15/06/2011

A Nova DC... de novo!

Todo esse bafafá sobre o zeramento dos títulos da DC Comics até que pareceu simpático no começo e eu nem duvido que acabe gerando bons frutos. Agora, porém, começa a feder a manobra "quesadiana", algo que, dentro de alguns anos, se revelará como "realidade alternativa", "uma das 52 Terras do UDC" ou coisa que o valha.

Claro que podemos esperar coisas boas da Liga da Justiça de Geoff Johns e Jim Lee, ou do Superman de Grant Morrison e Rags Morales, entre outros. Por outro lado, dá um desespero ver que a DC continua apostando alto em figuras já queimadíssimas nas suas próprias fileiras e nas alheias. Ineptos crônicos, do porte de Dan Jurgens, Scott Lobdell, Gail Simone e Tony Daniel, para mencionar apenas alguns.

Nada contra mudanças nos uniformes, algumas eram necessárias e foram muito bem sacadas; nada contra a fusão com o universo Wildstorm
, por mais que os ideais de um acabem contaminando (e, por consequência, entrando em conflito com) os pregados pelo outro; nada contra rejuvenescer e retocar (outra vez) a origem dos maiores ícones da casa; caramba, eu engulo até que Barbara Gordon levante de suas cadeiras de rodas, deixe de ser Oráculo e volte a ser a Batgirl, se isso for garantia de que a coisa será levada nos colhões, como um reboot sério e válido que passa a ser o novo status quo da editora, e que ela o defenderá com unhas e dentes como sendo a sua nova verdade.

Infelizmente, não é essa a impressão que me passa. Tudo me parece muito volátil e suscetível à pressão dos leitores mais antigos, geralmente quarentões que exigem "respeito" pela cronologia dos seus mitos, ao mesmo tempo em que reclamam que o peso dela não facilita o acesso de novos leitores. Nos fóruns da vida, eles já devem estar ouriçados com a "heresia" de modificar o uniforme do Superman, retirando a cueca vermelha sobre a malha azul, detalhe que é motivo de piada desde sempre.

Eu queria que fosse algo mais gradual, profundo e bem pensado. Por exemplo, seria interessante ver Dan DiDio um dia chegar e anunciar algo do tipo:

- Olha só, vocês que nos desculpem, mas, nós vamos precisar zerar o Universo DC uma vez mais. Temos títulos demais, equipes parecidas demais e um monte de buchas que tentamos fazer parecer heroizões motherfuckers e não conseguimos. Além do mais, não queremos ficar eternamente como reféns da intolerância de velhos leitores que, hoje, devem estar muito mais preocupados em pagar a faculdade dos seus filhos do que com as novas revistas que lançamos. Precisamos rejuvenescer nosso público e isso só se consegue dando a eles a chance de acompanhar nossos heróis desde o começo. Teremos menos títulos, mas, conforme eles forem sendo abraçados pelo público, outros virão. Outra coisa: vai tudo pra internet no mesmo dia em que chega às comic shops. Sim, entendemos o risco, mas, queremos dar a estes possíveis novos leitores, que já nasceram plugados na internet e que talvez consumam scans ilegais de nossos quadrinhos, a oportunidade de adquiri-los honestamente, com alta qualidade e a um preço acessível. Estamos tentando modernizar nossos amados heróis e nossas estratégias comerciais e é assim que será, de agora em diante. Esperamos que você queira nos acompanhar, mas, se alguém preferir comer a poeira da História, é uma escolha legítima à qual todos têm o direito. Nos vemos por aí.

Mas, aí, vemos heróis e equipes ostentando características que evocam momentos de um passado bastante recente, o que joga por terra a teoria do reset total. Novamente, nada contra, mas que se tenha a honestidade de anunciar a coisa como ela é, ao invés de ficar jogando na internet pistas sobre mudanças supostamente bombásticas que são, na verdade, mais do mesmo - o que é, exatamente, o que a coisa agora parece.

Por aqui, a Panini ainda não anunciou se vai ou não zerar seus títulos nacionais no momento cronológico correto, mas, cá pra nós, deveria. Aliás, deveria também adotar a venda digital. O iPad e seus similares já são o objeto de desejo de quase todo mundo ligado em tecnologia e seu barateamento nos próximos meses há de impulsionar ainda mais o mercado de leitura digital, que ainda engatinha aqui no Brasil. De repente, a ideia de ter milhares de livros e HQs em um mero tablet ou HD externo me parece muito mais atraente do que ficar comprando armários ou estantes para ver suas páginas amarelando e juntando ácaros. Ainda gosto bastante de sentir um livro ou gibi novo nas mãos e acho que ainda demora muito, mas muito tempo mesmo, até que o digital seja a regra e não a exceção, mas, estou me importando cada vez menos com certos purismos.

Enfim, boa sorte à DC na sua empreitada. Quando saírem por aqui, vou até comprar alguns títulos pra experimentar, mas, são poucos aqueles nos quais estou botando fé. Seria ótimo queimar minha língua e ver um montão deles ganhando reviews favoráveis por aí, porém, cada vez mais, parece que limitei meu consumo no momento exato. Se antes eu ficava roendo as unhas e comprava tudo que saía, hoje prefiro manter uma distância protocolar e analisar muito bem antes de gastar meu tempo e meu dinheiro com certas coisas.

07/06/2011

X-Men - Primeira Classe

Tem algo que eu preciso dizer de cara: X-Men - Primeira Classe é o melhor filme já feito com os mutantes e um dos melhores do gênero. Foi feito longe dos Marvel Studios, recusado pelo diretor que levou a franquia ao sucesso (Bryan Singer, que preferiu atuar neste apenas como produtor), enfrentou a limitação de um elenco sem grandes chamarizes de bilheteria e a desconfiança de um público que temia que a série virasse uma espécie de Crepúsculo com mutantes, além de ter a difícil missão de reerguer o moral da série, após a apressada e indigesta sopa de sagas que foi X-Men - O Confronto Final (2006).

Responsabilidade enorme, como se vê. Mesmo longe de seus melhores dias, os X-Men sempre foram (e provavelmente sempre serão) um dos carros-chefes da Marvel, um fenômeno de popularidade que atravessa gerações e cujo público sempre se renova, seja através das HQs, do cinema ou das animações televisivas. Tinha tudo para dar errado, mas, felizmente, o filme surpreende até o mais cético espectador.

X-Men - Primeira Classe entrega o que o título promete: o surgimento da primeira equipe mutante do Professor X. Não espere, porém, encontrar aqui o sisudo Xavier dos quadrinhos interpretado por alguém com a fleuma de Patrick Stewart. O Charles Xavier deste filme é jovem, galante, espirituoso e tão empolgado quantos seus pupilos, ainda que perfeitamente focado e ciente de suas capacidades e responsabilidades. Da mesma forma, Erik Lensherr (Magneto, para os íntimos) é alguém em busca obstinada por vingança, mas o faz com charme, inteligência e heroísmo que rivaliza com o de seus futuros arqui-inimigos. Como ele ainda não está totalmente entregue ao "lado negro da Força", não se recrimine por torcer para Magneto.


Justiça seja feita, os intérpretes dos personagens centrais da trama venceram com louvor o desafio de serem dignos de substituir Patrick Stewart e Ian McKellen (respectivamente, Xavier e Magneto nos 3 filmes anteriores). James McAvoy faz um Xavier sem qualquer ranço de "salvador do mundo"; ele é capaz de beber até a embriaguez, passar cantadas rasteiras e fazer piadas sem a menor cerimônia, interessante abordagem para um dos personagens mais ditadores de regras que pode haver nos quadrinhos. Seu potencial para a liderança e seu poder de persuasão, porém, estão ali, intactos. O trabalho de Michael Fassbender como Magneto é ainda mais digno de nota. O homem é quase uma força da natureza e a paixão com que se entrega ao papel (e à chance de virar um superastro) é tamanha que rivaliza com Hugh Jackman ao encarnar Wolverine, com o fardo e a vantagem de ser Erik um personagem bem mais complexo do que Logan.

Embora McAvoy e Fassbender praticamente levem o filme nas costas, seria injusto não elogiar Kevin Bacon, encarnando com propriedade a canalhice e a sede de poder de Sebastian Shaw, e do jovem elenco de mutantes do bem (exceção feita a Zoë Kravitz, sem graça como a personagem que interpreta, Angel). A cada aparição de Banshee (Caleb Landry Jones), um de meus X-Men favoritos desde sempre, alçando voo com seu grito supersônico, o moleque dentro de mim, que aprendeu a gostar de comics lendo as aventuras do grupo na coleção de revistas do vizinho, voava junto e soltava um largo sorriso de satisfação no cinema, como se estivesse realizando um sonho - e estava.


O time do mal não é muito exigido, exceto pela agilidade demoníaca e letal de Azazel (Jason Flemyng). Para um próximo filme, espero que a atriz que faz Emma Frost, January Jones, leve uns puxões de orelha e seja capaz de mudar de expressão. Justo Emma, a mais sacana, sarcástica e adorável das vilãs, reduzida a meia dúzia de caras de "cool". Lamentável.

Ter os melhores intérpretes, porém, não adiantaria de nada se a história não fosse envolvente, bem contada e bem dirigida. O roteiro escrito a oito mãos (entre as quais, as do diretor Matthew Vaughn) é extremamente cuidadoso e respeitoso com nossa inteligência, colocando eventos reais (a crise dos mísseis em Cuba) a serviço da ficção de forma exemplar e abordando o problema da intolerância sem histeria. Isto é uma das coisas que mais encantam no filme: todas as motivações dos personagens (com alguma boa vontade, até os esquemáticos delírios de grandeza de Shaw e seu Clube do Inferno) parecem plausíveis, vide a relutância de Mística (Jennifer Lawrence, linda) em assumir sua verdadeira forma. Num mundo que supervaloriza e padroniza a beleza física, como aceitar-se diferente do que é tido como modelo?

Acho que chega. Por mais que eu queira ficar descrevendo as virtudes de X-Men - Primeira Classe, ele é um filme que deve ser assistido e sentido por cada um de maneira particular. Para mim, foi uma deliciosa traição das sombrias expectativas que alimentei antes dos primeiros trailers e a certeza de que ainda há espaço para fantasia inteligente no cinema. Hoje, li em algum lugar que as sessões de pré-estreia de Lanterna Verde foram muito bem recebidas pelos privilegiados presentes. Verdade ou não, o guerreiro esmeralda da DC tem, no dia 17 de junho (lá nos EUA), uma tarefa árdua e que deve colocar um pouquinho de medo em seu destemido coração: igualar ou superar o glorioso filme dos mutantes da Marvel. Não vai ser nada fácil.