29/12/2011

Quem tem medo da MPB?



Quem lê esse blog há mais do que alguns meses certamente já viu aqui postagens pouco elogiosas à MPB, por tudo de ruim que costuma vir associado à sigla: pedantismo lírico, cafonice solene, produção ruim, o culto desmedido a um punhado de figuras sobre as quais mal se permite a discussão (que dirá a crítica) e, principalmente, uma plateia que se acha mais inteligente e esclarecida do que os "meros mortais" - não porque leiam mais ou debatam melhor, mas, simplesmente, porque escolheram a MPB como gênero de cabeceira. Aqui, ó!

Não faltariam, portanto, argumentos para a defesa de quem quisesse manter uma saudável distância do gênero. Só que, assim, a coisa tomaria ares extremistas... e o extremismo, não importa de qual corrente, logo torna-se insuportável e burro. Por exemplo: quando você chega em uma festa de amigos com gosto musical diferente do seu e passa o tempo todo reclamando da música que está tocando, seja ela qual for, você está sendo a) indelicado e b) um chato de galochas.

Dias atrás, eu assisti no YouTube a trechos de uma entrevista de Lobão no programa Café Filosófico, da TV Cultura. Lobão é daquele tipo de personalidade com a qual pode-se concordar ou discordar, mas é sempre bom prestar atenção ao que ele diz, porque o faz com clareza e eloquência acima da média. Como você talvez já saiba, ele tem pavor do culto quase religioso dedicado a artistas como Chico Buarque e Caetano Veloso; um pavor que se estende a outros artistas do gênero e às suas respectivas obras, quando não às próprias pessoas.

Na entrevista, Lobão reclama (pela enésima vez, diga-se) da exagerada importância artística e da equivocada relevância política dadas à obra de Chico Buarque, alguém que, segundo ele, jamais esteve à esquerda de qualquer coisa. Conta, também, um "causo" no qual Gilberto Gil teria escapado de uma pergunta séria sobre sua então recente nomeação como Ministro da Cultura do governo Lula com devaneios sobre a acústica do lugar onde estava e uma incorporação espírita. A Caetano, sobra a crítica ao estilo frouxo de tocar violão, motivo pelo qual, segundo Lobão, ele não estaria "autorizado" a gravar um disco de rock (o elogiado , de 2006).

Muito do que Lobão diz faz perfeito sentido e eu concordo com ele em muitas passagens do vídeo. O problema é que isso, já há algum tempo, tomou ares de coisa pessoal. Assim como muita gente da geração de Lobão costumava reclamar que não era preciso pedir a opinião de Caetano para absolutamente TUDO como se pedia, também ele, Lobão, poderia guardar para si certas considerações, especialmente quando flagrantes de uma espécie de deslocada cobrança de reparação por um suposto bloqueio dessas pessoas às suas pretensões artísticas, sejam elas quais forem.

Lobão tornou-se, portanto, um chato. Da sua geração, tornou-se o próprio modelo de Caetano Veloso que ele enxerga: alguém a cujas declarações dá-se desproporcional e ocasionalmente desmerecida importância. Não porque ele não tenha nada a dizer, claro, mas porque ouví-lo desancar os artistas que detesta tem graça e causa impacto uma vez ou outra. Que ele o faça a cada oportunidade na mídia, inocente ou propositadamente caindo nas provocações de entrevistadores em busca de declarações polêmicas, mostra o quanto ele gosta de holofotes. Ou não (rá, sacaneei!).

Não há nada de novo no que Lobão faz. Parece ser perfeitamente natural que uma nova geração dedique-se a desacreditar a anterior. Lembro de Morrissey ter escrito uma música chamada "Get Off the Stage" (desçam do palco), dedicada aos Rolling Stones, que ele julgava já estarem com validade expirada há tempos - e isso lá pelos meados da década de 80, quando eles tinham cerca de 20 anos de carreira! Hoje é o próprio Morrissey que já carrega quase 30 anos de estrada no lombo e tem seus próprios detratores. Os Stones, no entanto, continuam por aí.

Tudo isso foi para chegar até aqui e dizer a você que não é preciso temer a MPB. Com o saudável exercício de desvincular a obra de um artista de sua persona pública, sobra muita coisa boa, inclusive e principalmente de Caetano, Gil e Chico, pessoas cujas canções não teriam resistido ao teste do tempo por quatro décadas, caso fossem o monte de estrume anunciado por Lobão. Você não tem que gostar de tudo (muito menos fingir que gosta para parecer "cool"), mas é bem provável que, com os ouvidos "desarmados", acabe gostando de muita coisa. Ao contrário do que muita gente acredita, é fácil encontrar música pop no trabalho deles (e de muitos outros), feita à moda tradicional do gênero, e também, em interessantes misturas com a música tipicamente brasileira.

Ah, sim, tem as tais letras "criptografadas" a que eu já me referi mais de uma vez. Bem, há momentos em que dizer ou ouvir "eu te amo" resolve. Há outros em que a alma, seja a de quem compõe ou a de quem escuta, pede mais do que isso. Por isso é que eu dificilmente me darei por satisfeito com estilos como o sertanejo universitário ou o pagode, que são, para mim, a celebração de um modo de vida simplista e superficial, dividido em branco e preto - ou, se você preferir, entre a cama e a boite, quando a vida de pessoas de verdade não é feita somente disso. Há outros espaços na casa para se explorar. Há outros recônditos da sua alma, provavelmente lindos e interessantes, que talvez nem você mesmo conheça... e não é esse tipo de música que vai abrí-los pra você.

20/12/2011

Renda-se em 2012


Não sou muito chegado nessa coisa de "fazer balanço da vida" ao final do ano, porque ficar lamentando o que deu errado é tão infrutífero quanto contar vantagem pelo que deu certo. No fim das contas, qualquer ano traz alegrias e tristezas em proporção razoavelmente equilibrada e, para cada queda no caminho, existe o amparo de pequenos e grandes êxitos. 

Se você me permite, porém, o abuso de passar uma pequena "lição de vida", eu aprendi em 2011 que o melhor a fazer diante do inevitável é render-se. Não se trata de capitular à Lei de Murphy: às vezes, sabemos que algo não só pode, como vai dar errado; porém, por medo de perder aquilo que nos é precioso, ou por culpa de um otimismo boboca aprendido com algum guru de auto-ajuda da moda, ou por conta de noções românticas aprendidas em filmes ruins, não sabemos abrir mão daquilo que, repito, inevitavelmente, deixará de ser nosso. Ou, pior ainda, nos negamos a cortar o laço nós mesmos, quando esta atitude pouparia a todos os envolvidos um bocado de sofrimento extra. 

"Extra" porque, não se engane, você vai sofrer... e vai fazer sofrer, também. Você vai se indagar por dias, talvez semanas ou meses, se fez a coisa certa, se valeria a pena ter lutado um pouco mais e coisas do tipo. Vou facilitar as coisas pra você, então: você fez o certo. Mesmo agora, se sua cabeça estiver pegando fogo de tanto refletir sobre a dureza do que você teve que ver, fazer, dizer ou ouvir e lágrimas estiverem correndo por sua face, acredite: foi melhor assim. Renda-se. Assumir a queda ajuda a gente a se levantar mais depressa.

Tudo isso serve, também, para dizer a você que, embora eu quisesse ter escrito muito mais do que escrevi aqui no Catapop, em 2011, chego ao final do ano resignado em não ter conseguido alcançar a autoproposta meta de superar os 52 posts de 2010. Não é que eu esteja pedindo desculpas: eu só não escrevo quando não me sobra tempo ou energia, ou quando não tenho nada a dizer - e nas vezes em que escrevo no piloto automático, cedendo a uma espécie de "obrigação" com o blog, fico me sentindo mal, mesmo se o post rende elogios. Tenha comigo a mesma paciência que tenho com quem, muitas vezes, passa meses sem vir aqui ou só deixa um comentário de vez em nunca. Sim, esta foi pra você. =D 

Sendo este, possivelmente, o último post do ano, aproveito para fazer um pequeno balanço (A-HÁ!) do melhor do que li, vi e ouvi em 2011. 


Artista do Ano: Adele 


O principal mérito de todo o sucesso alcançado por Adele com seu disco 21 foi o de ela ter chegado ao topo apoiada em nada mais do que sua arte. Adele não é especialmente bonita, não se encaixa no tipo gostosão exigido das cantoras pop de hoje e não tem a vida pautada por escândalos semanais. Ela só tem a oferecer sua voz soberba e seu talento como compositora, escancarados em canções poderosas e com alto potencial radiofônico. É só isso, afinal, que se espera de artistas de verdade. 


Música do Ano: "Someone Like You" de Adele, claro. 

Menções honrosas: "Reckless Serenade" (Arctic Monkeys), "I Want the World to Stop" (Belle & Sebastian), "Darling" (Copacabana Club), "Não Existe Amor em SP" (Criolo), "Juro por Deus" (Filipe Catto), "Rope" (Foo Fighters), "Neguinho" (Gal Costa), "The Magic" (Joan As Police Woman), "Aquela Velha Canção" (Marisa Monte), "Stop the Clocks" (Noel Gallagher), "Lonely Boy" (The Black Keys), "Post Break-Up Sex" (The Vaccines), "Born Alone" (Wilco). 


Desastre do Ano: Rock in Rio. 


OK, tudo bem ter Cláudia Leitte, mas tinha que ter mais rock - e, por favor, deixem o Guns N' Roses na tumba.


Ausência do Ano:  R.E.M. 


Vamos mudar de assunto, senão vou chorar. 
Ah, e a minha ausência nos shows do U2. Outra vez. =( 


Filmes do Ano 

Ano de poucas visitas ao cinema. De cabeça, só lembro desses - e não, ainda não vi Melancolia ou A Árvore da Vida

X-Men: Primeira Classe 
Planeta dos Macacos - A Origem 
Rio 
Cisne Negro 
Bravura Indômita 


Livro do Ano: 1808, de Laurentino Gomes

Como um país (o Brasil) foi construído ao custo da virtual destruição de outro (Portugal), quando D. João VI transferiu a corte portuguesa para sua maior colônia. História rica e interessante, contada com linguagem acessível. Não é um lançamento de 2011, mas só li este ano. 1822, sobre o período da Independência, segue igualmente excelente.


HQs do Ano 

Melhor série encadernada: Fábulas (Panini). 
Melhor álbum inédito: Daytripper (Panini). 
Melhor republicação: a aguardadíssima nova tiragem de Batman: O Cavaleiro das Trevas, em capa dura (Panini). 


Barato do Ano: Facebook 

Sim, apesar da chatice de quem posta fotos de pessoas ou bichos mortos; de quem quer fazer dele igreja, palanque ou privada; de quem o usa para espalhar ódio ou ignorância; da patrulha dos politicamente corretos e insuportavelmente chatos. Apesar de tudo isso e muito mais, o Facebook foi e continua sendo muito divertido e útil na formação, manutenção e resgate de laços de amizade e na descoberta de coisas bacanas - e a Timeline é simplesmente sensacional! =) 


Grandes expectativas para 2012 

- Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge 
- Os Vingadores 
- Reboot da DC no Brasil. Sim, acho que vou comprar. Sou um rato. 
- Eleições. Vamos tentar acertar mais dessa vez, combinado?

13/11/2011

Ahk-toong Bay-bi Covered




A revista britânica Q teve uma excelente iniciativa ao encartar, na sua edição mais recente: uma homenagem aos 20 anos de Achtung Baby, reunindo um time de artistas de diferentes escalões do rock/pop, para dar sua versão de cada uma das 12 faixas do clássico álbum que reinventou o som, a imagem e trajetória do U2.

De boas intenções, como se sabe, o inferno está lotado. Apesar de algumas boas surpresas, a homenagem fica consideravelmente aquém do homenageado. A maioria dos artistas convidados parece ter pensado "vamos pegar o que o U2 fez e fazer tudo ao contrário: onde tinha rock and roll, entrega e barulho, vamos colocar eletrônica, sussurros e leveza". 

Nada contra, desde que as novas versões tivessem realmente reinventado as canções. No entanto, a maioria não resiste a 30 segundos de comparação com a original. Não é que eu esperasse um disco melhor que o próprio Achtung Baby, mas a preguiça de certas versões chega a ser irritante.

Vamos aos fatos:

"Zoo Station", Nine Inch Nails
A faixa de abertura de Achtung Baby era um resumo das intenções do disco: guitarras no talo, bateria metálica e vocal distorcido, anunciando a chegada do humor e da atitude desencanada às praias da banda mais certinha do planeta. Trent Reznor e sua trupe, porém, fizeram uma versão eletrônica limpinha, pra ouvir esperando pelo dentista. Nota 5.

"Even Better than the Real Thing (Jacques Lu Cont Remix)", U2
Um remix com o próprio U2, o que já dá uma à faixa uma vantagem. Outros melhores já foram ouvidos antes, mas, se há algo interessante neste remix é a utilização de uma base parecidíssima com "Zoo Station" para reconstruir a faixa vizinha! Nota 6.

"One", Damien Rice
O homem que deu ao mundo "The Blower's Daughter" deu a "One" a cara de suas próprias criações: suave e de baixos teores, levada ao piano, violão e cordas. O foco da canção foi mudado e onde se ouvia "você", agora se ouve "eu". Ficou bonita, mas periga a gente dormir com tamanha calmaria. Nota 7.

"Until the End of the World", Patti Smith
Finalmente, o tributo começa a fazer algum sentido! Versão folk com linda interpretação de Patti, sendo possível imaginá-la tomando todas em um piano bar. Seria uma beleza de trilha sonora para um road movie poeirento. Nota 9.

"Who's Gonna Ride Your Wild Horses", Garbage
Mais uma banda que optou pelo caminho preguiçoso da baladinha eletrônica. Toda essa maresia dá lugar à explosão no refrão, pelo menos. O interlúdio ("don't turn around, don't turn around again...") ficou deslocado. Nota 6.

"So Cruel", Depeche Mode
Aqui, sim, temos perfeita adequação de uma banda à canção escolhida e seu tema. Se alguém gosta de cantar o sofrimento, este é Dave Gahan. Soturna, como convém ao Depeche Mode, e cantada com o coração na garganta. Nota 9.

"The Fly", Gavin Friday
Oh, Deus... mais uma balada eletrônica cantada aos sussurros! Dai-me paciência! O que alivia a barra de Gavin é a semelhança de sua voz com a do próprio Bono. Nota 5.

"Mysterious Ways", Snow Patrol
A pior do disco. Os conterrâneos do U2 estragaram uma das faixas mais vigorosas de Achtung Baby e fizeram dela uma baladinha genérica e sonolenta. O swing foi embora, a malícia foi embora, a graça foi embora. Nota ZERO!

"Trying to Throw Your Arms Around the World", The Fray
Outra banda que tem o U2 entre suas influências, The Fray fez um bom trabalho. Finalmente, uma banda orgânica no lugar de um sequenciador e alguém disposto a gastar suas preciosas cordas vocais, abrindo o vocal como Bono faria. Nota 8.

"(Ultra Violet) Light My Way", The Killers
Começa muito bem, levada apenas no baixo e na bateria. O vocal de Brandon Flowers está excelente e a canção vai surpreendendo, até que entram as guitarras, prática e desnecessariamente idênticas às originais, e percebemos que daria para ter sido bem melhor. Nota 8.

"Acrobat", Glasvegas
A arriscada missão de revisar a faixa que é tida quase unanimemente como a "menos boa" canção do disco coube aos escoceses do Glasvegas. Boa surpresa: apesar de ainda bastante parecida com a original, ganhou peso, distorção vocal e alguma personalidade própria. Nota 8.

"Love is Blindness", Jack White
A máxima de guardar o melhor para o final funciona perfeitamente aqui. Jack White abre mão da solenidade da original e transforma a canção em um quase-blues berrado e dramático, sem faltar o seu característico, curto e lindamente impreciso solo de guitarra. Nota 10!

09/11/2011

Zumbilândia



Confesso: eu gosto de filmes de zumbis.

Antes de torcer o nariz, pense bem. Filmes de zumbis são escapismo puro. Em que outro gênero você tem uma desculpa melhor do que a sua própria sobrevivência para fuzilar todo mundo ao seu redor? É diferente de um filme com monstros sem forma humana. Zumbis são, essencialmente, gente "normal", mas você não precisa sentir pena: pode atirar, dar paulada, tacar fogo, serrar membros, atropelar. Ninguém vai te culpar por nada disso. Afinal, é você ou são eles.

Entretanto, nem todo filme é igualmente legal. Prefiro aqueles com um pé (ou dois) na comédia. O típico zumbi, com aquele andar trôpego e o solitário pedido por "cérebro!" (quando não meros grunhidos) nos lábios, é um bicho ridículo. Daí que colocá-los em filmes muito sérios costuma não dar muito certo, porque uma praga que transforme as pessoas em canibais irracionais, capazes de arrastar-se por aí mesmo já estando mortas, é uma ideia impossível de levar a sério.

Mesmo sabendo que quem viu um filme de zumbi, basicamente, já viu todos, alguns se destacam pelas sacadas de humor, as referências pop, a criatividade na hora de executar os monstrengos ou, mais raramente, um roteiro realmente inteligente disfarçado pelo intencional tom de galhofa.

Os melhores filmes de zumbi que eu havia visto até hoje eram Madrugada dos Mortos (2004), de Zack Snyder, com seus zumbis incrivelmente ágeis e seus divertidos exageros; e o ultra-cínico Todo Mundo Quase Morto (2004), comédia muito bem-sucedida em parodiar um gênero que nunca inspirou muito respeito. Extermínio (2002) também merece menção, apesar de entrar na categoria que leva o apocalipse zumbi a sério.

Acabo de adicionar Zumbilândia a este seleto clube.

O filme é centrado no personagem de Jesse Eisenberg. Nos EUA assolados pela praga zumbi, ele sobrevive aos mortos-vivos seguindo certas regras: ter preparo físico para correr muito; sempre golpear ou atirar no zumbi duas vezes, para garantir que ele morreu de vez; jamais bancar o herói, pois a vida real não é como nos filmes (ha!). Há outras, mas estas são algumas das mais preciosas.

Em sua jornada até Columbus (onde espera ver seus pais vivos), ele conhece e pede carona a um tipo excêntrico (Woody Harrelson, impagável), talentoso matador de zumbi que ruma para Tallahassee. Seus destinos acabam virando seus "nomes de guerra". Assim, Columbus e Tallahassee caem na estrada. Seu caminho cruza o das irmãs Wichita (Emma Stone) e Little Rock (Abigail Breslin), que viajam em sentido contrário, rumo ao parque Pacific Playland, em Los Angeles.

Algumas sacanagens mútuas e reviravoltas depois, os quatro acabam, como era de se esperar, formando um pequeno núcleo, unido pelo interesse de sobreviver num mundo inóspito, realizar sonhos particulares... e, quem sabe, encontrar o amor. Não é um mero filme sobre enfrentar mortos-vivos e, sim, sobre saber-se vivo, mesmo entre os mortos.

Geralmente, filmes de zumbis têm muito cérebro na história e bem pouco na realização. Zumbilândia, entretanto, tem diálogos acima da média e saídas interessantes para dilemas-clichês, além de uma hilariante participação de Bill Murray como Bill Murray.

Para uma obra em que gente morta se acumula às centenas, o filme demonstra um inusitado apreço pela vida e pela diversão, sintetizado em um dos "mandamentos" de Columbus ("aproveite as pequenas coisas") e na simultaneamente simples e genial frase que encerra o filme: "sem pessoas, você se torna um zumbi".

Cine trash? Na embalagem, talvez. Em sua essência, Zumbilândia é artigo fino.

08/11/2011

Daytripper


Eu passei dias tentando, sem sucesso, encontrar as palavras certas para começar meu review de Daytripper. Até que, durante o último fim de semana, assisti ao filme Zumbilândia, com Jesse Eisenberg e Woody Harrelson, e foi como se a cratera negra da minha inspiração, de repente, se enchesse de luz.

Ao final do filme (diga-se, muito mais divertido do que eu podia imaginar), Columbus, apelido do personagem de Eisenberg, profere uma frase aparentemente muito simples, mas que diz muito sobre as intenções do livro: "sem outras pessoas, você vira um zumbi".

Daytripper não tem zumbis, mas está carregado de sugestões sobre o quanto nossas relações com as pessoas definem quem somos. Se é verdade que somos o resultados de nossas escolhas, talvez a mais importante delas seja ter as pessoas certas ao nosso lado, nos momentos certos. Amigos, amores, familiares: são eles que nos levam para a frente e para o alto. A vida é sua, mas ela é mais gostosa quando compartilhada.

Brás de Oliva Domingos, o protagonista da história, vive de escrever obituários, enquanto acalenta o sonho de ser um romancista de renome mundial, como seu pai (o sucesso dos pais é uma sombra que paira sobre a vida de quase todo mundo). Embora seu trabalho agrade ao seu chefe e aos leitores, ele se ressente da própria falta de sinceridade ao lamentar a morte de gente desconhecida. Até que ele ganha motivos para envolver-se de coração.

Sim, a morte é uma das experiências que atravessam o caminho de Brás, mas não a única. O amor e o abandono, a amizade e a solidão, o sucesso e o fracasso... Ele é apresentado a variados e nem sempre bonitos matizes da vida. Entre família, amigos e até desconhecidos, não faltará quem lhe exorte, "vai, Brás, vai atrás do que é seu!" Nem sempre, porém, ele terá habilidade para aprender a lição ensinada. Igualzinho a mim. Igualzinho a você.

E se o final do primeiro capítulo deixa dúvidas quanto aos rumos e às intenções da história, aos poucos a lição vai ficando mais clara: o único dia que temos para buscar a felicidade é hoje, porque tudo é tão fugaz, principalmente a vida. E se até o travadíssimo Brás consegue, por que você não conseguiria?

Fábio Moon e Gabriel Bá demonstram com Daytripper lirismo e segurança narrativa dignos de gente com o dobro da sua idade. Os desenhos transpiram vida, verdade e beleza incomuns. Os cenários reais (por exemplo, a Chapada Diamantina e os bairros do Pelourinho e Rio Vermelho, em Salvador), fielmente retratados, aproximam o leitor das andanças de Brás; os tipos que ele encontra podem ser vistos em qualquer esquina do país. É espantoso vê-los alcançando o sucesso cosmopolita mirando o próprio quintal.

Os dois prêmios Eisner recebidos (como Melhor Minissérie e para Melhor Colorista, Dave Stewart) e o sucesso como uma das graphic novels mais vendidas do ano nos EUA (num circuito - o de roteiristas - ainda muito restrito para estrangeiros) sugerem a entrada de Daytripper no seleto rol das obras que apagam a linha que ainda separa os quadrinhos da literatura "de verdade". Uma experiência transformadora.

16/10/2011

Guia Vertigo/Wildstorm

Imagino que, de tanto eu falar aqui sobre as séries Vertigo e Wildstorm e como elas atualmente são minhas compras mais constantes, alguns leitores estejam curiosos para saber quais são as séries em que vale a pena investir.

Este é um momento espetacular para quem deseja conhecer a mais famosa linha de quadrinhos adultos. Depois de anos sofrendo com publicações porcas e pouco acessíveis nas mãos de diferentes editoras, o trabalho da Panini Comics, depois de um começo tímido, deslanchou de maneira sublime na quantidade e qualidade de lançamentos (apesar de faltas ilustres persistirem).

Decidi redigir, então, esse compêndio de descrições e opiniões sobre as principais séries destes selos, para orientar aos possíveis interessados. Aqui você vai encontrar informações sobre o atual estágio de publicação por parte da Panini. Boa diversão!




Nas bancas

Vertigo
A revista da Panini que tem o nome da "casa" está na sua 23ª edição e traz mensalmente algumas das séries mais famosas da Vertigo, como Hellblazer, Casa dos Mistérios e Vampiro Americano. São 5 histórias e preço interessante, R$ 9,90 (inalterado desde seu lançamento!). Uma excelente pedida para quem deseja desintoxicar-se do universo dos super-heróis.

Encadernados

Hellblazer (vários escritores e artistas)
John Constantine já teve até filme com Keanu Reeves, criticado por mudar sua nacionalidade (ele é inglês, não americano) e seus traços físicos (é loiro, não moreno). Ele surgiu durante a fase de Alan Moore no Monstro do Pântano e logo ganhou título próprio. John tenta consertar as burradas de quem se esquece que invocar demônios tem um preço terrível - para si e para o mundo. Enquanto tenta evitar que o mundo sucumba às constantes investidas de forças arcanas, John enfrenta um outro inimigo bastante perigoso: a natureza humana.

A Panini já publicou o fim da polêmica (e excelente) passagem de Brian Azzarello (Coringa, 100 Balas) no título e a volta do clássico escritor Jamie Delano, em Pandemônio. Agora, atua em três vertentes: se por um lado prossegue a publicação do personagem na mensal Vertigo, por outro, publica especiais inéditos, como Passagens Sombrias, originalmente em preto-e-branco e em formato menor que o americano, escrita pelo premiado escritor de policiais Ian Rankin e ilustrada por Werther Dell'edera (Loveless); além disso, republica as primeiras histórias do personagem, começando com Origens Vol. 1 - Pecados Originais, de Jamie Delano e John Ridgway. O formato é americano e o papel é LWC, com capa cartonada e com orelhas, a um convidativo preço de R$ 19,90 para suas 180 páginas.

+ Hellblazer: 
Congelado 
Highwater: Pecados do Passado 
Cinza e Pó na Cidade dos Anjos 
Pandemônio


100 Balas (Brian Azzarello e Eduardo Risso)
O Agente Graves é um tipo misterioso, que chega a pessoas comuns em busca de vingança com uma oferta bastante tentadora: 100 balas impossíveis de rastrear e garantia de impunidade. O problema é que Graves parece ser parte parte (ou a pedra no caminho) de forças bem maiores do que se pensa. A série gira em torno das pessoas direta e indiretamente ligadas a Graves, seja por aceitar sua oferta, seja por estar no seu encalço. O submundo do crime nunca foi tão complexo e perigoso.

100 Balas é tão boa que é usada até em cursos de Literatura Policial. A Panini começou sua publicação pelo volume 3, mas fez o favor de relançar os dois anteriores, picotados de maneira vergonhosa pela Pixel. O sétimo volume está programado para sair entre este mês e o próximo. Todos ainda são facilmente encontrados.

+100 Balas: 
Vol. 1 - Atire Primeiro, Pergunte Depois 
Vol. 2 - Segundas Chances 
Vol. 3 - Laços de Sangue 
Vol. 4 - Inevitável Amanhã 
Vol. 5 - Contrabandolero! 
Vol. 6 - O Detetive Enquadrado




Ex Machina (Brian K. Vaughn e Tony Harris)
Após um acidente com um artefato misterioso afundado no Rio Hudson, Mitchell Hundred adquiriu a capacidade de comunicar-se com qualquer máquina, seja mecânica ou eletrônica. Com sua voz, ele pode silenciar alarmes e travar armas, por exemplo. Durante sua breve carreira como super-herói, ele evitou que o segundo avião atingisse o World Trade Center. Ao perceber que suas ações podiam causar danos colaterais difíceis de tolerar, ele decidiu agir em outra frente: a política. Hundred tornou-se o prefeito da problemática Nova York e descobre que a vida pública oferece mais desafios e esconde perigos maiores que supervilões.

A Panini publicou o primeiro volume de Ex Machina em 2005 e silenciou. Algum tempo depois, a Pixel assumiu a publicação da Wildtsorm e lançou o volume seguinte (primeiro como minissérie, depois em um encadernado horroroso em formato paraguaio). A Panini voltou a lançar a série a partir do terceiro volume e segue fazendo excelente trabalho, inclusive relançando o primeiro encadernado (que havia se tornado raridade); o segundo está programado para novembro. É uma das séries mais inteligentes e intrigantes em publicação atualmente, em que o debate de ideologias é entremeado com rompantes de violência gráfica, por vezes, chocante.

+ Ex Machina: 
Vol. 1 - Estado de Emergência 
Vol. 2 - Símbolo (Panini publicará em novembro) 
Vol. 3 - Fato vs. Ficção 
Vol. 4 - Marcha à Guerra 
Vol. 5 - Fumaça e Fogo 
Vol. 6 - Blecaute


Y - O Último Homem (Brian K. Vaugh, Pia Guerra e outros)
Num belo dia, sem explicação aparente, todos os machos do planeta morrem, homens e bichos. Apenas dois indivíduos parecem imunes: Yorick Brown, filho da presidente americana e artista de fugas, e seu mico de estimação, Ampersand. Viver num planeta só de mulheres pode ser o sonho de muitos garotos, mas o mundo de Yorick está mais para um pesadelo: serviços básicos funcionam precariamente, as mulheres se dividem em tribos violentas e misantrópicas, e a tal "sensibilidade feminina" ficou perdida em algum lugar entre a tristeza, a revolta e raros lampejos de lucidez diante do risco de extinção. Mesmo sem saber, Yorick pode ser a chave da salvação da espécie humana. Tudo que ele precisa fazer é ficar vivo... mas não será nada fácil.

A Panini começou a publicação de Y - O Último Homem desde o comecinho. Em lojas virtuais, ainda é fácil encontrar as primeiras edições. Em novembro, a série chega ao seu sétimo volume e deve ter sua conclusão publicada no volume 10. Esta é uma HQ inteligente e divertida, que desfaz vários mitos do pensamento masculino e feminino um sobre o outro e discute sabiamente temas sérios, como a quase inevitável homossexualidade feminina num mundo sem machos.

+Y - O Último Homem: 
Vol. 1 - Extinção 
Vol. 2 - Ciclos 
Vol. 3 - Um Pequeno Passo 
Vol. 4 - A Senha 
Vol. 5 - Anel da Verdade 
Vol. 6 - Menina com Menina


Fábulas (Bill Willingham e diversos artistas)
Durante uma guerra contra a entidade conhecida apenas como O Adversário, várias personagens de fábulas infantis vieram para nosso mundo. Aqueles com aparência humana levam uma vida mais ou menos normal, embora pouco saiam do condomínio conhecido como Cidade das Fábulas. Já os de aparência aberrante ficam confinadas na Fazenda. As fábulas, porém, não estão a salvo: O Adversário já sabe onde encontrá-los e os confrontos ficam cada vez mais violentos. Além de resistir aos ataques, as fábulas também precisam tratar de seus problemas, digamos, terrenos.

Para muita gente, a melhor série do Vertigo depois de Sandman. Fábulas é garantia de satisfação. O volume 6, "Terras Natais", está entre as coisas mais bem escritas que já li na vida. Além do inusitado de ver o Lobo Mau como detetive particular, Branca de Neve como síndica e Pinóquio como um tarado preso num corpo eternamente imberbe, temos conflitos bastante humanos entre eles e interação com outros universos imaginários, como as fábulas árabes e nórdicas. A Panini começou a editá-la na edição 4 e já está na 9; diante dos insistentes pedidos, porém, a reedição dos três primeiros (e raríssimos) livros deve ocorrer em breve. Este mês saiu a primeira minissérie derivada de Fábulas, João das Fábulas.

+Fábulas: 
Vol. 1 - Lendas no Exílio (Pixel Media) 
Vol. 2 - A Revolução dos Bichos (Pixel Media) 
Vol. 3 - O Livro do Amor (Pixel Media) 
Vol. 4 - A Marcha dos Soldados de Madeira 
Vol. 5 - Ventos da Mudança 
Vol. 6 - Terras Natais 
Vol. 7 - Noites (e Dias) da Arábia 
Vol. 8 - Lobos 
Vol. 9 - Filhos do Império


Vale a pena procurar: Os Perdedores (especial, Andy Diggle e Jock), Loveless - Terra sem Lei (quatro volumes, de Brian Azzarello com Eduardo Risso e Werther Dell'edera).




Nas livrarias

Sandman
A entidade conhecida, entre outros nomes, como Morfeu, tem aquele cabelão desgrenhado de Robert Smith, vocalista do The Cure. Após escapar de um confinamento de décadas, o Sonho tem que reconstruir seu próprio reino e cuidar de problemas tão diversos como os conflitos com seus irmãos (entre eles, Morte e Desejo) e o súbito esvaziamento do inferno. Leitura de primeira e a obra mais premiada de Neil Gaiman, permeada de discussões sobre a condição humana, em seus mais superficiais e profundos aspectos.

Já saíram dois volumes de Sandman - Edição Definitiva. São livrões com mais de 600 páginas em capa dura e papel LWC, com preço oscilando em torno de R$ 100 (pouco mais ou pouco menos, dependendo da loja). Acredite, é um investimento dos melhores. Sandman não fica bem apenas na estante de quem lê quadrinhos: é garantia de horas prazerosas para qualquer um que goste de boa leitura. Sua publicação segue um ritmo anual. O terceiro deve sair por volta de março do ano que vem.


Preacher
Jesse Custer é um pastor de uma cidade do Texas que, graças à possessão da entidade conhecida como Gênesis, meio demônio e meio anjo, tem o dom da Palavra, que faz com que qualquer pessoa obedeça ao que ele diz. Ao lado de sua namorada Tulipa O’Hare e do vampiro irlandês Cassidy, ele sai em busca de Deus para cobrar que Ele assuma novamente seu cargo. Aclamada por fãs e crítica, escrita pelo irônico Garth Ennis, magistralmente desenhada por Steve Dillon e com capas do detalhista Glenn Fabry, Preacher teve 66 edições e 6 histórias especiais — formando o cabalístico número da besta, o 666 — que formam um saga ácida, com as doses certas de profano, sagrado, magia, ação e muito humor negro (Texto do hotsite Panini/Vertigo).

A Panini publicou os volumes de 7 a 9 (Salvação, Às Portas do Inferno e Álamo), concluindo uma série que parecia fadada a jamais encerrar-se aqui no Brasil, e já manifestou desejo de relançá-la desde o começo. Vergonhosamente, nunca li Preacher, mas o comentário geral é tão positivo que é uma questão de tempo até eu começar.


ZDM - Terra de Ninguém (Brian Wood e Riccardo Burcchielli)
A Segunda Guerra Civil dos EUA começou. As milícias no interior da América armaram-se contra o governo e tomaram Manhattan, agora uma zona desmilitarizada. A Grande Maçã virou um barril de pólvora que mantém a cidade e o país em estado de tensão. É nesse ambiente que o jornalista Matty Roth entra por acaso, a mando de um jornal manipulador da opinião pública, para conhecer as forças em conflito e explicar o que acontece ao mundo. Antes que tudo vá pelos ares. Criada e lançada em meio a um mundo real de ataques terroristas, guerras no Oriente Médio e mentiras do governo, ZDM ousa tratar dos temas que os EUA queriam varrer para baixo do tapete. Brian Wood reúne toda sua ira contra o sistema nos roteiros desenhados por Riccardo Burchielli. (Texto do hotsite Vertigo/Panini)

Outra série que não integra minha coleção. Cheguei a ler algumas edições, mas não me cativou. Talvez eu devesse ter tido mais paciência e as coisas melhorassem, mas, penso nisso depois.


Outras importantes séries Vertigo e Wildstorm aguardam continuação, como Frequência Global (Warren Ellis e vários artistas) e Transmetropolitan (Warren Ellis e Darick Robertson). Entre as séries mais desejadas pelos leitores para lançamentos em encadernados estão Homem-Animal (Grant Morrison e Chas Truog) e Planetary (Warren Ellis e John Cassaday).

Um dos últimos lançamentos para livrarias foi a premiada minissérie Daytripper (em volume único), dos gêmeos Fábio Moon e Gabriel Bá, ganhadora do prestigiado Eisner Award.

Para conhecer mais sobre as séries e acompanhar os lançamentos:

Para comprar os encadernados de bancas, as opções são várias. Posto aqui cinco delas, sendo que a Liga HQ tem a política de frete mais atraente: começa em R$ 1,00 por uma revista; R$ 0,90 por duas (cada); R$ 0,80 por três (cada) e assim por diante.


Os títulos de capa dura, embora também possam ser comprados nas lojas acima, costumam ter preços mais atraentes em grandes varejistas virtuais, como Americanas, Saraiva, Walmart, Fnac, Cultura, Submarino, Ricardo Eletro, Siciliano e Insinuante. Com o fim da greve dos Correios, que obrigou-as a contratar transportadores mais caros, as promoções de frete grátis a baixos valores devem voltar em breve.

Boas compras e boa leitura!

14/10/2011

Teste dos 20 anos

1991 foi um ano histórico para o rock. Foram tantos os lançamentos importantes que fica até difícil escolher os discos para analisar num post como este. Dos gringos, escolhi uns bem manjados, mas fundamentais, sendo indispensável mencioná-los. Dos nacionais, um que quase sepultou a carreira de um grupo e um que solidificou o prestígio de outro. Não esqueça de deixar seu comentário!


Nirvana - Nevermind



Foi amor à primeira vista?
Saudado como a segunda vinda do Cristo desde seu lançamento, Nevermind era uma delícia tocada com velocidade punk, melodias pop e produção cristalina de Butch Vig. Não era a estreia do Nirvana, mas é considerado como marco zero do grunge (e, segundo seus ressentidos viúvos, da morte do hard rock). O genial e ultrabásico riff que abre "Smells Like Teen Spirit" era o bastante para desarmar qualquer resistência.  

E aí, ainda rola gostoso?
Clássicos não são clássicos à toa. Todas as faixas de Nevermind ainda descem redondinhas, como se tivesse sido lançado ontem. Mesmo as mais surradas, tipo "Come As You Are" e "Lithium", ganharam um verniz que as protegeu dos efeitos nefastos da passagem dos anos. Esqueça o encanto necrofílico que o álbum exerce sobre os deslumbrados (por exemplo, aqueles que só falam de Nirvana para mencionar a tal "maldição dos 27 anos") e se esgoele junto com Kurt.


Metallica - Metallica (The Black Album)



Foi amor à primeira vista?
Nunca fui grande fã de metal e continuo não sendo. Naquele 1991, porém, o falatório sobre a "transformação" do Metallica era tanto que eu me senti obrigado a saber do que se tratava. As reações foram divididas: enquanto muita gente achava que a banda estava pagando de "traidora do movimento" thrash, outros achavam que reduzir os rococós instrumentais e a duração da música havia feito um bem danado. Sei lá quem estava certo. Tudo que eu tinha era o que saía dos fones e me fazia fumegar as orelhas: canções pesadas e poderosas, que provocavam ímpetos imediatos de tocar air guitar, air bass, air drums e air o escambau! 

E aí, ainda rola gostoso?
Sim, continua excelente, até porque o Metallica nunca mais produziu algo tão bom desde então (por mais que Death Magnetic, de 2008, tenha sido um esforço honesto de resgatar antigas glórias). Taí um disco que precisa urgentemente ganhar uma remasterização, com sonoridade mais polida. Enquanto uma edição especial não sai (e é praticamente inevitável que saia), a banda disponibilizou hoje um arquivo FLAC, sem perda de qualidade. Já deve dar uma senhora vantagem em relação ao velho CD.


Legião Urbana - V



Foi amor à primeira vista?
Seja por falta de personalidade ou genuíno desejo de mudança, a verdade é que todos os discos da Legião Urbana são bastante distintos entre si. Depois da doçura acústica de As Quatro Estações (1989), a Legião voltou com um disco metido a progressivo, cheio de faixas vagarosas e enormes ("Metal Contra as Nuvens" supera "Faroeste Caboclo", estendendo-se até os ONZE minutos). Foi preciso alguma boa vontade, apesar de o primeiro single, "O Teatro dos Vampiros", ter seguido a típica linha suave e messiânica da banda. Certo dia, porém, durante uma faxina, fui definitivamente fisgado pela beleza cortante de "Vento no Litoral" e pensei, "uau, isso é muito bom!" 

E aí, ainda rola gostoso?
Nem tanto. Das faixas mais longas, a que melhor resistiu ao teste do tempo foi a heroinômana "A Montanha Mágica". Já "Metal..." soa exagerada, à beira do insuportável. Para mim, assim como há 20 anos, grande parte da beleza do disco está no início, com a breve e medieval "Love Song", e no encerramento, com "Come Share My Life", singelo instrumental do cancioneiro popular norte-americano. Não é o disco mais bonito, nem o mais vendido, mas há uma boa chance de este ser o esforço mais digno da Legião.


Titãs - Tudo ao Mesmo Tempo Agora



Foi amor à primeira vista?
Depois de se tornarem uma quase unanimidade de público e crítica com Õ Blésq Blom (1989), os Titãs decidiram deixar de lado as experimentações neotropicalistas e voltar ao rock & roll mais básico. A mudança assustou e desagradou: Tudo ao Mesmo Tempo Agora foi massacrado pela crítica e boa parte do público também deu as costas às canções rápidas e recheadas de escatologia, a maioria sem qualquer traço da crítica social refinada de alguns dos clássicos da banda, como "Comida". Eu não achava ruim e ouvia bastante, mas, já naquele tempo, sabia que havia sido um retrocesso na sua escalada criativa. 

E aí, ainda rola gostoso?
Não. O disco hoje soa ainda mais anacrônico do que na época, quando já havia sido acusado disso. Se com 18 anos aquela coleção de faixas boca-suja e francamente preguiçosas (que trabalho dá compor algo como "Obrigado"?) já não impressionava, que direi hoje, aos 38... Para não dizer que o disco é totalmente descartável, "Agora" é um genuíno achado em meio à fedentina inspirada pelas letras. "Flat-Cemitério-Apartamento", apesar de algumas referências datadas, é um bom momento de humor. Pensando bem, vou aliviar para a banda: ponho parte da culpa do fracasso em Liminha e sua produção antenada como tudo que havia de mais moderno... em 1986.


R.E.M - Out of Time



Foi amor à primeira vista?
Era a primeira vez que eu ouviria um disco inteiro do R.E.M. e a expectativa criada por "Losing My Religion" (que dispensa apresentações) era altíssima. O então quarteto não decepcionou, emendando uma grande canção à outra e produzindo clássicos da alegria ("Shiny Happy People"), da estranheza ("Low"), do lirismo ("Half a World Away") e da tristeza ("Country Feedback"). Foi um dos primeiros CDs que comprei e eu estava absolutamente feliz com minha aquisição. O R.E.M. logo tornou-se uma de minhas bandas favoritas. 

E aí, ainda rola gostoso?
Sim, rola muito bem. "Losing My Religion", apesar da onipresença e de ser uma concessão fácil na boca de quem diz odiar rock (a gente não precisa dessa esmola, falô?), tem apelo perene. Out of Time é todinho tão bonito que pega até mal ficar procurando defeito. É pop na melhor acepção da palavra. Ou seja, foi feito para a Eternidade.


U2 - Achtung Baby



Foi amor à primeira vista?
Depois da egotrip americana de Rattle and Hum (1988), o U2 se recolheu em Berlim para tentar seguir relevante nos seus próximos dez anos de vida. Para isso, deixaram de lado o discurso ideológico, investiram em letras altamente emocionais ("One", "So Cruel" e "Love is Blindness" ainda estão entre as melhores coisas que Bono escreveu), botaram a distorção no talo (vide as guitarras de "Zoo Station" e "The Fly") e aprenderam a rir de si mesmos. Foi uma ousadia sem precedentes, totalmente inesperada para uma das bandas mais caretas da história. Deu tão certo que o U2, com todos os seus altos e baixos, ainda é a maior banda do planeta.

E aí, ainda rola gostoso?
Engraçado que o disco soa mais datado justamente no que o fazia mais moderno, à época do seu lançamento: as batidas dançantes. As guitarras mais agressivas que o habitual, a atitude desencanada e a alta qualidade geral das composições permitiram que ele envelhecesse dignamente. A remasterização que chega às lojas em novembro deve dar novo fôlego ao disco que é considerado por muita gente (inclusive por este que vos escreve) como o melhor trabalho do U2.