15/09/2013

Uma Saga Britânica


No fim de novembro de 2012, quando já se encerrava a I Convenção Nacional Achieve Languages, realizada em Atibaia (SP), a cidade inglesa de Oxford foi escolhida como destino da segunda edição do encontro, em setembro de 2013. Não se tratava de megalomania: a jovem escola de idiomas (cujas primeiras unidades surgiram em 2011) faz uso dos livros e do suporte acadêmico da Oxford University, uma das mais antigas e prestigiadas instituições educacionais do planeta. Levar a convenção anual dos parceiros Achieve Languages para o Velho Continente era, então, levar os "filhos" para conhecerem seus "pais".

Eu sou uma das pessoas à frente do projeto de fazer a Achieve Languages se tornar uma força respeitável em Alagoinhas, onde resido. Ainda tem sido uma tarefa mais árdua do que deveria, porque minha lealdade ainda se encontra dividida pelos meus muitos compromissos com a Wizard, franquia na qual trabalhei nos últimos 15 anos, nove dos quais passados em Alagoinhas. A partir de 2014, porém, devo ser capaz de dedicar mais tempo a este projeto no qual depositamos tantas expectativas.

Ao voltar de Atibaia com a notícia da realização da segunda convenção em terras inglesas, meu chefe foi direto ao ponto: "Você tem passaporte? Se não tem, providencie, porque é você que vai. Eu não posso ir."

A vida retomou seu ritmo, meus deveres tiraram a futura convenção do centro de minha atenção e, no fundo, eu achava que meu chefe decidiria, por fim, ir a Oxford com sua esposa e filhos. Fui retardando a emissão do passaporte, por puro esquecimento, até que começaram a chegar os emails institucionais sobre o evento, com confirmação das datas e detalhes da acomodação dos convidados. Inquirido mais uma vez sobre o passaporte, percebi que a coisa era pra valer: eu iria, finalmente, viajar para fora do Brasil.

Pode ser surpresa, para alguns, que alguém tão interessado no idioma inglês e na cultura produzida nos principais países onde ele é falado nunca tenha feito uma viagem para um deles. Não se engane, o desejo sempre existiu, mas nunca foi realizado por uma razão muito simples: eu não sei economizar. Nunca tive um supersalário, é verdade, mas sempre usei meus ganhos para aproveitar o agora. Planejar o futuro ainda me parece uma noção abstrata demais. Por que eu deveria me privar do que desejo ter ou fazer hoje, em nome de algo a ser conquistado apenas meses ou anos à frente? Meu bom senso sabe a resposta, claro, mas vai dizer isso ao meu impulso...

Mas, enfim, eu tirei meu passaporte e fui confirmado como representante de Alagoinhas na II Convenção Nacional Achieve Languages. Após uma conexão de Salvador para São Paulo, meu voo da British Airways sairia do Aeroporto Internacional de Guarulhos com destino ao terminal 5 do aeroporto Heathrow, em Londres, às 16:20 do dia 31 de agosto.

Embarcado no 747-400 destinado a Londres, meu primeiro prazer foi ouvir uma tripulação que realmente fala inglês nos alto-falantes, ao invés de um emaranhado de grunhidos incompreensíveis que grande parte dos comissários de bordo brasileiros entendem como sendo "falar inglês". Na cabeça de alguns, dificultar palavras fáceis é "boa pronúncia" e falar rápido a ponto de soar indistinguível é "ser fluente". Não é, não, viu?

O voo foi tranquilo e a comida da British Airways era boa, embora nada tão especial (escolhi strogonoff de frango com arroz). Depois de pouco mais de 10 horas de viagem, o pouso em Londres foi anunciado pelo comandante. A cabeça, porém, ainda não estava registrando direito. Eu só relaxaria depois que passasse pela Imigração. Os telejornais e a internet estão cheias de relatos de gente que foi barrada na chegada a nações europeias, o que me fez preparar uma pasta de documentos que incluíam a carta-convite e o programa da convenção, diversos comprovantes de residência, de vínculos trabalhistas e bancários.

Tendo reencontrado, durante o voo, alguns conhecidos da convenção em Atibaia, passamos juntos pela Imigração. Uma delas, que já havia estado no país algumas vezes, assumiu a liderança na conversa com o oficial, que carimbou nosso passaportes sem fazer qualquer pergunta sobre nossas vidas no Brasil. Meu arsenal de papeis, foi, portanto, inutilizado logo que cheguei - e antes assim. No corredor de saída para o saguão do terminal 5, o alívio e a alegria de ser, oficialmente, um cidadão do mundo em passagem pela Inglaterra.


Como tivemos que esperar bastante pelo traslado que nos levaria direto para Oxford, aproveitei para fazer o câmbio para libras dos dólares que recebi para despesas (GBP 1.00 = US$ 1.70), fazer meu primeiro lanche inglês (muffin de blueberry com café espresso) e ficar de queixo caído com o arrojo arquitetônico, a funcionalidade e a claridade que predomina em Heathrow, principalmente quando comparado com aquele caixote horroroso e sem-graça que é o maior aeroporto do Brasil.

Mas eis que nosso transporte chegou e rumamos para Oxford. O óbvio primeiro "momento WTF" é o motorista entrando pela direita. É um barato ver o trânsito fluindo "ao contrário": dirigimos pela esquerda, fazemos rotatórias para a direita. Chama a atenção, ainda, a qualidade do asfalto e a beleza bucólica dos campos ingleses, mesmo no entorno de Londres, com suas cottages de tijolos aparentes vermelhos ou marrons, além de pequenos riachos e lagos.

E, enquanto eu olhava a paisagem pelo vidro, só um pensamento me vinha à cabeça: 

- Caramba, eu estou mesmo aqui!


Lado A - Oxford


Oxford é uma cidade universitária com mais de mil anos de história. Com cerca de 150 mil habitantes, é o centro de uma região metropolitana que totaliza quase 250 mil pessoas e uma das cidades de maior crescimento populacional da Inglaterra. Não é para menos: Oxford é um dos mais ativos centros educacionais do planeta, concentrando diversas universidades e editoras, sendo a Oxford University (e sua Press) a mais famosa e antiga do país, com mais de 900 anos de tradição acadêmica.

Quando o nosso transporte parou à frente do Porter's Lodge (o portão de entrada) da Christ Church College (uma das muitas faculdades da OU espalhadas pela cidade), fomos atendidos por um porteiro que parecia o Mr. Magoo: baixinho, óculos, chapéu coco. Todos os guardas da Christ Church que vi eram senhores de terceira idade, o que não surpreende quando se leva em conta a tranquilidade do trabalho. Foi divertido ver a cara dos turistas parados à frente da placa que dizia "closed for visitors" (fechado para visitantes), enquanto passávamos com nossas malas. É isso mesmo, queridos: os meros mortais têm que esperar os horários de visita, mas eu tenho entrada livre e um quarto em Oxford! Durmam com essa! Bwa-ha-ha-ha-ha-ha!

Por dentro, impressionam o tamanho, a beleza e a imponência das seculares construções. Para onde quer que se olhe, paredes, janelas, torres e jardins impregnados de história, ciência e cultura. É um ar diferente de se respirar, acredite. Não se fica impassível diante de um quarto onde esteve hospedado Albert Einstein; ou de uma árvore sob a qual Lewis Carroll conheceu a garota chamada Alice que o inspirou a escrever sua mais famosa história; ou do salão onde foram gravados os grandiosos jantares da saga Harry Potter.


Nos intervalos da convenção, meus colegas e eu aproveitávamos para fazer pequenos passeios pelas redondezas, principalmente pela Cornmarket Street, que concentra cadeias de fast-food, lojas de departamento, cafés e uma quantidade incrível de bons artistas de rua. De atores performáticos a cantoras líricas, passando por cantores de folk e trios de rockabilly, o centro de Oxford efervesce com cultura e com uma juventude multirracial que toma as ruas durante o dia, mas some depois de 11 da noite. Em geral, a vida noturna inglesa acaba cedo - e não só em Oxford.

Próximo à faculdade, em um belo pub chamado Fullers, às margens do Tâmisa, tomei minhas primeiras pints (as enormes canecas inglesas) de cervejas como Beck's, Carling e Guinness. No pub de nome Eagle & Child, na High Street, onde se reuniam para beber, conversar e escrever gente como J. R. R. Tolkien (O Senhor dos Anéis) e C. S. Lewis (As Crônicas de Nárnia), tomei uma ale (cerveja amarga e servida à temperatura ambiente), da marca Samuel Adams, mas não curti. 

A gastronomia inglesa, sobre cuja ruindade fui repetidamente advertido por amigos, provou-se uma surpresa positiva. Mesmo o fish and chips (o prato-símbolo da suposta falta de imaginação britânica na cozinha) que provei, também no Fullers, estava bem gostoso. Na Christ Church College, então, a coisa parecia ter requintes dos mais finos restaurantes, tamanho o capricho dos pratos. A única coisa que comi e achei ruim de verdade foi o tradicional English Breakfast, com sua mistura de feijão adocicado, bacon, ovos, cogumelos e salsichas, entre outras "delícias", preparadas de modo indizivelmente sem graça (e não me pergunte como eles conseguem deixar ruim uma refeição feita com esses ingredientes, mas é a proeza realizada aqui).

O trânsito em Oxford, embora movimentado, flui lindamente. Ninguém parece tão apressado a ponto de querer fazer boliche com os pedestres que tentam atravessar a rua (em qualquer parte da rua, perto ou longe de um semáforo, dá pra contar com a gentileza dos motoristas em parar e esperar que passemos). Os ônibus (híbridos, mais silencioso e menos poluentes) passam a todo instante e usar o transporte público inglês é facílimo. Apesar disso, muita, mas muita gente mesmo, usa bicicleta em Oxford. 


Em nosso último dia na cidade, fizemos um city tour a bordo de um double-decker bus - e não adianta: a mera visão de um ônibus de dois andares me traz a lembrança de "There Is a Light That Never Goes Out", clássico indefectível dos Smiths. Fazendo uso de mais uma metáfora musical, pego emprestado um verso de "Atravessei a Ponte a Pé", da banda Escaparate de Baiano: "É tanto nome de beco que dá / Nome de beco, viela, praça / É tanto nome de beco que dá, dá até tontura!" Seria impossível lembrar, após um único e rápido passeio, de todos os prédios, teatros, museus e histórias a que fui apresentado. Só digo uma coisa: Oxford é a personificação da expressão "banho de cultura".

No meio da tarde, nosso enorme grupo se desfez. Alguns ficariam mais alguns dias em Oxford, muitos seguiriam para Londres e alguns rumariam para outras cidades e países. A convenção havia chegado ao fim naquele dia 4 de setembro e, com ela, a parte "chata" (aspas mais que necessárias!) da viagem, aquela que envolvia trabalho. Depois de almoçar no restaurante de um brasileiro (não tem jeito, brasileiro se atrai), eu e mais três amigos rumamos para a estação ferroviária.

Exatamente às 16:01 (ingleses realmente levam muito a sério tudo que diz respeito a pontualidade), chegou o trem que eu tomaria para Londres, onde ficaria pelos três últimos dias de minha viagem.


Lado B - Londres


 Ao chegar à estação Paddington, me separei de meus amigos, cada um rumando para um canto diferente da cidade. Minha parada era a última da linha marrom sul, Elephant & Castle. De lá, eu ainda precisaria dar uma boa caminhada (ou pegar um ônibus, mas andar nunca foi problema para mim e minha bagagem era mínima) até encontrar meu hotel, na Church Street, próxima à Camberwell Road. Após fazer meu check-in no simpático Church Street Hotel (cheio de latinidades na decoração que remetiam, principalmente, a Espanha a México), fui para o quarto e, de lá, tive uma visão do London Eye no horizonte, entre prédios. Estava decidido: seria este meu primeiro passeio pela manhã. Naquela noite, porém, o dia agitado em Oxford já me cobrava seus efeitos e eu fiquei cansado demais para qualquer coisa além de dormir.

Na manhã da quinta, depois de pacientemente tomar meu café da manhã, perguntei à moça da recepção como fazer para chegar ao London Eye. De acordo com suas instruções, eu deveria pegar o ônibus 12 do outro lado da rua, descer no ponto da Westminster Bridge e caminhar de cinco a dez minutos. Esperei e, sem muita demora, chegou o double-decker. Fui na parte de cima, claro! Não havia lugar à frente, então, eu tive que me contentar em ficar nas últimas fileiras de assentos. Sem problema. Os ônibus de Londres possuem letreiros eletrônicos e gravações automáticas que dizem o nome de cada uma das ruas por que passam e as respectivas paradas, além de indicar que estações de metrô ou serviços existem por perto.

No meu caso, quando foi anunciada a parada da Westminster Bridge, o único local anunciado junto foi o Hospital St. Thomas. O ônibus passava sob um viaduto ao parar, então, quando me levantei e desci para a saída, não tinha uma noção muito clara do que havia ao redor. Desci do ônibus olhando pra calçada e, alguns metros à frente, quando levantei os olhos, a surpresa: diante de mim, espetacularmente majestosos à margem do Rio Tâmisa, estavam o Big Ben e as Casas do Parlamento!

Parei, atônito, com a mão sobre a boca, a abafar um grito (ou um palavrão) que eu não ousava soltar. Os olhos marejaram. Eu estava realmente ali, num cenário que, antes, só me era acessível por meio de livros ou filmes. Prestei mais atenção ao redor: do mesmo lado do rio onde eu estava, mas do outro lado da rua, a pouca distância, estava o London Eye, lindo e enorme. Fazia um dia lindo, o quinto dia claro de uma terra conhecida pelo tempo ruim, mas ainda era, afinal, verão. Um cenário de sonho, mas era tudo de verdade.

Após pedir a um casal de brasileiros que tirassem uma foto para mim (e havia brasileiros onde quer que eu fosse), me aproximei e fui conferir os detalhes das construçoes. A arquitetura neo-gótica do Big Ben (cujo nome oficial passou de Torre do Relógio para Torre Elizabeth, em comemoração ao jubileu de 60 anos da coroação da Rainha Elizabeth II; Big Ben, na verdade, é o nome do sino em seu interior) e do Palácio de Westminster impressiona.

Não menos impressionante é a Abadia de Westminster, catedral construída no ano 960, onde se coroam, se casam e se velam os membros da Família Real e de sua corte. Qualquer um que me conheça bem sabe que não sou de frequentar igrejas, mas tenho interesse por sua arquitetura. Este foi, portanto, o primeiro passeio pago que decidi fazer, aproveitando a fila pequena. Não poderia tirar fotos do interior, mas tinha certeza de que levaria comigo uma generosa quantidade de boas memórias visuais.


Logo ao entrar, caminho por cima de uma placa de mármore em homenagem a Charles Darwin. Perto desta, uma dedicada a Isaac Newton. Por todos os corredores laterais da nave, o chão e as paredes são adornados com placas comemorativas e estátuas erigidas para celebrar momentos e personalidades históricas, que nem sempre estão enterradas na própria Abadia, mas ali são lembrados. O tour é feito com ajuda de pequenos aparelhos, com gravações em diversos idiomas (escolhi inglês não só pela prática, mas porque parecia mais fácil de entender que o português de Portugal), que contam detalhes das histórias relacionadas a eles.

Sigo passando pelo túmulos de reis, príncipes e outros membros da realeza. Me detenho diante de alguns bastante impressionantes, como o monumento a Sir Joseph e Lady Elizabeth Nightingale, em que ele tenta defender a esposa da figura da Morte que sai do chão. Lady Elizabeth morreu em 1755, após um parto prematuro, provocado pelo susto de um raio violento, mas a criança que esperava sobreviveu.

Nada se compararia, porém, ao que senti quando cheguei ao Poet's Corner, um lugar onde estão enterrados ou apenas celebrados alguns dos maiores nomes da literatura britânica. Quando comecei a ler, no chão, as placas com nomes de escritores, poetas e dramaturgos do porte de Charles Dickens, Lord Byron, Rudyard Kipling, Jane Austen, as irmãs Brontë, Laurence Olivier, Percy Shelley, Dylan Thomas e, claro, William Shakespeare, fui tomado por uma espécie de "vertigem cultural" em nível físico! Precisei me acalmar e controlar a respiração para poder seguir em frente.

Saindo da Abadia, dirigi-me ao London Eye. Comprei o ingresso "casado" com o do museu de estátuas de cera Madame Tussaud's, o que garantiria um preço melhor (que, mesmo assim, não pode ser chamado de barato: 44 libras, cerca de 150 reais). A bordo de uma de suas espaçosas cabines, tem-se uma visão privilegiada da cidade, avistando-se dali construções como o novo Wembley Stadium, o Palácio de Buckingham e os grandes edifícios do centro financeiro. É apenas uma volta, mas que dura cerca de 40 minutos, então, tempo para admirar a cidade e tirar boas fotos é o que não falta.

Ao descer, uma surpresa desagradável: percebi que havia perdido o ingresso para o Madame Tussaud's. Viro e reviro bolsos, carteira, pacotes, folhetos... e nada. Repito o processo umas três vezes. Nada. Perdi. Resignado, volto à fila. Conto meu drama, apenas por contar, à jovem que controlava a entrada. Ela se compadece e sugere que eu conte o ocorrido no caixa, talvez eles me dessem um novo ingresso. Agradeço, mas digo que não acredito ser possível. Vai chegando minha vez e eu penso: "Ah, que mal faz tentar?" É o que faço. Conto ao rapaz do caixa o que me aconteceu e mostro o comprovante de compra de menos de duas horas antes. Ele apenas escuta e pede licença para falar com sua supervisora. Ela volta com ele e, sem fazer qualquer pergunta desconfiada, reemite meu ingresso. Sorrindo de orelha a orelha, agradeço. Ainda me sentia estúpido por ter perdido o primeiro ingresso, mas estava bem mais feliz.

Este episódio ilustra bem um aspecto que nos distancia bastante dos ingleses. No Brasil, vivemos na eterna presunção da esperteza, tentando sempre levar vantagem de algum jeito (em geral, desonesto). Sendo assim, metidos a espertos, também perdemos muito tempo e energia (e dinheiro, não se engane) tentando nos defender da esperteza alheia. É um ciclo vicioso de velhacaria que não tem fim. Na Inglaterra, parece haver uma aposta no bem que existe nas pessoas. Muitos comércios sequer possuem operadores de caixa - quem registra a compra é o próprio comprador e um fiscal só aparecerá se for chamado. Vai fazer um negócio desse aqui no Brasil! No primeiro dia, o que não for roubado, certamente, estará quebrado. É triste admitir, mas, não, eu não acredito que um dia atingiremos tal nível de civilidade.

Aqui, é preciso esconder o celular pra tentar não ser roubado ou comprar um modelo inferior ao que se gostaria, porque, se você for roubado, ainda vai aparecer quem defenda o ladrão, dizendo que o roubo foi merecido, porque você estava "ostentando". Ou seja, criminaliza-se o fruto do trabalho e romantiza-se o crime. Existe absurdo pior do que sair de casa com "o dinheiro do ladrão" na carteira, pra não ser morto a tiros por estar de carteira vazia? Como a polícia na Inglaterra funciona e a a lei é igual para todos (e igualmente dura, com multas, processos e prisões mesmo para pequenos delitos), existe uma opção pela honestidade que, ainda que inicialmente gerada pelo temor, vai se tornando rotina na vida das pessoas. Pode abrir sua bolsa sem medo, se precisar. Pode usar seu iPad na rua, que não vai passar nenhum pivete e puxá-lo de você. Sabe quando isso será a realidade do Brasil? Eu te digo: nunca!

Mas, chega de falar do Brasil (ou da Tekpix).


O final da quinta e a sexta-feira foram passados em visitas a lugares como o museu Madame Tussaud's e suas realísticas estátuas; a Trafalgar Square e seus imponentes monumentos, como a Nelson's Column e os enormes leões que a ladeiam; a célebre Ponte da Torre, a zona portuária e o centro financeiro que se espalham nas duas margens do Tâmisa, com alguns dos mais modernos e curiosos edifícios do país, como o novo The Shard e o já característico 30 St Mary Axe, ou The Gherkin. Este último me motivou a cruzar a Ponte da Torre ("atravessei a ponte a pé"... de novo a Escaparate!). Eu tinha que ver esse prédio lindo de perto - e fui! Detalhe: na sexta, o tempo fechou e fui pego em breves rajadas de chuva, inclusive quando fui visitar o Palácio de Buckingham, que me pareceu o menos impressionante dos passeios obrigatórios que consegui fazer.


O sábado, 7 de setembro, foi meu último dia em Londres. Tive que fazer o check-out logo cedo, mas, como meu voo só partiria às 21:50, deixei minhas bagagens no hotel e saí para fazer meus "desesperados" últimos passeios e compras. Primeira parada: Oxford Street, onde havia uma enlouquecedora HMV, loja de CDs, DVDs e souvenirs relacionados à cultura pop. Passei um tempão percorrendo os corredores, simplesmente admirando discos que já tive e que não possuem mais edição brasileira, bem como as fantásticas caixas especiais e as criativas listas da loja (achei o disco de estreia dos Stone Roses na seção "Discos que toda casa deve ter"), antes de finalmente me mexer e comprar os itens que você vê na foto abaixo.


Depois de dois dias evitando companhia brasileira, um amigo alagoano do grupo da Achieve me encontrou na HMV e, juntos, fomos visitar o Wembley Stadium. A Danone patrocinava a final de um campeonato mundial de futebol infantil, mas as bilheterias informavam ingressos esgotados. Nos contentamos, então, em tirar fotos do belo estádio, cuja "encarnação" anterior à demolição e reabertura em 2007 foi palco de shows históricos do Queen e do Live Aid. Quando já nos preparávamos para ir embora, chegam correndo até nós três garotos, com as mãos cheias de ingressos de cortesias - e, não, eles não queriam dar uma de cambistas-mirins, mas nos ofereceram os ingressos de bom grado! Ou seja, quando já estávamos contentes em apenas tirar fotos da fachada, surgiu a oportunidade de entrar em Wembley! Quanta sorte se pode ter?


Nosso último destino foi a Abbey Road, a famosa rua onde os Beatles fizeram a capa do disco de mesmo nome e onde também está localizado o lendário estúdio. Depois de uma pequena caminhada compulsória, motivada por minha interpretação errônea de um mapa que, na verdade, nos afastava do local desejado, tomamos a direção contrária e logo avistamos uma placa que identificava a Violet Hill, uma pequena via que agora o Coldplay também tornou famosa. Alguns metros à frente, nova placa, marcando a Abbey Road. Passamos pela abadia que batiza a rua e chegamos à pequena concentração de turistas que tentava tirar fotos semelhantes à da capa dos Fab Four. O problema é que a Abbey Road é movimentadíssima e é preciso contar com a cortesia dos motoristas, sem abusar dela, para poder tirar fotos. A sorte é que meu parceiro era um fotógrafo diligente e flagrou minha rápída travessia.


Depois, disso, toca pro metrô e corre pro hotel, pra pegar a bagagem. Em poucas horas, Londres seria apenas uma lembrança. Isto é, até a próxima visita!


Considerações finais:

- Em certos lugares de Londres há tantos imigrantes que o mais difícil é ver um inglês. Na vizinhança do hotel onde fiquei, por exemplo, as ruas eram coalhadas de imigrantes africanos, árabes, indianos... Ouvia-se inglês, claro, mas nos mais diferentes sotaques.

- Quando cheguei, a caminhada do metrô até o hotel me revelou uma sujeira nas ruas que não devia nada à vista em capitais brasileiras, como Salvador. Deve ter sido algo momentâneo, porém, porque nos dias seguintes, a coisa toda estava bem melhor. Em Oxford, além de focos de lixo na rua (poucos e pequeníssimos, é verdade), também vi algumas paredes urinadas, o que me faz pensar que o imperativo fisiológico desconhece fronteiras e não respeita títulos acadêmicos. O aperto pra fazer xixi nivela todos os homens, aparentemente.

- Se alguém te disser que é preciso andar com um arsenal de mapas do metrô pra cima e pra baixo, dê de ombros. Tudo é tão fácil e auto-explicativo no metrô londrino que bastam noções mínimas de inglês pra se virar sem dificuldade. Absolutamente tudo é sinalizado. Basta ler.

- Não acredite nessa conversa de que "inglês é frio". Eles não são frios. São gentis, prestativos, espirituosos e sorridentes. Apenas um pouco mais formais que nós, o que não é exatamente um defeito. Cara amarrada eu só vi em imigrantes, o que me fez pensar que eles (ou seus parceiros) haviam dormido de calça jeans.

- Este é um passeio que todo mundo merece fazer. Se tiver a chance, agarre-a. É um desses eventos que mudam nossa visão, nossos pensamentos, nossa vida.

- Não visitei Stonehenge; nem a Catedral de Canterbury; nem fui a Camden Town, Greenwich, Hyde Park ou Royal Albert Hall. Não fui a um monte de lugares, na verdade. Ou seja: preciso voltar à Inglaterra!