30/01/2015

Sóbrio e só


Um estudo divulgado recentemente ligou o hábito de fazer maratona de séries de TV à solidão e à depressão. Não vou nem discutir o fato de que existe uma variedade imensa de sintomas mais precisos de depressão (deprimidos se importariam com o que acontece no capítulo seguinte de uma série?). O que me chama a atenção é que coloquem a solidão junto a ela, porque solidão não é uma doença e solitários não são necessariamente pessoas tristes.

Falo por mim, que prezo tanto meus fins de semana geralmente passados nos limites de minha casa. Moro sozinho há tanto tempo que dificilmente me acostumaria a uma casa cheia novamente. Meu dia começa pegando um ônibus barulhento, que vai ao barulhento centro da cidade, onde eu trabalho com pessoas barulhentas, até a hora de pegar outro ônibus barulhento e ir pra casa. O cotidiano urbano é puro ruído, uma cacofonia insuportável. Por favor, seja mais compreensivo com alguém que deseja curtir o silêncio do seu lar. Pode ser o único lugar onde isso é possível.

Óbvio e ululante, eu conheço bem o quanto pode ser legal ter uma companhia esperando em casa. É lógico que um cafuné, um beijo e um sexozinho gostoso podem ter tremendo efeito relaxante. Da mesma forma, um casal pode perfeitamente optar por relaxar fazendo maratona de uma série que ambos curtam. Sim, eu sei, é claro que eles podem sair, conhecer a cidade, visitar amigos ou familiares, comer num lugar bacana. Porque PODEM, não quer dizer que DEVAM, entende?

Não é difícil encontrar gente que pense o exato oposto, considerando patológica a necessidade que certas pessoas sentem de se verem cercadas de "amigos" - com necessárias aspas, já que alguns parecem mais estar em busca de um séquito do que de uma turma. 

Em minha opinião, gente que nunca reserva um tempo para si acaba por não se conhecer bem. Não consegue fazer "silêncio interior", necessário à reflexão em momentos de definição. Da mesma forma, mesmo a solidão sendo meu "estado natural", a identidade em que me sinto confortável, permito-me sair em busca de amigos e/ou amantes, nesta ou em outra cidade, desfrutando de sua companhia pelo tempo que me/lhes convém. 

O ideal, como em tudo mais na vida, é buscar o equilíbrio, o "caminho do meio". No mais, sejamos francos: a solidão e uma maratona de séries são mil vezes preferíveis à companhia de certas pessoas. Estas, sim, deprimem.

26/01/2015

Mundo HQ

Shazam e a Socidade dos Monstros


Publicada originalmente em 2007 e prometida aos leitores brasileiros pela Panini há anos, esta história faz valer a longa espera. Primeiro, porque chega em formato e preços atraentes: a série chega completa, em 212 páginas encadernadas em capa dura, por R$ 27,90 - na internet, é possível encontrá-la por menos de R$ 20. Segundo, porque trata-se de uma HQ elogiadíssima, escrita por um autor consagrado com diversos prêmios Eisner e Harvey: Jeff Smith, criador da saga de Bone.

A introdução, escrita por Alex Ross, dá pistas importantes: Smith privilegia a aventura e a fantasia, atualizando a origem de Billy Batson e do Capitão Marvel (à época do lançamento, o herói ainda ostentava este nome; pouco depois, a DC Comics decidiria chamá-lo apenas pela palavra mágica que lhe dá poderes) para os tempos atuais, mas, curiosamente, mantendo uma aura nostálgica encantadora. O resultado é uma HQ bastante agradável de se ler, estrelada por um personagem que costumava padecer na mão de roteiristas medíocres, o que levava a sucessivos cancelamentos de seus títulos.

A bem da verdade, o Shazam é um herói complicado. Sua alma é a de uma criança; então, ele ostenta uma inocência que beira a ingenuidade. Ver um adulto agir assim, especialmente nestes tempos cínicos, é meio esquisito. Na divertida versão de Geoff Johns e Gary Frank (2011/2012) para o Novos 52, sua pouca idade foi temperada com humor e sabedoria de rua. Em Reino do Amanhã (1996), de Mark Waid, o personagem já era adulto em sua identidade secreta, então, o conflito corpo/mente foi removido. Jeff Smith, por sua vez, não hesitou em trabalhar o herói em sua essência original, fazendo-o parecer menor e mais jovem do que qualquer versão vista nos últimos anos.

Apesar da presença de elementos modernos, a história não é específica sobre o tempo em que se passa e tem um pé na Era de Ouro, com seus robôs gigantes, híbridos de homem/animal e a presença do cientista louco por excelência, o Dr. Silvana. A jornada de Billy Batson o levará a enfrentar desafios enormes (em complexidade e tamanho) e a descobrir que pode não estar tão sozinho no mundo quanto pensava. O traço suave de Smith não comete os exageros anatômicos que se tornaram o padrão do gênero nas últimas décadas, mostrando um herói forte, mas ligeiramente desengonçado.

Voltando a citar Alex Ross, é bom saber que ainda existe quem lembre que histórias de super-heróis são sobre pessoas que vestem colantes coloridos, vivendo aventuras fantásticas. Qualquer pressão por "realismo" ficou para escanteio, deixando Jeff Smith livre para brincar com sua criança interior - e com a nossa. Depois de tanta espera, foi simbólico ver Shazam e a Sociedade dos Monstros chegar às bancas e livrarias pouco antes do Natal. Bem que dizem que esse é um tempo de milagres.


Batman: A Corte das Corujas


De todos os mais importantes personagens da DC Comics modificados pelo reboot dos Novos 52, em 2011, o Batman foi um dos menos afetados. Embora sua mitologia tenha sofrido uma pequena cota de arbitrariedades editoriais (como o apagamento da história de Tim Drake como Robin), o defensor de Gotham City continuou, essencialmente, o mesmo.

Apesar da opção da DC em não promover um zeramento da vida do Batman, mexer no passado do herói parece ser a principal motivação de Scott Snyder, que chegava ao principal bat-título com a bola cheia, depois da repercussão altamente positiva do seu arco "Espelho Sombrio", na Detective Comics. Logo de saída, ele criou para o Batman um grupo de vilões terríveis, com raízes dentro da própria família Wayne: a Corte das Corujas.

Objeto de uma lenda usada para assustar crianças, a Corte é um grupo secreto de pessoas que, segundo se conta, determinam os rumos de Gotham City desde o século XIX. Bruce Wayne jamais acreditou na existência da Corte, até que uma série de crimes na cidade torna as evidências claras demais para ignorar. A investigação levará o Batman a descobrir ligações entre a sociedade secreta, sua própria história e a de aliados importantes.

Snyder escreve ótimos diálogos e trabalha muito bem o lado detetive do Batman, dando a ele recursos tecnológicos de ponta, mas privilegiando os processos investigativo e dedutivo. O autor ainda se permite pequenas "pirações" narrativas: na quinta história, o confronto direto com a Corte reflete a desorientação de um Batman drogado e andando em círculos, com a leitura mudando de sentido durante algumas páginas. 

A arte impactante e altamente cinética de Greg Capullo também ajuda a explicar o vigor desta fase na vida do Batman. Usando pontos de vistas inusitados (em um quadrinho, Bruce e Dick Grayson são vistos conversando através dos "olhos" da máscara do Batman), desenhando uma Gotham que oscila entre o antigo e o moderno, ou caprichando em cenas de ação, violência e alucinações dignas de um filme de terror, Capullo nos hipnotiza com a consistência de seu trabalho. 

Batman: A Corte das Corujas (180 páginas, preço sugerido R$ 27,90) é o primeiro encadernado brasileiro de material dos Novos 52. A aposta da Panini em uma linha graficamente impecável e de preço camarada para bancas é louvável, fazendo a gente desejar não apenas a continuidade desta saga, mas o lançamento em formato semelhante de outros materiais de sucesso, como a Mulher-Maravilha de Brian Azzarello ou o Aquaman de Geoff Johns. Enquanto aguardamos, esta primeira coletânea é uma excelente porta de entrada no universo do Batman. Compre e recomende aos seus amigos.