31/07/2011

Capitão América: O Primeiro Vingador



"Parece Indiana Jones" é o comentário mais recorrente sobre este filme na internet. Há que se lembrar que Joe Johnston é um cineasta velho de guerra e pertenceu à mesma turma que reinventou o cinema de fantasia nos anos 80, na qual se incluía Steven Spielberg. Junte-se a isto a ambientação na 2ª Guerra Mundial, nazistas em busca de poder místico e, sim, pode-se dizer que "Caps" parece "Indy" - mas só por isso. Felizmente, não há formigas subindo umas nas outras para devorar-lhe o escudo estrelado.

Diz-se, ainda, que o personagem seria difícil de adaptar, por causa do sentimento antiamericano que existe mundo afora, há décadas. Desde o nome um defensor do American Way, temia-se que o público não fosse vê-lo em uma odisseia patriótica contra os nazistas malvadões. Bobagem. A única coisa que o público realmente não tolera é filme ruim e, embora este aqui não vá fazer do personagem um fenômeno de popularidade no nível do Homem-Aranha ou dos X-Men, ele é um dos mais bem-acabados produtos da Marvel Studios.

O maior e mais improvável acerto do filme é, pasme, o seu protagonista. Quando anunciaram Chris Evans para o papel de Steve Rogers, eu fui um dos muitos a pensar "WTF?". Afinal, ele já encarnava o Tocha Humana nos micados filmes do Quarteto Fantástico e parecia ter nascido com aquela postura de gostosão de filme colegial, sempre com um sorriso de canto de boca e cara de quem sacaneia os fracotes da escola. Nada mais impróprio para a missão à qual foi designado.

Ainda bem que viram algo que eu não vi, porque Evans acerta gloriosamente o tom, fazendo um Steve Rogers com o qual podemos simpatizar, sem um pingo de sarcasmo indevido. No primeiro terço do filme, quando ainda é um baixinho esquelético (impressionante trabalho de efeitos visuais), provoca aquela identificação que vem da piedade de vê-lo deixar-se socar por valentões com o dobro do seu tamanho, e da admiração por seu caráter perfeitamente seguro do que é certo e errado. Depois do soro de supersoldado, seria fácil imaginar que ele virasse uma arrogante montanha de músculos, mas o prometido é cumprido à risca: Steve Rogers vira um herói de primeira grandeza, justo e destemido, mas nada soberbo e sem chavões ufanistas na ponta da língua.

O vilão do filme é seu inimigo mais clássico, o Caveira Vermelha, que foi o primeiro a experimentar o soro de supersoldado e provar que ele potencializa tanto as boas quanto as más qualidades de quem o toma. Hugo Weaving se sai muito bem, mesmo debaixo da pesada maquiagem. No filme, o Caveira pretende usar um artefato dos deuses nórdicos perdido na terra (nada menos que o Cubo Cósmico, uma das armas mais poderosas do universo) para energizar suas armas na investida contra não só os inimigos de Hitler, como o próprio Führer, a quem considera indigno de comandar o mundo que ele vislumbra.

O desenvolvimento do filme é paciente e é este cuidado com a história e a formação dos personagens que o torna mais interessante do que foi, por exemplo, o afobado Thor. As sequências de ação estão muito bem coreografadas e os retoques digitais não são exagerados: mesmo quando o Capitão soca com força um soldado inimigo, ele não é lançado a 50 metros, como em outros filmes do gênero. O uso do escudo de vibranium é discreto, mas empolgante.

Os coadjuvantes estão muito bem, principalmente Hayley Atwell como Peggy Carter, interesse amoroso de Steve. Tommy Lee Jones, como o General Chester Phillips, tem tiradas humorísticas leves e bem colocadas. Talvez se possa reclamar que Sebastian Stan foi pouco aproveitado como Bucky Barnes, mas quem leu os recentes quadrinhos do Capitão (principalmente na fase escrita por Ed Brubaker) sabe que o personagem pode ter novas e boas chances.

Na já esperada cena pós-créditos, um primeiro vislumbre do que será o filme dos Vingadores, dirigido por Joss Whedon, ano que vem, aliando o Capitão América ao Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Thor (Chris Hemsworth), Viúva Negra (Scarlett Johansson), Gavião Arqueiro (Jeremy Renner) e Hulk (Mark Ruffalo), finalmente amarrando as pontas soltas ao final de cada filme lançado desde 2008. Se não for esvaziado pelo lançamento de O Espetacular Homem-Aranha, de Marc Webb, que sai praticamente junto, tem tudo para ser o filme-evento de 2012, páreo duro para o terceiro Batman de Christopher Nolan.

26/07/2011

Carta a Amy Winehouse

Querida Amy,

Tão logo o sucesso interestelar de Back to Black (2006) bateu à sua porta, você começou a dar sinais de que não aguentaria a pressão. Não saberia dizer quando você começou a usar drogas, mas, ouvindo as letras de seus discos, arrisco-me a dizer que foi bem antes do sucesso. Admitamos, por um instante, que você já fosse uma junkie contumaz desde sempre. Mesmo assim, você estava ali, com uma aparência razoavelmente saudável, impressionando a todos com sua potência, domínio e versatilidade vocal. Méritos sejam dados, também, a Mark Ronson, pela produção impecável de seu segundo disco, que deflagrou uma onda de novos artistas de soul music que se recusam a acreditar que é preciso viver seminu pra chegar a algum lugar.

Acontece, Amy, que você ficou nua, em sentido denotativo e conotativo. Artista cedendo às pressões da fama e buscando fuga nas drogas não é novidade alguma, é um expediente que se repete há quase um século, com entediante regularidade, e que, infelizmente, vitima a muita gente tão talentosa quanto você. Só que você foi fundo demais em tempo de menos. Será que não dava mesmo pra curtir seu goró, sua farinha ou sei lá o que mais que você usava, de maneira que o barato viesse e você não precisasse cair na sarjeta a ponto de perder os dentes, como aconteceu? Sabemos que a drogadição é uma condição clínica, algo que foge ao controle do drogadito, mas, por que foi que você, simplesmente, não disse a todo mundo do que é que tinha tanto medo?

Sei lá, talvez nem fizesse diferença alguma e você já estivesse morta do mesmo jeito. Mas, pelo menos, a gente poderia tentar entender. Do jeito que aconteceu, ficou muita gente com a impressão de que você buscava a própria morte. Você parou o mundo ao morrer e o que se seguiu à notícia da sua partida foi um vagalhão de hipocrisia e moralismo fora de hora, todo mundo dizendo que você "chegou onde queria". Bem, eu não acho que você queria morrer. Mesmo achando que você gostava mesmo de andar chapada, acredito que você queria ficar, pelo menos, sóbria o suficiente pra assinar um contrato, subir num palco e saber o que estava fazendo ali, ou entrar num estúdio e soltar a voz pra gravar o terceiro disco que nunca veio.

E, meu Deus, como eu esperei esse bendito CD! Ainda que fosse o tal disco de reggae que você gravou no Caribe e que sua gravadora jogou no lixo (neste momento, porém, eles já devem estar fuçando o lixo atrás desta e de suas outras tentativas frustradas de volta, na esperança de capitalizar sobre o último resquício de sua voz, não importando, agora, a qualidade das gravações - ou a falta dela), eu queria MUITO ouvir a sua voz de novo.

Mas, vou correr o risco de machucar seu coraçãozinho e falar com sinceridade: por mais "diva" que pudessem te rotular, eu é que não ia ficar sentado esperando, anos a fio, por um trabalho que não dava pinta de sair tão cedo. Por isso é que, mesmo que seu lugar na História da Música esteja mais que garantido, eu fui atrás de outras pessoas. Talvez, até menos talentosas que você, mas, definitivamente, com uma aparência mais saudável e maior disposição de fazer da soul music um modo de VIDA, não um caminho pra cova. Claro, nada garante que eles estejam vivos amanhã, talvez também morram jovens e das mesmas causas que você, mas, sinto dizer, inspiram muito mais confiança. Gente como Adele, Cee-Lo Green, Eli Paperboy Reed, Janelle Monáe e outros brancos e negros que honram uma tradição cinquentenária.

Acho que já chega, né? Falei demais e ainda não falei o principal: vou sentir saudade sua. Sério. Você era uma ilha de verdade e talento bruto em um oceano de gente fabricada em série e afinada a fórceps com AutoTune. Vão começar as coletâneas picaretas e os discos-tributos, mas, te juro, não vou atrás de nada disso. Faixas inéditas só teriam graça se você pudesse gravar um vídeo ou apresentá-las num talk show qualquer, acompanhadas de uma entrevista em que você falasse da delícia de estar viva e sentir-se tão limpa quanto o momento permitisse. Nem tudo sai como a gente quer, porém. Só me resta esperar que o lugar pra onde você vai agora seja mais divertido do que este mundo sem sua presença.

É isso, por enquanto.

Com afeto e com beijinhos,

Marlo

25/07/2011

Harry Potter e as Relíquias da Morte



Preciso elogiar a J. K. Rowling: sua maior criação pode não ser uma unanimidade, mas é, inegavelmente, uma grande história. Ainda preciso ler 4 dos 7 livros da saga, mas a julgar pela maturidade dramática apresentada nas adaptações para o cinema (nas quais, diz o consenso, sempre faltam detalhes importantes), com todas as pontas soltas amarradas de forma tão exemplar, só posso sentir, mais uma vez, aquele vazio que encheu o peito de quem viu terminar O Senhor dos Anéis, no fim de 2003: um sentimento de tristeza por saber que não tem mais nada de Harry Potter por sair.

Assim como suas contrapartes literárias, os filmes foram amadurecendo junto com os personagens e o formidável elenco escalado para interpretá-los, entre os quais o elo mais fraco sempre foi, ironicamente, o protagonista, Daniel Radcliffe. Pois até mesmo ele se sai bem nestes dois últimos filmes - e, convenhamos: alguém que foi elogiado pela atuação na exigente peça Equus tinha mesmo obrigação de, em algum momento, revelar um pouco mais de talento frente às câmeras.

No epílogo de Harry Potter, o poder de Voldemort cresceu exponencialmente desde que ele pôs as mãos em uma das 3 relíquias do título: a Varinha das Varinhas, que havia sido enterrada com Alvo Dumbledore. Num ataque devastador a Hogwarts, as forças do mal enfrentam as combalidas forças do bem, que buscam ganhar tempo para que Harry Potter descubra as últimas horcruxes (os recipientes mágicos que contêm fragmentos da alma de seu inimigo) e as destrua. Acontece que as coisas se revelam bem mais difíceis para Harry: como esperado, é chegada a hora de um sacrifício maior de sua parte.

As últimas revelações que tem sobre seu passado são algumas das mais interessantes e relevantes, dando preciosas explicações sobre figuras dúbias, como o professor Severo Snape. Os amigos mais próximos de Harry (Ron e Hermione) seguem sendo escudeiros eficientes, ainda que meio trapalhões. Um coadjuvante (Neville Longbottom) relegado ao semi-ostracismo em boa parte da série ressurge de forma triunfal, contribuindo de forma decisiva para a vitória do bem (é claro que o bem vence, você foi louco ou ingênuo de esperar outra coisa?).

Dividir o último livro em dois filmes pode ter parecido manobra movida por mera ganância, mas o fato é que isto ajudou o desenvolvimento dos personagens e a solução dos mistérios, além de aumentar a noção do drama vivido pelo jovem bruxo, um menino que custou a crescer e a aprender com os próprios erros. Há quem diga, aliás, que este seria o Calcanhar-de-Aquiles do personagem: Harry Potter foi, durante todo a série, o mesmo menino crédulo, manipulável e conformado com sua própria mediocridade. Mas, vejamos o que fariam certas pessoas com o fardo do destino do mundo em seus ombros...

Um fecho mais que digno para uma série cinematográfica que marcou uma geração e que foi do infantil ao adulto junto com seu personagem, ganhando maior complexidade dramática a cada novo filme, conforme cresciam as ameaças que pairavam sobre os heróis, com sacadas absolutamente geniais espalhadas em cada capítulo. Por seu caráter de fenômeno pop, há quem queira chamar a Saga (HAHAHAHA) Crepúsculo de "novo Harry Potter", mas, poxa vida: no papel, Harry Potter é Literatura e Crepúsculo é diário de adolescente. Na película, Harry Potter é Cinema e Crepúsculo é caso pro Procon.

01/07/2011

Belzonte Procêis!

Normalmente, em um período de férias como este que agora acaba, eu aproveitaria o tempo livre para postar feito louco, contando a você (quase) tudo que andei fazendo, lendo, vendo e ouvindo. Mas, admito, estou com um certo bode de blogar. Pode ser temporário, pode não ser. O fato é que eu vejo a data da última postagem ficar cada vez mais distante e não sinto mais aquela culpa que costumava me corroer. Você quer ler postagens novas, tudo bem... só que eu também quero ter o direito de fazer coisas diferentes, ou de guardar para mim certas opiniões e descobertas. Entenda, eu não vou desistir do blog e não quero fazer parecer que sua opinião não importa, mas acho que nem tudo tem que virar assunto pra postagem. Tem dias que, por mais que eu tente, não pinga uma gota de inspiração - ou de vontade de escrever. Paciência.

Mas, enfim... Estive eu recentemente pelas bandas de Belo Horizonte, onze anos após a primeira vez, quando fui intérprete para uma família de americanos que veio conhecer um parente brasileiro que não falava inglês. Se você acha que viajar de graça, comer e beber bem, conhecer lugares e pessoas fantásticas (e ainda ser pago para isso!) pode ser chamado de "trabalho", então, foi isso: eu fui a BH pela primeira vez a trabalho.

Desta vez, o intuito era gastar alguns dos meus dias de folga, pelo recesso de São João, na companhia de minha irmã e meus sobrinhos, que estariam reunidos na cidade, onde o mais velho dos garotos faz faculdade. Foram quatro dias sensacionais, entre os quais o glorioso 27 de junho, aniversário deste que vos escreve. Fazia tempo desde a última vez que fiz uma viagem tão divertida e proveitosa.

Devo dizer que Belo Horizonte é uma das metrópoles mais agradáveis que tive a oportunidade de conhecer. O povo é educado e prestativo, principalmente no comércio, onde a gente é sempre atendido com um sorriso. Não houve um lugar onde eu entrasse para não ser abordado com gentileza e onde não fizessem de tudo para mostrar que, sim, o bem-estar e a satisfação do cliente importam tanto quanto o dinheiro que ele pretende gastar. Atenção, cavalos batizados que trabalham em certas lojas, bares e restaurantes de Salvador: aprendam com os mineiros a receber os turistas!


Na noite do meu aniversário, por exemplo, sem que houvesse "Parabéns pra Você" ou qualquer alarde sobre a data de nossa parte, eu e alguns amigos fomos surpreendidos pela chegada de um "bolo" feito de algodão doce, sobre o qual faiscava uma velinha, além do bibelô que você vê na foto acima como presente. A garçonete havia "pescado" a informação do meu aniversário enquanto nos servia e, discretamente, eles armaram tudo por conta própria. Pequenos gestos que deixam o cliente feliz e fazem a gente querer voltar e recomendar. Falando nisso, indo a BH, não deixe de visitar este lugar tão agradável: a choperia Pinguim.

Outras reuniões divertidas aconteceram no bar Soho Orbis, onde o "couvert" cobre o direito de usar as dezenas de jogos de mesa disponíveis, tornando os encontros mais divertidos e prolongados - e, se você perde a noção, acaba gastando muito mais do que queria, também; no restaurante Casa Cheia, situado no Mercado Central, pode-se comer pratos e tira-gostos premiados por um preço razoável, com aquele ar "mundano light" que os bons botecos têm.

"Mexidoido Chapado", um dos hits do cardápio do Casa Cheia.


O "Coisário" do bar Soho Orbis, na Savassi.

Para não dizer que é tudo perfeito, os banheiros são pagos em muitos lugares públicos - e quando estamos falando de um banheiro horrível como o do Shopping Cidade, fica bem doloroso puxar nossas sagradas moedinhas do bolso. Outro lugar que não valeu a pena visitar foi o jardim zoológico, mal planejado e mal cuidado. Satisfeita a curiosidade, foi a primeira e última vez que estive lá.

Mas, por mais atrativos que BH tenha, a verdadeira cereja do bolo nesta viagem foi, sem dúvida, a visita ao Centro de Arte Contemporânea Inhotim, localizado no município de Brumadinho, a cerca de 100 km da capital. Trata-se de uma imensa e magnífica área verde, com projeto paisagístico de Roberto Burle Marx, em que obras assinadas por grandes nomes da arte contemporânea brasileira (como Hélio Oiticica, Adriana Varejão e Tunga) estão expostas em galerias ou integradas à paisagem, belíssima para onde quer que se olhe.

Vista aérea do Inhotim.


Detalhe do interior.

Arte contemporânea, porém, é aquela coisa: algumas obras possuem inegável valor, enquanto outras precisam contar com doses ultragenerosas de boa vontade para provocar algo mais que indiferença. Que me desculpe quem gosta, mas, para mim, um quarto escuro, com um monte de cabos espalhados pelo chão e objetos que fazem lembrar uma oficina abandonada, com umas poucas e fraquíssimas lâmpadas tentando quebrar o breu quase total, só pode ser chamado de arte por alguns dos melhores amigos do "artista" (e vai que é só pra não magoar o coitadinho).

"True Rouge", de Tunga.


"Troca-Troca", de Jarbas Lopes.

As tais "instalações" são, portanto, um desafio à sensibilidade e à percepção dos visitantes. Umas funcionam muito bem, encantando, divertindo e emocionando. Outras fazem a gente querer pedir o dinheiro de volta e tacar a tal "obra" na cabeça de quem a cometeu. Ao fim do passeio, os pontos positivos superam com folga os negativos e você se sente um pouco mais rico ao deixar o Inhotim. Isto é, "rico" em termos, porque a lojinha de souvenirs na entrada é uma tentação e muita gente acaba deixando lá muito mais do que imaginava.

Assim foram, então, estas duas semanas de silêncio aqui no blog. Eram minhas férias, afinal, ora pombas! Espero que você ainda esteja aí, lendo este finalzinho da postagem e disposto a me dar mais um voto de confiança. Nos próximos dias, reviews e dicas de coisas que andei lendo, assistindo e escutando. Até a próxima.