05/04/2014

Paula Tesser - Valha


Um paradoxo permeia o mercado brasileiro de cantoras: ao mesmo tempo em que existe uma fartura de nomes e vozes, nota-se uma certa escassez de verdadeira novidade. Reina ainda por aqui um certo academicismo por parte das moças, uma insistência em bossa e samba que pode até seduzir, mas que revela um certo medo de ousar. Quando não é isso, é um cabecismo umbigocêntrico que deixa o ouvinte do lado de fora ou uma suavidade modorrenta que trata insônia melhor que ansiolíticos.

Não entendo como ainda tão poucas garotas se permitem soar modernas, espertas e pop. Da última vez que vi isso acontecer, me vi arrastado pelas orelhas com a força irresistível do trabalho de Tulipa Ruiz. Hoje, é o lindo Valha, da franco-cearense Paula Tesser, que realiza a mágica.

Lendo seu site de divulgação, causa-me simpatia imediata a informação de Paula ter usado Chico Science e o Mangue-Beat como base do seu doutorado em Sociologia. Ela não é exatamente uma novata, tendo gravado participações em coletâneas e discos de outros artistas desde 2001 e seu próprio disco ao vivo, Retrato do Vento, em 2004.

Valha tem produção e arranjos caprichadíssimos de Dustan Gallas, da Cidadão Instigado. Abre muito bem, com os jogos de palavras e o sotaque jazzy de "Cobra", seguindo com a ressentida (e ótima) "Bolero Negro". "Quase Pronto" e "Você Tem Medo de Gostar de Mim" fazem uso de um quarteto de cordas, mas, enquanto a primeira tem uma atmosfera de balada indie, a segunda faz lembrar as melhores coisas de Roberto Carlos nos anos 70.

Apesar da presença de um pequeno clássico brega ("Pode Me Torturar", da forrozeira Eliane), Valha aponta para um refinamento popular que faltou, por exemplo, ao último disco de Marisa Monte, principalmente no quesito letras. Enquanto Marisa simplificou as coisas a ponto de subestimar o ouvinte, Paula busca soluções poéticas menos óbvias sem soar pedante, e não é difícil imaginar que mesmo a francófona "Demons et Marveilles" poderia emplacar uma trilha de novela.

O encerramento, com "Tudo Blue", traz de volta um artigo raríssimo na produção musical brasileira de hoje: um solo de guitarra (e dos bons!). A letra derrama romantismo sobre lindas camadas de cordas e fecha um disco que dá vontade de manter no repeat por horas. Valha pode ser ouvido e comprado nesta página. Fico na torcida para que Paula Tesser siga lançando discos igualmente bonitos e que, caso deseje voltar à França, seja apenas por desejo de viajar - jamais por falta de reconhecimento em seu país.