28/02/2012

A Mulher de Preto


Este review não foi escrito por mim, o dono dessa bagaça. Abri espaço para a opinião de um aluno, amigo e grande curtidor de minhas sugestões musicais. Seu nome é José Gomes Neto, mas você pode chamá-lo de Joseph Grandson, que ele gosta. Eis o que ele tem a dizer:

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"A saga Harry Potter acabou e os protagonistas do filme agora irão representar outros personagens na telona. E pelo que vi em A Mulher de Preto, com Daniel Radcliffe, serão performances das boas! 

O filme é a adaptação de uma série de TV, baseada no livro homônimo de Susan Hill - curiosamente, protagonizada pelo ator Adrian Rawlins, que faz o papel de James Potter (o pai de Harry). Se você gosta de muito suspense e uma história inteligente, A Mulher de Preto tende a ser o filme do seu verão.

O filme se passa no século XIX e conta a história de Arthur Kipps (Daniel Radcliffe), um jovem advogado viúvo em Londres, que viaja, a mando de sua empresa, para cumprir a missão de reunir documentos da recém-falecida Alice Drablow. Porém, ao chegar à cidade onde Alice morava, percebe uma movimentação estranha entre os cidadãos, que parecem proteger-se de algo. 

Os documentos da falecida estão na sua mansão, separada por um pântano da vila principal. Ao chegar lá, Arthur decide passar a tarde trabalhando. Logo começam os calafrios, barulhos estranhos e aparições literalmente assustadoras da Mulher de Preto do título, por dentro e por fora da mansão. Arthur sente medo; porém, o mistério o instiga e ele decide tentar decifrá-lo. Cartas, uma sala de brinquedos (que faz parte das cenas mais arrepiantes), fotos e até mesmo terços são alguns dos improváveis elementos que deixam o filme bem apavorante.

Além de um roteiro legal e de uma dinâmica atraente, Daniel Radcliffe está sensacional. O filme possui poucos diálogos, então, depende muito do seu desempenho físico. Olhares, respiração ofegante, tensão corporal... uma verdadeira imersão de Radcliffe na situação em que o personagem se encontra, crucial entre os pontos positivos do filme. Arrisco dizer que é uma das principais características que o tornam bastante satisfatório. 

Nosso pequeno Harry cresceu e tornou-se um grande ator, cujo merecido reconhecimento não deve tardar. Daniel mostra não depender de mágica. Além do mais, não é sempre que se tem uma varinha à mão, não é?"

A Mulher de Preto 
Com Daniel Radcliffe e Ciarán Hinds.
Dirigido por James Watkins

25/02/2012

Que galera é essa, meu irmão?

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Há poucos dias, Bell Marques, o vocalista do Chiclete com Banana, quando questionado sobre o atual modelo de carnaval de Salvador, que privilegia uma minoria que pode pagar os caríssimos abadás e camarotes e espreme, no pequeno espaço que lhes sobra fora das cordas, o povo que trabalha para tirar um trocado, ou os foliões "pipoca" que simplesmente desejam aproveitar uma festa supostamente popular, saiu-se com essa:

"A corda dos blocos é necessária para que ricos e pobres possam usufruir do Carnaval. Corda sempre existiu e, na minha opinião, ao invés de separar, acaba unindo o povão, que acaba vendo de graça algo que é pago por uma parcela”.

Bell Marques: cara lisa é com ele mesmo...

O comentário, feito em entrevista ao jornal A Tarde, no último dia 10, tentava justificar um visível e contínuo estado de apartheid de classes e pegou supermal nas redes sociais. Não é para menos: é sintomático de um esquema que se alastrou feito praga no carnaval baiano, que a cada ano se elitiza um pouco mais. Aos donos de blocos (como Bell) e aos privilegiados (ou mesmo coitados) dispostos a pagar pequenas fortunas por abadás ou camarotes, tudo. Ao folião comum, que deseja apenas ver seus artistas do chão e dançar atrás de um trio, sem ter que pagar por isso, poucos e exíguos espaços, onde o esfrega-esfrega indistinto frequentemente termina em situações embaraçosas ou perigosas.

Como se fosse pouco, agora chega outro cacique-mor do carnaval, Durval Lélis, vocalista do Asa de Águia, propondo a privatização do circuito da Barra. Em poucas palavras: ele quer transformar (ainda que temporariamente) a orla de Salvador num clubinho privé, onde só entra quem paga e pronto. Caso ainda não tenha assistido a este vídeo, preste atenção aos comentários nas legendas (as interrupções no stream são propositais, para que você possa lê-los).



Eu proponho a gente fazer o que Durval pede.

Que não o façamos, porém, nas ruas de um bairro emblemático da cidade, cujo cenário natural ou urbano não pode ser loteado entre meia dúzia de ex-artistas acomodados e metidos a "magnatas do axé" e seu séquito de puxa-sacos. A Barra, como a Praça Castro Alves, é do povo. Talvez alguns dos moradores de lá até se sintam menos povo que o povão, mas, vamos falar sério: se ter transformado uma manifestação cultural genuinamente popular num evento já exclusivista em seu modelo atual não basta, depois dessa nova declaração, alguém precisa levantar a mão e dizer "calma lá, Durvalino, meu rei!".

Minha ideia é a seguinte:

Deixe o carnaval de rua na rua, que é o lugar dele. Sem corda, sem bloco milionário, sem camarote. Deixe que se abra espaço para novos artistas que ralam por um lugar ao sol, mas que, quase sempre, acabam escondidos pela sombra dos grandões do axé. Deixe que trabalhem aqueles artistas já estabelecidos que, ao contrário de vocês, acham que animar a pipoca é obrigação, não favor. Deixe que voltem aqueles senhores que faziam uma música muito mais rica e interessante para os carnavais de décadas atrás, pois vários deles ainda estão vivos, cheios de tesão pela arte, e existe uma multidão ávida de reencontro e de novidade.

Aproveito para fazer uma defesa pública de Daniela Mercury: a "insuportável", a "metida" Daniela desfila sem cordas todos os anos e faz um já tradicional show gratuito no Farol da Barra, ao fim da tarde de todo 1º de janeiro, enquanto seus amigos Bell e Durval não costumam dar sequer um arroto que se possa ouvir de graça. Pode ser que tenha razão quem diz que ela se apropria de uma cultura (a de origens africanas) que, em tese, não é a sua, mas ela o faz com beleza e reverência evidentes. Pode ser que ninguém queira ouvir canto lírico no carnaval, mas ninguém poderá acusá-la de não tentar olhar por cima da mesmice. Pode ser que hoje muitos "artistas" medíocres ou mera e flagrantemente ruins façam mais sucesso do que ela e sejam bajulados pelo mesmo povo que extorquem com um sorriso, mas o tempo, senhor de tudo, há de fazer justiça à "metida".

Quanto ao seu carnaval VIP, com portaria e catraca, abadá mais caro que um salário mínimo, seguranças de terno e gravata, convidados globais e "gente bonita" (subjetividade que geralmente implica certas preferências étnicas), leve-o para um espaço fechado, mesmo. Um estádio. Um latifúndio qualquer, seu ou de um amigo (Bell, por exemplo). Eu sugeriria uma ilha. Não a de Itaparica, que é praticamente uma extensão de Salvador. Faça assim, ó: compre logo uma ilha, se é que você ainda não tem uma! Compre uma bem, mas beeeem afastada da costa, que é para não atrapalhar o carnaval dos plebeus aqui na cidade e não encher o saco de quem não está nem aí pra folia. Da mesma forma, visto que lá só se chegará de iate ou helicóptero, você estará livre de ambulantes e de outros tipos de "gente feia" que é sempre mantida, a empurrões, do lado de fora das cordas que Bell tanto preza.

Devolver o carnaval baiano ao seu povo não é utopia.  O carnaval do Rio tem o luxo da Sapucaí e seus camarotes, mas as ruas do centro são tomadas por pessoas comuns, seguindo charangas em pequenos blocos ou totalmente avulsas. Este não é o carnaval que vai pra televisão, mas é o verdadeiro evento que reúne milhões (ao menos de pessoas, se não de reais). Mesma coisa no Recife, onde a multidão divide as ruas sem cordas ou cordeiros (e se eu estiver equivocado, que algum pernambucano se manifeste). Não dá pra entender como é que um modelo tão perverso se enraizou tão firmemente aqui na Bahia.

"Melhor carnaval do mundo"? Aham, Cláudia, senta lá.

Reboota, que eu gosto!

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Contrariando as previsões dos leitores mais conservadores e esperneantes, o reboot da DC Comics tem se provado um estrondoso sucesso. Em janeiro, quinto mês da iniciativa, a casa de Batman e Superman varreu o chão com a concorrência, dominando totalmente o Top 10 da distribuidora Diamond. A primeira edição da nova revista da Liga da Justiça já está na sua sétima tiragem! É um tempo de vacas gordas, como a DC há muito não vivia. Enquanto isso, na Marvel, chovem cancelamentos e há quem espalhe rumores de que ela também prepara seu próprio reboot. ("Casa das Ideias", né? Sei...)

Apesar de ainda não ter iniciado a leitura (digital) de alguns títulos bastante elogiados (como Homem-Animal e Monstro do Pântano), outros bastante malhados (Arqueiro Verde, Rapina & Columba) e uns bem alternativos (I, Vampire e Voodoo), já li as cinco ou seis primeiras edições de algumas das principais revistas novas. Apesar da insistência da DC em algumas figuras nefastas (Gail Simone, Rob Liefeld, Tony Daniel como escritor) e de o primeiro e mais bem-sucedido título do reboot (Liga da Justiça, com os superstars Geoff Johns e Jim Lee) ser apenas um blockbuster fast-food, o saldo geral é positivo.

A seguir, você tem minha opinião sobre cinco dos melhores títulos da nova DC Comics que tive a oportunidade de ler. Espero que sirva como um guia (embora modestíssimo) para suas escolhas, quando essas revistas começarem a sair por aqui - em junho ou julho, a julgar pela publicação de Ponto de Ignição (no original, Flashpoint, o evento que levou ao reboot), o que vai diminuir a "janela" entre a publicação americana e a brasileira, que hoje é de um ano, para cerca de 9 meses.

ACTION COMICS
de Grant Morrison e Rags Morales

Em início de carreira, Kal-El é muito mais temido que amado em Metrópolis e sequer pensou em um uniforme decente, usando jeans, uma camiseta com o brasão de sua família (o famoso S) e uma capa curta. Os inimigos são novas versões de Metallo e Brainiac e, mesmo não sendo o melhor trabalho de Grant Morrison com o personagem, a história que reintroduz o mito do Superman está bem divertida. A quinta edição traz um interlúdio simplesmente emocionante.


BATMAN
de Scott Snyder e Greg Capullo

O melhor título do Batman em muito, muito tempo. O Morcego de Snyder é moderno em seus recursos, mas à moda antiga em seus métodos: há muito tempo não víamos o lado detetivesco do Batman tão bem trabalhado! O primeiro arco se aproxima do fim lá fora, com o surgimento de um grupo de novos inimigos convincentes e com raízes profundas na história dos Wayne. O ex-recluso Greg Capullo continua mandando muito bem no lápis. Absolutamente viciante!


BATMAN & ROBIN
de Peter Tomasi e Patrick Gleason

Apenas um pouco inferior ao título-solo do Morcego, a revista que reedita a vitoriosa parceria autoral da Tropa dos Lanternas Verdes é divertida e explora muito bem a dinâmica pai/filho entre Bruce e Damian, um personagem que parecia destinado a  apenas esquentar lugar para a volta de Tim Drake, mas vai ganhando personalidade e importância, graças à boa mão de gente como Tomasi e Grant Morrison.

WONDER WOMAN
de Brian Azzarello e Cliff Chiang

Se, ao pensar em Azzarello escrevendo super-heróis, seus cabelos se arrepiam e você ouve "Superman - Pelo Amanhã" ecoar em sua mente, pode respirar aliviado: o escritor acertou em cheio no clima aterrorizante e nas novas personificações dos deuses gregos, fazendo importantes e bem-vindas modificações no passado da Mulher-Maravilha. O traço limpo, mas altamente cinético, de Cliff Chiang (que em breve será co-escritor) é uma atração à parte. Uma das melhores surpresas do reboot.

AQUAMAN
de Geoff Johns e Ivan Reis

Ninguém, em seu juízo perfeito, apostaria um centavo que o Aquaman fosse frequentar o Top 10, mas é o que vem acontecendo. A dupla que fez do Lanterna Verde um sucesso faz troça com toda troça de que o Aquaman é vítima desde sempre e transforma este num gibi bem agradável. A trama com canibais submarinos não é nenhuma obra-prima, mas duvido que Johns tenha tais ambições. Opção de leitura descompromissada, com ótima arte de Reis.

Menções Honrosas:

Batwoman - J. H. Williams revela-se tão eficiente como roteirista quanto como artista. Arte espetacular, diagramação surpreendente e toneladas de carisma em cada personagem.

Justice League Dark - Vários místicos da DC (incluindo Zatanna e o bam-bam-bam da Vertigo, John Constantine) são reunidos para combater a sempre reincidente loucura da bruxa Magia.

Green Lantern - Sinestro, Lanterna Verde do setor 2814? Assim começa a "nova" revista do gladiador esmeralda (como o Batman, imune aos efeitos do reboot). Não é a melhor das fases, mas Geoff Johns mantém a velha chama verde acesa.

14/02/2012

O Artista

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Atribui-se a O Artista, em críticas que pipocam pela internet, o "crime" de ser saudosista. Dizem que a Academia o laureou com 10 indicações ao Oscar 2012 (apenas uma a menos que A Invenção de Hugo Cabret) porque muitos dos seus membros estão "com saudade do que não viveram". Bobagem. Pode ser que toda a badalação com o filme esteja te deixando desconfiado, mas O Artista merece todos os prêmios que ganhou e que ainda venha a ganhar.

(E que se diga: quando é Quentin Tarantino que faz filmes com cara de produção de quinta categoria dos anos 70, com seus diálogos fervilhantes de cultura pop e personagens inverossímeis, ele é chamado de cool e de gênio, não de saudosista. Adoro Tarantino e adoro seus filmes, mas, por favor, não é a falta da violência e do aspecto trash que justifica o uso de dois pesos e duas medidas)

Na Hollywood do final dos anos 1920, George Valentin (Jean Dujardin, excelente) reina como astro do cinema mudo. Ele é talentoso e carismático, mas, também, dono de um ego gigantesco. Durante as filmagens de uma de suas produções, ele reencontra Peppy Miller (Bérénice Bejo, encantadora), uma fã que pretende ser atriz, e a ajuda a dar-se bem no estúdio onde trabalha. O interesse amoroso é instantâneo, mas o fato de Valentin ser (mal) casado é um obstáculo entre os dois. Após desdenhar da nascente tecnologia dos filmes falados, ele é posto de lado pelos chefões do seu estúdio e cai no ostracismo, enquanto Peppy rapidamente torna-se o principal rosto dos talkies.

Eu sei, a história não é nenhum primor de complexidade e, sendo o filme mudo, são poucos os diálogos importantes o suficiente para aparecer em quadros inteiros, exatamente como nas produções da época. Também é verdade que o ritmo cai bastante durante o tempo de "vacas magras" de Valentin. Mesmo assim, o filme do francês Michel Hazanavicius é uma realização tão bonita (com fotografia perfeita de Guillaume Schiffman) e de tamanha entrega (não dá para não se derreter pelas performances apaixonadas e pelos sorrisos de Bejo e Dujardin), que só mesmo uma lamentável recusa das plateias mais jovens em experimentar um tipo de cinema sem efeitos especiais ou piadas de mau gosto pode explicar o fracasso nas bilheterias: O Artista custou US$ 15 milhões, tendo arrecadado apenas US$ 20 milhões, até 5 de fevereiro (segundo o IMDB). O jeito é torcer, então, para que tenha melhor sorte em outros países e seja reconhecido pelos prêmios que vem colecionando (o último deles, melhor filme no Bafta, espécie de Oscar britânico).

Ainda prefiro Os Descendentes para Melhor Filme e George Clooney para Melhor Ator no próximo dia 26, mas se os prêmios foram dados a O Artista e a Jean Dujardin, acredito que a Academia terá sido, ao menos, parcialmente feliz. O filme de Clooney tem história, personagens e atuações mais interessantes, mas este aqui exala uma alegria de fazer arte que parece esquecida nesses tempos de maravilhas tecnológicas que enchem os olhos e as bilheterias, mas desviam o cinema do coração, caminho obrigatório das obras que ficam para a posteridade.

08/02/2012

Terra da alegria?

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Sinceramente, tem horas que dá muita vergonha de ser brasileiro em geral e baiano em particular.

Em tudo isso que está acontecendo em Salvador, a Polícia Militar paralisada tem sua parcela de culpa; os bandidos que se aproveitam da ausência desta, também. Os danos seriam bem menores, porém, se o povo não fosse tão vira-lata.

Quando eu falo vira-lata, não falo de condição social. Estou falando da condição moral. Somos um povo moralmente degradado.

Quando um vizinho faz gato de energia, água, internet ou TV a cabo, só existe a preocupação de denunciar quando o afetado é você. Do contrário, a primeira pergunta é: "me passa o esquema?". 

Quando tomba um caminhão de comida, bebida ou qualquer outra coisa que possa ser carregada, socorrer o motorista é secundário. Mais importante é levar tudo que puder - já que todo mundo está pegando, me deixa garantir o meu.

Achar um pertence alheio perdido implica em apropriar-se imediatamente dele. O contrário é tão raro de acontecer que, quando acontece, dá notícia no jornal.

"A ocasião faz o ladrão" é um adágio que praticamente define a vida de muitas pessoas. Basta não ser flagrado, basta a suposição da impunidade e já vão metendo a mão no que não é seu. Porque ninguém vai saber mesmo.

No início da greve da PM, uma loja da Ricardo Eletro na Avenida Bonocô, em Salvador, foi assaltada por uma turba ensandecida de "pais de família", "estudantes" e "pessoas de bem", simplesmente porque não havia polícia para coibi-los. Gente que, flagrada em ação por câmeras da imprensa e de celulares, fez cara de coitada na TV quando presa, se dizendo "cidadãos honestos". Agora, se você é um daqueles "justiceiros" românticos que acreditam que o povo só rouba quando tem fome, me diga: qual é o gênero de primeira necessidade que a Ricardo Eletro vende? TV de LED?

O baiano médio é não apenas amoral, mas, também, apolítico. Tem um problema com o respeito à lei que parece impregnado no DNA. Além disso, existe uma aversão endêmica à escola, à leitura e a qualquer coisa que o aproxime de um raciocínio crítico e lógico, preferindo o hedonismo cachaceiro das noitadas em "festas de camisa" e das músicas que celebram a degradação da mulher, glorificam a esperteza bandida de "descer a madeira", ou, simplesmente, não dizem coisa com coisa.

O axé produzido em escala industrial para mover a festa regada a milhões que torna a cidade um esgoto a céu aberto, com três milhões de pessoas dentro, tem sua parcela de culpa. Nada contra a diversão, a distração inconsequente, o romance e a vontade de beijar quantas bocas puder até pegar herpes, mas será que dá para UM de vocês falar de UM tema sério que seja? E, ao fazê-lo, não manter o mesmo sorriso idiota na cara de quando mandam a galera botar a mão pra cima e sair do chão?

Claro que isso não vai acontecer. O mínimo de seriedade já esfriaria o bloco com abadá de quatro dígitos e espantaria a playboyzada do sul que vem pra Salvador, exatamente porque aqui é "a terra da alegria" e aqui "tudo pode". Como ficarão os cofres dos donos de blocos, das cervejarias e dos camarotes em hotéis de luxo, se uma desgraça dessa acontece?

Como bem disse Diógenes Moura, curador da Pinacoteca do Estado de São Paulo, nascido em Recife e criado em Salvador, a cidade está "devastada pela alegria". 

Uma alegria que entorpece, embota os sentidos e desliga o bom senso da população, fazendo todo mundo agir feito "baiano de novela" e só conseguir pensar em quando será a próxima festa e quais são a música e a coreografia da estação.

Uma alegria que faz do desrespeito aos preceitos mais básicos da vida em coletividade uma prática cotidiana, alçada à condição de direito inalienável, que supostamente dá passe livre para quem deseja ouvir música em altíssimo volume nas ruas e nos ônibus, ocupar espaços públicos irregularmente (como as calçadas tomadas por "tapetes" de DVDs piratas ou pelas mesas e cadeiras daquele barzinho da moda) e fazer necessidades em público, mesmo quando não é carnaval e as enormes filas dos banheiros químicos desanimam para a espera.

Não me venham dizer que falta educação. O que falta é vergonha na cara. Certas coisas são aprendidas em casa e no convívio social. Tampouco falta informação, coisa que se tem à vontade na TV, no jornal e na internet. O que falta é interesse. 

Ora, se você sabe que é errado jogar lixo no chão e que isso entope bueiros e agrava alagamentos, por que joga? 

Se você não gostaria que uma filha sua visse um marmanjo mijando ao ar livre, por que o faz na frente da filha do outro? 

Se você rouba quando acha que ninguém vê ou, caso vejam, que nenhuma providência será tomada, como pode esperar ser imune ou protegido quando lhe fizerem o mesmo?

Veja bem, não estou jogando a culpa de todos os atuais problemas nas costas da sociedade. Que se admita, porém, o agravamento das tensões por parte desta, com boatos de arrastão possivelmente deflagrados "por brincadeira" e ações reais de alguns poucos idiotas contra o patrimônio público e privado. Os nervos já estão à flor da pele e, ao invés de tentar amenizar os efeitos do inevitável stress, instaura-se uma guerra de nervos até por "diversão", pra aparecer nos programas sensacionalistas de meio-dia, que devem estar adorando tudo isso.


Como se fosse pouco ter o povo que temos e não contentes em ficar de braços cruzados, alguns maus PMs dão sua cota de contribuição para aumentar o caos, agindo como fora-da-lei mascarados, promovendo tumultos, vandalismo e até cometendo delitos, na esperança de fazer pressão para conseguir o que querem. "Negociação" com arma na mão tem outro nome: intimidação.

Detalhe: criminalidade alta por aqui não é novidade. Entre 2000 e 2010, Salvador saltou do 25º para o 7º lugar entre as capitais mais violentas do Brasil. Simões Filho, na região metropolitana, foi nomeada a cidade mais perigosa do país, no começo do ano. Outra SEIS cidades baianas aparecem entre as 50 mais violentas do Brasil, segundo pesquisa com base em dados dos ministérios da Justiça e da Saúde.

Então, não estamos falando de uma organização com funcionamento exemplar, estamos? Como o Estado deixou chegar a isso? A culpa é só dos policiais? 

Sou a favor do direito de greve (ainda que limitado, para serviços essenciais) e de salários dignos para quem expõe sua vida ao risco na defesa da sociedade. Tenho amigos na Polícia Militar e não sou insensível ao seu drama. Por outro lado, também sou a favor de termos uma polícia melhor preparada e mais investigativa do que vingativa, porque puxar o gatilho é muito fácil e não é de um esquadrão de jagunços uniformizados que precisamos. Tem que dar o exemplo (sem dar moleza, claro).

Uma solução definitiva não é fácil e não é para ontem. Seria preciso cavar muito mais fundo, listar uma série praticamente infindável de mazelas que afligem o nosso povo, das mais baixas às mais altas camadas sociais, e começar a solucioná-las. Eu me esticaria demais (mais?) e terminaria aborrecendo (mais?) aos leitores. Perdão pela pausa carrancuda no astral geralmente alto do Catapop, mas a situação por aqui (que já não era boa) tornou-se insustentável - e VAI ter Carnaval, apesar de tudo, e logo nos esqueceremos de todos os problemas, mais uma vez.

Afinal, a Bahia é linda, é a terra da alegria.

07/02/2012

Promoção: Daytripper na sua estante!



Thiago Messias, de Uberlândia (MG), ganhou Um Contrato com Deus.
Juliane Wëlter, de Porto Alegre (RS), ganhou Os Leões de Bagdá.
Alberto Silva, de Recife (PE), ganhou Batman - Guerra ao Crime.

Quem será que vai ganhar Daytripper?

O Catapop vai sortear a emotiva obra de Fábio Moon e Gabriel Bá, vencedora de diversos prêmios importantes (inclusive o Eisner, considerado o Oscar das HQs) e presença constante nas listas de melhores de 2011, no Brasil e no exterior. O lirismo narrativo e visual do álbum o tornam leitura obrigatória para os fãs de bons quadrinhos.

Para concorrer, basta fazer uma coisa muito simples: comentar os posts aqui do Catapop. Sim, eu seu sei que eles, hoje em dia, já não são tantos como antes, mas, faça um esforço; porque, ao contrário dos sorteios anteriores, vai importar, sim, a frequência dos comentários. Por exemplo, se eu tiver escrito dez posts no período entre hoje e a data do sorteio, os leitores que comentarem em todos terão dez chances; quem comentar só um, terá só uma chance; e quem não comentar em nenhum... ah, qual é, vocês não vão ficar de fora dessa por preguiça, né?

Fica estabelecido o dia 28 de Abril para a realização do sorteio, realizado com a ajuda de tecnologia de ponta: pedacinhos de papel com seus nomes, jogados para o alto. O ganhador receberá seu Daytripper (versão com capa cartonada) em casa, sem qualquer custo, lacrado e embalado com capricho.

Começa HOJE, com este post, a catalogação dos nomes e a contagem dos comentários. Entretanto, um aviso: comentários demasiadamente econômicos, tipo "Adoro!", "Eu tenho!", "kkkkkkk", serão DESCONSIDERADOS na contagem. Acrescente alguma informação, um onde, quando ou porquê à sua opinião, pra discussão ficar bacana.

Outra coisa: como é de praxe, a discordância é permitida e a crítica com argumentos é aceita, mas ofender ao dono do blog e/ou outros leitores (mesmo sem palavras de baixo calão) garantirá sua EXCLUSÃO IMEDIATA do sorteio e bloqueio de futuros comentários. Comentários anônimos, por razões óbvias, também não concorrem.

Agora, uma pequena confissão: a data do sorteio foi escolhida por a) ser um sábado, dia em que posso dedicar a tarde a isso, e b) ser a data do aniversário do meu pai. Ele está vivo e bem, obrigado; mas, como Daytripper tem na relação pai-filho um de seus temas centrais, eu quis fazer essa pequena homenagem ao meu velho. Ele merece.

Agora é com você! Comente e comece a garantir suas chances!

05/02/2012

A Alma Imoral



Nada mais apropriado que encerrar as férias (um período sempre cercado da expectativa de prazeres variados e ininterruptos) no teatro e dar de cara com um monólogo em que nossas definições sobre o que é bom, justo, correto e moral são desafiadas, comparadas e, possivelmente, transformadas. A Alma Imoral é um espetáculo ao qual não se fica indiferente.

A judia budista (sim, isso existe e rende um divertido prólogo) Clarice Niskier põe-se nua diante da plateia (literal e figurativamente) e, baseando-se no livro homônimo do rabino Nilton Bonder, publicado em 1998, busca na Bíblia, na ciência e na filosofia, histórias antigas e recentes que ilustrem o eterno e interno conflito entre nossas luzes e nossas sombras, força-motriz de nossa continuidade e evolução.

Conceitos aparentemente familiares, como "corpo", "alma", "tradição" e "traição" ganham sentidos mais amplos e correlações mais estreitas, que mexem com nossos dogmas e nos apresentam a pequenas e grandes belezas e feiúras, frequentemente escondidas sob a casca das aparências e do "bom comportamento".

Sem levantar bandeiras em favor desta ou daquela religião, A Alma Imoral trata da busca pelo caminho do meio, o delicado equilíbrio entre os anseios do corpo e as necessidades da alma que nos aproxima de Deus. Por mais budista que isso soe, é para isso que nós (de qualquer religião ou de nenhuma delas) estamos aqui.

Dona de muito carisma, Clarice tem o público na mão e, lá pelo meio da peça, oferece-lhes a chance de ouvir novamente qualquer trecho que lhes tenha tocado em particular. Aproveita a deixa para, também, contar piadas e histórias paralelas que enchem o espetáculo de riqueza, em contraste com o cenário e a iluminação econômicos.

Levou seis anos até que o espetáculo chegasse a Salvador, no teatro da Livraria Cultura. Na saída, fui direto atrás do livro do rabino Bonder. Se a peça já passou por sua cidade, espero que tenha tido o prazer de assistí-la. Se não viu, informe-se sobre a próxima temporada e não deixe passar a oportunidade. Sua alma imoral agradece.