31/07/2016

Um século de proezas


Meus sentimentos por Alan Moore são bastante ambíguos. 

Fora das páginas das HQs que escreve, costumo pensar nele como aquele velho ranzinza que, num bastante elogiável lapso de furiosa integridade, abriu mão dos direitos sobre algumas de suas obras mais aclamadas (mais notadamente, V de Vingança e Watchmen), mas, a exemplo de George Lucas em relação a Star Wars, sente-se no direito de dar pitacos sobre o que os novos donos devem ou não devem fazer com elas. Provavelmente, isso nem é culpa de Moore. Em busca de repercussão barata, a imprensa de entretenimento pop deve dar um sorriso maléfico a cada vez que pisa nos calos do velho eremita, reacendendo suas famosas picuinhas - especialmente, aquelas envolvendo a DC Comics.

Moore, entretanto, não é feito apenas de olhos pesados, barba e rancor. Recentemente, ele respondeu à carta de um leitor de apenas nove anos, fã de várias das obras que ele hoje renega, de maneira que revela bastante carinho, franqueza e respeito pela inteligência de um ser humano, mesmo em tão tenra idade. Ou seja, num pequeno intervalo entre trabalhos, Alan Moore criou uma peça de escrita pessoal tão memorável que, mesmo sem qualquer pretensão a tanto, deve adentrar a Eternidade. 

Em sua arte, porém, Moore é praticamente imbatível, sendo o mais próximo que existe de uma unanimidade entre os leitores de quadrinhos. Várias de suas obras gozam de reconhecimento geralmente dedicado a obras de literatura convencional, tamanho o esmero de sua narrativa e de seu trabalho de pesquisa, através do qual inunda as histórias com referências de diversos campos da arte e da ciência. Ler uma HQ de Alan Moore, mesmo o mais pop de seus títulos, é sempre uma experiência enriquecedora.

O emblema da Vertigo na capa de Tom Strong: A Origem é enganador. Moore escreveu as aventuras do centenário herói para o selo America's Best Comics (ABC), criado dentro da WildStorm especialmente para ele. Com a venda da WildStorm para a DC Comics (dona da Vertigo), Alan Moore encontrava-se, mais uma vez, respondendo à editora para a qual havia jurado nunca mais trabalhar. Desta vez, porém, a autonomia criativa de Moore foi assegurada e, na ABC, ele deu à luz alguns de seus "filhos" mais ilustres: A Liga Extraordinária, Promethea e este Tom Strong, no qual tem a companhia de artistas como Chris Sprouse, Gary Frank e Dave Gibbons, entre outros.

O personagem-título é uma espécie de amálgama do Superman com heróis pulp, como Tarzan e Doc Savage. São histórias onde se encontram aventuras em paisagens exóticas, ficção científica escapista, civilizações perdidas, nazistas e uma lista de referências talvez grande demais para uma resenha de HQ.

Tom Strong nasceu em Attabar Teru, uma ilha que não consta oficialmente dos mapas, no primeiro dia do século 20. Criado sob condições especiais, ele tem força, inteligência e longevidade sobre-humanas, além de grande simpatia e apelo popular: perto dos 100 anos de idade, Tom é o herói preferido das crianças de Millennium City, que leem sobre suas façanhas e se juntam em uma espécie de clubinho oficial, chamado Strongmen da América. Tom é um fenômeno pop e suas contribuições intelectuais transformaram a cidade em um oásis de progresso social e científico.

Como todo bom super-herói, Tom Strong tem seus oponentes ocasionais (máquinas sencientes, astecas extradimensionais, deuses cibernéticos) e um arqui-inimigo declarado: Paul Saveen, dado como morto quando começamos a acompanhar a saga. Tom também tem aliados: Pneuman, o primeiro ser mecânico inteligente, criado por seu pai; Rei Solomon, um gorila que teve seu cérebro aperfeiçoado pelo herói; por fim, sua esposa Dhalua e sua filha Tesla, moças com vocação para muita coisa, menos damas em perigo.

O gênio de Moore manifesta-se na comedida e bem-pensada atualização dos conceitos que povoavam as aventuras dos quadrinhos da primeira metade do século 20. Ao mesmo tempo em que modernizou algumas coisas para o paladar do leitor do século 21 que se aproximava, o escritor foi extremamente hábil em manter a aura aventuresca e escapista do período clássico. As ameaças que Tom Strong enfrenta costumam, em mãos menos talentosas, descambar para a paródia e canastrice. Isso não acontece aqui. Ainda que mantenham certa fanfarronice, os vilões revelam-se desafios à altura da virtual invencibilidade do herói. Na última história, por exemplo, o mais mundano dos desafios acaba sendo o maior de todos. Tom, porém, não poderia ser chamado de gênio se não tivesse soluções engenhosas para os apuros em que se mete.

Fico bastante feliz em ver a Panini em publicar esta série, neste formato e a preço acessível - quem já ouviu falar em pulp de luxo, afinal? Dá gosto de ver tão lindamente preenchidas lacunas como esta em meu currículo de leitor. Obviamente, existe um prazer muito grande na descoberta de um novo talento narrativo, e as opções na banca eram muitas neste sentido, mas, de vez em quando, nada melhor do que apostar no seguro. O nome Alan Moore é chancela de qualidade garantida.

Tom Strong: A Origem.
Edições originais: Tom Strong 1 a 7.
Panini/Vertigo - 212 páginas - R$ 27,90