19/05/2013

Corporação Batman Vol. 3


A passagem de sete anos do Grant Morrison pelo universo do Batman não foi uma unanimidade. Nem tudo que o escocês propôs foi bem aceito (ou entendido) por todos os leitores, mas uma coisa não se pode negar: ele sabe chacoalhar as coisas.

Morrison chegou ao bat-título principal em 2006, trazendo consigo algo que foi, durante anos, considerado parte de uma realidade alternativa (Elseworlds - Túnel do Tempo, no Brasil - era o nome dado às histórias em que os autores subvertiam os conceitos originais dos personagens): o filho de Bruce Wayne e Tália Al Ghul, gerado na história O Filho do Demônio (1987), de Mike W. Barr e Jerry Bingham. O garoto, chamado Damian, inteligentíssimo e de pavio curto, foi criado entre a Liga de Assassinos e demorou até que Batman infundisse em sua mente algum código moral (e, mesmo depois de sua "reeducação", Damian já matou, como Robin, pelo menos três vilões).

Também acabou, na "Era Morrison", o eterno papel de codjuvante de Tália perante o pai, Ra's Al Ghul. Durante décadas, ela era pouco mais que uma figura decorativa, sempre dividida entre a lealdade ao pai e o amor pelo herói. Desde que ressurgiu, Tália se vê desiludida de qualquer pretensão amorosa com relação a Bruce Wayne. Isto a levou a abraçar a causa do pai com fervor, até então, inédito (a ponto de, na busca pela derrocada da civilização, Tália e Ra's se tornarem inimigos).



Quanto ao Batman em si, Morrison o "matou" durante o evento Crise Final, em um confronto com Darkseid. Na verdade, ele foi lançado de volta no tempo. Em sua ausência, Dick Grayson foi o Batman, com Damian ao seu lado como Robin. Ao retornar, Bruce Wayne "saiu do armário" parcialmente, assumindo publicamente não que era o Batman, mas que era o responsável financeiro por suas operações. Com isso, foi anunciada a criação da Corporação Batman, uma rede de agentes inspirados pelo Morcego, escolhidos a dedo pelo próprio. Em sua maioria, personagens muito antigos, resgatados de uma edição de 1955 da Detective Comics e conhecidos como "Os Batmen de Todas as Nações".

Todos os inimigos que o Batman (Wayne ou Grayson) enfrentou durante estes anos pareciam ter por trás de si uma figura ou organização enigmática, chamada Leviatã. Inicialmente, o herói foi levado a crer que Leviatã era Jezebel Jet, uma socialite africana por quem se apaixonou durante os eventos da saga Descanse em Paz (uma trama para matar o Batman que corria paralelamente e acabou interligada à Crise Final). No final de Corporação Batman Vol. 2, porém, ficamos sabendo que Leviatã é, na verdade, Tália Al Ghul.

Neste terceiro encadernado (compilando as edições 1 a 6, já dentro dos Novos 52 da DC Comics, mais a edição de origens número 0), Tália coloca a cabeça de Damian a prêmio, por recusar-se a estar junto a ela e por ser o caminho mais fácil para atingir em cheio o coração do Batman. Ao mesmo tempo, a organização Leviatã cresce em tamanho e influência, impondo a Batman e seus aliados desafios mortíferos e deixando Tália mais próxima da realização de seus planos do que seu pai jamais esteve.



Como se passava praticamente desligada das demais bat-revistas, em suas primeiras edições Corporação Batman era quase farsesca, repleta de exageros e exotismos. Aos poucos, o tom foi mudando para uma sensação autêntica de urgência e suspense, que só se sente quando há um perigo realmente muito grande no ar. Leviatã é, com justiça, a vilã máxima da Era Morrison, uma vez que alguns outros nêmeses criados pelo autor, como o Dr. Porco e o Flamingo, eram pouco mais que esdrúxulos.

Ouso dizer que Corporação Batman é melhor do que a própria Batman, seja quando esta última ainda era escrita por Morrison, ou agora, pelo também ótimo Scott Snyder. Morrison foi extremamente hábil na caracterização da parceria de Damian com alguém que já esteve em seu lugar (Dick Grayson) e tem excelentes insights na complicada relação pai-filho que ele e Bruce tentam arduamente manter, apesar de suas histórias e suas divergências filosóficas frequentemente os colocarem em rota de colisão. Os diálogos perspicazes sempre foram uma marca de Grant Morrison e ele está especialmente afiado nestas páginas.

Na impossibilidade de contar que seu habitual parceiro Frank Quitely vá cumprir prazos sequer para um título, quanto mais para dois, Morrison está escudado por um "genérico" bastante eficiente. O traço de Chris Burnham é assemelhado ao de Quitely, apenas um pouco mais "sujo", mas é extremamente dinâmico e a segunda cena da primeira história é uma splash-page simplesmente matadora. Na última história, a edição 0 traz detalhes da origem da Corporação, com a bonita arte de Frazer Irving (Sete Soldados da Vitória).

Com a original Batman Incorporated prestes a ser cancelada na edição 13, teremos que aguardar alguns meses até o último encadernado, para que os eventos da Batman mensal da Panini alcancem o momento cronológico que culminará com o fim da passagem de Grant Morrison pelo bat-universo... e o fim de uma era para o Batman, em diversos sentidos. Aguarde e acompanhe, pois valerá muito a pena.

Corporação Batman Vol. 3 - Panini - 172 páginas - R$ 19,90.

16/05/2013

Daft Punk - Random Access Memories

 

Longe de mim querer bancar, nesta resenha, o especialista (ou o "grande fã") de Daft Punk. Isso provavelmente foi um erro, mas eu jamais dei tanta atenção assim aos "robôs" Thomas Bangalter e Guy de Homem-Christo, apesar de curtir muito pérolas pop do quilate de "Harder, Better, Faster, Stronger" e "One More Time". Os discos do duo francês estão no meu HD, mas eu jamais me dediquei à sua audição integral. Como disse há pouco, isso deve ter sido uma lamentável injustiça de minha parte.

Entretanto, minhas orelhas se levantaram em alerta desde que começaram a surgir as primeiras notícias sobre o novo disco do Daft Punk (então ainda sem nome) trazer participação de eternos gênios pop da estatura de Nile Rodgers e Giorgio Moroder.

Explico: Nile Rodgers foi a mente e a guitarra por trás de delícias dançantes da era disco (Chic, Sister Sledge), além de produzir e tocar em grandes momentos das carreiras de outros grandes artistas (Madonna, David Bowie e Duran Duran, entre outros). O produtor italo-germânico Giorgio Moroder tornou-se conhecido por suas colaborações com Donna Summer ("Love to Love You, Baby", "I Feel Love") e por trilhas sonoras tão ou mais famosas que os próprios filmes ("Flashdance... What a Feeling", de Flashdance; "Take My Breath Away", de Top Gun).

Tudo levava a crer que vinha coisa fina por aí. A boa impressão foi alimentada pelos interessantes vídeos de bastidores, em que os convidados (além de Rodgers e Moroder, o cantor e produtor Pharrell Williams; o vocalista dos Strokes, Julian Casablancas; os DJs Falcon, Chilly Gonzales e Todd Edwards; e o hitmaker dos anos 70 Paul Williams) falavam de como era estar trabalhando com os robôs e de suas ideias para o disco, sem jamais entregar muito. Por fim, a expectativa subiu à estratosfera com o breve vídeo-teaser de "Get Lucky" exibido durante o festival Coachella, entre aplausos entusiasmados da plateia, que aprovou o sotaque funk-disco da canção e a transformou em hino imediato da temporada primavera-verão do hemisfério norte.

O disco só chega oficialmente às lojas no dia 21 de maio, mas, seguindo uma estratégia amplamente utilizada hoje em dia, "vazou" na internet uma semana antes, fazendo a alegria dos fãs de carteirinha e de neófitos curiosos, como eu. Baixei o disco hoje e passei a tarde inteira ouvindo-o.

Veredito: Random Access Memories é MUITO BOM!



O primeiro single não mentia: o disco é todo uma grande homenagem à música de festa dos anos 70 e 80, na qual o Daft Punk priorizou a utilização de instrumentos de verdade - por isso as canções soam tão vivas, tão orgânicas, tão mais humanas que antes, mesmo com a (adequada) opção por vocoders em voga no período mencionado. Que não se pense, porém, que o DP fez um disco saudosista: tudo é polido com tecnologia de produção state-of-the-art e o que a dupla e seus convidados fazem é resgatar e atualizar um som que jamais sairá totalmente de moda, simplesmente porque precisamos de groove em nossas vidas.

Desde a abertura épica (com a carta-de-intenções "Give Life Back to Music") já temos noção do que nos espera: grooves musculosos conduzindo grandes melodias pop, em que sobressai a guitarra assombrosa e infalivelmente dançante de Nile Rodgers. O gênio da disco music participa em três faixas e sua assinatura (riffs faiscantes que parecem ligar qualquer canção em 220V) é prontamente reconhecível. Os vocais ficam por conta do carismático Pharrell Williams em duas delas: o monumento funk "Lose Yourself to Dance" e a impoluta "Get Lucky".

Giorgio Moroder comanda um épico de quase 10 minutos em que narra, com seu sotaque peculiar, seu método de trabalho e sua própria história, dos tempos de dureza em Berlin à glória nos clubes nova-iorquinos. Julian Casablancas tem seu vocal distorcido com autotune na suave joia pop "Instant Crush" e não é difícil imaginar como esta canção soaria com um arranjo dos Strokes. Espero que seja uma possibilidade aberta para Julian. "Touch", longa e climática, quase progressiva, tem vocais de Paul Williams. "Beyond", com opulenta introdução de cordas, é outra que leva sua assinatura. Perto do fim, "Fragments of Time" é mais um momento de perfeição pop, a cargo de Todd Edwards, que não ficaria esquisito num disco de Hall & Oates.

Canções e arranjos mais "anos 10" preenchem os espaços entre os momentos de rendição ao pop de décadas passadas, sem que, com isso, a unidade do álbum seja comprometida. Em poucas palavras, é um disco para se ouvir de ponta a ponta, com um sorriso de orelha a orelha, mãos para o alto e pernas nervosas. Um dos grandes lançamentos desta segunda década do século 21 e uma prova de que por baixo das máscaras robóticas batem corações festeiros, românticos e melodicamente refinados.