20/01/2010

Melhores de 2009 - Música, Parte 2

Melhores de 2009
Música, Parte 2



Foi por pouco: até meados de dezembro, este disco não teria mais do que 12 faixas, tamanha a escassez de lançamentos que justificavam a presença aqui. Felizmente, novas e melhores canções surgiram ou foram descobertas por mim, garantindo a simetria com as 15 faixas do volume anterior. 2009 não teve estréias arrebatadoras como 2008, mas foi o ano em que eu mais me abri (lá ele!) a novos nomes, graças ao incansável trabalho de blogs aliados e das revistas e sites que procuram fugir do óbvio ululante das FMs e MTVs. Que os bons ventos da música soprem mais forte em 2010.

Para baixar, clique aqui.


01 -
Kings of Convenience, "Mrs. Cold"
Do frio da Noruega chega uma das mais calorosas faixas acústicas dos últimos tempos, de uma dupla que tem Simon & Garfunkel como principal referência. Música do terceiro disco, Declaration of Dependence.

02 - Air, "Sing Sang Sung"
O Air foi uma descoberta tardia, mas sempre é hora de conhecer bons artistas. Os franceses mesclam climas eletrônicos e melodias pop como poucos. Esta é uma delicada e assobiável canção da volta do duo, Love 2.

03 -
Joss Stone, "Free Me"
Depois de tentarem transformá-la em mais uma biatch boazuda e vazia, Joss Stone se recolheu e refez seu rumo musical, voltando ao old school soul. Vamos dar o braço a torcer, galera: Joss arrebenta!

04 -
Nando Reis, "Driamante"
Tinha que ter Brasil, né? Ele deixou de lado, ao menos por enquanto, as pretensões emepebísticas e voltou com um disco de bom folk rock, com bateria forte, teclados vibrantes e o verso de abertura mais bonito do ano.

05 -
Mika, "We Are Golden"
Ok, eu admito: essa música é cafonérrima - e aí está seu charme! Alheio às tendências, Mika insiste em um pop ligeiramente anacrônico e cheio de deliciosos exageros, como o refrão gritado em coro.

06 -
The Postmarks, "No One Said This Would Be Easy"
Se você gostou do Last Shadow Puppets, tem tudo para se afeiçoar a este grupo que manda ver nas cordas e na doçura das melodias à la pop 60, regadas com um clima meio western.

07 -
God Help The Girl, "God Help The Girl"
O nome da banda é o nome da música e do disco. O GHTG é um projeto de Stuart Murdoch, vocalista do Belle & Sebastian. Ao seu lado, outra fabulosa vocalista, Catherine Ireton - e a perfeição melódica da banda original.

08 -
Brendan Benson, "Eyes On The Horizon"
Esqueça Jack White, ele só não decepciona no White Stripes: quem tem talento de verdade para o pop nos Raconteurs é Brendan Benson. A prova está nesta e nas outras faixas de My Old Familiar Friend.

09 -
Echo & The Bunnymen, "Everlasting Neverendless"
É maravilhoso ver uma banda com trinta anos de carreira, ainda capaz de dar um caldo consistente assim. Longe de nostalgias, o Echo chegou com um hino desses de fazer os fãs se esgoelarem.

10 -
Arctic Monkeys, "My Propeller"
Eles não apenas mudaram, mas evoluíram pra valer. Sai a inconsequência adolescente e acelerada dos primeiros discos e entram o vocal contido e o peso controlado, cortesia da produção de Josh Homme.

11 -
The Films, "God Bless Your Heart"
O quarteto da Carolina do Sul (EUA) faz música nostálgica, com pitadas de Beatles e Tom Petty. Oh Scorpio é o quarto disco dos caras. O começo lento engana, disfarçando o pique de folk e surf music.

12 -
The Grass, "Ain't Running Scared"
Psicodelia bluesy para o século 21, com direito a introdução com piano assombrado. Rápida e caceteira, a banda não desperdiça um só segundo e, em menos de 3 minutos, faz a gente bater o pé sem parar.

13 -
Lulu Santos, "Na Boa"
20 anos depois de Popsambalanço e Outras Levadas, Lulu volta a aproximar-se do samba rock e deixou pro finzinho de 2009 seu disco mais redondinho em anos. Aos 56, Lulu mostra que ainda é rei e manda muito.

14 -
You Say Party! We Say Die!, "Laura Palmer's Prom"
Além de ressuscitar a "falecida" mais célebre de 1990 (musa espiritual da série Twin Peaks, de David Lynch), este quinteto canadense evoca os timbres e os fins de festa dos anos 80, com romantismo e tristeza.

15 -
Norah Jones, "I Wouldn't Need You"
Ela cansou de ser identificada com happy hours e whiskinhos, deixou o jazz de lado e temperou seu folk com uma pegada rock e alguma sensualidade. Esta balada mostra que ainda há muito a aprender sobre (e com) Norah.

10/01/2010

Avatar

Avatar


A esta altura, pouco menos de um mês após sua estréia, Avatar já é a segunda maior bilheteria da História. Difícil dizer se virá a ganhar o primeiro posto, já que os quase dois bilhões de dólares arrecadados por Titanic (1997) parecem imbatíveis. Não se pode deixar de notar que ambos são crias do mesmo James Cameron, diretor bissexto e perfeccionista, que causou tremores até nos mais ansiosos quando os trailers de Avatar começaram a surgir, dando a impressão de ser o filmeco mais caro de todos os tempos. Felizmente, ele é muito mais do que cenários coloridos e bichos exóticos.

Não se engane, porém: mesmo no quesito tecnologia digital de cenários e animação, em que parecia que já havíamos visto de tudo, Avatar representa vários passos à frente. A captura digital de movimentos e expressões alcança um possível ápice, o que torna críveis os Na'Vi (os altíssimos e azuis habitantes do planeta Pandora), com seus movimentos perfeitamente fluidos. Na primeira hora do filme, também é perceptível a obsessão de Cameron com a riqueza da paisagem natural do planeta, como se estivesse tentando dizer "vocês queriam um mundo digno dos seus sonhos e eu o fiz pra vocês". Encontrar um defeito na riqueza de cores e formas de Avatar é tarefa para os mais implicantes e, sinceramente, há coisas bem melhores para se procurar durante as quase três horas de projeção. Ainda mais porque não demora muito e o deslumbramento visual fica em segundo plano para que a ação e emoção tomem o centro das atenções.

É fácil perceber as críticas ao ciclo expansionista, extrativista e escravagista europeu no século XVI, às malfadadas intervenções militares norte-americanas e à destruição dos ecossistemas pelo homem. A clareza dos argumentos de Cameron, porém, não os torna maçantes ou desimportantes. No filme, os humanos chegam a Pandora em busca de um novo metal precioso. Acontece que, para chegar à maior das reservas deste metal, será preciso arrasar a maior comunidade dos Na'Vi, um lugar sagrado para eles. O problema é que boa parte dos humanos, em especial o odioso coronel Quaritch, não parece disposta a negociar ou hesitar. O ápice da crueldade ambiental acontece numa cena que se equipara (e até supera) à inesquecível quebra ao meio do Titanic, tamanho o gigantismo da cena. Infelizmente, não pude ver o filme em 3D, mas deve ser de tirar o fôlego.

Verdade seja dita, não há muita inovação na trama de Avatar. Já vimos tudo isso antes: o manifesto ecológico, o messianismo relutante e a dupla traição de Jake Sully (o personagem de Sam Worthington), as ressurreições "biomágicas"... mas é tudo tão bem feito e tão bonito que a gente acaba não dando muita importância ao inevitável dèja-vú. Em vez de moralismo, Avatar prega uma esquecida moralidade para com os semelhantes, os diferentes e a natureza que nos sustenta. Impossível não cair na reflexão quando Jake Sully explica as intenções dos humanos com palavras simultaneamente simples e contundentes: "eles mataram a deusa deles e agora querem matar a de vocês". Sutilezas e obviedades se alternam, mas é improvável que mesmo o mais cético espectador saia do cinema com o coração e a consciência imunes.

Prepare-se para uma sequência de injustiças no Oscar, visto que a Academia, com raras exceções, costuma relegar filmes de gêneros "menos sérios" a indicações técnicas. Do meu lado, depois da palhaçada feita com o filme do Batman ano passado, não me surpreendendo com mais nada. Alheio ao reconhecimento da Academia, James Cameron fala em continuações para Avatar. Talvez ele devesse reconsiderar. Torná-lo parte de um todo menor que suas partes é um risco desnecessário. Do jeito que está, Avatar é a História acontecendo diante de nossos olhos - e faz tempo que não esperamos ou recebemos menos de Cameron. Será que é possível esse homem nos surpreender mais uma vez?