins soam ainda piores e as melhores agora soam apenas razoáveis. As semitonadas de Cazuza já não merecem o perdão que sua condição evocava à época. Melhor teria sido encerrar a carreira antes e aguardar a morte com um pouco mais de dignidade.


GUNS N' ROSES - Lies/Live Like A Suicide

- Você sempre me amou?
Em 1989, o Guns era a única banda capaz de ameaçar o U2 no trono de Maior do Mundo. Culpa desse disco, meio acústico de estúdio e meio elétrico ao vivo, que continha "Patience" e sua indefectível introdução assobiada. Sim, eu a assobiei muito por aí, mas também curtia o humor negro de "Used To Love Her", a versão desplugada de "You're Crazy" e a cover de "Mama Kin", do Aerosmith. Sim, tocou até encher o saco, mas admito: naquela época, o GN'R era MUITO legal!

- Vinte anos não são vinte dias!
O recurso do assobio, repetido na politicamente incorreta "One in a Million", já não tem o frescor da novidade e acaba irritando. Depois de anos de abuso do formato acústico, o "lado" elétrico do disco, com seu hard rock veloz e enérgetico, soa bem mais legal que aquele que o fez famoso. Dá uma certa saudade e uma baita vontade de porrar as cabeças de Axl e Slash uma na outra, até eles se entenderem.


MARISA MONTE - MM

- Você sempre me amou?
"Diva" era o adjetivo mais modesto aplicado a Marisa Monte em sua estréia, apadrinhada e "jabazada" por Nelson Motta. De fato, ela impressionava, transitando com desenvoltura entre Titãs, Mutantes, Carmen Miranda e standards norte-americanos. Uma criatura híbrida, pop demais para a MPB e suave demais para o rock. Mesmo assim, era uma novidade gostosa e MM rodou muito no meu som. Para o bem e para o mal, estava inaugurada a era das cantoras "ecléticas" (ainda sem o ranço GLS).

- Vinte anos não são vinte dias!
Ainda bem que Marisa Monte evoluiu barbaridades como cantora e compositora. Este primeiro registro soa hoje quase insuportável em seus excessos, como o timbre rosnado nas introduções de "Comida" e "Negro Gato" e transgressões tolas, como encaixar drogas na letra de "Chocolate", de Tim Maia. Já a versão para "I Heard It Through The Grapevine", de Marvin Gaye (que não constava do LP), incomoda pelo inglês macarrônico.


SOUL II SOUL - Club Classics Vol. One

- Você sempre me amou?
Jazzie B e sua trupe eram quase uma unanimidade entre a crítica: descolados, chiques, talentosos. O compasso manemolente de "Keep On Movin'" foi logo apelidado de "batida Soul II Soul", de tanto que foi copiado - e podem não ter sido eles a inventá-lo, mas sem dúvida o popularizaram. Uma de minhas primeiras paixões na dance music, o Soul II Soul era mesmo o que parecia: descolado, chique, talentoso. Bastava um trinado de Caron Wheeler pra os pelos de minha nuca se eriçarem.

- Vinte anos não são vinte dias!
A dance music ganhou batidas bem mais encorpadas e velozes. Infelizmente, a estréia do Soul II Soul não envelheceu muito bem, e o que antes era um saudavelmente nostálgico resgate do soul com roupagem modernosa, hoje soa bastante datado. Não ficou ruim, mas é preciso um bocado de esforço pra entrar no clima.


THE STONE ROSES - The Stone Roses

- Você sempre me amou?
Desde aqueles tempos (ou antes), a imprensa britânica já tinha a mania de declarar o rock "morto" e apresentar um novo grupo de "salvadores" do gênero e, com a mesma facilidade com que enchia a bola dos mais ingênuos em uma semana, detonava-os sem pena na seguinte. The Stone Roses vinha embalado pela fama obtida no underground londrino, pela neopsicodelia que tomava a cidade e pelo nascimento da cultura shoegazer (shoegazers eram uma espécie de emos cheios de anfetaminas). Sim, eles justificavam o culto, com este disco impecável, que casava melodias à la Beatles com algumas batidas dançantes.

- Vinte anos não são vinte dias!
Sim, continua ótimo! Há quem considere este disco o verdadeiro marco do nascimento do britpop, cinco anos antes do Oasis. A banda, como sabemos, não se criou, lançando um segundo disco (Second Coming) que confundiu e desagradou aos fãs. A carreira solo de Ian Brown tampouco deu em qualquer coisa digna de nota. Tudo bem, este disco é bom o bastante para redimi-los até o fim da existência!