20/03/2015

Batman: Noel


Seja no nicho de super-heróis ou fora dele, não é tão raro assim que roteiro e desenhos de uma HQ sejam obras do mesmo artista. Will Eisner, Frank Miller, Michael Allred e Jeff Smith são os nomes que me ocorrem mais facilmente, neste momento. O desafio está em você tentar alçar um primeiro voo em uma das categorias, depois de muito tempo dedicado à outra.

No caso, Lee Bermejo já tinha mais de uma década de bons serviços, ilustrando as palavras de escritores diversos, tendo alcançado especial sintonia com Brian Azzarello, com o qual criou um clássico instantâneo para o Superman (Lex Luthor: Homem de Aço, 2005) e um neoclássico para o Batman (Coringa, 2008). Para mim, pelo menos, a arte de Bermejo já era virtualmente indissociável do texto de Azzarello.

Hoje, porém, eu li Batman: Noel.

Sim, é verdade que é preciso dar crédito a Charles Dickens, autor de Um Conto de Natal, clássico sobre o qual Bermejo elabora sua trama. A véspera de Natal do velho e mal-humorado Scrooge, quando recebe a visita de três fantasmas, é revista e adaptada em meio a observações (feitas por um narrador cuja identidade se mantém misteriosa até a última página) e bem imaginados paralelos com a história do Batman, enquanto ele busca pistas que o levem ao fugitivo Coringa.

Embora tenha saído nos EUA após o advento d'Os Novos 52, a graphic novel começou a ser produzida antes dele, o que explica o visual de um personagem importante. Sem qualquer compromisso com a continuidade vista no título mensal do Batman, Bermejo criou uma história centrada em momentos-chaves da biografia do Morcego e na personalidade iracunda e inflexível que manifesta ocasionalmente, bastante útil a contos sobre redenção como este.

Ainda que se possa negar-lhe o mérito da originalidade, Bermejo escreve com sensibilidade e bom ritmo, além de estar desenhando absurdamente bem, com o realismo de seu traço enchendo olhos e derrubando queixos. Uma das coisas que mais me chama a atenção é o uniforme do Batman. Igualmente longe de ser uma simples malha colante ou uma armadura high-tech, a roupa do Batman que Bermejo desenha parece desconfortável e pesada, com suas costuras e placas aparentes e textura de alguma coisa entre o couro e a lona. Uma roupa de soldado, ouso dizer, o que em momento algum trai a essência do personagem e até evidencia a força física que sua utilização demanda.

Duplamente atrasada pela Panini, em seu hoje incomum gap de três anos desde a publicação original e na chegada com meses de atraso para o Natal brasileiro a que se destinava, Batman: Noel prescinde de agendamentos. É uma graphic novel de acabamento vistoso, com preço justo, que encanta em sua carinhosa reverência a um standard da literatura mundial e ao cânone de um super-herói que habita o imaginário humano há 75 anos. É cedo para afirmar que será um clássico, mas torço para que Lee Bermejo não demore a aventurar-se à frente do teclado mais uma vez.