17/12/2013

Existe "frieza digital"?

Profetas do apocalipse digital adoram postar fotos de um monte de gente reunida, mas sem interagir diretamente, preferindo as telas de seus celulares e tablets ao olho-no-olho e ao bate-papo sem mediação eletrônica. Oh, que tempos tão tristes, estes de Facebook e WhatsApp, não é mesmo?

Bom, eu lamento ter que molhar o pavio da sua postagem-bomba, mas a foto abaixo prova que não é bem a tecnologia que estraga as pessoas.


Este assunto veio à tona, no último fim de semana, numa conversa entre amigos. A autoria de uma frase que previa esses tempos de frieza interpessoal, em detrimento de uma empolgação artificial e danosa com apetrechos eletrônicos, é atribuída a Albert Einstein. (Dizem que) dizia ele:

"Eu temo o dia em que a tecnologia ultrapasse nossa interação humana, e o mundo terá uma geração de idiotas."

Ora, Einstein não viveu para ver um terço das maravilhas tecnológicas que hoje achamos tão naturais quanto água nas torneiras. Era óbvio que ele não estava falando de internet ou celulares. A bem da verdade, eu, aqui, com meus botões, sou capaz de apostar que, se vivo fosse, Einstein seria um entusiasta e usuário compulsivo de Facebook e Twitter.

Se ele não fosse, sim, é que eu acharia estranho. Porque, apesar das críticas e das constantes evidências de má utilização, as mídias sociais são instrumentos preciosos de interação humana. Ainda me espanta que as pessoas ainda percam seu tempo com uma questão que (bitch, please!) é tão 2001: é menos real só porque é virtual?

Durante uma aula, por exemplo, fui surpreendido pela revelação de alguns alunos que diziam conversar via WhatsApp mesmo quando se achavam a centímetros um do outro. Passado o choque inicial, a explicação: há coisas que não se diz em voz alta. Então, enquanto o papo rola solto no ambiente "real", espertas e divertidas (ou, quem sabe, maldosas) observações estão sendo feitas sobre aquele assunto, ou sobre outro qualquer, no chat do "Face" ou no "Whats". Adolescência, teu novo sobrenome é "Multitarefa".

Outro exemplo prático da utilidade das redes sociais é a possibilidade de restabelecer contato com gente "perdida" para outros meios de comunicação. Aconteceu comigo: no fim de novembro, encontrei no Facebook um colega dos meus tempos de segundo grau, em Goiânia. Naquele distante 1990, ele era um de meus melhores amigos e, após minha volta à Bahia, no ano seguinte, nos escrevíamos cartas com certa regularidade. Até que, conforme anunciado em uma delas, ele e sua irmã se mudaram de Goiânia para Gurupi (TO) e sumiram do mapa. Vieram ICQ, MSN, Orkut... e eu não os achava. Até recentemente, o Facebook, também, não tinha ajudado muito. Tive a curiosidade de procurá-lo mais uma vez e, para minha felicidade, lá estava ele: cabelos brancos, filho adolescente, mas, sim, o amigo com quem dividi minha breve experiência de vida na capital goiana.




Veja bem: foram cerca de 20 anos sem qualquer notícia! Não sou ingênuo de achar impossível que o tempo o tenha transformado - ora, pois se a mim transformou, como não a ele? Era um dos melhores amigos que eu tinha e a "magia" talvez não se repita agora, mas é legal que ele esteja ali, ao alcance de uma mensagem via inbox, para me contar como vai, o que anda fazendo e o que mais mudou pare ele, nessas duas décadas em que não nos falamos.

De forma semelhante, tenho amigos de várias partes do país e do mundo, conquistados com o uso da internet - alguns destes, presentes na minha vida há dez anos ou mais - que ainda não tive o prazer de encontrar pessoalmente. Pode ser que, num encontro real, a cerveja em nossos copos até esquente, esperando que o papo engate, ao contrário da torrente confessional que uma amizade virtual costuma ser. Pode ser que não haja assunto. Pode ser que aquela pessoa não seja, afinal, tão legal assim... mas você não pode me censurar por esperar pelo melhor. Eu amo essas pessoas - de uma maneira nada virtual! - e quero muito encontrá-las, um dia.

Minha fé nas coisas simbolizadas pelo Natal é, hoje em dia, praticamente nenhuma. Deixei de acreditar em salvadores, em entidades superiores ou inferiores (e, por favor, respeite meu desejo de não iniciar uma discussão sobre este assunto agora), mas eu acredito em boas pessoas, em bons sentimentos, e sei que, por qualquer que seja o motivo, eles costumam estar mais aflorados nesta época - e, nas pessoas que admiro, isso não tem absolutamente nada de hipócrita ou contraditório, se comparado ao que elas fazem nos outros 11 meses do ano. Eu procuro me cercar de gente boa (preferencialmente, melhor que eu) pra aprender com elas a ser melhor.

Sim, isso inclui você! :)

Quando receber ou enviar seus desejos de Feliz Natal e/ou Ano Novo, portanto, aperte essas teclas com o coração na ponta dos dedos. O amor transcende barreiras, inclusive as digitais. É claro que o maroto do Einstein sabia disso, tolinho(a)!

20/11/2013

Cansei de você, seu burro!


Primeiro, eu vou colocar aqui o link da notícia que motivou este post.


Leu? Beleza, mas eu não quero mais falar de Marco Feliciano, porque falar dele me cansa, me deprime, me dá ímpetos homicidas e eu não quero chegar ao fim deste post morto, doente ou preso.

Eu quero falar com e sobre você, que concorda com ele.

Você pode até achar que, em nome da leitura que ele faz do livro sagrado que diz seguir, ele tem o "direito à livre expressão" ao dizer que africanos são "descendentes amaldiçoados" de algum personagem bíblico. Pode não ser muito justo culpar ao livro, porque, afinal, tudo isso pode ser apenas resultado da interpretação do racista de merda que ele é. Gente como ele é que mantém grande parte dos negros do país na posição de coadjuvantes de seu próprio tempo e história, ao sabor dos humores do "macho adulto branco sempre no comando". Se você concorda com ele, lamento dizer, isso faz de você, igualmente, um(a) racista de merda.

Você pode achar muito normal que ele e outros "ungidos" preguem, em pleno século 21, a submissão total da mulher ao homem e que estes mesmos senhores queiram barrar propostas de serviços públicos que visam a diminuir as mortes por abortos ilegais que acontecem desde sempre. Você pode concordar com essas pessoas que o lugar das mulheres é dentro de casa, tendo tantos filhos quanto o marido aguente fazer porque "a vida é sagrada" e métodos contraceptivos são "contra a vontade divina". Pode juntar-se àqueles que acham que mulheres "oferecidas" estão pedindo para serem estupradas, bem como compartilhar vídeos que mostrem moças em ato sexual com seus namorados, uns machistas de merda que se acham os fodões do pedaço, ao exibir-se em intimidade com elas que, agora, diante da repercussão online do vazamento das imagens, começam a apelar ao suicídio para escapar ao linchamento moral e isolamento social que se seguem. Você é livre para compactuar com tudo isso, desde que assuma que essas coisas fazem de você um(a) machista de merda.

Você pode concordar quando esse pulha usa um órgão governamental para perseguir ostensivamente uma minoria já historicamente segregada, barrando direitos civis que os gays já conquistaram em lugares melhor alfabetizados que o Brasil, países onde a intimidade do outro pertence apenas ao outro e ninguém tem projetos políticos baseados no controle do uso do pau, da xereca e do cu alheios. Você pode juntar-se ao coro dos que acreditam que ser um homofóbico de merda está limitado a chegar ao extremo de agredir a gays fisicamente, mesmo que isso seja uma burrice inclassificável de tão flagrante. Você é livre para olhar dentro dos olhos dos gays a quem talvez até chame de amigos e dizer que você os adora, mas que eles não têm direito a buscar a própria felicidade entre seus iguais, porque isso contraria a SUA convicção do que é bom para a vida DELES. Você pode. Basta que você admita que é um(a) homofóbico(a) de merda.

Não estou tentando ser palmatória do mundo. Como você, eu sou fruto do meio. Meu país é uma nação vergonhosamente racista, machista e homofóbica desde sempre e a tendência não é de melhora, com esses "aiatolás cristãos" chegando a altos postos no governo. Eu luto constantemente contra meus próprios pensamentos racistas, machistas e homofóbicos, porque fomos e ainda somos ensinados que a infelicidade do outro é essencial à nossa felicidade. Mudar uma cultura centenária não é trabalho para meia dúzia de anos, mas é preciso começar de algum lugar. É preciso deixar que alguma mudança, por mais transgressora ou tímida que possa parecer, aconteça. Porque a alternativa já é o que vivemos e isso, nem de longe, parece boa coisa.

E digo tudo isso porque eu sou hetero.

Heterodoxo.

15/09/2013

Uma Saga Britânica


No fim de novembro de 2012, quando já se encerrava a I Convenção Nacional Achieve Languages, realizada em Atibaia (SP), a cidade inglesa de Oxford foi escolhida como destino da segunda edição do encontro, em setembro de 2013. Não se tratava de megalomania: a jovem escola de idiomas (cujas primeiras unidades surgiram em 2011) faz uso dos livros e do suporte acadêmico da Oxford University, uma das mais antigas e prestigiadas instituições educacionais do planeta. Levar a convenção anual dos parceiros Achieve Languages para o Velho Continente era, então, levar os "filhos" para conhecerem seus "pais".

Eu sou uma das pessoas à frente do projeto de fazer a Achieve Languages se tornar uma força respeitável em Alagoinhas, onde resido. Ainda tem sido uma tarefa mais árdua do que deveria, porque minha lealdade ainda se encontra dividida pelos meus muitos compromissos com a Wizard, franquia na qual trabalhei nos últimos 15 anos, nove dos quais passados em Alagoinhas. A partir de 2014, porém, devo ser capaz de dedicar mais tempo a este projeto no qual depositamos tantas expectativas.

Ao voltar de Atibaia com a notícia da realização da segunda convenção em terras inglesas, meu chefe foi direto ao ponto: "Você tem passaporte? Se não tem, providencie, porque é você que vai. Eu não posso ir."

A vida retomou seu ritmo, meus deveres tiraram a futura convenção do centro de minha atenção e, no fundo, eu achava que meu chefe decidiria, por fim, ir a Oxford com sua esposa e filhos. Fui retardando a emissão do passaporte, por puro esquecimento, até que começaram a chegar os emails institucionais sobre o evento, com confirmação das datas e detalhes da acomodação dos convidados. Inquirido mais uma vez sobre o passaporte, percebi que a coisa era pra valer: eu iria, finalmente, viajar para fora do Brasil.

Pode ser surpresa, para alguns, que alguém tão interessado no idioma inglês e na cultura produzida nos principais países onde ele é falado nunca tenha feito uma viagem para um deles. Não se engane, o desejo sempre existiu, mas nunca foi realizado por uma razão muito simples: eu não sei economizar. Nunca tive um supersalário, é verdade, mas sempre usei meus ganhos para aproveitar o agora. Planejar o futuro ainda me parece uma noção abstrata demais. Por que eu deveria me privar do que desejo ter ou fazer hoje, em nome de algo a ser conquistado apenas meses ou anos à frente? Meu bom senso sabe a resposta, claro, mas vai dizer isso ao meu impulso...

Mas, enfim, eu tirei meu passaporte e fui confirmado como representante de Alagoinhas na II Convenção Nacional Achieve Languages. Após uma conexão de Salvador para São Paulo, meu voo da British Airways sairia do Aeroporto Internacional de Guarulhos com destino ao terminal 5 do aeroporto Heathrow, em Londres, às 16:20 do dia 31 de agosto.

Embarcado no 747-400 destinado a Londres, meu primeiro prazer foi ouvir uma tripulação que realmente fala inglês nos alto-falantes, ao invés de um emaranhado de grunhidos incompreensíveis que grande parte dos comissários de bordo brasileiros entendem como sendo "falar inglês". Na cabeça de alguns, dificultar palavras fáceis é "boa pronúncia" e falar rápido a ponto de soar indistinguível é "ser fluente". Não é, não, viu?

O voo foi tranquilo e a comida da British Airways era boa, embora nada tão especial (escolhi strogonoff de frango com arroz). Depois de pouco mais de 10 horas de viagem, o pouso em Londres foi anunciado pelo comandante. A cabeça, porém, ainda não estava registrando direito. Eu só relaxaria depois que passasse pela Imigração. Os telejornais e a internet estão cheias de relatos de gente que foi barrada na chegada a nações europeias, o que me fez preparar uma pasta de documentos que incluíam a carta-convite e o programa da convenção, diversos comprovantes de residência, de vínculos trabalhistas e bancários.

Tendo reencontrado, durante o voo, alguns conhecidos da convenção em Atibaia, passamos juntos pela Imigração. Uma delas, que já havia estado no país algumas vezes, assumiu a liderança na conversa com o oficial, que carimbou nosso passaportes sem fazer qualquer pergunta sobre nossas vidas no Brasil. Meu arsenal de papeis, foi, portanto, inutilizado logo que cheguei - e antes assim. No corredor de saída para o saguão do terminal 5, o alívio e a alegria de ser, oficialmente, um cidadão do mundo em passagem pela Inglaterra.


Como tivemos que esperar bastante pelo traslado que nos levaria direto para Oxford, aproveitei para fazer o câmbio para libras dos dólares que recebi para despesas (GBP 1.00 = US$ 1.70), fazer meu primeiro lanche inglês (muffin de blueberry com café espresso) e ficar de queixo caído com o arrojo arquitetônico, a funcionalidade e a claridade que predomina em Heathrow, principalmente quando comparado com aquele caixote horroroso e sem-graça que é o maior aeroporto do Brasil.

Mas eis que nosso transporte chegou e rumamos para Oxford. O óbvio primeiro "momento WTF" é o motorista entrando pela direita. É um barato ver o trânsito fluindo "ao contrário": dirigimos pela esquerda, fazemos rotatórias para a direita. Chama a atenção, ainda, a qualidade do asfalto e a beleza bucólica dos campos ingleses, mesmo no entorno de Londres, com suas cottages de tijolos aparentes vermelhos ou marrons, além de pequenos riachos e lagos.

E, enquanto eu olhava a paisagem pelo vidro, só um pensamento me vinha à cabeça: 

- Caramba, eu estou mesmo aqui!


Lado A - Oxford


Oxford é uma cidade universitária com mais de mil anos de história. Com cerca de 150 mil habitantes, é o centro de uma região metropolitana que totaliza quase 250 mil pessoas e uma das cidades de maior crescimento populacional da Inglaterra. Não é para menos: Oxford é um dos mais ativos centros educacionais do planeta, concentrando diversas universidades e editoras, sendo a Oxford University (e sua Press) a mais famosa e antiga do país, com mais de 900 anos de tradição acadêmica.

Quando o nosso transporte parou à frente do Porter's Lodge (o portão de entrada) da Christ Church College (uma das muitas faculdades da OU espalhadas pela cidade), fomos atendidos por um porteiro que parecia o Mr. Magoo: baixinho, óculos, chapéu coco. Todos os guardas da Christ Church que vi eram senhores de terceira idade, o que não surpreende quando se leva em conta a tranquilidade do trabalho. Foi divertido ver a cara dos turistas parados à frente da placa que dizia "closed for visitors" (fechado para visitantes), enquanto passávamos com nossas malas. É isso mesmo, queridos: os meros mortais têm que esperar os horários de visita, mas eu tenho entrada livre e um quarto em Oxford! Durmam com essa! Bwa-ha-ha-ha-ha-ha!

Por dentro, impressionam o tamanho, a beleza e a imponência das seculares construções. Para onde quer que se olhe, paredes, janelas, torres e jardins impregnados de história, ciência e cultura. É um ar diferente de se respirar, acredite. Não se fica impassível diante de um quarto onde esteve hospedado Albert Einstein; ou de uma árvore sob a qual Lewis Carroll conheceu a garota chamada Alice que o inspirou a escrever sua mais famosa história; ou do salão onde foram gravados os grandiosos jantares da saga Harry Potter.


Nos intervalos da convenção, meus colegas e eu aproveitávamos para fazer pequenos passeios pelas redondezas, principalmente pela Cornmarket Street, que concentra cadeias de fast-food, lojas de departamento, cafés e uma quantidade incrível de bons artistas de rua. De atores performáticos a cantoras líricas, passando por cantores de folk e trios de rockabilly, o centro de Oxford efervesce com cultura e com uma juventude multirracial que toma as ruas durante o dia, mas some depois de 11 da noite. Em geral, a vida noturna inglesa acaba cedo - e não só em Oxford.

Próximo à faculdade, em um belo pub chamado Fullers, às margens do Tâmisa, tomei minhas primeiras pints (as enormes canecas inglesas) de cervejas como Beck's, Carling e Guinness. No pub de nome Eagle & Child, na High Street, onde se reuniam para beber, conversar e escrever gente como J. R. R. Tolkien (O Senhor dos Anéis) e C. S. Lewis (As Crônicas de Nárnia), tomei uma ale (cerveja amarga e servida à temperatura ambiente), da marca Samuel Adams, mas não curti. 

A gastronomia inglesa, sobre cuja ruindade fui repetidamente advertido por amigos, provou-se uma surpresa positiva. Mesmo o fish and chips (o prato-símbolo da suposta falta de imaginação britânica na cozinha) que provei, também no Fullers, estava bem gostoso. Na Christ Church College, então, a coisa parecia ter requintes dos mais finos restaurantes, tamanho o capricho dos pratos. A única coisa que comi e achei ruim de verdade foi o tradicional English Breakfast, com sua mistura de feijão adocicado, bacon, ovos, cogumelos e salsichas, entre outras "delícias", preparadas de modo indizivelmente sem graça (e não me pergunte como eles conseguem deixar ruim uma refeição feita com esses ingredientes, mas é a proeza realizada aqui).

O trânsito em Oxford, embora movimentado, flui lindamente. Ninguém parece tão apressado a ponto de querer fazer boliche com os pedestres que tentam atravessar a rua (em qualquer parte da rua, perto ou longe de um semáforo, dá pra contar com a gentileza dos motoristas em parar e esperar que passemos). Os ônibus (híbridos, mais silencioso e menos poluentes) passam a todo instante e usar o transporte público inglês é facílimo. Apesar disso, muita, mas muita gente mesmo, usa bicicleta em Oxford. 


Em nosso último dia na cidade, fizemos um city tour a bordo de um double-decker bus - e não adianta: a mera visão de um ônibus de dois andares me traz a lembrança de "There Is a Light That Never Goes Out", clássico indefectível dos Smiths. Fazendo uso de mais uma metáfora musical, pego emprestado um verso de "Atravessei a Ponte a Pé", da banda Escaparate de Baiano: "É tanto nome de beco que dá / Nome de beco, viela, praça / É tanto nome de beco que dá, dá até tontura!" Seria impossível lembrar, após um único e rápido passeio, de todos os prédios, teatros, museus e histórias a que fui apresentado. Só digo uma coisa: Oxford é a personificação da expressão "banho de cultura".

No meio da tarde, nosso enorme grupo se desfez. Alguns ficariam mais alguns dias em Oxford, muitos seguiriam para Londres e alguns rumariam para outras cidades e países. A convenção havia chegado ao fim naquele dia 4 de setembro e, com ela, a parte "chata" (aspas mais que necessárias!) da viagem, aquela que envolvia trabalho. Depois de almoçar no restaurante de um brasileiro (não tem jeito, brasileiro se atrai), eu e mais três amigos rumamos para a estação ferroviária.

Exatamente às 16:01 (ingleses realmente levam muito a sério tudo que diz respeito a pontualidade), chegou o trem que eu tomaria para Londres, onde ficaria pelos três últimos dias de minha viagem.


Lado B - Londres


 Ao chegar à estação Paddington, me separei de meus amigos, cada um rumando para um canto diferente da cidade. Minha parada era a última da linha marrom sul, Elephant & Castle. De lá, eu ainda precisaria dar uma boa caminhada (ou pegar um ônibus, mas andar nunca foi problema para mim e minha bagagem era mínima) até encontrar meu hotel, na Church Street, próxima à Camberwell Road. Após fazer meu check-in no simpático Church Street Hotel (cheio de latinidades na decoração que remetiam, principalmente, a Espanha a México), fui para o quarto e, de lá, tive uma visão do London Eye no horizonte, entre prédios. Estava decidido: seria este meu primeiro passeio pela manhã. Naquela noite, porém, o dia agitado em Oxford já me cobrava seus efeitos e eu fiquei cansado demais para qualquer coisa além de dormir.

Na manhã da quinta, depois de pacientemente tomar meu café da manhã, perguntei à moça da recepção como fazer para chegar ao London Eye. De acordo com suas instruções, eu deveria pegar o ônibus 12 do outro lado da rua, descer no ponto da Westminster Bridge e caminhar de cinco a dez minutos. Esperei e, sem muita demora, chegou o double-decker. Fui na parte de cima, claro! Não havia lugar à frente, então, eu tive que me contentar em ficar nas últimas fileiras de assentos. Sem problema. Os ônibus de Londres possuem letreiros eletrônicos e gravações automáticas que dizem o nome de cada uma das ruas por que passam e as respectivas paradas, além de indicar que estações de metrô ou serviços existem por perto.

No meu caso, quando foi anunciada a parada da Westminster Bridge, o único local anunciado junto foi o Hospital St. Thomas. O ônibus passava sob um viaduto ao parar, então, quando me levantei e desci para a saída, não tinha uma noção muito clara do que havia ao redor. Desci do ônibus olhando pra calçada e, alguns metros à frente, quando levantei os olhos, a surpresa: diante de mim, espetacularmente majestosos à margem do Rio Tâmisa, estavam o Big Ben e as Casas do Parlamento!

Parei, atônito, com a mão sobre a boca, a abafar um grito (ou um palavrão) que eu não ousava soltar. Os olhos marejaram. Eu estava realmente ali, num cenário que, antes, só me era acessível por meio de livros ou filmes. Prestei mais atenção ao redor: do mesmo lado do rio onde eu estava, mas do outro lado da rua, a pouca distância, estava o London Eye, lindo e enorme. Fazia um dia lindo, o quinto dia claro de uma terra conhecida pelo tempo ruim, mas ainda era, afinal, verão. Um cenário de sonho, mas era tudo de verdade.

Após pedir a um casal de brasileiros que tirassem uma foto para mim (e havia brasileiros onde quer que eu fosse), me aproximei e fui conferir os detalhes das construçoes. A arquitetura neo-gótica do Big Ben (cujo nome oficial passou de Torre do Relógio para Torre Elizabeth, em comemoração ao jubileu de 60 anos da coroação da Rainha Elizabeth II; Big Ben, na verdade, é o nome do sino em seu interior) e do Palácio de Westminster impressiona.

Não menos impressionante é a Abadia de Westminster, catedral construída no ano 960, onde se coroam, se casam e se velam os membros da Família Real e de sua corte. Qualquer um que me conheça bem sabe que não sou de frequentar igrejas, mas tenho interesse por sua arquitetura. Este foi, portanto, o primeiro passeio pago que decidi fazer, aproveitando a fila pequena. Não poderia tirar fotos do interior, mas tinha certeza de que levaria comigo uma generosa quantidade de boas memórias visuais.


Logo ao entrar, caminho por cima de uma placa de mármore em homenagem a Charles Darwin. Perto desta, uma dedicada a Isaac Newton. Por todos os corredores laterais da nave, o chão e as paredes são adornados com placas comemorativas e estátuas erigidas para celebrar momentos e personalidades históricas, que nem sempre estão enterradas na própria Abadia, mas ali são lembrados. O tour é feito com ajuda de pequenos aparelhos, com gravações em diversos idiomas (escolhi inglês não só pela prática, mas porque parecia mais fácil de entender que o português de Portugal), que contam detalhes das histórias relacionadas a eles.

Sigo passando pelo túmulos de reis, príncipes e outros membros da realeza. Me detenho diante de alguns bastante impressionantes, como o monumento a Sir Joseph e Lady Elizabeth Nightingale, em que ele tenta defender a esposa da figura da Morte que sai do chão. Lady Elizabeth morreu em 1755, após um parto prematuro, provocado pelo susto de um raio violento, mas a criança que esperava sobreviveu.

Nada se compararia, porém, ao que senti quando cheguei ao Poet's Corner, um lugar onde estão enterrados ou apenas celebrados alguns dos maiores nomes da literatura britânica. Quando comecei a ler, no chão, as placas com nomes de escritores, poetas e dramaturgos do porte de Charles Dickens, Lord Byron, Rudyard Kipling, Jane Austen, as irmãs Brontë, Laurence Olivier, Percy Shelley, Dylan Thomas e, claro, William Shakespeare, fui tomado por uma espécie de "vertigem cultural" em nível físico! Precisei me acalmar e controlar a respiração para poder seguir em frente.

Saindo da Abadia, dirigi-me ao London Eye. Comprei o ingresso "casado" com o do museu de estátuas de cera Madame Tussaud's, o que garantiria um preço melhor (que, mesmo assim, não pode ser chamado de barato: 44 libras, cerca de 150 reais). A bordo de uma de suas espaçosas cabines, tem-se uma visão privilegiada da cidade, avistando-se dali construções como o novo Wembley Stadium, o Palácio de Buckingham e os grandes edifícios do centro financeiro. É apenas uma volta, mas que dura cerca de 40 minutos, então, tempo para admirar a cidade e tirar boas fotos é o que não falta.

Ao descer, uma surpresa desagradável: percebi que havia perdido o ingresso para o Madame Tussaud's. Viro e reviro bolsos, carteira, pacotes, folhetos... e nada. Repito o processo umas três vezes. Nada. Perdi. Resignado, volto à fila. Conto meu drama, apenas por contar, à jovem que controlava a entrada. Ela se compadece e sugere que eu conte o ocorrido no caixa, talvez eles me dessem um novo ingresso. Agradeço, mas digo que não acredito ser possível. Vai chegando minha vez e eu penso: "Ah, que mal faz tentar?" É o que faço. Conto ao rapaz do caixa o que me aconteceu e mostro o comprovante de compra de menos de duas horas antes. Ele apenas escuta e pede licença para falar com sua supervisora. Ela volta com ele e, sem fazer qualquer pergunta desconfiada, reemite meu ingresso. Sorrindo de orelha a orelha, agradeço. Ainda me sentia estúpido por ter perdido o primeiro ingresso, mas estava bem mais feliz.

Este episódio ilustra bem um aspecto que nos distancia bastante dos ingleses. No Brasil, vivemos na eterna presunção da esperteza, tentando sempre levar vantagem de algum jeito (em geral, desonesto). Sendo assim, metidos a espertos, também perdemos muito tempo e energia (e dinheiro, não se engane) tentando nos defender da esperteza alheia. É um ciclo vicioso de velhacaria que não tem fim. Na Inglaterra, parece haver uma aposta no bem que existe nas pessoas. Muitos comércios sequer possuem operadores de caixa - quem registra a compra é o próprio comprador e um fiscal só aparecerá se for chamado. Vai fazer um negócio desse aqui no Brasil! No primeiro dia, o que não for roubado, certamente, estará quebrado. É triste admitir, mas, não, eu não acredito que um dia atingiremos tal nível de civilidade.

Aqui, é preciso esconder o celular pra tentar não ser roubado ou comprar um modelo inferior ao que se gostaria, porque, se você for roubado, ainda vai aparecer quem defenda o ladrão, dizendo que o roubo foi merecido, porque você estava "ostentando". Ou seja, criminaliza-se o fruto do trabalho e romantiza-se o crime. Existe absurdo pior do que sair de casa com "o dinheiro do ladrão" na carteira, pra não ser morto a tiros por estar de carteira vazia? Como a polícia na Inglaterra funciona e a a lei é igual para todos (e igualmente dura, com multas, processos e prisões mesmo para pequenos delitos), existe uma opção pela honestidade que, ainda que inicialmente gerada pelo temor, vai se tornando rotina na vida das pessoas. Pode abrir sua bolsa sem medo, se precisar. Pode usar seu iPad na rua, que não vai passar nenhum pivete e puxá-lo de você. Sabe quando isso será a realidade do Brasil? Eu te digo: nunca!

Mas, chega de falar do Brasil (ou da Tekpix).


O final da quinta e a sexta-feira foram passados em visitas a lugares como o museu Madame Tussaud's e suas realísticas estátuas; a Trafalgar Square e seus imponentes monumentos, como a Nelson's Column e os enormes leões que a ladeiam; a célebre Ponte da Torre, a zona portuária e o centro financeiro que se espalham nas duas margens do Tâmisa, com alguns dos mais modernos e curiosos edifícios do país, como o novo The Shard e o já característico 30 St Mary Axe, ou The Gherkin. Este último me motivou a cruzar a Ponte da Torre ("atravessei a ponte a pé"... de novo a Escaparate!). Eu tinha que ver esse prédio lindo de perto - e fui! Detalhe: na sexta, o tempo fechou e fui pego em breves rajadas de chuva, inclusive quando fui visitar o Palácio de Buckingham, que me pareceu o menos impressionante dos passeios obrigatórios que consegui fazer.


O sábado, 7 de setembro, foi meu último dia em Londres. Tive que fazer o check-out logo cedo, mas, como meu voo só partiria às 21:50, deixei minhas bagagens no hotel e saí para fazer meus "desesperados" últimos passeios e compras. Primeira parada: Oxford Street, onde havia uma enlouquecedora HMV, loja de CDs, DVDs e souvenirs relacionados à cultura pop. Passei um tempão percorrendo os corredores, simplesmente admirando discos que já tive e que não possuem mais edição brasileira, bem como as fantásticas caixas especiais e as criativas listas da loja (achei o disco de estreia dos Stone Roses na seção "Discos que toda casa deve ter"), antes de finalmente me mexer e comprar os itens que você vê na foto abaixo.


Depois de dois dias evitando companhia brasileira, um amigo alagoano do grupo da Achieve me encontrou na HMV e, juntos, fomos visitar o Wembley Stadium. A Danone patrocinava a final de um campeonato mundial de futebol infantil, mas as bilheterias informavam ingressos esgotados. Nos contentamos, então, em tirar fotos do belo estádio, cuja "encarnação" anterior à demolição e reabertura em 2007 foi palco de shows históricos do Queen e do Live Aid. Quando já nos preparávamos para ir embora, chegam correndo até nós três garotos, com as mãos cheias de ingressos de cortesias - e, não, eles não queriam dar uma de cambistas-mirins, mas nos ofereceram os ingressos de bom grado! Ou seja, quando já estávamos contentes em apenas tirar fotos da fachada, surgiu a oportunidade de entrar em Wembley! Quanta sorte se pode ter?


Nosso último destino foi a Abbey Road, a famosa rua onde os Beatles fizeram a capa do disco de mesmo nome e onde também está localizado o lendário estúdio. Depois de uma pequena caminhada compulsória, motivada por minha interpretação errônea de um mapa que, na verdade, nos afastava do local desejado, tomamos a direção contrária e logo avistamos uma placa que identificava a Violet Hill, uma pequena via que agora o Coldplay também tornou famosa. Alguns metros à frente, nova placa, marcando a Abbey Road. Passamos pela abadia que batiza a rua e chegamos à pequena concentração de turistas que tentava tirar fotos semelhantes à da capa dos Fab Four. O problema é que a Abbey Road é movimentadíssima e é preciso contar com a cortesia dos motoristas, sem abusar dela, para poder tirar fotos. A sorte é que meu parceiro era um fotógrafo diligente e flagrou minha rápída travessia.


Depois, disso, toca pro metrô e corre pro hotel, pra pegar a bagagem. Em poucas horas, Londres seria apenas uma lembrança. Isto é, até a próxima visita!


Considerações finais:

- Em certos lugares de Londres há tantos imigrantes que o mais difícil é ver um inglês. Na vizinhança do hotel onde fiquei, por exemplo, as ruas eram coalhadas de imigrantes africanos, árabes, indianos... Ouvia-se inglês, claro, mas nos mais diferentes sotaques.

- Quando cheguei, a caminhada do metrô até o hotel me revelou uma sujeira nas ruas que não devia nada à vista em capitais brasileiras, como Salvador. Deve ter sido algo momentâneo, porém, porque nos dias seguintes, a coisa toda estava bem melhor. Em Oxford, além de focos de lixo na rua (poucos e pequeníssimos, é verdade), também vi algumas paredes urinadas, o que me faz pensar que o imperativo fisiológico desconhece fronteiras e não respeita títulos acadêmicos. O aperto pra fazer xixi nivela todos os homens, aparentemente.

- Se alguém te disser que é preciso andar com um arsenal de mapas do metrô pra cima e pra baixo, dê de ombros. Tudo é tão fácil e auto-explicativo no metrô londrino que bastam noções mínimas de inglês pra se virar sem dificuldade. Absolutamente tudo é sinalizado. Basta ler.

- Não acredite nessa conversa de que "inglês é frio". Eles não são frios. São gentis, prestativos, espirituosos e sorridentes. Apenas um pouco mais formais que nós, o que não é exatamente um defeito. Cara amarrada eu só vi em imigrantes, o que me fez pensar que eles (ou seus parceiros) haviam dormido de calça jeans.

- Este é um passeio que todo mundo merece fazer. Se tiver a chance, agarre-a. É um desses eventos que mudam nossa visão, nossos pensamentos, nossa vida.

- Não visitei Stonehenge; nem a Catedral de Canterbury; nem fui a Camden Town, Greenwich, Hyde Park ou Royal Albert Hall. Não fui a um monte de lugares, na verdade. Ou seja: preciso voltar à Inglaterra!

24/08/2013

Círculo de Fogo


Todo mundo que cresceu nos últimos 40 anos lembra de alguma série japonesa, animada ou live action, com monstros e/ou robôs gigantes. No meu caso, além da autodescritiva Robô Gigante, cresci assistindo coisas como Ultraman, Ultra-Seven e Spectreman. Era muito legal ver aqueles heróis, com seus poses e golpes exagerados, enfrentando monstros toscos de borracha sobre cidades ainda mais toscas de papelão. Toda aquela tosqueira era o máximo, aos olhos de qualquer criança.

Refinamentos digitais à parte, o componente trash sempre foi importante neste tipo de programa, mesmo em suas versões mais recentes. Quando alcancei a adolescência, porém, Jaspion, Changemen e semelhantes já não me seduziam. Fui me afastando cada vez mais da cultura pop nipônica, atraído pelo detalhismo anatômico dos comics norte-americanos, com suas tramas elaboradas (ou simplesmente metidas a besta).

Não deixa de ser curioso, então, que o filme mais declarada e apaixonadamente nipônico feito em Hollywood este ano seja o filme que mais me cativou, até o momento. Círculo de Fogo é uma bonita, divertida e barulhenta homenagem a uma extensa linhagem de personagens empenhados em destruir a cidade para salvar a cidade há várias décadas.

No filme, a invasão da Terra por forças alienígenas já está consumada e não aconteceu com naves descendo do céu, como manda o senso comum. Os gigantescos kaiju saíram do oceano, através de uma fenda dimensional no leito do Pacífico. Para combatê-los, as nações terrestres criaram os jaegers, robôs igualmente gigantescos que precisam ser operados por dois ou mais soldados totalmente sintonizados em um profundo nível mental, já que mover tamanho maquinário é esforço demais para apenas uma pessoa. Eles precisam literalmente conhecer a mente um do outro como se fosse a sua própria.


O filme avança rapidamente até o ponto em que os ataques de kaijus começam a se tornar mais frequentes do que os humanos são capazes de construir ou reformar jaegers. O alto custo do projeto desanima as autoridades mundiais, que já cogitam soluções desesperadas - ou simplesmente estúpidas (um gigantesco muro de aço e concreto que os bichões atravessam como se fosse de papel). Apesar de tudo, os jaegers ainda se mostram efetivos e o comandante Stacker Pentecost (Idris Elba, um dos poucos nomes reconhecíveis do elenco) espera contar com a ajuda de Raleigh Becket (Charlie Hunman), um ex-piloto que deixou a função após uma tragédia pessoal.

Tecnicamente, Círculo de Fogo é irrepreensível. O gigantismo dos monstros e robôs é simplesmente espantoso e o diretor Guillermo Del Toro faz questão de dar-nos a exata noção de nossa insignificância perto deles, através de tomadas que enfatizam as alturas e distâncias em que se estendem (auxiliado pelo justificado uso do 3D, a primeira vez em que o efeito fez diferença para meus olhos). Se o design de alguns monstros deixa a desejar, o mesmo não se pode dizer dos robôs, sensacionais em suas particularidades (repare, por exemplo, como o russo Cherno Alpha faz lembrar uma velha usina atômica, enquanto os descolados japoneses têm o único robô de quatro braços). Cada aparição deles é seguida de diversos "uau!", mentalizados ou falados antes que a gente consiga se controlar. Sequência entrando sem escalas para a História do Cinema: um jaeger usando um navio como porrete.

Como não são autônomos, os jaegers exigem muito de seus pilotos e é visível o esforço imposto aos atores no manuseio do maquinário (o interior da cabeça dos robôs foi construído em estúdio e todas as engrenagens funcionam, exceto pelos retoques digitais, como é visto no filme). Ao contrário da exagerada agilidade dos Transformers, os movimentos dos jaegers são rápidos para seu tamanho, mas levam em conta que os humanos em seu interior precisam fazer uma força tremenda para executá-los.


O lado humano da história não se limita ao alívio cômico de personagens trapalhões (que, ainda assim, mostram-se inteligentes e úteis), nem ao clima entre Raleigh e a piloto japonesa Mako Mori (a graciosa Rinko Kikuchi). Esta última está no centro dos conflitos mais interessantes do filme: a história de como chegou ao Projeto Jaeger (tente não se emocionar com o choro de sua versão infantil, correndo por uma Kobo devastada), sua relação conflituosa com o comandante Pentecost e a recusa deste em deixá-la pilotar o jaeger americano Gipsy Danger ao lado de Raleigh. Mais convencionais, pai e filho, pilotos do australiano Eureka Striker, também têm bons momentos.

Filmes de destruição apocalíptica já viraram carne-de-vaca, mas Círculo de Fogo tem a seu favor uma saudável mudança de cenário (nada de Los Angeles ou Nova York) e pequenas surpresas que respeitam a inteligência do espectador. A falta de um grande nome no elenco, porém, parece ter contribuído para que o filme, apesar das críticas positivas, não tenha feito o sucesso esperado - em curioso contraste com o recente fracasso de produções com grandes astros à frente de idéias repetidas ou simplesmente ruins, como O Cavaleiro Solitário (com Johnny Depp) e Depois da Terra (com Will Smith).

Tudo bem. Como vemos ano após ano, sucesso nem sempre é sinônimo de qualidade. Círculo de Fogo é um dos filmes mais legais dos últimos tempos. Se você não ainda foi ver, corra até a sala mais próxima e desfrute de suas 2.500 toneladas de diversão.

25/07/2013

O Homem de Aço





AVISO: Este texto tem spoilers!

Meus sentimentos em relação a O Homem de Aço são conflitantes.

Parte de mim está feliz pelo simples fato de a Warner (dona do imenso panteão super-heroico da DC Comics) ter finalmente conseguido, depois de coisas medonhas como Mulher-Gato e Lanterna Verde, lançar um filme digno e bem-sucedido fora da trilogia do bilionário Batman de Christopher Nolan. Verdade seja dita, nem tão fora assim, já que Nolan e David S. Goyer (parceiros nos três bat-filmes) deixam sua marca no roteiro e na produção. É uma sombra tão forte que praticamente eclipsa o habitual estilismo do diretor Zack Snyder e faz a gente se sentir vendo um filme do Batman - sem o Batman.

Minha alegria vem, também, do sopro de ar fresco que o filme representa na virtualmente imutável mitologia do personagem: os momentos finais de Krypton ganham destaque e relevância inéditos no cinema e ajudam a entender melhor o antagonismo entre Superman e Zod. Existe, também, uma certa dualidade moral no ar: o Superman ainda não é aquele tipo centrado e de caráter inabalável, como ficou universalmente conhecido. Ele acabou de descobrir que seus poderes são capazes de muito mais do que ele pensava, está se divertindo muito com isso e, até que aprenda, entre outras coisas, a mensurar a força de seus golpes, não parece muito atento ao que acontece ao seu redor. Se uma das principais queixas que se faz do Superman é o fato de que ele é "bonzinho" em demasia (coisa que só sai da boca de quem passou longe das HQs do personagem nos últimos trinta anos), este filme vai agradar aos detratores do personagem, porque este Kal-El aqui senta o braço com vontade e não é amiguinho íntimo das autoridades dos Estados Unidos.

Foi bastante fácil, também, gostar do elenco. Henry Cavill foi uma escolha acertada, convencendo como um desajustado Clark Kent que não sabe o que pensar de sua origem alienígena, como o confiante Kal-El, depois que toma posse de sua herança genética e cultural, e como o já uniformizado super-herói, capaz de derrubar resistências e derreter corações com um sorriso (ora, não se engane: mesmo os marmanjos querem que o Superman seja um cara bonito - e Cavill é muito bonito - porque o personagem é todo um ideal a ser atingido, o que inclui a beleza física - e dá tremores só de pensar que aquele ícone da 'desbeleza' que é Nicolas Cage quase ganhou este papel).




Diane Lane e Kevin Costner também estão muito bem como os pais terrestres de Clark - e aqui, em meio a tantas cenas em que a emoção transborda, temos uma pequena heresia do filme: ninguém há de duvidar que Jonathan Kent (Costner) ame o filho, mas considerei sua postura bastante castradora. "Você não pode" e "Você não deve" são frases que saltam sem parar da boca do pai adotivo do maior dos heróis. Quando ele sugere que o segredo do filho está acima do valor de vidas humanas, então, eu me retorci todo na poltrona. Mesmo no momento de sua morte, quando seria perfeitamente possível para Clark salvá-lo, Jonathan parece sentir necessidade de mostrar ao filho quem manda. Fazer uma viúva e um órfão (ainda que adulto) de propósito não me parece exatamente um bom exemplo do Papai Kent.

Amy Adams também faz uma ótima Lois Lane e sua história com o herói é completamente modificada aqui: seguindo por anos os passos do misterioso "anjo" que realiza salvamentos mundo afora, ela descobre sozinha a identidade civil do Superman antes de ter qualquer relação com ele (o que, claro, acaba acontecendo, num esperado e empolgado beijo, que acalma e recoloca os fãs puristas em sua "zona de conforto").

E existe Michael Shannon - ou melhor, existe o General Zod. Nada contra Lex Luthor e seus ótimos intérpretes, mas já havia passado da hora de explorar outros nomes na galeria de vilões do Homem de Aço (que não chega a ser exemplar como a do Batman, mas da qual se colhem opções interessantes). Zod é, simplesmente, a melhor coisa do filme, um vilão muito bem caracterizado e interpretado com excelência por Shannon (e que se diga: Nolan e Goyer amam seus vilões). Do momento em que comete traição em Krypton até aquele em que finalmente domina seus novos poderes sob nosso sol, Zod só é um vilão porque está em rota de colisão com aquele que consideramos um herói. Na verdade, ele está apenas seguindo sua "programação", seu propósito de vida, aquilo para que foi criado (num inesperado diálogo filosófico que, mesmo sem a profundidade de um Matrix, me fez lembrar do Agente Smith).




"Então, você gostou de tudo, Batman?", você me pergunta, com um sorriso no rosto.

A parte de mim que não está tão feliz, porém, precisa se manifestar. Depois de uma introdução brilhante em Krypton (com um show do ótimo Jor-El de Russell Crowe), o didatismo, o simplismo e a superficialidade de boa parte dos diálogos, aliados a uma edição que parece estar correndo contra o relógio, numa ânsia descontrolada para chegar às vias-de-fato (ou seja, à pancadaria), comprometem a qualidade do filme. A não-linearidade temporal da história não chega a ser um incômodo, mas talvez se pudesse haver adotado uma estrutura mais convencional num filme que, afinal, é uma trama de origem.

A pancadaria, por sinal, tem parte da culpa pelo que está errado com o filme. Entenda: é ótimo ver o Superman arrebentando com gosto a fuça de Zod, Faora e Jax-Ur. O problema começa quando, depois que os kryptonianos renegados destroem a casa de Martha Kent jogando nela um carro, é o Superman quem dá início à destruição da propriedade alheia, fazendo Zod atravessar uma refinaria e outros imóveis, ainda em Smallville. No rastro da briga entre os dois, cidades inteiras vão virando pó e, em Metrópolis, a coisa atinge um nível Transformers de hecatombe. Por mais que algo assim seja de se esperar, dados o nível de poder envolvido e a constância com que essas coisas acontecem nas HQs, pareceu que, em alguns momentos, tantas explosões e prédios inteiros caindo eram cortina-de-fumaça para o fato de que poderiam ter caprichado mais na história.

E existe o tal final "polêmico" da briga com Zod, que, em tese, faria ruir um dos pilares morais sobre o qual o mito do Superman é erguido. Venho tentando entender a situação extrema como aquela que viveu a Mulher-Maravilha contra Maxwell Lord em Projeto OMAC (2005): era a única saída possível. Mesmo assim, repito, em um filme que pretende resgatar espectadores para uma franquia combalida, talvez fosse prudente ser um pouco mais, digamos, ortodoxo.

Mesmo com um senão aqui e acolá, o filme se sustenta pela habilidade de Zack Snyder em filmar cenas de luta (aspecto em que dá 10 x 0 em Christopher Nolan), pela coleção de cenas icônicas (que atire a primeira pedra de kryptonita aquele que não ficou maravilhado a cada voo do Superman) e pela possibilidade de que o uso irresponsável de sua força neste filme traga ao Superman (agora, sim) problemas na figura de um certo cidadão metropolitano que o enxerga não como exemplo, mas como uma ameaça à vida e às ambições humanas. Seria sensacional ver Lex Luthor sendo eleito presidente (como foi nas HQs), tendo como uma de suas bases eleitorais a rejeição ao Superman.

Entretanto, me parece que algo ainda mais sensacional se aproxima: o segundo filme do Homem de Aço já está marcado para 2015 e a campanha inicial de divulgação faz crer que a presença do Batman resultará na recriação de um momento clássico, que mostra claramente quem é o maior de todos (hehe!).

O Homem de Aço é, enfim, um bom filme, que apenas ficou um pouco aquém das expectativas geradas pelos seus magníficos trailers. Apesar disso, seu sucesso parece ser um indicativo de que encontrou-se um bom novo caminho para o personagem no cinema. Numa visão simplista, pero no mucho: não é o Superman, mas é. Gosto disso.

06/07/2013

Turma da Mônica: Laços


Um flashback do momento em que Cebolinha ganha seu cachorro de estimação, Floquinho, é a sequência de abertura de Turma da Mônica: Laços. Em termos de ternura, é digna de comparação com, por exemplo, o bebê Dumbo se balançando na tromba da mãe, no desenho de 1941 da Disney. O lindo traço de Lu Cafaggi (que co-escreve a história e desenha a turma ainda bebê) e o tratamento de cores dado por Priscilla Tramontano e Vitor Cafaggi (irmão de Lu, co-autor e desenhista da turminha aos sete anos) capturam com tamanha perfeição a nostalgia e as emoções em cena (o sono e o aconchego de Cebolinha no colo da mãe, a curiosidade em seus olhos ao abrir a caixa em que vê Floquinho pela primeira vez) que fica impossível não se derreter desde o primeiro momento. Dá até pra "escutar" a música incidental.

O corte para o "presente" se dá em meio a cenas tradicionais do bairro do Limoeiro: Cebolinha e Cascão fugindo (e apanhando) da Mônica, Magali comendo sem parar, Titi xavecando Aninha... Até que, na volta pra casa, Cebolinha fica sabendo que Floquinho está desaparecido. Diante do fracasso das buscas dos adultos, o garoto se recolhe em seu quarto, abatido. Mônica, Cascão e Magali, porém, não querem deixar que o amigo se desanime e se oferecem para ajudá-lo a achar o cachorro. Cebolinha, então, traça um dos seus "planos infalíveis" e os quatro se embrenham no parque da cidade em busca do perdido Floquinho.


Em sua jornada (que em muito lembra antigos filmes sobre amizade e ritos de passagem na infância, como Goonies e Conta Comigo), a turma vai enfrentar perigos (claro, apenas tão perigosos quanto espertos garotos de sete anos podem enfrentar), além de dar e receber solidariedade de improváveis aliados. Nem só de correria e suspense, porém, vive a história: algumas falas de Cebolinha e a participação de Magali no plano para libertar Floquinho são preciosos achados cômicos.

Passam-se décadas, seus leitores crescem, mas a Turma da Mônica continua falando à criança interior de todo mundo que os acompanhou na infância e é bom ver que eles continuam ajudando a formar gerações de leitores. As aventuras da turminha sempre foram e continuam sendo combustível para diversas fantasias infantis. Que atire a primeira pedra aquele que nunca brincou com a própria sombra, como faz Cascão enquanto seus cansados e machucados colegas dormem, num momento absolutamente genial da história.

Se Astronauta: Magnetar padecia um pouco pela conclusão apressada, este problema não se repete aqui: a trama dos irmãos Cafaggi é absolutamente fluida e cativante até o último quadro. Ao seu final, o primeiro encontro dos quatro amigos é revisto com grande beleza e inocência. Um desfecho totalmente adequado para uma história que, mesmo hospedada em uma coleção que se diz "adulta", trata, afinal, da amizade entre crianças como uma força inesgotável, que atravessa os anos resistindo a coelhadas e planos infalíveis arruinados. Uma HQ para entrar para a História e para guardar no coração.

16/06/2013

Antes de Watchmen: Coruja


É público e notório que Alan Moore desaprova qualquer adaptação ou revisão de obra sua. Ele procura explicar sua atitude dizendo, por exemplo, que tudo que havia para ser dito ou feito, já foi dito ou feito por ele. Ou que a história foi originalmente pensada para a mídia impressa e não funcionaria fora dela, na vã tentativa de evitar adaptações para o cinema. Ninguém há de duvidar da integridade artística de Alan Moore, mas essa birra também revela uma certa arrogância autoral, como se dissesse, "Como alguém OUSA mexer em minhas criações perfeitas?" 

(Mesmo considerando as quedas de ritmo, exageros e reviravoltas meia-boca, o desenvolvimento do conceito da "Noite Mais Densa" feito por Geoff Johns na série do Lanterna Verde, na década passada, aproveitando uma ideia que Moore aventou em apenas uma página de uma história protagonizada por Abin Sur em 1986, mostra que nem tudo que ele faz é tão "imexível" assim).

Precisar, não precisava, mas a moderna indústria dos quadrinhos não é movida por qualquer necessidade genuína, exceto, talvez, a de cifras cada vez maiores. Não consigo pensar em outro motivo plausível para a existência desta coleção de minisséries que compõem o projeto Antes de Watchmen - com a possível exceção de a DC Comics estar simples e infantilmente mandando um recado ao co-criador (e encrenqueiro-mor) Alan Moore: "Watchmen é nossa e fazemos dela o que quisermos. Viva com isso."

Em favor da DC Comics, que se diga, pesa a escalação de nomes expressivos para a empreitada de criar histórias ligadas ao ultradesiludido universo de Watchmen. Independentemente dos resultados alcançados (com delicado equilíbrio de críticas positivas e negativas nos EUA), a editora teve um certo cuidado para que a coisa toda parecesse pertinente.

Veja o caso de J. Michael Straczynski e sua mini do Coruja, por exemplo. Muita gente treme só de pensar no autor e associá-lo a coisas como "Um Dia a Mais" (Homem-Aranha) ou "Solo" (Superman). Eu prefiro lembrar do JMS brilhante que escrevia Poder Supremo e levava meu queixo ao chão a cada edição da saudosa Marvel Max. Quando as coisas dão certo, o escritor é capaz de histórias bastante dignas.

Em Watchmen, Daniel Dreiberg, o Coruja, é uma espécie de "Batman que deu errado": um vigilante noturno inseguro quanto ao seu próprio potencial e quanto à validade do seu trabalho. Daniel, você deve lembrar, também é inseguro no amor. As opções de Straczynski, ao investigar esse passado e apontar as causas da postura de Daniel/Coruja, não fogem do convencional (portanto, não vou poupar ninguém do spoiler: pai violento, paixão por prostituta, etc.). O autor investiga, ainda, as origens da amizade de Dreiberg com o Coruja original e com Rorschach, além do fanatismo religioso deste último. Novamente, pesa contra Straczynski a opção pelo clichê ao escolher seu nêmesis (um pastor picareta). 

Antes de Watchmen - Coruja é ruim, então? Por mais estranho que pareça, depois de tudo que escrevi antes, não. Está longe de ser uma obra-prima, obviamente, mas é uma leitura que flui agradável, porque Straczynski é um bom contador de histórias e conta com o auxílio de duas gerações da família Kubert, o eficiente filho Andy nos traços e o velho mestre Joe na arte-final (seu último trabalho antes de falecer).

Completando o encadernado, a primeira parte de "A Maldição do Corsário Carmesim", de Len Wein e John Higgins, também é mais do mesmo, ao fazer as vezes de "livro dentro do livro" que tinham os "Contos do Cargueiro Negro" na Watchmen de Alan Moore. Não faz falta e só piora saber que o último capítulo dela não vai ser publicado - não por má vontade da Panini, mas porque a DC Comics simplesmente cancelou o investimento na série, diante da baixa receptividade dos leitores ao projeto como um todo.

É esquisito achar satisfatória uma obra em que tanta coisa dá errado... mas é o caso. Me julguem.

09/06/2013

Sweet Tooth, Vol. 1


A segunda das novas séries Vertigo iniciadas pela Panini no fim de 2012 (junto a O Inescrito, resenhada logo abaixo), Sweet Tooth - Depois do Apocalipse conta a história de Gus, um menino híbrido de humano e cervo. Sua condição especial o torna um alvo, num mundo em que a população foi reduzida a um mínimo, depois que uma praga (ainda não revelada) dizimou quase toda a vida humana. Seu pai, com quem vive isolado numa cabana na floresta, é portador da doença e não demora a falecer. Gus, entretanto, é naturalmente imune à praga... e agora se vê sozinho.

Um dia, Gus encontra caçadores e quase é abatido a tiros. Sua pele é salva pela chegada de Jepperd, um homem de poucas palavras e mira precisa, que promete levar Gus a um lugar chamado A Reserva, uma espécie de paraíso para crianças híbridas. Muita gente duvida que o lugar sequer exista, mas, diante da falta de opções, Gus acompanha Jepperd. Serão seus primeiros passos fora da mata, mas o mundo que o aguarda parece tudo, menos convidativo.

Jeff Lemire (Homem-Animal) escreve e desenha uma história agradável de ler (apesar do seu traço pouco refinado). O problema é que você não consegue evitar a sensação de déjà-vu: pelo menos neste primeiro volume, "Saindo da Mata", Sweet Tooth está longe de ser uma obra inovadora. A condição biológica de Gus não é novidade para quem lê X-Men. Só alguém que viveu em Netuno nos últimos 50 anos não está familiarizado com a ideia de um mundo devastado e repleto de perigos - basta ter visto um filme com zumbis. O personagem durão, de poucas palavras e que não erra um tiro já foi visto em inúmeras outras obras. Imaginar que Gus vá amolecer seu coração de pedra também não chega a ser uma quimera.

Considerada a falta de inovação, os méritos de Sweet Tooth estão, portanto, em seu ritmo ágil e no carisma do menino-cervo. Ele não sabe se tem um sobrenome e nem a idade que tem ao certo, mas é decidido o suficiente para pedir a Jepperd que não o trate como idiota. Não espere, porém, que Gus seja um tipo de pequeno prodígio: ele é só um menino assustado, que nunca tinha visto ninguém além do pai durante anos. Lemire não perde o fato de perspectiva e evita que Gus pareça mais esperto ou destemido do que deveria.

Sweet Tooth - Depois do Apocalipse, Vol. 1: Saindo da Mata é, enfim, um encadernado que compensa pelos R$ 15,90 cobrados. Não está mal para um primeiro arco. A Panini acaba de lançar o terceiro, "Exército Animal", mas para que eu continue fiel à leitura, é melhor que a série seja um pouco mais surpreendente já no segundo, "Cativeiro". Em tempos de quadrinhos caros, nem sempre dá pra seguir investindo às escuras por pura fé em que algo vá acontecer e me arrebatar.

02/06/2013

O Inescrito, Vol. 1


Com várias das séries que fizeram a fama da Vertigo encerradas aqui no Brasil (caso de Preacher, 100 Balas e Y – O Último Homem), muitos leitores podem ter ficado preocupados com o material que chegaria para substituir essas clássicas HQs. Eu fiquei. 

Daí que, no final do ano passado, quando a Panini encartou em duas edições da Vertigo mensal previews das séries escolhidas para dar continuidade ao legado do “braço” adulto da DC Comics junto aos leitores brasileiros, com os primeiros capítulos de Sweet Tooth e O Inescrito, eu não fiquei muito impressionado. As duas eram simpáticas, mas não me provocaram aquele “uau!” que sucede, por exemplo, o fim da leitura do primeiro capítulo de 100 Balas.

Ambas já tiveram seus segundos volumes lançados, mas eu me vi tentado a aproveitar a chance de ler os volumes iniciais com seu recente retorno às bancas. Relutei ainda por duas ou três semanas, é verdade, mas pensei, “ah, vamos ver qual é”.

O Inescrito, Vol. 1 – Tommy Taylor e a Identidade Falsa é um encadernado das cinco primeiras edições de The Unwritten, nome original da série do roteirista Mike Carey e do desenhista Peter Gross, que já haviam trabalhado juntos em Lúcifer, do universo de Sandman.

A história gira em torno de Tom Taylor, filho de um famoso escritor de livros de fantasia e base para o personagem principal destes, Tommy Taylor. Com 13 volumes, a série Tommy Taylor é um sucesso mundial na escala de Harry Potter (com os quais guarda assumidas semelhanças), sucesso este que sustenta, porém, igualmente incomoda a Tom, que não chegou a conhecer a mãe e foi abandonado ainda jovem pelo pai, Wilson Taylor. Ninguém sabe com certeza se o pai de Tom está vivo ou morto.

Tom é um chato, um resmungão aparentemente sem talentos, que vive de aparições em convenções e feiras literárias, faturando com o fato de “ser” Tommy Taylor. Cansado de responder às mesmas perguntas de sempre, ele se vê questionado em sua identidade por uma desconhecida. Admitindo que desconhece detalhes importantes de sua própria história, ele inicia uma busca pelos segredos de seu pai, esperando que isso o ajude a entender melhor quem é.

O problema é que a busca de Tom desperta o interesse de uma sociedade secreta cuja história se mistura à de grandes escritores, como vemos no quinto episódio, protagonizado por Rudyard Kipling, escritor britânico de O Livro da Selva. Resumo em poucas palavras o desafio à frente de Tom Taylor: seus inimigos não estão acostumados a serem contrariados.

Com prefácio de Bill Willingham (Fábulas), este primeiro volume de O Inescrito, com sua interessante proposta de metalinguagem (é um livro sobre o personagem de um livro que é o personagem de um livro) e suas brincadeiras com a fronteira entre realidade e ficção, aliadas ao componente de mistério que sustenta as boas histórias de suspense, revela-se uma grata surpresa. O primeiro capítulo, como dito antes, pode não impressionar, mas, logo em seguida, fica difícil resistir às próximas páginas. Os preocupados fãs da Vertigo podem respirar aliviados: O Inescrito é digna da casa que habita.

19/05/2013

Corporação Batman Vol. 3


A passagem de sete anos do Grant Morrison pelo universo do Batman não foi uma unanimidade. Nem tudo que o escocês propôs foi bem aceito (ou entendido) por todos os leitores, mas uma coisa não se pode negar: ele sabe chacoalhar as coisas.

Morrison chegou ao bat-título principal em 2006, trazendo consigo algo que foi, durante anos, considerado parte de uma realidade alternativa (Elseworlds - Túnel do Tempo, no Brasil - era o nome dado às histórias em que os autores subvertiam os conceitos originais dos personagens): o filho de Bruce Wayne e Tália Al Ghul, gerado na história O Filho do Demônio (1987), de Mike W. Barr e Jerry Bingham. O garoto, chamado Damian, inteligentíssimo e de pavio curto, foi criado entre a Liga de Assassinos e demorou até que Batman infundisse em sua mente algum código moral (e, mesmo depois de sua "reeducação", Damian já matou, como Robin, pelo menos três vilões).

Também acabou, na "Era Morrison", o eterno papel de codjuvante de Tália perante o pai, Ra's Al Ghul. Durante décadas, ela era pouco mais que uma figura decorativa, sempre dividida entre a lealdade ao pai e o amor pelo herói. Desde que ressurgiu, Tália se vê desiludida de qualquer pretensão amorosa com relação a Bruce Wayne. Isto a levou a abraçar a causa do pai com fervor, até então, inédito (a ponto de, na busca pela derrocada da civilização, Tália e Ra's se tornarem inimigos).



Quanto ao Batman em si, Morrison o "matou" durante o evento Crise Final, em um confronto com Darkseid. Na verdade, ele foi lançado de volta no tempo. Em sua ausência, Dick Grayson foi o Batman, com Damian ao seu lado como Robin. Ao retornar, Bruce Wayne "saiu do armário" parcialmente, assumindo publicamente não que era o Batman, mas que era o responsável financeiro por suas operações. Com isso, foi anunciada a criação da Corporação Batman, uma rede de agentes inspirados pelo Morcego, escolhidos a dedo pelo próprio. Em sua maioria, personagens muito antigos, resgatados de uma edição de 1955 da Detective Comics e conhecidos como "Os Batmen de Todas as Nações".

Todos os inimigos que o Batman (Wayne ou Grayson) enfrentou durante estes anos pareciam ter por trás de si uma figura ou organização enigmática, chamada Leviatã. Inicialmente, o herói foi levado a crer que Leviatã era Jezebel Jet, uma socialite africana por quem se apaixonou durante os eventos da saga Descanse em Paz (uma trama para matar o Batman que corria paralelamente e acabou interligada à Crise Final). No final de Corporação Batman Vol. 2, porém, ficamos sabendo que Leviatã é, na verdade, Tália Al Ghul.

Neste terceiro encadernado (compilando as edições 1 a 6, já dentro dos Novos 52 da DC Comics, mais a edição de origens número 0), Tália coloca a cabeça de Damian a prêmio, por recusar-se a estar junto a ela e por ser o caminho mais fácil para atingir em cheio o coração do Batman. Ao mesmo tempo, a organização Leviatã cresce em tamanho e influência, impondo a Batman e seus aliados desafios mortíferos e deixando Tália mais próxima da realização de seus planos do que seu pai jamais esteve.



Como se passava praticamente desligada das demais bat-revistas, em suas primeiras edições Corporação Batman era quase farsesca, repleta de exageros e exotismos. Aos poucos, o tom foi mudando para uma sensação autêntica de urgência e suspense, que só se sente quando há um perigo realmente muito grande no ar. Leviatã é, com justiça, a vilã máxima da Era Morrison, uma vez que alguns outros nêmeses criados pelo autor, como o Dr. Porco e o Flamingo, eram pouco mais que esdrúxulos.

Ouso dizer que Corporação Batman é melhor do que a própria Batman, seja quando esta última ainda era escrita por Morrison, ou agora, pelo também ótimo Scott Snyder. Morrison foi extremamente hábil na caracterização da parceria de Damian com alguém que já esteve em seu lugar (Dick Grayson) e tem excelentes insights na complicada relação pai-filho que ele e Bruce tentam arduamente manter, apesar de suas histórias e suas divergências filosóficas frequentemente os colocarem em rota de colisão. Os diálogos perspicazes sempre foram uma marca de Grant Morrison e ele está especialmente afiado nestas páginas.

Na impossibilidade de contar que seu habitual parceiro Frank Quitely vá cumprir prazos sequer para um título, quanto mais para dois, Morrison está escudado por um "genérico" bastante eficiente. O traço de Chris Burnham é assemelhado ao de Quitely, apenas um pouco mais "sujo", mas é extremamente dinâmico e a segunda cena da primeira história é uma splash-page simplesmente matadora. Na última história, a edição 0 traz detalhes da origem da Corporação, com a bonita arte de Frazer Irving (Sete Soldados da Vitória).

Com a original Batman Incorporated prestes a ser cancelada na edição 13, teremos que aguardar alguns meses até o último encadernado, para que os eventos da Batman mensal da Panini alcancem o momento cronológico que culminará com o fim da passagem de Grant Morrison pelo bat-universo... e o fim de uma era para o Batman, em diversos sentidos. Aguarde e acompanhe, pois valerá muito a pena.

Corporação Batman Vol. 3 - Panini - 172 páginas - R$ 19,90.